O Olho de Jade
31 Eve
Eve cansou de gritar.
Tinha tentado de todas as formas chamar a atenção de Shae, mas o barulho que fizera havia servido apenas para fazer com que o guarda aparecesse para manda-la calar a boca.
Ela ouvira resmungos de outros prisioneiros que também estavam incomodados com seu barulho. Em outro momento poderia ter se sentido culpada por perturba-los, mas não naquele.
Tinha acontecido, o momento que ela mais temia — depois da morte de Shae. O que Eve tinha se esforçado tanto para esconder tinha vindo à tona.
Eve chorou.
Chorou por que tinha tanto a dizer e ao mesmo tempo suas palavras não podiam explicar o que ela sentia. Chorou por que a pessoa escondida na porta da frente se mantinha calada, a ignorava e muito provavelmente também chorava. Ela chorou por que tudo o que precisava naquele momento era do abraço de uma mãe, mas ela não teria, jamais abraçaria sua mãe novamente. Mesmo que voltasse para sua antiga casa esse momento mãe e filha não aconteceria.
Horas se passaram sem que ela se movesse. Se mantinha encolhida na cama, soluçando. Seus olhos fechados viam coisas que ela não queria ver: a morte de Shae, Daan entrando na pousada em chamas, sua mãe sendo ausente, a tristeza nos olhos de seu pai quando ela aceitou seguir Cersey.
Involuntariamente suas mãos deslizaram para seu colar. Kaylan, seu primeiro amor não tinha dado certo. Com Shae também não. Ela viveria o suficiente para ter um terceiro? Teria uma história de amor antes de enlouquecer?
Ela parou de chorar.
Adormeceu naquela mesma posição.
Tentou fazer contato novamente com Shae no dia seguinte, a garota continuou a ignora-la.
Passaram-se dois dias. Dois torturantes dias sem que Eve pudesse conversar com alguém. Dois dias em que ela esteve só com sua mente, repassando todas as tragédias que tinham acontecido, tudo o que tinha dado errado e todas as coisas maravilhosas que tinha imaginado para seu futuro e que nunca aconteceriam.
Foram quarenta e oito horas se culpando. Quarenta e oito horas de uma quase tortura, em que ela se revirava de um lado para o outro e enxugava as lágrimas na camiseta suja enquanto tentava se controlar para não arrancar os próprios cabelos.
Depois de algumas horas de sono que ela não sabia se haviam sido tiradas à tarde ou à noite, ela ouviu alguém chutar sua porta.
— Estou entrando — uma voz aguda avisou. — Eu não ligo se você tentar alguma gracinha, mas eu não recomendaria, a não ser que não se importe em ter o coração atravessado por uma lâmina bem afiada.
Sem ter tempo para se perguntar de quem era a voz, Eve viu a porta se abrir com um clique e um homem baixinho entrar.
— De costas — ele ordenou e antes que ela percebesse ele a tinha virado e amarrava uma corda em seus pulsos. — Não sei se você considera isso sorte ou não, mas vai ser transferida hoje.
— Transferida?
— Isso. — Ele começou a arrasta-la para fora da cela. — Uma prisão no Terceiro Reino. Eu particularmente não acho que seja melhor do que aqui, provavelmente é mais sujo. Mas você tem que agradecer, sua amiga vai para o quarto reino, a de lá com certeza é pior.
— Shae?
— Deve ser esse o nome. — Ele deu de ombros e voltou a trancar a porta. No corredor havia três prisioneiros amarrados à uma barra de ferro na parede que ela não percebera quando fora enviada para lá. Logo Eve também ficou presa à barra. — Falando nisso, ela é a última. Não quero ouvir conversa entre vocês, entendeu?
Ele passou a mão alisando o cabelo um tanto ensebado e se dirigiu à porta de Shae.
O coração de Eve acelerou. Ela não sabia o que fazer ou como agir. Era a primeira vez que as duas iriam ficar cara a cara depois de tudo o que ela tinha dito.
Quando a outra garota saiu de sua cela sem dizer nada, mal se dando ao trabalho de ouvir a enxurrada de palavras que o guarda despejava sobre ela, Eve desviou o olhar.
Não queria, não podia encará-la.
Seus olhos a traíram e ela se viu lançando olhares desesperados para a outra garota. Esta, que com o nariz empinado e uma cara diferente da que se esperaria de uma prisioneira, não correspondeu de forma alguma.
Sentindo-se mais humilhada que antes, com o coração mais apertado que nunca, Eve decidiu que iria olhar para frente. Se elas nunca mais se falassem pelo menos não seria obrigada a assistir à sua morte.
Quando o guarda tirou as amarras da barra e as amarrou numa corda, o grupo seguiu serpenteando por corredores e mais corredores mal iluminados das masmorras.
O único som, além dos passos, era da voz do guarda que guiava. Como se fosse um guia turístico, ele seguia falando da construção do palácio e de cada lugar pelo qual passavam, parecia não se cansar nunca e nem se importar com os olhares de advertência dos colegas de profissão e dos prisioneiros.
Por alguns momentos, Eve começou a admira-lo. Parecia um homem solitário, talvez odiado pelos que trabalhavam com ele e abandonado pela família. Passar os dias naquele lugar escuro e malcheiroso, sem ter nada para fazer a não ser caminhar observando portas trancadas deveria ser, no mínimo, entediante. E, mesmo assim, ainda havia certo brilho nos olhos do homem. Em momento algum ele a olhara torto por ser uma prisioneira. Suas palavras eram um misto de entusiasmo e desespero por ser ouvido.
Sentindo pena do homem, ela fez uma pergunta genérica sobre o que ele tinha acabado de dizer. Por um momento ele parou e a encarou, parecia surpreso. Então ele se recompôs e voltou a caminhar, respondendo sua pergunta da forma mais gentil possível.
Eve não saberia dizer quanto tempo se passou até que eles finalmente saíram para o ar livre.
Ainda estavam dentro da propriedade do palácio, mas separados dele por um portão que não deveria ter menos que cinco metros de altura. A grama ali, diferente do jardim que se encontrava atrás deles, estava seca e malcuidada, as poucas plantas que apareciam ali estavam à beira da morte.
Ninguém parecia se importar com aquele lugar.
Eve olhou para baixo, para as portas estranhamente colocadas no chão pelas quais eles tinham saído. Um novo guarda apareceu, nem de longe tão bem-humorado como o outro e começou a guiar o grupo. Poucos metros à frente se encontrava outro portão, esse era mais reforçado e ladeado por muros.
Assim que passaram por ele se depararam com uma enorme carruagem de madeira, inteiramente vedada. Um a um os prisioneiros foram empurrados para dentro dela.
Apesar do veículo ser grande, dentro dele estava muito apertado. Os prisioneiros dividiam o espaço com caixas de mantimentos e gaiolas com animais vivos. O cheiro era insuportável. Eve se empurrou para o lado e acabou esbarrando novamente na perna de Shae. A morena a encarou como se quisesse matá-la, Eve sabia que ela realmente queria.
— Temos que arranjar um jeito de fugir.
— Eu não vou fugir com você, prefiro ficar presa pro resto da minha vida.
— Sei que está chateada comigo, Shae, mas não deixe meu erro te impedir de conseguir sua vingança.
— Não sei se você percebeu, mas foi exatamente isso que seu erro fez
Ela se calou. Como argumentar com isso? Como convencer Shae a confiar nela novamente se ela tinha frustrado seus planos de uma vida inteira? Ela sabia que em seu lugar estaria se sentindo do mesmo jeito, mas elas não tinham tempo para isso. Se não agissem rápido, logo seriam separadas e aí não haveria maneira alguma de escapar.
Eve continuou quieta por mais alguns minutos, repassando toda sua frustração em sua mente enquanto a carruagem sacolejava por alguma rua e a jogava para cima de Shae ou do homem que estava à sua direita.
— Me dê só mais essa chance — ela sussurrou de novo. — Fugimos e aí você pode ir pra onde quiser e eu irei me afastar. Mas não morra numa prisão suja só por causa do que eu fiz.
Seu rosto continuou com a mesma expressão dura, mas ela cedeu.
— Está bem, mas só por que precisamos sair daqui. O que você pretende fazer?
Eve encarou os próprios pés, a verdade é que não tinha a menor ideia do que fazer.
— Eu esperava que você tivesse alguma ideia.
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