O Olho de Jade
26 Shae
Notas iniciais
Mais uma vez, Shae acordou com Eve chamando-a.
— Adivinha o que aconteceu? — Eve abriu um sorriso ao se aproximar da cama.
— Você passou pela cozinha de novo? — A garota ruiva parecia ter decidido que Shae precisava se alimentar a cada três horas e não sentia remorso em acorda-la de seu sono para fazer isso.
— Não. Chegamos ao Primeiro Reino.
O estômago de Shae se retorceu, um nó surgiu em sua garganta e por um momento ela achou que não conseguiria respirar. Havia passado tanto tempo dos últimos dias dormindo que nem havia percebido quanto tempo se passara.
— Está brincando?
A ruiva negou com a cabeça.
— Acabamos de atracar no porto.
Então finalmente estavam chegando perto de sua vingança. Shae a havia planejado por anos, mas não demorara nem três meses para chegarem tão perto dela.
— O que estamos esperando para descer?
— Você.
[...]
Shae se levantou com dificuldade e tomou um banho. Tanto tempo em cima de uma cama a havia deixado meio hesitante ao caminhar, mas logo se lembrou de quando o fazia com tanta energia. Colocou calças de linho branco e uma blusa vermelha, prendeu o cabelo num rabo de cavalo e demorou mais tempo do que o normal para amarrar suas botas, enrolou o máximo que podia.
Quando estavam no Quarto Reino, queria chegar no Primeiro o mais rápido possível, mas agora que chegara ali ela estava assustada, o que fariam agora? Apesar de todo o planejamento, ela não tinha a menor ideia.
— Peguem suas bolsas. — Daan entrou de supetão no quarto, fazendo com que Shae pulasse de susto.
— Vamos deixa-las aqui, decidimos dormir no navio mesmo, para economizar. — Algo na voz de Eve fazia Shae acreditar que ela tinha outras razões para sugerir isso, mas não disse nada.
— Você realmente acha que o navio vai estar aqui quando voltarmos?
— Por que não estaria?
— Para começar, Shae prometeu o navio para um dos tripulantes. Além disso, sem ninguém para intimidar os que restaram, eles nos abandonarão assim que desembarcarmos.
— Ele está certo, Eve. Não posso usar a Invocadora de Almas, não por enquanto. — Ela tossiu e um pouco de sangue grudou em suas roupas, era menos do que antigamente, ela estava melhorando. — E não podemos deixar um de vocês aqui, eles acabariam com qualquer um.
— Tudo bem então. — Eve bufou. — Mas vamos tomar cuidado com o lugar que escolhermos.
Shae deu de ombros, para ela não fazia muita diferença. Pegou sua espada com Eve, o resto de suas coisas que estavam no chão e saiu do quarto, não aguentava mais olhar para aquele lugar.
Ela achou que estaria quente, mas assim que pisaram no porto sentiu os pingos de garoa acertando sua pele. Colocou sua capa sobre os ombros e a cabeça.
— E agora? O que vamos fazer?
— Temos que garantir o lugar onde iremos dormir. Além disso, pensar em como se aproximar do castelo, está muito longe. Vamos precisar fazer uma viagem. Precisaremos de dinheiro. — Daan começou a caminhar na frente, com as garotas o seguindo.
— Erickson tinha dinheiro no navio, ou pelo menos parecia ter. — Ela se lembrou das roupas que ele usava, pareciam caras.
— Não é mais uma opção. — Ele apontou para o navio que já estava zarpando novamente.
— Sorte de vocês que eu tive essa ideia ontem a noite. — Eve abriu uma mochila que Shae nunca tinha visto antes. — Peguei tudo o que encontrei que poderia ser valioso, tem joias de Tiana e de Miek, abotoaduras de ouro dos homens e moedas de prata e ouro que estavam na cabine de Erickson. Eu estava... meio inquieta ontem.
Será que ela tinha tido outra visão? Ou outro sonho com Cersey? Eve não sabia dizer, a outra garota não comentava sobre isso desde que ela ficara acamada, parecia não querer preocupa-la, mas Shae odiava ficar de fora do assunto.
As casas eram sobrados altos de dois e três andares, com varandas e até mesmo pequenos jardins na frente. As lojas tinham vitrines de vidro que expunham seus produtos enquanto os vendedores corriam de um lado para o outro para pegar mercadorias.
Carruagens e charretes passavam pelo meio da rua carregando passageiros. Homens em uniformes cinza limpavam a sujeira que os cavalos faziam no meio da rua. O cheiro que saía da porta dos restaurantes era divino e fazia a boca de Shae salivar.
O que era aquele lugar? Tendo todos os outros como subordinados, era obvio que o Primeiro Reino era o mais rico de todos, mas ela nunca tinha percebido o quanto essa diferença era visível. Fazia anos que Shae não pisava ali, depois que se mudara ela tentara de toda forma esquecer o que acontecera naquelas terras, naquele mundo completamente diferente do seu atual, mas agora as lembranças a invadiam de tal forma que ela quase não conseguia suportar.
Ela e a família viviam num pequeno palacete, numa das cidades mais próximas do palácio.
Shae estava acostumada a ausência do pai na maior parte da semana, ele sempre estava ocupado auxiliando o rei Tobias no palácio, os dois haviam crescido juntos e construído uma amizade sólida. Nos finais de semana, porém, o homem sempre voltava para casa para passar um tempo com a filha. Eles seguiam até o lago mais próximo para dar um mergulho, faziam trilhas pela floresta e caminhavam por campos de flores, corriam pelas ruas da cidade e serpentavam pelos mercados ao ar livre. Chegavam até mesmo a colher vegetais da horta para o jantar, ainda que Shae os odiasse.
A mãe, naquela época, participava de muito disso. Preparava comidas para piqueniques ao ar livre com a família, acompanhava Shae e o marido em caçadas pelos bosques e corria atrás de Petter, o irmão da garota, para evitar que ele caísse enquanto tentava acompanhar os outros. Eram uma família unida e feliz, até aquela noite.
Geralmente fazia Sol no Primeiro Reino, ele era conhecido por ter um clima ameno. Mas aquele dia havia sido tomado por uma chuva quase torrencial, fazia tempo que uma tempestade como aquela não acometia o reino.
Todos estavam reunidos na sala, de frente para a lareira enquanto o pai lia um livro para os filhos. A voz calma tirava todas as preocupações que aquela Shae de doze anos poderia ter e fazia com que suas pálpebras pesassem, quase a fazendo fechar os olhos.
Ela mantinha os olhos nas chamas e podia ouvir o crepitar delas. O momento em que o pai contava histórias era o que ela mais esperava no domingo.
Ouviu a respiração pesada do irmãozinho enrolado na poltrona ao seu lado, havia adormecido vários minutos atrás.
Antes que ela mesma pudesse cair no sono, uma batida forte e contínua na porta chamou a atenção de todos.
— Continue — a mulher sussurrou para o marido. — Eu posso atender.
Aos domingos, todos os criados eram dispensados da casa, Shae nunca entendera isso, mas o pai dizia que eles precisavam passar tempo com suas próprias famílias.
Ele continuou a narrar sua história quando um grito o interrompeu novamente. Petter se sobressaltou na poltrona e Shae se arrumou no sofá, colocando os pés no tapete ricamente trabalhado.
Roy abandonou o livro e correu para acudir a esposa enquanto os filhos o seguiam.
A cena no hall de entrada da casa espantou as crianças.
A mãe estava caída no chão, aparentemente havia sido empurrada. Sete guardas reais se estendiam numa fileira, todos ensopados molhando o carpete aos seus pés. A porta aberta deixava o vento frio entrar e vez ou outra mostrava um raio cruzando os céus, iluminando de forma assustadora a cena.
— O que fazem aqui? — O pai se colocou entre eles e as crianças.
— São ordens do rei Tobias — um deles respondeu sem se dar ao trabalho de explicar nada.
Cassie rastejou pelo chão para se aproximar novamente dos filhos.
Ela se colocou ao lado do garotinho e o abraçou.
O guarda que tinha falado primeiro deu um passo à frente.
— Roy Huntsman, está sendo acusado de traição para com o rei Tobias e todo o Primeiro Reino, como punição está sendo sentenciado à pena de morte. Vossa Majestade aprecia sua servidão e sua amizade por todos esses anos, portanto decidiu não deixar o cumprimento da pena de forma pública. Sugiro que diga suas últimas palavras à sua família agora, Senhor Castleroy.
Shae era nova demais para compreender o que estava acontecendo, ela não entendia quase nada que o homem alto dizia, mas pôde entender uma palavra: morte.
— Pai? — ela chamou. — O que está acontecendo?
— Fique calma, Shae. — O rosto do homem estava lívido. Voltou a se dirigir aos guardas. — Deve ter algum engano, sou amigo de Tobias. Eu não fiz nada, eu juro que não fiz nada.
— Não há engano nenhum. — Um dos guardas da fileira se aproximou, tinha as sobrancelhas grossas e o queixo quadrado, aquele rosto ficara guardado para sempre na memória de Shae. — Se não tem nada a dizer aos seus filhos, temos que fazer nosso trabalho.
— Pai... — A voz de Shae ia sumindo, um nó se instalando na sua garganta enquanto sua mente infantil ia percebendo a gravidade da situação.
O rosto de seu pai estava lavado de lágrimas, elas caíam de seus olhos sem freio algum. Shae nunca tinha visto seu pai chorar antes, era a primeira e seria a última vez. Ele se abaixou, olhando nos olhos brilhantes da garotinha.
— Eu sinto muito, Shae. Minha menina, minha menininha. Eu me odeio tanto por não poder estar com você enquanto cresce.
— Você vai embora, papai? — Apesar de suas palavras, ela sabia que seria algo pior do que simplesmente ir embora.
Ele fez que sim com a cabeça e beijou sua testa, a abraçando em seguida.
— Você vai ficar bem, lembre-se que eu sempre estarei ao seu lado. Não se esqueça de mim, nunca. Promete?
— Você não pode ficar? — Ela esperou enquanto o pai negava, um choro descontrolado tomou conta dela, nunca tinha chorado daquela forma e nunca mais o faria daquele jeito. — Eu prometo então. Nunca, nunca, nunca vou te esquecer, se você não me esquecer também.
Com dificuldade o homem se afastou da filha, cambaleou até a criança mais nova e o abraçou, dizendo uma série de coisas que Shae não conseguiu escutar devido aos próprios soluços. Roy finalmente se dirigiu a esposa.
— Sei que vai ser difícil para você, me perdoe pelas coisas que eu fiz, achei que estava fazendo o melhor para nós. — Ele a encarou bem nos olhos e a beijou.
— Eu nunca vou te perdoar! Eu te avisei. — Mas apesar do que a mulher dizia, ela não desgrudou do marido, ainda havia amor em seu coração e sua voz denunciava a mentira.
— Eu sei. — Ele se virou para os homens uniformizados. — Lá fora, por favor.
O homem das sobrancelhas grossas revirou os olhos.
— Não temos tempo para isso.
— Não — o pai de Shae gritou enquanto o guarda se aproximava dele com uma faca empunhada, com força a enfiou no corpo do homem, levando-a direto até o coração. Puxou a de uma vez, fazendo o sangue jorrar da ferida cada vez mais. Para finalizar, desembainhou a espada e cortou a cabeça do homem, dava para ver em seus olhos que sentia prazer naquilo.
Petter se desvencilhou dos braços da mãe e correu em direção ao corpo do pai que escorregava para o chão.
— Pai! —O garotinho gritou e em seguida se virou para o guarda, chutando suas pernas enquanto chorava.
— Pare com isso. — O homem enrugou a testa, odiando o fato de o menino testar sua paciência. Petter não parou. — Que seja. — Usando a mesma espada manchada de sangue ele golpeou o menino, que não teve chance de se esquivar.
Shae olhou a cena, encarando um a um os guardas, esperando que algum deles fizesse algo, mas eles continuaram apenas observando, impassíveis. Ela não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Sua mãe estava novamente caída no chão, desesperada agarrando o corpo inerte do filho.
— Vocês têm uma semana para sair do Primeiro Reino, o castelo vai providenciar um navio e moradia para vocês em outro lugar.
— Não queremos nada que venha de vocês. — A mulher se levantou, ainda segurando o cadáver, e cuspiu na cara do homem. — Diga para Tobias que ele pode enfiar essa moradia no...
— Não fale desse jeito comigo, quer acabar como eles? — O homem das sobrancelhas levantou novamente a espada.
— Já chega, Ryan. Vamos. — O homem que havia falado primeiro o afastou. — Sentimos muito pelo transtorno. Ah, e precisamos levar o corpo de volta para o Rei.
Transtorno, a morte de seu irmão e de seu pai havia sido chamada de transtorno. Se fosse alguns anos depois, Shae certamente não ficaria calada diante disso, mas naquela época era apenas uma criança tentando processar o massacre que se desenrolara diante de seus olhos.
Os homens arrastaram o corpo sem o menor cuidado, deixando um rastro de sangue pelo carpete. Teria que ser trocado, aquilo não poderia ser limpo facilmente, assim como aquelas imagens jamais sairiam da mente de Shae.
Shae quase podia sentir o cheiro de sangue. Ela já tinha visto muita coisa na vida, coisas que pessoas normais nem chegariam perto. Ela já matara várias pessoas usando guerreiros espirituais, mas nada disso chegava perto das lembranças da noite em que sue pai morrera.
Naquela vez, ela e a mãe dormiram ali mesmo, em meio ao sangue e os restos do irmão. Parecia algo horrível para se pensar agora, mas havia acontecido e naquele momento dormir ali era a única opção que tinham, não parecia certo virar as costas a tudo o que tinha acontecido, ir dormir em suas camas quentinhas enquanto havia um rastro de sangue no carpete da entrada.
Não que elas tivessem conseguido dormir direito, longe disso. As lágrimas não as deixavam, as lembranças não as deixavam. Mas uma hora o choro cessou e suas mentes estavam cansadas demais para que elas pudessem repassar as cenas vividas e foi então que o pior aconteceu: elas dormiram e as lembranças deram lugar aos pesadelos.
Ali, Shae reviveu mil vezes mais a morte do pai. Ali ela viu o homem das sobrancelhas grossas matando ela e sua mãe também, colocando fogo em suas casas e arrastando o cadáver imóvel do irmão. Diversas vezes ela acordou assustada achando que alguém a segurava enquanto enfiava uma lança através de seu corpo e, diversas vezes mais, era acordada pelos gritos histéricos de sua mãe. Não havia diferença entre adultos e crianças ali, as duas estavam abaladas de tal forma que se sentiam perdidas, tendo apenas uma a outra para se agarrar.
A diferença é que para Shae os pesadelos não pararam nem mesmo anos depois do ocorrido. E, enquanto a mãe decidiu seguir a vida da melhor forma que pôde, Shae nunca conseguiu abandonar aquela noite. Ela decidiu manter a promessa que fizera ao pai de nunca o esquecer e transformou todo o medo daquele dia em ódio.
Apesar de aquela ter sido a pior noite na vida de Shae, o dia que se seguiu foi pior, foi quando ela percebeu que tudo aquilo havia acontecido de verdade e que a partir dali ela nunca mais veria duas das pessoas que mais amava. Foi quando sua vida foi transformada, seu chão arrancado de seus pés e ela e a mãe saíram as pressas daquela casa que estava impregnada com o cheiro de sangue. Foi quando ela decidiu que tinha que crescer, mesmo sendo apenas uma criança. Foi quando ela mudou para sempre.
— Shae? — A voz calma de Eve a puxou novamente para a realidade.
— Sim?
— Você está bem? Por que parou de repente?
— Nada, eu só... estava pensando numas coisas.
— Vamos continuar então.
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