O Olho de Jade
33 Eve
Eve sentia que não conseguiria dar nem mais um passo, mesmo assim seguiu correndo. A mão de Shae apertava firmemente a sua, mas ela não tinha certeza do que aquilo significava, naquele momento não importava. Nada importava além de elas se afastarem o máximo possível daquela catástrofe.
A propriedade da família Castleroy era, no mínimo, magnifica. Uma enorme mansão de quatro andares, rodeada por um jardim bem cuidado. Não havia dúvidas de que chamava atenção e arrebatava suspiros de qualquer um que passasse, mas em Eve essa reação era ainda maior.
Desde seus doze anos ela não entrava ali. As vezes passava em frente, mas evitava olhar. Agora ela estava de volta e encarava com todas as suas forças aquele enorme muro de pedra. Já era hora de tudo isso mudar.
Por mais que aceitasse isso, nada a prepararia para encontrar sua família. Seu coração parou quando sentiu uma mão pesada em seu ombro. Virou-se rapidamente e imediatamente seus olhos encheram de lágrimas.
Um rosto tão bonito... estava exatamente igual ela se lembrava. A pele tão clara quanto a sua e os cabelos perfeitamente penteados para o lado. Tinha crescido alguns centímetros, mas ele sempre fora alto. Seus olhos demonstravam bondade, pareciam felizes em vê-la.
Ela se jogou nos braços do irmão.
— Oh, Liam.
— Eu estava tão preocupado com você. — Sua voz era grave, mas acalmava Eve, sempre acalmara. — Achei que nunca mais a veria.
— Eu estou bem, estou aqui.
Ele pareceu aliviado.
— Vamos dar um jeito, E. Não se preocupe, você pode ficar sob nossa proteção, ninguém vai te encontrar, você não precisa mais fugir. Não é bom voltar para casa?
Eve ficou em silêncio, estranhamente consciente da presença de Shae atrás dela e de como suas roupas deviam estar destruídas, como ela parecia mais uma fugitiva do que a filha de uma família rica. Mesmo assim, ali estava Liam a acolhendo, dizendo que poderia voltar para casa.
Ela se sentiu envergonhada, havia acontecido tanta coisa. Por mais que quisesse ela não podia voltar para casa, não agora. E nem tinha certeza se um dia poderia.
— Desculpe, Liam, não vou ficar por muito tempo.
O olhar do irmão se estreitou e Eve sentiu seu coração se partindo.
— Sei que nossos pais a aceitariam, Eve. Ela não é um monstro como você pensa.
Ela suspirou, para Liam tudo sempre foi mais fácil.
— Não é esse o problema, não mesmo. — Ela sentiu o vento contra seus braços e percebeu o quão exposta estava ali. — Podemos entrar? Prometo que te explico tudo. — Mas assim que as palavras saíram de sua boca ela soube que não poderia cumprir essa promessa.
Como dizer ao seu irmão que estava indo numa missão suicida para assassinar o rei? Era loucura e ele jamais entenderia.
— Vamos. — Liam abriu o portão para que as duas passassem. Enquanto Eve dava os primeiros passos dentro daquele jardim que já lhe servira de palco para tantas brincadeiras, ela percebeu Liam dando um olhar desconfiado para Shae e suspirou, esperava que eles se dessem bem.
Após seguir pelo tão conhecido caminho de pedras eles pararam em frente às portas duplas de vidro. Os dedos de Eve encontraram o metal frio da maçaneta e ela a puxou, achava que nunca mais entraria naquela sala.
Estava tudo igual ela se lembrava: Assim como as portas, as paredes eram de vidro deixando que a luz natural entrasse e outros tipos de iluminação fossem dispensáveis. O centro era ocupado apenas por uma mesa de vidro e duas poltronas coloridas. Num canto uma escada de mármore branco subia para os andares de cima e a parede dos fundos era coberta inteiramente por duas portas de carvalho escuro que levavam à cozinha.
Isso era tudo. A mãe de Eve sempre acreditara que era importante manter o mínimo de coisas possíveis num ambiente para não poluí-lo. A menina sorriu ao se lembrar disso.
Após tantos anos sem colocar os pés ali, ela se sentia uma estranha em sua própria casa e esperou até que Liam apontasse as poltronas para se sentar.
Ela praticamente se jogou no assento ao perceber o quão macio era, depois de toda aquela correria, Eve precisava muito descansar. O irmão sorriu diante desse gesto.
— Eu esperava que pudéssemos conversar agora, enquanto não há mais ninguém em casa, mas vocês parecem exaustas.
Ela também preferia conversar antes que os pais voltassem, mas observando pelo canto do olho surpreendeu Shae sufocando um bocejo. Ela assentiu com a cabeça.
— Seria bom um banho e algumas horas de sono.
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