O Orgulho Queima em Silencio

3 Capítulo 3 — O Orgulho Que Clama em Silêncio


Byakuya Kuchiki

A sala estava carregada de formalidade.

Os capitães, sentados em círculo, trajavam suas vestes brancas impecáveis, o brasão da Soul Society brilhando como aço sob o calor sufocante da discussão.

Byakuya manteve sua postura ereta, olhos semicerrados, enquanto escutava.

Cada palavra trocada entre Ukitake e Renji Abarai era uma lâmina contra seu orgulho.

— Com a ausência de tenentes em nossas divisões — começou Ukitake, a voz paciente, porém firme —, torna-se essencial designar shinigamis capazes para essas posições.

— Rukia Kuchiki — prosseguiu — demonstrou domínio do Bankai recentemente. Uma candidata de força e mérito inquestionáveis.

Houve murmúrios de aprovação.

Renji, sentado alguns lugares adiante, inclinou-se para frente.

— Capitão Ukitake — disse, formal, mas com a veemência mal contida —, Rukia pertence naturalmente à minha divisão.

— Ela foi minha parceira de luta desde os dias mais antigos, e sei melhor do que ninguém como guiar seu poder recém-desenvolvido.

Havia algo a mais em sua voz.

Algo que nem mesmo a máscara da formalidade podia esconder.

Byakuya reconheceu: possessividade.

O sangue frio de seu clã queimou de leve.

Ukitake assentiu, cortês.

— Sua argumentação é sólida, Capitão Abarai.

O murmúrio cresceu entre os demais.

Byakuya manteve o olhar fixo na mesa de madeira negra.

Por fora, era uma estátua.

Por dentro, a tempestade rugia.

E então, sem alterar o tom de voz, Byakuya falou:

— Rukia Kuchiki também é desejada pela Sexta Divisão.

O silêncio que se seguiu foi brutal.

Renji virou-se imediatamente, olhos arregalados. Um vislumbre de fúria atravessou sua expressão.

— Capitão Kuchiki… — disse ele, com dificuldade — não pensei que haveria uma disputa.

Byakuya ergueu os olhos lentamente, como quem observa algo desprezível.

— Há. — sua voz era lâmina e sentença. — E eu não perco disputas.

As palavras foram gélidas, mas sob o verniz frio, Byakuya sentia o orgulho arder.

Ele sabia.

Sabia que não agia apenas como líder da Sexta Divisão.

Agia como homem.

Um homem ferido, ressentido, incapaz de tolerar a ideia de Rukia sendo tirada dele — nem mesmo sob o pretexto honroso de um novo capitão.

Renji recuou levemente na cadeira, como se fosse atingido.

O atrito era palpável.

E todos na sala sentiram.

Ukitake, sempre gentil, interveio:

— Sugiro que deixemos a escolha nas mãos da própria Rukia.

Byakuya não respondeu.

Apenas inclinou a cabeça, um gesto de falsa aceitação.

Por dentro, cada fibra sua gritava.

Ela é minha.

Minha protegida.

Meu erro.

Meu orgulho.

E talvez, em algum recanto obscuro de sua alma, minha condenação.

Quando a reunião foi encerrada, Byakuya saiu sem dizer palavra.

Seus passos o levaram instintivamente à arena de treino da Sexta Divisão, sob o céu tingido de ouro pelo pôr do sol.

Ele não pretendia vê-la.

Não conscientemente.

Mas quando avistou Rukia, seu coração traiu sua razão.

Lá estava ela.

Sozinha.

O corpo pequeno e firme executando golpes refinados com Sode no Shirayuki.

A leveza.

A perfeição dos movimentos.

A determinação silenciosa.

Byakuya permaneceu na sombra de uma coluna de pedra, oculto.

Observou cada respiração dela.

Cada balanço de sua lâmina.

Cada expressão de concentração pura.

Sentiu algo crescer dentro dele.

Uma ira abafada, monstruosa, contra Renji, contra Ukitake, contra a Soul Society inteira.

Mas, acima de tudo, contra si mesmo.

Porque não deveria desejá-la.

Não dessa maneira.

Não deveria queimar por ela como o fogo escondido sob a neve.

E ainda assim, ali estava ele — espiando Rukia como um ladrão espreita uma joia impossível.

Byakuya fechou os olhos, inspirando profundamente.

Precisava de controle.

Precisava extinguir o incêndio silencioso que ameaçava devorar sua alma.

Mas ao abrir os olhos novamente, ao vê-la erguer Sode no Shirayuki para o céu, banhada na luz dourada, Byakuya Kuchiki compreendeu que já estava perdido.

Há muito tempo.


E talvez, no fim, nem o nome Kuchiki seria suficiente para salvá-lo do que sentia.


Notas finais
Olá, espero que tenham gostado, deixem seus comentários e recomendações. Um beijinho e até o próximo!