Por um momento tudo o que Shae queria era socar a cara de Eve e mandar que ela se virasse sozinha. Ela não queria mais trabalhar com a ruiva, não queria nem olhar mais para sua cara. Não confiava mais, de forma alguma, na vidente. Entretanto, se ficar ao seu lado significasse que ela poderia fugir e completar sua vingança, estava tudo bem para ela.

O que ela não contava era que Eve não tivesse ideia nenhuma do que fazer e procurasse jogar tudo em suas costas.

— Se eu tivesse a minha espada...

— Mas você não tem. — Eve a puxou para a realidade.

— Para onde você disse que estão nos levando?

— Vão me deixar no Terceiro Reino, você vai pro Quarto.

— Pra isso vamos ter que pegar um navio, podemos fugir antes de entrar lá. — Shae olhou em volta, vendo se alguém prestava atenção no que elas diziam, mas a maioria dos prisioneiros pareciam estar tentando dormir.

— Não. — Os olhos negros de Eve brilharam. — Se fugirmos assim vamos ser procuradas em todo o Primeiro Reino, vamos deixar que nos levem para o Segundo, minha família inteira mora lá, podemos nos esconder na minha antiga casa e depois voltar pra cá, ninguém mais vai estar nos procurando aqui.

— Eu vou voltar pra cá, você não — ela corrigiu.

— Isso não importa.

— Seus pais te aceitariam de volta? Você ainda não está sendo perseguida por toda aquela história com Cersey?

A ruiva engoliu em seco e desviou o olhar.

— Eu não tenho certeza de como as coisas estão por lá e nem de como minha família vai reagir. Mas é nossa melhor opção, então eu realmente espero que ninguém mais se lembre do que eu fiz.

[...]

Desde que começara sua jornada, Shae havia passado tanto tempo em navios que nem queria pensar no mar de novo, mas ainda assim aqui estava ela, trancada num quarto do pior navio em que já estivera, esperando que alguém viesse trazer a próxima refeição.

Não fazia a menor ideia de onde Eve estava e isso não fazia diferença, não tinha como sair dali, não tinha como ir para o convés e muito menos como preparar um plano de fuga, não isolada de sua companheira.

Ela sabia que a Invocadora de Almas estava ali no navio, tão próxima a ela que Shae podia sentir. Como poderia recupera-la? Sabia que se quisesse voltar para o palácio e ter uma chance de matar Tobias precisaria dela, não adiantava só fugir.

Mas como fazer isso? Ela tinha perdido o rumo, tudo era tão incerto agora. A dúvida sobre o que aconteceria a consumia. Não queria admitir, mas a presença de Eve a confortaria. Mesmo depois de tudo o que tinha acontecido, mesmo depois de tudo o que ela tinha feito, Shae tinha que admitir, precisava da ruiva.

Se ela precisava de Eve, precisava mil vezes mais de Ely. Sentia saudades do garoto, de seus braços, de suas palavras de conforto, de seus beijos...

Ela não podia se distrair com isso, não agora. Mas se não pensasse nele o que mais podia fazer? Não havia nada se não olhar para as paredes.

Da outra vez que algo assim tinha acontecido elas tinham tido a ajuda de Daan. Apesar de não ter se sensibilizado tanto com sua morte não podia negar de quanta ajuda ele havia sido. Queria que ele estivesse ali agora também, talvez tivesse alguma ideia.

Mas ele não estava, Eve não estava, Ely não estava. Naquele quarto, flutuando em alguma parte do oceano ela estava sozinha. E aquilo a assustava de uma forma que poucas coisas haviam feito antes. Ela não queria mais aquilo, talvez não fosse uma boa ideia continuar afastando Eve.

Porém, ela não conseguia esquecer o que a vidente havia feito, e toda vez que pensava nisso um sentimento de raiva a invadia. Não importavam suas intenções, ela a traira.

No dia em que finalmente abriram sua porta, Shae estava se sentindo um lixo. Não tomava banho há mais dias do que podia contar e a comida que ingeria mal era suficiente para fazer seu estomago parar de roncar.

Depois de amarrarem seus pulsos com uma nova corda, a empurraram pelo corredor até o convés do navio. Olhou ao redor, pelo menos uma dúzia de prisioneiros haviam sido levados até ali. E vez ou outra um novo aparecia também sendo empurrado por um guarda grosseiro.

Ela olhou em todas as direções até finalmente encontrar Eve. O oraculo estava jogado num canto, aparentemente olhando para o nada.

— Alguma ideia? — Ficou ao seu lado, mas sem se abaixar.

— Não sei, acho q assim que sairmos podemos golpear nossos guardas e correr até não conseguirmos mais.

— Não. — Shae desviou o olhar, disfarçando.

— Como?

— A Invocadora de Almas, ela está aqui no navio, eu... eu posso sentir, Eve! Não podemos ir embora sem ela.

— O que você sugere então? — A outra garota também não a encarava, ela não sabia se para não chamar atenção ou se por vergonha.

— As coisas apreendidas junto com os prisioneiros vão junto com eles para a prisão, ouvi falar isso uma vez. Vão transporta-la na carruagem conosco.

— Você sabe que depois que entrarmos nela não vamos conseguir mais sair, não sabe? — A voz da ruiva demonstrava sua preocupação. — É melhor esquecermos ela e irmos embora de uma vez.

— Não, não podemos deixa-la a mercê de qualquer um, imagina o que alguém poderia fazer com ela? — Shae não diria abertamente que era uma pessoa egoísta, apesar de que qualquer um concordaria com isso. Para ela, nesse caso, simplesmente tinha se apegado a espada. Era a única forma de conseguir sua vingança. Era sua. Sua e de mais ninguém.

— Se alguém por acaso encontrar a espada não vai saber como usá-la, vai achar que é uma arma normal.

Fazia sentido o que Eve dizia, mas Shae não estava disposta a aceitar isso. Dessa vez ela não iria ceder.

— Eu não vou sem ela.

Mais uma vez elas entraram dentro de uma carruagem completamente fechada. Essa era um pouco maior, mas como a quantidade de prisioneiros também tinha aumentado, não fazia muita diferença.

Todos ali se encaravam com apreensão. Estava chegando a hora.

Shae havia deixado para Eve decidir o momento certo, a garota parecia mais calma para esse tipo de coisa. Depois de perceber que eles já estavam na estrada há algum tempo e ouvir que o barulho de rodas havia diminuído drasticamente, o que deveria significar que os outros veículos não estavam mais indo pelo mesmo caminho, ela olhou para Eve.

A ruiva já se preparava, tinha a mão aberta no alto da cabeça, para que todos conseguissem ver seu sinal. Ela abaixava um dedo por vez, numa contagem regressiva silenciosa.

Cinco...

O quanto Shae conseguiria correr?

Quatro...

E se os outros decidissem não participar?

Três...

Se algo desse errado, elas seriam decapitadas?

Dois...

Shae respirou fundo;

Um...

Não tinha como voltar atrás.

Era como se Shae não tivesse controle sobre seu próprio corpo. Ela apenas se sentiu levantando e jogando toda a sua força junto com seu corpo para a direita ao mesmo tempo que os outros faziam isso. Era como se todos fossem um só.

Alguém pressionava o braço contra suas costas e ela quase engoliu o cabelo de alguém. Sufocou um grito quando pisaram em seu pé e tentou se endireitar para não cair quando seus joelhos começaram a se curvar diante do peso das outras pessoas.

Ela ouviu o rangido alto da carruagem saindo de curso e o barulho de uma roda quebrando. Uma fenda na madeira começava a se abrir embaixo de sua mão e ela percebia que estava dando certo. Eles estavam conseguindo.

Tudo começou a girar quando a parte em que eles estavam se desprendeu de todo o resto do veículo. Uma árvore quebrou a madeira e invadiu um espaço que não era seu, quase acertando o rosto de Shae.

Não demorou muito para que toda a estrutura cedesse. Ainda tropeçando e tentando se livrar das amarras em seus braços, Shae finalmente pôs os pés na terra. Ela não se importava se seus pés descalços estavam ficando sujos ou que a grama fazia cócegas, aquilo era liberdade.

Ela começou a dar murros na primeira caixa que encontrou até que ela se abriu, revelando seu conteúdo: apenas frutas. Ela precisou chutar e quebrar mais três caixas até finalmente encontrar a Invocadora de Almas. A espada estava mais brilhante do q nunca, como se ansiasse por ser usada.

Sem pensar duas vezes, Shae a agarrou pelo punho e começou a subir o declive em que se encontravam até aparecer novamente na estrada. O guarda que fazia papel de cocheiro estava ali, jogado ao lado dos cavalos.

Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação ela agarrou seus cabelos e passou o fio da espada cortando sua garganta. Sentiu como se um pouco de sua raiva se esvaísse, mas ainda havia muito mais.

Ela voltou para perto das árvores, para perto dos outros prisioneiros. Aos poucos, um a um, ela começou a espetá-los com sua espada, deixando que seu sangue caísse no chão para criar um mosaico marrom, verde e vermelho.

Ela não sorria, não chorava, não sentia nada. Estava anestesiada. Tão pouco ouvia os gritos de suas vítimas. Até que alguém agarrou seu braço e gritou seu nome.

— O que você está fazendo? — Ao observar o rosto de Eve ela sentiu a raiva se agitar dentro dela, tudo isso era culpa da menina. Seria tão fácil matá-la agora.

— Eu estou com raiva, Eve. Muita. Como um último ato em respeito a você eu aviso que você deveria ir embora agora. Eu não tenho medo de me sujar com sangue, mesmo que seja o seu.

— Shae, olhe para mim, olhe para mim. — Eve segurou o rosto de Shae entre suas mãos. — Essa não é você, não é.

— Sou eu, você sabe que sou. — As palavras soavam estranhas, era como se ela estivesse repetindo o que alguém lhe sussurrava. Aqueles sentimentos eram tão confusos. Por que ela estava fazendo aquilo mesmo?

— É essa espada estúpida. É a espada te repreendendo por ficar presa, são os sentimentos de NaKagiso, não os seus.

— Não seja ridícula! — No fundo, Shae percebia que tinha algo de certo no que Eve dizia, mas não conseguia ver aquilo naquele momento.

A garota mais baixa continuou observando Shae, como se tomasse uma decisão. Quando ela finalmente escolheu, Shae viu em seus olhos, mas não sabia o que ela faria.

Ela apenas sentiu quando Eve bateu em sua mão com toda a força que tinha. Ela se abriu e a espada caiu no chão.

Shae se sentia vazia, todos aqueles sentimentos a abandonando de uma vez, como se suas emoções fossem drenadas.

Olhou para Eve e fez algo que precisava fazer há um bom tempo: Chorou. Deixou que seu corpo se sacudisse com os soluços enquanto a outra a abraçava. Deixou que tudo ruísse de uma vez, estava tudo bem, ela podia construir tudo de novo.