O Olho de Jade
40 Shae
A primeira coisa que Shae pensou quando entrou no salão foi:
Pelos deuses, eu deveria morar aqui.
Agora, ela já não estava tão certa disso.
Passados alguns momentos de emoção inicial e algumas horas de absoluta admiração pelo luxo do lugar, Shae achou que não poderia ter pior lugar para se viver.
Não que não adoraria ter aquelas regalias. Isso ela realmente queria. Mas ao parar para escutar as conversas frívolas dos convidados e julgar seus caráteres, teve certeza que não aguentaria uma semana naquele lugar. Até mesmo os empregados tinham certa arrogância. Como seu pai conseguira viver tanto tempo naquelas companhias?
Quando conseguiu ver o rei com seus próprios olhos, a raiva tomou conta de seus pensamentos e ela simplesmente não conseguiu mais continuar ali, correu para fora do salão e tentou se acalmar no corredor. Ver a coroa tão bem acomodada sobre os cabelos daquele homem, ver a felicidade em seu rosto. Aquilo era tão injusto.
A necessidade de ter a mente limpa para dar continuidade ao plano fez com que Shae conseguisse retomar o controle de si mesma e voltar para o salão. Ainda assim, decidiu que era melhor se manter afastada de Tobias, não apenas para controlar sua ira, mas também para evitar que ele a reconhecesse. Ainda que não se vissem há muitos anos e que poucos tivessem sido os encontros, ela tinha medo de que isso pudesse colocar o plano em risco.
Em certo momento todos os convidados se apressaram para a grande sacada do salão. Mesmo um pouco receosa, Shae se espremeu entre as pessoas, tentando ver o que elas observavam, tão admiradas.
As estrelas começaram a cortar o céu. Um espetáculo brilhante de todas as cores. Ela olhou ao redor procurando Ely ou Eve, esperava que eles também vissem aquilo, era a coisa mais bonita que ela já tinha presenciado. Ela teve uma sensação de paz, como se tudo fosse dar certo. Lembrou-se do que a mulher da carruagem havia dito, aquelas estrelas realizavam desejos.
Hesitou, será que estrelas podiam ajudá-la a matar alguém? Mas não fazia mal tentar, então ela pediu com todo o seu coração que seu plano desse certo e que ao fim dele ela ainda estivesse viva. Estendeu seus pedidos pra Ely e Eve, desejando que eles também fossem protegidos e que Eve nunca ficasse louca de verdade.
Estrelas poderiam contrariar a vontade de uma deusa? Ela não sabia, mas esperava que sim.
Logo o céu ficou limpo novamente, a música voltou, mais alta e animada do que antes. Os outros criados passaram servindo um champanhe que parecia ter sido guardado especialmente para aquela noite.
[...]
Quando os convidados começaram a deixar o castelo ou ir para os quartos, a ansiedade que estava presente entre eles parecia ter migrado para o estômago de Shae. A hora estava chegando.
Ela aproveitou o fluxo de pessoas para sair do salão e se esconder numa pequena sala que parecia não ser usada há algum tempo. Tentou entrar dentro de um dos armários, mas este estava lotado, então acabou embaixo da mesa, escondida pelo grande pano branco usado para protegê-la do pó.
Esperou até que os sons de conversas e passos tivessem cessado. Fez o seu melhor para calcular quando duas horas tivessem se passado e levantou dali. O corredor estava escuro e não havia sinal de quem alguém se aproximaria. Um segundo corredor apareceu em sua visão e ela seguiu por ele até parar em uma porta estreita.
O cômodo era pequeno e servia como um dos vários armários de limpeza. No fundo de uma das prateleiras havia uma bolsa preta. Shae a abriu e retirou a Invocadora de Almas de dentro. Constatou também que a outra espada não estava ali, o que significava que Ely já a havia retirado e devia estar esperando Shae. Havia ainda a faca de Eve no fundo, a outra garota ainda devia estar escondida.
Tentou não fazer barulho ao fechar a porta e deixar os passos o mais leve possível enquanto caminhava pelo corredor. Ela encontrou Ely no fim do corredor, ele estava olhando para a escadaria que levaria ao último andar e consequentemente ao quarto do rei e da rainha. Quando percebeu sua presença, o garoto apontou para os guardas que estavam ali. Shae acenou com a cabeça.
— Eu te invoco. A ti e a teus poderosos guerreiros! — sussurrou, olhando para a Invocadora de Almas.
Um espírito se materializou ao lado de cada guarda, agarrando-os e sufocando-os até que caíssem no chão, desmaiados.
Eles tentaram subir sem fazer barulho e no andar seguinte usaram os mesmos métodos para deixar os outros guardas desacordados. Shae bateu levemente na porta do quarto.
— Vossa Majestade? — Ely chamou. — Há um problema aqui fora.
Quando o rei abriu a porta, Shae apontou a espada para seu pescoço.
— Boa noite, Tobias. — Ela sorriu.
[...]
Shae viu, com satisfação, Tobias olhar Ely enfiando a espada no peito da rainha. O sangue manchou o chão de madeira polida e respingou na cama.
— Acho que há mais três pessoas que merecem sua atenção, não é, Ely? — Ela fez um sinal para que ele saísse do quarto, e assim ele o fez.
Shae sabia que jamais esqueceria aquela cena: o rei Tobias jogado no chão, ainda de pijamas, encarando o cadáver da esposa, horrorizado. Ela apontando a espada para o seu pescoço, impedindo que ele levantesse ou tentasse qualquer coisa.
— Como se sente? — Ela esperou, mas como não houve resposta, decidiu continuar. — A minha ideia era matar cada um de seus filhos na sua frente, do mesmo jeito que você fez com que matassem o meu pai e meu irmão. A sua sorte é que meu namorado é um pouco mais misericordioso e achou que, apesar de você merecer muito isso, seus filhos não merecem. Vai ser rápido para eles.
O único motivo pelo qual Shae queria que os filhos de Tobias morressem, era para que ele sofresse. Ela não via motivo para fazer qualquer coisa com eles se não fosse em sua frente, mas fora convencida por Ely de que eles não podiam continuar vivos se ela quisesse o trono. A linhagem real deles era forte demais, apesar da espada de Shae.
— Poupe os meus filhos! — Foi a única coisa que o rei conseguiu dizer.
— Hm... — Ela fingiu pensar por um momento. — Não.
— Eu conheço você! — O rosto do rei mudou de assombro para compreensão. — É a filha de Roy!
— Pelo menos isso.
— O seu pai foi meu melhor amigo por anos... — Ele começou a tentar levantar.
Shae se aproximou mais, a espada quase encostando em seu pescoço.
— Eu sei disso. Mas se essa amizade não o impediu de fazer meu pai ser morto na frente dos filhos, por que eu faria qualquer coisa por você agora?
— Roy... Foi morto na sua frente? — Ele realmente não parecia saber, mas Shae não se deixaria enganar por aquela expressão.
— Não finja que não sabia! Você inventou mentiras e mandou que o matassem! — ela gritou.
— Shae... É Shae, certo? — Ele esperou até que ela concordasse com a cabeça. — Nunca foi a minha intenção que seu pai fosse morto na sua frente, eu dei ordens especificas que ele fosse levado de casa e morto em algum lugar privado. Eu sinto muito por isso, não foi minha intenção. Agora quanto as mentiras, eu nunca inventei nenhuma.
As lágrimas ameaçavam sair. Enfrentar tudo isso era demais para ela, mas tinha de ir até o fim. Se Tobias estivesse sendo sincero, havia outros a quem ela deveria culpar.
— Então qual foi o motivo pelo qual meu pai foi executado? — Aquele não era o momento de se sentir abalada pelas palavras do outro. — Ele foi um amigo muito bom? Excesso de lealdade, talvez?
— Sei que você tem uma grande estima por seu pai e não quero manchar a imagem dele.
— A única coisa que vai ser manchada é a minha espada com o seu sangue. Se você tem qualquer coisa a dizer, é bom que seja agora — vociferou, Shae queria saber a história toda, queria que ele contasse tudo o que aconteceu ou tentasse mentir para convencê-la a poupar sua vida.
Ele respirou fundo. Parecia tentando organizar as coisas.
— Você tem a mesma idade que minha primogênita teria, sabia? Anos atrás eu a enviei à outra cidade, ela deveria morar com minha irmã e ficar um tempo afastada da cidade. Seria bom para ela, eu pensei que moldaria seu caráter. — Sua voz falhou por um momento. — Ela saiu de noite, eu me lembro que chovia, junto com ela ia um grande carregamento de ouro que deveria seguir para o Segundo Reino depois de deixá-la na casa da tia. Mas, Shae, o seu pai planejou uma emboscada para a carruagem que levava minha filha, ele sabia de tudo, todos os detalhes, então foi fácil para ele montar um plano.
— Não. — Aquilo era mentira, claro que era mentira.
— O alvo dele, é claro, era o ouro. Mas quem acabou morrendo foi a minha filha. A minha filha com quem ele sempre brincava quando estava no palácio. A minha filha que o tratava como um segundo pai. A minha filha que ele dizia amar como se fosse uma filha! Se Roy precisava de dinheiro ele poderia ter pedido para mim, ele poderia ter feito várias coisas, mas esse foi o caminho que ele escolheu.
— Pare! — Shae começava a vacilar, ela tinha se forçado a escutar, ela queria que aquilo fosse mentira, então por que parecia verdade? Algo incomodava dentro dela, algo que sempre estivera lá, mas ela nunca dera atenção.
— Se fosse só pelo dinheiro, eu poderia ter perdoado. Ele era como um irmão para mim e eu teria brigado com quem fosse para apoiá-lo. Mas naquela noite não foi ouro que eu perdi, não foram soldados. Não, naquela noite eu perdi uma filha. Seu corpo passou a noite jogado na floresta, sob a lua e a chuva. E passou os três dias seguintes lá, até que a encontrassem. O seu pai sabia de tudo, ele estava lá, mas ele não disse uma palavra. Ele me viu chorar, sofrer e não disse nada. Ele estava presente em cada momento de minha agonia e prometeu que os culpados seriam encontrados. Mas o único culpado era ele. Todas as investigações apontavam para ele, eu também não queria acreditar.
Eu nunca vou te perdoar, eu te disse.
Com um estalo, as palavras da mãe de Shae voltaram. Como criança ela não tinha conseguido entender aquilo e aos poucos tinha tentado colocar a frase de lado. Mas agora ela voltava com força, a mãe de Shae nunca tinha se ressentido com a morte do marido porque achava que ele merecia. E, assim como Tobias, não queria arruinar as memórias que Shae tinha do pai.
O desespero tomou conta. Ela tinha dedicado toda sua vida à uma vingança para alguém que não merecia. Shae sentia que seu pai não queria que aquela garota tivesse morrido, mas não podia negar que a culpa era dele.
Talvez a história do rei fosse mentira. Mas as palavras de sua mãe antes da execução pareciam confirmar a história.
Então se lembrou do rosto de Petter. O sorriso meigo do irmão. Se seu pai não merecia sua vingança, Petter merecia. Talvez a culpa disso não fosse dele e sim daquele maldito guarda, mas ela não podia deixar de se ressentir.
Eles ficaram em silêncio enquanto ouviam um grito de criança vindo de um dos quartos próximos. Ely devia ter matado um dos filhos de Tobias. Shae se sentia vazia, o que ela estava fazendo? Como tinha chegado a esse ponto?
O desespero tomou conta dela, ela queria desistir
Não importam os motivos, o sangue da sua família foi derramado e deve ser pago com sangue. Tobias é o culpado.
A voz de NaKagiso veio acompanhada por um impulso de matar. Ela não queria fazer isso, mas precisava. Todo o seu corpo desejava isso, enquanto sua mente protestava. Ela sabia que não conseguiria se segurar por muito tempo.
— Eu sinto muito pela sua filha, Vossa Majestade, por todos os seus filhos. Não posso pedir para que você me perdoe, é muito para pedir, eu entendo. Eu errei, errei muito, mas eu não posso consertar meus erros, tenho que ir até o final para tentar me manter viva. — A palavra teve um gosto amargo em sua boca, ela sabia que não sairia viva dali. — Ou, pelo menos, meus amigos. Eu não queria ter que continuar com isso, mas se eu te poupar e sair daqui nós estaremos mortos. Pelo menos você irá reencontrar sua família... Não se preocupe, eu sei que serei punida por tudo o que fiz. — Não deixou que ele dissesse mais nada, não queria ouvir.
Depois de ser a responsável por mais uma vida que chegava ao fim, Shae se sentou, encostando as costas na cama. Podia não ser a melhor hora para isso, mas precisava de um momento para si.
Deixou que as lágrimas escorressem pelo rosto enquanto todas as memórias do pai e do irmão invadiam sua mente. Tinha, finalmente, conseguido o que planejara a vida toda, mas não estava feliz. Tinha a consciência de que tinha destruído uma família do mesmo jeito que haviam feito com a dela. Sabia que também não merecia o trono.
O que mais doía, no entando, era encarar a verdade sobre seu pai.
O seu luto, que durara anos, sempre a cegou para isso. Em nenhum momento questionou a execução de seu pai e esse, talvez, tenha sido seu maior erro. Por esse motivo lutara por quem talvez não merecesse.
E por essa pessoa, se tornara uma assassina.
Agora entendia a visão de Eve, ela merecia morrer, ela não queria fazer nada para mudar isso. Estava tão morta por dentro quanto os corpos da família real.
Pensou uma última vez na mãe, no quanto não a ouviu, no quanto a culpou por não se importar o suficiente com a morte de seu pai. Ela devia ter enfrentado o inferno com as coisas que sabia enquanto via Shae se comportar daquela forma. Shae nunca mais a veria para dizer o quão errada estava, elas nunca mais se abraçariam e era tudo culpa de Shae.
Agora precisava assumir o trono, mas sabia que o peso da coroa não seria o único que levaria consigo para sempre.
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