O Outro Lado Da Escuridão
1 A Hora do Sacrificio
Notas iniciais
Eis que era chegada a hora do sacrifício. Na época da mitologia, os sacrifícios humanos serviam para honrar ou acalmar a fúria dos deuses; hoje, não muito diferente do passado, o sacrifício seria para acalmar a fúria de uma deusa: a deusa da Opinião Pública. Sangue não seria derramado, apesar de muitos desejarem a cabeça da oferenda.
O templo não fica em um local secreto e sagrado e sim em uma das maiores cidades do mundo: New York. O Tribunal de Justiça Criminal de Manhattan será o templo em que uma bela oferenda será entregue aos sacerdotes e ofertado à Deusa; se seria aceita ou não era indiferente, os seguidores que formavam a Ordem da Opinião Pública queriam a expiação de sua dor.
A imprensa de todo o mundo veio cobrir o julgamento mais aguardado dos últimos anos. A oferenda ou melhor, o réu, Shun Amamiya, não era um assassino, não diretamente; porém seu companheiro, Andrea Giglio, era acusado de ser o mentor de uma das maiores fraudes contra o sistema financeiro americano e que provocou a falência de diversas empresas, levando algumas pessoas ao desespero ao ponto de cometerem suicídio; inclusive o próprio Andrea Giglio. No entanto, Shun estava vivo e era apontado como sócio e cúmplice de Andrea devendo, portanto, ser julgado pelo crime que cometeu.
O Promotor Lune Balrong olhou para o réu como se o avaliasse; sentado à mesa dos réus com as mãos cruzadas, Shun não parecia um criminoso. Com 22 anos, tinha belos cabelos castanhos que caiam abaixo dos ombros, olhos verdes inocentes e brilhantes como esmeraldas, tinha a aparência angelical, frágil e delicada de uma criança. Fora ginasta premiado até a adolescência e por isso tinha o porte elegante e suave, de musculatura definida ainda que sem excesso.
O fato de ser gay era motivo de comentários em todas as colunas sociais do mundo, porém ser herdeiro de uma grande fortuna e ter sido companheiro de um multimilionário tornava essa informação um pequeno detalhe: “ o amor é o que importa, principalmente se trouxer mais notas” dissera certa vez um colunista. Delicado e lindo, Shun era cobiçado por homens e mulheres, sua beleza despertava em todos a vontade de protegê-lo.
“Um anjo de cristal!” admirou-o Lune, “não! um criminoso como o Andrea! não posso me deixar enganar por esse rostinho de bebê!”
O colapso do Alfa Sanctuarium, um fundo de Hedge construído por Andrea Giglio e do qual Shun era sócio, arruinou famílias, industrias e empresas, colocando o país numa crise só comparável à de 29. O que tornou o caso do Alfa mais odiado pela opinião pública foi o fato de os principais investidores serem pessoas comuns que entregaram suas parcas economias acreditando na segurança e rentabilidade prometidas pelo fundo.
A raiva começou a apossar-se do promotor, lembrou-se de seus pais que tinham um pequeno negócio que fora arrasado com a fraude, se não tivesse um bom emprego, eles teriam passado necessidade. Lembrava daqueles que diziam que Shun era inocente, “que idiotas! Vejam só isso, que posse arrogante é essa? e essas roupas?! Parece estar zombando do sofrimento do povo!”. Realmente, as roupas usadas durante o julgamento foram motivos de comentários, para ouvir a sentença, Shun estava trajando um belíssimo terno Armani preto que contrastava com a palidez de sua pele e realçava o brilho de seus olhos verdes; no pescoço, via-se o fino cordão em ouro com um rico pingente em forma de pentagrama com a inscrição “yours ever” cravejada de brilhantes que fora presente de Andrea.
Lune sentia-se incomodado, quando olhava para a posse, roupas e histórico de Shun tinha ganas de matá-lo, porém quando olhava para o verde esmeralda de seus olhos, sentia que ele era inocente e, por que não? Ingênuo. “Humph! chega de pensar e hora de agir! Shun Amamiya você apodrecerá na cadeia, eu juro!” Pensou Lune.
Sentado ao lado de Shun estava um dos melhores advogados do país, Julian Solo ou “Imperador dos tribunais” como era conhecido, apesar da juventude, seu saber jurídico, audácia e astúcia faziam-no respeitado até pelos juizes da suprema corte. Julian é herdeiro de uma grande companhia de comércio marítimo na Grécia e que controla quase todos os mares, no entanto seu espirito libertário não se adaptou aos negócios e, deixando tudo nas mãos do irmão mais novo, Sorento, foi para os EUA para seguir sua vocação.
Com 1,80 de altura, cabelos loiros cortados acima dos ombros e olhos azuis profundos como o oceano, Julian tem a beleza de um Deus, a sabedoria dos gênios e a moral dos psicopatas! Sua estratégia se baseia na manipulação do juri, revelando sentimentos ocultos para tirar vantagem e tornara-se famoso ao conseguir inocentar réus que já estavam condenados mesmo antes de começar o julgamento. Por um momento, Shun fitou-o recordando-se de quando o conhecera...
— Você é inocente Shun, nós vamos provar isso e Julian Solo será o responsável por nossa vitória! Dissera Afrodite Gesle, seu amigo e confidente.
— Não sei Afrodite, estou cansado de ser abandonado pelos advogados, quem garante que ele não fará o mesmo? Meu caso pelo visto já está perdido! Disse angustiado.
— Não diga isso! Não se comporte como um derrotado! Creio que Ikki e Andrea não gostariam de vê-lo desistir sem lutar!
Olhando pela janela o movimento nas ruas, lembrou-se do irmão Ikki... "como queria que estivesse aqui!" A lembrança o fez recuperar um fio de esperança.
—Tem razão Afrodite, preciso me erguer! disse resoluto
— tenho que provar não só minha inocência, mas também a de Andrea.
— Isso mesmo! Disse Afrodite aliviado.
Logo no primeiro encontro, Julian aceitou a causa de Shun, “tão lindo! Não posso abandoná-lo, se bem que...esse Andrea era um cara de sorte!” Pensou Julian.
—Shun, apenas quero que confie em mim e me obedeça sem questionar, não me chamarei mais Imperador se perder sua causa!
Nesse momento Shun viu em Julian seu salvador; mesmo quando algumas ordens não faziam sentido como as roupas luxuosas, não perguntava o motivo, apenas pensava em como iria provar a inocência de Andrea; mesmo estando morto, não iria permitir que seu nome continuasse sendo arrastado na lama. “Em breve, limparei seu nome, nem que seja a última coisa que faça em minha vida! espere só mais um pouco meu amor.”
Perdido em pensamentos, Shun pouco entendia do julgamento; viu Julian deslizando pelo tribunal com seus gestos elegantes e hipnotizadores que tiravam suspiros das mulheres e meneios de aceitação por parte dos homens do Juri. Olhou para aquele cenário repleto de gente desconhecida e não entendia o porquê de tanta algazarra; Olhou novamente para Julian, termos jurídicos que pareciam uma língua estranha em sua boca... Quando Julian terminou, o Promotor Lune iniciou seu discurso; por ser aparentemente bem menos eloquente que o de seu advogado, despertou sua atenção para o que dizia.
—Senhoras e Senhores do Juri, desde o inicio deste julgamento muitos argumentos jurídicos foram ouvidos de ambas as partes e isso infelizmente era necessário, no entanto irei ater-me ao fato principal, a fraude no Alfa Sanctuarium está calculada em cerca de 50 Bilhões de Dólares!
Exclamações foram ouvidas por todo o recinto, era muito dinheiro envolvido.
—Trata-se de um caso complicado visto que o rastro deixado sobre o paradeiro do dinheiro mostra-se incompreensível e a cada dia a chance de o localizarmos diminui, no entanto, posso afirmar que nem Andrea Giglio nem seu companheiro Shun Amamiya eram idiotas, eles acreditaram estar acima da lei e tripudiaram da confiança que o povo humilde colocou em sua empresa. Vejam por si mesmos! Disse apontando na direção de Shun.
—O que vêem? Um homem que sofre? Que se importa com o mal causado pelo “amante”? disse isso em tom de desprezo que entristeceu Shun.
—EU vejo um homem que nasceu na riqueza, viveu na riqueza e acha que isso é um direito divino!
Nesse momento, shun teve vontade de dizer que não era verdade, mas a mão e o olhar de Julian o impediram.
—Calma! Ele tem que fazer o show dele...
—Mas o que ele diz sobre mim é horrível! Nunca me gloriei por ser rico, não tenho culpa!
—Silêncio e apenas ouça! Disse Julian, voltando a se acalmar e continuou acompanhando o discurso do Promotor analisando-o.
—Shun era sócio e companheiro de Andrea, acreditam que ele não sabia o que era feito? Continuava Lune – ah! Não só sabia como apoiou e talvez até saiba onde o dinheiro está! Ele roubou! E roubou pensando que estaria acima da lei, mas eu peço que o Juri dê a resposta adequada a esse tipo de conduta!
“Quanto entusiasmo, esforçou-se tanto, colocou tanta paixão em suas palavras! Se tivéssemos nos conhecido em outra época, talvez nos tornássemos amigos”, pensou Shun. Ao sinal do Juiz o Juri recolheu-se para chegar ao veredicto.
—E agora? Perguntou Shun nervoso.
—Espere! Mas isso pode demorar de horas a dias! Suspirou Julian, mas para surpresa de todos, em menos de uma hora eles voltaram. O Meritissimo Juiz Valentine Smith indagou ao porta-voz do Juri:
— Chegaram a um veredicto?
— Sim meritíssimo!
— Consideram o réu inocente ou culpado da acusação de fraude de títulos de crédito?
— Culpado!
— Como? Assustado Shun olha para Julian que não tira os olhos do Juiz.
— E da acusação de lavagem de dinheiro? — Culpado! — Perjúrio.... fraude de transferência de eletrônica....fraude de correspondência.... — culpado! Culpado! Culpado! Dizia o porta-voz a cada acusação.
— Não! está errado! Eu sou inocente! Gritou Shun desesperado enquanto Julian apoiava a cabeça na mesa e Lune dava socos no ar comemorando. Uma confusão se instalou no tribunal o que levou algum tempo para o Juiz restabelecer a ordem, quando finalmente o barulho acabou, Valentine Smith virou-se para Shun colérico:
—Shun Amamiya, o senhor e seu companheiro roubaram não apenas uma fortuna, roubaram a consciência dos homens comuns que acreditaram no Alfa Sanctuarium, no entanto, tenho observado que em momento algum o senhor demonstrou vergonha ou tristeza. A impressão que tenho é a de que o senhor desprezou as leis devido a sua posição social, mas saiba que a lei é para todos! Portanto, o Senhor está condenado a prisão perpétua.
Gritos e aplausos explodiram no tribunal, porém Shun não ouvia mais nada, apenas pensava que fracassara, agora não teria como provar a inocência de Andrea... Enquanto Shun era levado para ser encaminhado ao presidio, uma troca de olhares suspeita entre dois homens foi percebida por apenas uma pessoa que apressou-se em sair da galeria antes de ser notado.
Horas depois num estacionamento deserto, Julian tomava uma cerveja enquanto esperava o seu “cliente” um pouco afastado do seu carro; passado algum tempo o cliente chega, nervoso e olhando para os lados temendo ser observado. “Como pode, tão lindo, delicado e inescrupuloso! Ninguém desconfiaria que ele pudesse fazer algo tão audacioso, por isso ele vai escapar impune!” rapidamente o homem lhe entrega um pedaço de papel.
— O que é isso? Perguntou Julian.
—Um recibo, a transferência bancária foi feita há uma hora; disse o "cliente"
—Para minha conta no exterior?
—Conforme combinado.
—Obrigado. Ficou feliz com o resultado?
—Claro! Ele confiava em você.
— Então agora encerramos nosso contrato! Dizendo isso Julian começou a se afastar, mas teve o braço seguro pelo homem.
— Não há fundamentos para recurso de sentença, certo?
— Não, a menos que encontrem o dinheiro; há essa possibilidade?
— Não, não há. Não nessa vida! Disse sorrindo Afrodite Gesle.
Ao dar a partida no carro, Julian se permitiu pensar sobre o que ocorrera, arruinara deliberadamente a defesa de Shun Amamiya, sua reputação como advogado estava no lixo mas...2 Bilhões de Dólares era uma oferta considerável.... “Está feito, não é hora para arrependimentos”.
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