O Olho de Jade
41 Eve
Notas iniciais
Esperar na sala do trono por Shae e Ely foi um dos momentos mais agoniantes na vida de Eve. Enquanto ela estava parada ali, Shae devia estar assassinando o rei do Primeiro Reino enquanto Ely cuidava da família real. Ela nem queria imaginar as cenas horríveis que estavam acontecendo naquele exato momento. Ela não queria se envolver. E, enquanto pensava sobre isso, soube mais do que nunca que o que estavam fazendo era errado.
Ainda assim seu coração ficou aliviado ao ver Shae passar pelas portas duplas, apenas para pesar de novo se lembrando do que supostamente deveria acontecer naquela sala. Por enquanto estavam sozinhas, mas o que mais poderia acontecer ali? Por um momento seu coração disparou ainda mais, pensando que ela poderia ser a pessoa que mataria Shae, mas logo a hipótese pareceu absurda em sua mente.
Eve soltou sua faca e se preparou para abraçar Shae, mas o sorriso que imaginou ter visto no rosto da outra garota logo sumiu e Eve percebeu que ela tinha chorado.
— Shae? — Tentou conversar.
— Não agora, Eve. — Ela voltou a sorrir enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto. Sua voz estava triste. — Eu consegui, eu disse que conseguiria. Apesar de tudo, eu alcancei o meu objetivo. — Apesar das palavras, o sorriso não durou.
Ely, por outro lado, parecia muito satisfeito quando chegou, cantarolando. Ele abraçou a namorada, a beijou e sussurrou, direcionando sua fala à Shae, mas de forma que Eve também pudesse ouvir:
— Nós conseguimos. Eu disse que não tinha nada com o que se preocupar. Agora vá, minha querida. Assuma o seu lugar.
Shae sorriu mais uma vez e respirou fundo.
— Não vá, Shae. — Eve tentou mais uma vez, desesperada. — Não sente nesse trono, vamos aproveitar que estamos aqui e vamos fugir, você já teve a sua vingança.
O olhar que Shae lançou para Eve despedaçou seu coração, os olhos da garota demonstravam um pesar profundo.
— Eu não posso fugir de meu destino, Eve, eu mereço isso. Esse é o meu castigo.
Ela entregou a Invocadora de Almas ao namorado e subiu os degraus para o trono. Os rubis pareciam brilhar ainda mais ante a aproximação da garota. Por um momento a visão de Eve ficou turva, mas ao piscar tudo voltou ao normal. Ela sabia que o momento estava chegando.
Shae colocou a coroa em sua cabeça e sentou no trono. Ela olhou no fundo dos olhos de Eve, assim como acontecera em sua visão. Mas, dessa vez, ela não viu a menina sorrindo, seus olhos se desviaram para Ely no instante em que percebeu o que estava acontecendo.
— Não! — ela gritou, mas era tarde demais. O garoto já havia abaixado a espada, derrubando a cabeça de Shae aos seus pés e fazendo com que o sangue atingisse Eve.
Ela ficou sem reação. Não podia acreditar no quão tola havia sido. Estava tudo tão óbvio. Só os três na sala! Ela podia ter impedido aquilo, ela podia ter feito tantas coisas diferentes, mas estava cega demais para perceber.
Estava tão preocupada que não poderia fazer nada para mudar que não tinha nem tentado.
A imagem de Cersey apareceu diante dela, tudo ao seu redor congelou.
— Por que não me avisou? — ela gritou, querendo esmurrar a deusa, mas sem conseguir sair do lugar.
— Eu não podia.
— De que adianta ser uma deusa então? Se você nunca pode fazer nada.
— Chegou a sua hora, Eve.
— Isso, faça com que eu enlouqueça, pelo menos assim não lembrarei de nada disso. — A saliva misturava-se com as lágrimas enquanto ela cuspia as palavras.
— Eu te darei uma chance, Eve, a chance de fazer o que você mais quer fazer nesse momento. E, depois, se ainda estiver viva, você encontrará o seu destino.
A deusa sumiu e ela finalmente pode se mexer. Quando olhou para Ely entendeu as últimas palavras de Cersey. A chance de fazer o que mais quer fazer. A chance de se vingar.
— Por que fez isso, Ely? — ela perguntou, temendo a resposta.
— Eu fiz por que eu quis! — Um arrepio subiu pela espinha de Eve enquanto ela ouvia a mesma fala de sua visão. — Agora cale a boca! — Ele segurou a espada com as duas mãos, afastou os pés, chutando, sem querer, sua própria espada que deixara cair ao aceitar a Invocadora. — Espíritos, me obedeçam.
Eve observou horrorizada enquanto Ely tentava em vão invocar as almas da espada. Ele não tinha como saber que não era assim que funcionava, que era preciso firmar um contrato com sangue com a espada antes que ela se tornasse sua. De alguma forma, quando encontraram a espada, Shae soubera exatamente o que fazer, mas o mesmo pensamento não parecia ocorrer a ele.
Ely a ignorava completamente, enquanto testava os poderes que nunca seriam dele. Talvez estivesse confiante demais na espada ou achasse que ela estaria demasiado chocada para tentar algo, de qualquer forma, ele lhe deu uma chance.
Antes que ele percebesse o que estava acontecendo, ela agarrou a espada do chão e se jogou contra ele de uma vez. Ela tentou enfiar a espada em seu peito, mas ele a interceptou com a Invocadora e a empurrou de cima dele.
— Por que... — Eve começou a se levantar, assim como Ely. — Você fez isso? Ela o amava! Você a amava! Ou pelo menos era o que pensávamos.
Ele avançou, mas Eve parou o golpe com a espada.
— Não coloque a culpa em mim! Eu tenho uma irmã doente, eu precisava do dinheiro.
Ely possuía mais força, isso era óbvio. Eve recuava cada vez mais até seu pé encostar em algo no chão. Ela não se virou para olhar, mas sabia o que era. Pensar em estar encostando na cabeça de Shae a desesperou e ela simplesmente se jogou para o lado, ignorando a espada de Ely que descia em sua direção e fez um corte profundo em seu braço.
— Não fale de dinheiro, você sabia que quando Shae assumisse o reino ela te ajudaria em tudo o que você precisasse, ela pagaria o tratamento de sua irmã. Ela faria isso por você!
— Não faria. — Ele cortou o ar tentando acertá-la, mas Eve teve tempo de pular para trás e evitar mais um ferimento. — Shae se encantaria por isso aqui, ela só pensava nela. Ela logo esqueceria de mim. Ela me abandonou tão fácil.
— Ela não te abandonou. — Foi a vez de Eve atacar, mas Ely se desviou facilmente. Ela estava em desvantagem, isso era óbvio. Tentava ganhar tempo conversando, mas sabia que perderia. — Ela não te esqueceu nem por um momento, eu tenho certeza que ela faria de tudo por você. Você não me engana, Ely, você tinha tudo planejado não tinha?
— Não.
Ela finalmente conseguiu apontar sua espada para o pescoço do garoto. Talvez se o prensasse na parede, conseguiria vencê-lo. E fazê-lo confessar, queria ouvir de sua boca o verdadeiro motivo.
Eve percebeu que não era boa em lutas quando Ely conseguiu empurrá-la e afastar sua espada do pescoço dele. O treinamento de Cerlys havia dado a habilidade para ela aguentar até agora, mas sabia que não era o suficiente.
— Você alguma vez a amou?
Ely correu em sua direção, mas ela se colocou atrás do trono, fazendo com que ele ficasse de frente para o corpo de Shae que começara a brilhar. Eve lembrou-se do homem de quem tinham tomado a espada, será que o mesmo aconteceria com ela?
— Não. Você está certa. Eu sabia dos problemas de Shae, sabia como ela era e que ela definitivamente tentaria pegar o trono. — Ele relaxou a mão da espada, não estava mais em posição de ataque. — Naquela época, eu só queria estar ao seu lado e usar o dinheiro para salvar minha irmã. Mas ela demorou, a situação da minha irmã piorou e mesmo com o tratamento talvez não seja possível que ela se salve. — Ele encarou o cadáver com ódio. — Nesse tempo eu descobri que amava o poder. Que eu poderia ser um ótimo rei. Que eu queria ser o rei.
— E por que não fazer isso junto com ela? — Eve foi saindo de trás do trono devagar, tentando contorná-lo. Pretendia atacar Ely enquanto ele estava focado em falar.
— Eu não poderia ser rei com Shae mandando em mim, poderia?
Quando Eve estava pronta para atacar, Ely se virou para ela. Essa foi a vez de ele colocar a lâmina em sua garganta e ela acreditava que ele não seria tão ingênuo quanto ela.
— Você perdeu. — Ele sorriu de lado e Eve entendeu Shae, Ely podia ser muito charmoso. Claro, se não fosse um monstro. — Achou que poderia me enganar desse jeito? Não achei que você subestimasse tanto a minha inteligência.
Ele pressionou mais o metal contra sua pele.
— Eu só queria tentar. No fundo sabia que não ia conseguir, não posso lutar contra minhas visões, não sou eu quem vou te matar. Eu te garanto que vai ser pior que isso. — Ela empurrou a Invocadora de Almas ainda mais contra si mesma, sentiu a pele arder quando a lâmina tirou as primeiras gotas de sangue. — Essa espada não vai salvar você, não assim.
— Me conte. — Qualquer charme que ele pudesse ter apresentado anteriormente sumiu, seu rosto estava desfigurado com as emoções que pareciam se agitar dentro dele, todas ao mesmo tempo.
Foi a vez de Eve sorrir.
— Você perdeu, Ely.
— Se você não me contar, eu irei matá-la.
Ela relaxou um pouco. A mentira tinha funcionado, falar sobre os poderes da espada também. Se ela demonstrasse medo agora, ele poderia perceber que ela estava desesperada tentando ganhar tempo.
— Você sabe que meu destino é enlouquecer, não sabe? Se você me matar, só vai fazer um grande favor. Se você me matar não vou poder te contar nada, se você não me matar eu não vou querer te contar nada. A escolha é sua.
Ela percebeu a dúvida em seus olhos. Eve fazia uma jogada arriscada, não sabia direito o que pretendia com aquilo. E suas palavras sobre morrer ser melhor que enlouquecer faziam muito sentido naquele momento. Mas não queria morrer pelas mãos de Ely, queria vingar a morte de Shae. Queria se empenhar tanto quanto ela tinha feito para vingar a morte do pai e do irmão, mas Eve estava sem opções.
Ela não sabia se estava alucinando por causa do momento, mas viu a imagem de Cersey tremeluzir atrás de Ely. Assim que sumiu, eles ouviram barulhos de passos. Dezenas deles se aproximando pelo corredor.
Ely se distraiu, lançando o olhar para as portas e ali Eve decidiu que preferia viver se tivesse a satisfação de vingar a amiga. Shae brilhava cada vez mais, estava se aproximando o momento. Eve empurrou o Ely na direção do cadáver e então o corpo da garota explodiu em uma coluna de chamas.
Ela desviou o olhar, não queria vê-lo morrendo. A dúvida pelo que fez tomou conta dela. Se afastou o máximo que pode enquanto o fogo consumia tudo: sua amiga, Ely e o trono. Cada labareda subia mais alta que a outra, apesar de não haver nada inflamável por perto. De alguma forma, as chamas se restringiram ao trono, sem avançar em sua direção. Formaria um belo espetáculo, se não estivesse levando consigo uma das pessoas que mais amava.
— Nós conseguimos, Shae. Você conseguiu.
Enquanto as chamas terminavam de consumir tudo e iam diminuindo aos poucos, tudo desabou dentro dela, a adrenalina foi deixando seu corpo e ela simplesmente não conseguia processar o que tinha acontecido, nem conseguia pensar no que aconteceria.
As lágrimas começaram a escorrer no mesmo momento em que o primeiro guarda passou pela porta.
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