O Olho de Jade
30 Shae
Notas iniciais
Shae estava com mais do que apenas borboletas no estômago, imaginava que se a abrissem naquele momento, iriam encontrar todo tipo de animais rastejando por seu interior.
Ela e Eve estavam paradas onde se iniciava a montanha do castelo e ela não conseguia conter sua felicidade.
A dupla havia achado um ponto cego e pulado o primeiro muro com dificuldade. Tinha vários metros de altura e quase nenhum lugar para se apoiar, mas ela não se importou. Qualquer esforço era válido para conseguir o que queria. Ela percebeu que Eve tentara não reclamar muito, mas falhara completamente na missão.
Agora, escondida atrás de uma árvore, ela tentava traçar mentalmente o melhor caminho fora da visão dos guardas.
Eles estavam lá, observando cada centímetro de campo aberto, com seus uniformes brancos perfeitamente alinhados e espadas afiadas. Mas ela não os temia, não como fizera anos atrás. Agora ela podia lutar contra eles, contra todos eles.
Estava resistindo ao ímpeto de pegar a Invocadora de Almas e usar ali mesmo, para acabar com todos. Mas ela sabia que não era daquela forma que deveria fazer. Isso faria muito alarde e pessoas inocentes podiam morrer, ela tinha que ser cuidadosa, seu objetivo era Tobias e o trono, o resto poderia sobreviver... se decidisse a obedecer.
Curvadas, as duas garotas saíram correndo, subindo a montanha na direção em que Shae apontava. Ela tinha passado horas sonhando acordada sobre como seria fazer isso, tinha traçado caminhos fantasiosos que a levavam direto a sala do trono. Tinha tido pesadelos em que era pega e enviada para as masmorras. Mas agora nada disso era fantasia, era verdade e ela não podia falhar. Tinha que se concentrar.
Ela se posicionou atrás de um grande salgueiro, sabia que do outro lado havia um guarda. Precisava passar por ele, não tinha jeito. Ele teria de morrer. Desembainhou com cuidado a espada, mas não chamaria seus soldados, dessa vez ela mesma faria o serviço.
Com calma contornou a árvore, acertando o homem com um golpe só. Ele não teve tempo de dizer nada, ela arrastou seu corpo para a pedra onde Eve estava escondida.
— Vista o uniforme dele — sussurrou.
— Isso não vai servir.
Shae revirou os olhos com impaciência.
— Desculpe senhorita, gostaria de experimentar um tamanho menor? Não sei se você percebeu, mas isso não é exatamente uma loja onde você pode escolher o que vestir.
A outra garota se encolheu diante de tanta ignorância e começou a trocar de roupa. Shae voltou para onde estava, atrás de outro guarda. Não demorou muito para que ela também estivesse vestida de branco.
Sentiu repulsa de si mesma naquelas roupas. O uniforme dos homens que mataram seu pai e seu irmão. Uniformes daqueles que juraram lealdade ao rei Tobias. Se não fosse extremamente necessário, ela jamais aceitaria usar aquilo.
As duas continuaram. Metade da montanha e subindo. Ainda estavam andando escondidas, o uniforme era apenas uma precaução caso fossem vistas. Agradeceu muito pelo capacete que usavam, escondia bem o rosto das garotas.
Mais um guarda morto.
Shae fez sinal para que Eve fizesse silêncio, agora elas passavam perto de um grupo de cinco homens. Apenas uma fileira de pinheiros as separava deles.
Ela achava que conseguiriam, estava quase passando para a última árvore e então correria para a esquerda em um pedaço de campo aberto até poder se esconder nas sombras do muro do portão. Então ouviu um grito enquanto Eve mergulhava para a direita acertando um dos guardas com sua espada.
O que ela estava fazendo? Os guardas não as tinham visto, ela tinha certeza.
Mãos agarraram seus braços e fizeram com que soltasse sua espada. Eles começaram a arrasta-la enquanto ela esperneava. Estava tudo acabado.
[...]
Shae achou que estava sendo enviada para um interrogatório, mas não. Eles apenas as jogaram em celas imundas nas masmorras do castelo e as deixaram lá.
Uma era de frente para a outra, mas Shae só conseguia ver o corredor por um quadradinho minúsculo e gradeado em sua porta.
— Eve? — ela gritou.
— Aqui, Shae. Está me ouvindo?
— Por que fez isso?
— O quê?
— Você não precisava ter se jogado na frente daquele guarda. Não mesmo, eles não nos tinham visto. Por que nos sabotou?
— Eu não te sabotei — ela gritou de volta, mas sua voz estava falhando.
Naquele momento Shae percebeu que estava certa, ela tinha feito isso de propósito.
Sempre fora tão fácil confiar em Eve, ela sempre achou que a garota a apoiaria onde fosse, mas no fim das contas, no momento mais importante ela a deixara na mão.
— Quando você me falou que Cersey disse que eu não podia confiar em ninguém, estava se referindo a si mesma?
— Shae, eu já disse que não foi de propósito.
Ela esmurrou a porta.
— Pelo menos assuma. Assuma que queria que fossemos pegas.
Não houve resposta do outro lado.
— Assume, Eve. Assume. — Shae começou a chutar a porta, tentando fazer o máximo de barulho possível. — Não me ignore!
Ela continuou, até que um grito escapou vindo da direção de cela de Eve.
— Está bem, eu fiz de propósito. Eu não queria que você chegasse até Tobias. Está bem assim? — Ela cuspiu as palavras.
Shae se jogou no chão coberto de palha. Tinha sua confissão, mas o que ia fazer com aquilo?
— Por quê?
— Não quero falar sobre isso.
— Então agora você não quer falar sobre isso? Eu acho que mereço uma explicação depois de tudo o que passamos. — Shae agarrou um punhado de palha com as mãos e os jogou com força contra a parede. Inútil.
— É melhor você não saber.
— Por quê? O que é tão horrível assim? Porque, sinceramente, eu já estou pensando em coisas que estão me deixando com vontade de arrebentar a sua cara.
— É por que... — Eve parou no meio da frase, Shae estava com tanto ódio que quase voltou a esmurrar a porta, mas ela logo voltou a falar. — É por que eu gosto de você, Shae.
Ela não entendeu.
— Como?
— Eu gosto de você. Não da forma que eu deveria. Eu demorei para aceitar isso, eu não queria admitir para mim mesma, mas a verdade é que eu gosto de você da mesma forma que você gosta de Ely.
As palavras demoraram para fazer sentido. Eve gostava dela? A mesma Eve que estava sempre implicando com tudo o que ela fazia? A mesma garota que tinha uma discussão com ela a cada dois dias? A garota que ainda trazia no pescoço o colar do antigo namorado?
— Não é possível. Você está brincando comigo.
— Eu não estou. — Shae não podia vê-la, mas pela sua voz apostava que ela estava chorando. — Eu não queria isso, você não sabe o quanto eu luto contra esse sentimento. Mas ele fica mais forte a cada dia.
Shae não conseguia aceitar isso. Não fazia sentido, como ela poderia ter se apaixonado por ela? Mas então se lembrou de todas as vezes em que acordou no navio de Erickson com Eve a encarando, um brilho diferente em seus olhos. E da decepção da garota quando ela dissera que achava que tinha visto Ely. Era possível, mas não fazia sentido. Naquele momento ela agradeceu por não estarem uma de frente para a outra, não saberia o que fazer.
— Isso não explica o porquê de você ter nos jogado nessa situação.
Não houve resposta, apenas soluços vindos da outra cela. Ela estaria fingindo?
— Eve? Você vai me dizer o que aconteceu ou vai continuar apenas chorando?
Ouviu o barulho de um nariz sendo assoado e então a ruiva voltou a falar.
— Eu vi a sua morte.
Se Shae não estivesse sentada, ela teria caído. O chão começou a girar em sua volta e ela sentiu uma súbita vontade de vomitar. Se apoiou na cama de metal que estava do seu lado esquerdo e se levantou. Colou o rosto na porta, tentando visualizar algo dentro da cela da outra garota.
— Quando isso? Como?
— É melhor eu não entrar em detalhes.
— Eve, como?
Novamente a outra garota permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de voltar a falar, com a voz embargada.
— Desde que eu tinha doze anos. É a visão mais forte que eu tenho, eu já vi isso tantas vezes que perdi a conta.
Shae continuou escutando, finalmente entendendo por que Eve parecera tão apavorada na primeira vez que a vira.
— Nela eu sempre estou numa sala do trono. Eu sempre vejo você se sentando nele, você completou sua vingança. Você está conseguindo tudo o que sempre quis. E então, alguém te mata.
— Quem me mata?
— Eu não sei.
— Quem, Eve? — Ela queria saber tudo.
— Eu realmente não sei. Mas quem quer que seja, usa a Invocadora de Almas para cortar sua cabeça.
Ela se jogou na cama. Então era isso: ela iria conseguir tudo o que sempre quis, mas ia acabar morrendo instantes depois. Por um momento pensou que aquilo era absurdo, mas sabia que Eve não estava mentindo, tudo fazia sentido.
— Você não tinha o direito de fazer isso. — Sua voz saiu áspera.
— Eu quis impedir que isso acontecesse, eu fiquei desesperada quando começamos a chegar perto do castelo. Eu não queria que você morresse. — A outra começou a se explicar.
— Não isso. — Ela tentou suprimir as lágrimas, mas elas começaram a cair. — Você não podia ter escondido sua visão de mim.
— Eu não sabia o que fazer, Shae. Eu não posso mudar minhas visões.
— Você acabou de mudar — ela gritou. — Você acabou de me impedir de chegar até o castelo. Mas sabe qual é a verdade? Você não me salvou! Essa era para ser uma escolha minha, eu tinha que decidir se queria continuar com a minha vingança e morrer ou não. Eu posso ser impulsiva, eu posso ser tudo o que você diz, mas sou eu quem deve escolher o destino da minha própria vida.
— Eu estava apenas te protegendo!
— Eu nunca pedi sua proteção! — A mente de Shae estava vazia, ela só queria machucar Eve de alguma forma. — Eu só me aproximei de você por um único motivo: Suas visões. Você disse que me ajudaria, mas escondeu a única coisa que poderia me ajudar. A única! Você gosta de mim? — Ela soltou uma gargalhada cheia de desprezo. — Que piada. Você acha que eu posso ter qualquer sentimento por você? Pra mim você é, e sempre foi, apenas uma ferramenta para eu alcançar a minha vingança. Uma ferramenta que se mostrou inútil.
— Shae...
— E respondendo aquela sua pergunta, se você tivesse morrido eu não choraria. Eu não daria a mínima. Quer saber? Eu preferia que você tivesse morrido ao invés de Daan.
No momento em que disse aquilo, ela se arrependeu. Nenhuma daquelas palavras era verdade. Shae se sentiu suja por dizer aquelas coisas, mas sua vontade de magoar Eve era grande demais para ela voltar atrás.
Sabia que estava sendo injusta, a garota não tinha culpa se ela iria morrer. Mas naquele momento ela não estava ligando para os sentimentos de ninguém, estava pensando apenas em si mesma.
O que se devia fazer quando descobria como você iria morrer? Acreditava que a maioria das pessoas tentaria se afastar ao máximo das circunstâncias de sua morte, mas como ela faria isso se tinha vivido sua vida toda para aquilo?
Ela fechou os olhos, deixando que as lágrimas caíssem livremente e abraçou o travesseiro ralo. Naquele dia, não pensaria em ninguém, deixaria que sua própria dor a inundasse. Ela dormiu enquanto tentava ignorar os chamados de Eve por ela.
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