Notas iniciais
Não consegui postar o capítulo na quinta nem na sexta, então acabei deixando pra hoje.

Se Eve já tinha ficado impressionada com a Cidade do Porto, nem sabia o que dizer sobre Leygh.

As casas eram mansões, com portões altos, jardins com pomares e ela não conseguia nem imaginar o que mais poderia estar escondido por trás dos muros.

Pessoas com uniformes de criados passavam de um lado para o outro. E as carruagens não eram alugadas, cada família parecia ter a sua e deixavam isso bem claro ao pintar as portas com seus brasões.

Os mercados eram enormes e bem arrumados, ninguém se empurrava nem se amontoava. Eve tivera uma boa educação no templo, mas nada comparado a forma que aquelas pessoas se comportavam.

As garotas usavam vestidos de seda e luvas de renda, andavam com cavalheiros ao seu lado, sempre com certa distância entre os dois e com alguma ama por perto. As lojas de tecidos ficavam lotadas de meninas e criadas e as livrarias cheias de homens em ternos finos.

Mas o mais impressionante de tudo era o castelo. Ele ficava no topo de uma pequena montanha, não se comparava a altura de Myr, mas possuía uma enorme escadaria de mármore, que saia do sopé e levava até os portões. Havia guaritas e torres espalhadas por entre as árvores e minúsculos pontinhos, que Eve acreditou serem guardas, passeavam de um lado para o outro.

O castelo em si era uma construção majestosa, quase inteiramente dourado, parecia ser feito de ouro, mas Eve não tinha certeza se tinha sido realmente construído com o metal ou com algo que se assemelhava na aparência. As cúpulas das torres do castelo brilhavam, vermelhas como se estivessem incrustadas de rubis, novamente ela não soube distinguir se era real ou não.

No topo nas cúpulas, estandartes com uma águia agarrando uma cobra com as garras e o bico tremulavam. Era o símbolo da família Hoof.

Shae pareceu seguir seu olhar.

— Fique calma, eu tenho um plano para chegarmos até lá. Não deve ser tão difícil quanto parece.

— Espero que esteja certa, mas por enquanto quero apenas descansar.

— Por que você sempre quer descansar assim que chegamos a algum lugar? Olhe como essa cidade é impressionante.

A verdade é que Eve ainda não estava totalmente recuperada. O choque maior da morte de Daan era que ela tinha tentado impedir que acontecesse. Ela havia decidido que eles iriam dormir no navio e logo que desembarcaram ele fora embora, ela tinha pedido que Daan ficasse com Shae enquanto ela procurava o curandeiro, mas de alguma forma a situação havia saído do controle. Isso mostrava o quão impotente ela era, como não adiantava o quanto ela se esforçasse ainda assim as coisas aconteceriam da forma que o destino queria.

Isso queria dizer que não só Daan tinha morrido, como o mesmo aconteceria com Shae. E da forma como elas estavam avançando isso aconteceria logo. E então Eve ficaria sozinha, de novo, uma forma perfeita para enlouquecer enquanto provavelmente era jogada em alguma cela do Primeiro Reino por traição.

— Acho que eu me canso facilmente.

— Mas há tanto para aproveitar. — Shae abriu os braços e saiu rodopiando pela calçada. Eve teve que conter a vontade de chorar.

Segurou a mão da garota morena.

— Venha, temos que encontrar um chalé.

— Você realmente é muito chata.

Eve não conseguiu segurar o riso.

O chalé que elas alugaram era baixo, com uma pintura verde oliva descascada por fora. Por dentro todos os móveis eram feitos de madeira, era, no mínimo, aconchegante. Pelo preço que pagaram, estava ótimo para Eve. Ele ficava numa parte mais afastada da cidade, em meio a árvores e, mais importante, perto da montanha do castelo. Era perfeito.

— Você realmente vai dormir agora? — Shae depositou sua bolsa num canto qualquer.

— Era o que eu pretendia, por quê? — Eve já estava se espreguiçando numa das camas.

— A minha ideia era que déssemos uma volta pelo mercado, para conhecer mais a cidade.

Eve observou o teto por um instante, observou uma aranha caminhando pela viga de madeira.

Ela estava cansada, não queria andar mais apenas por diversão, no dia seguinte teriam que subir aquela montanha, ela não precisava disso.

— Meus pés estão doloridos, acho que tem bolhas se formando, mas você pode ir sozinha.

— Tudo bem.

Assim que a outra saiu, Eve se ajeitou na cama. Finalmente estava sozinha. Começou a pensar em Cersey, canalizando imagens da deusa em sua mente. Esperava que conseguisse de alguma forma invocá-la.

Aparentemente, deu certo.

Diferente das outras vezes, dessa vez Eve estava no templo onde havia crescido.

As estátuas das três deusas a encarando de forma inquisidora, não demorou muito para que a do meio começasse a se mover. De início, ela levou um susto, uma estátua de mármore de muitos metros de altura se mexendo era algo assustador, mas logo ela tremulou e se tornou tão humana quanto fora em seus outros sonhos.

— Você me chamou? Teve a audácia de me chamar?

— Eu... — Eve não tinha percebido até aquele momento que estava tremendo. — Me desculpe, não era a intenção.

— Você me chamou por acidente? — A deusa ergueu uma sobrancelha.

— Não! Eu, só precisava... conversar.

— Eve, minha querida, não é fácil para mim me comunicar com você, é necessário mais magia do que você pode imaginar, além da quebra de várias leis naturais. Posso me colocar em problemas com forças mais antigas que seu próprio mundo apenas por fazer isso. Você não pode me chamar apenas para conversar.

— Tudo bem. — Ela esperou, achando que acordaria.

— E então?

— Então o quê? — Não estava entendendo a situação.

— Sobre o que queria conversar?

— Achei que não pudesse conversar comigo.

A deusa suspirou, irritada.

— Agora que já estou aqui, fale. Mas tenho que avisar que não tenho muito tempo.

— Eu só estou me sentindo mal pela morte de Daan. Como se fosse minha culpa.

— Não foi. — Cersey parecia sem paciência.

— Está bem, não foi. De qualquer forma, eu tinha uma pergunta para fazer para você.

A deusa se sentou no chão, a estátua em forma de corça cambaleou até seu lado e se transformou num animal de verdade, em seguida deitou a cabeça em seu colo. Cersey fez um sinal para que Eve continuasse.

Se sentindo estranha por ter que abaixar a cabeça para olhar para ela, Eve também se sentou.

— Você sabe se falta muito tempo para a morte de Shae?

— Acho que você já sabe a resposta para essa pergunta. — Ela alisou o pelo da corça.

Eve desviou o olhar, ela estava certa. Era obvio que Shae já estava com um pé na cova.

— Não há nada que eu possa fazer para adiar isso?

A deusa balançou a cabeça.

— Vocês já estão no Primeiro Reino, a partir do momento em que Shae entrar no castelo, seu destino vai estar traçado. Assim que ela se sentar no trono, acabou.

— Como eu vou aguentar perdê-la agora? Por que é sempre assim? Tive que me afastar dos meus pais, depois de Kaylan, perdi Daan e agora ela. Por quê? O que eu fiz para merecer isso?

— O sofrimento não vem para as pessoas por que elas merecem isso. As coisas simplesmente acontecem da forma que tem que acontecer. Você precisa aceitar isso, aceitar a morte de Shae logo, ou só vai sofrer mais.

— Mas...

— Acabou meu tempo, eu preciso ir. — A deusa se levantou. — Não chore, meu oráculo. — Ela acariciou o rosto de Eve. — Você já está sentindo, não está? A loucura te dominando? Suas visões já estão ficando mais fortes, eu percebi isso. Você não desmaia mais com frequência.

— Eu não merecia isso. — Ali, aos pés da deusa, Eve se sentia uma criança birrenta por falar daquele jeito, mas não se importava, era verdade.

— Eu também não merecia que você me apunhalasse pelas costas, mas ainda assim aqui estou eu, te ajudando. — Havia certo ressentimento em seus olhos.

— Se estivesse me ajudando de verdade...

— Não ouse terminar essa frase. Não seja ingrata. Apesar do que você fez, eu não a odeio, Eve. Não queira saber o que eu faria com você se a odiasse.

Eve abriu os olhos e encontrou uma Shae muito assustada a encarando.

— Até que enfim você acordou. Eu vi Ely!

— Como? — Ela se sentou, ainda tentando processar sua comunicação com Cersey e a notícia de Shae.

— Eu o vi de longe, mas tenho certeza que era ele. Eve, Ely não pode vir para cá, ele não pode se machucar.

A preocupação de Shae com Ely incomodou Eve, mas ela fingiu não se importar.

— Não devia ser ele, Shae.

— Parecia muito. Ele disse que logo viria me procurar.

— Quais são as chances de ele ter chegado até aqui e nos encontrado? — Por um momento ela se lembrou da visão com o garoto, não achava que ele abandonaria a irmã para ir atrás de Shae. — Você deve estar com saudades dele, só isso. E acabou projetando a imagem de Ely no primeiro garoto de cabelos escuros que viu. — Admitir isso doía um pouco.

— Você deve estar certa, eu espero.

— É claro que eu estou.

Notas finais
Espero que tenham gostado, não deixem de comentar o que acharam ♥