Notas iniciais
Depois de tempo de mais... Está aqui mais um capítulo. Desculpem estar demorando tanto para postar, pessoal. Estou dividindo minha vida entre fazer plantões noturnos, dar aulas de equitação, aplicar medicações nos cavalos do haras, estudar e escrever... Meu cérebro está derretendo. Bem, esse capítulo é recheado de um Milo que estava muito feliz e ficou muito puto com o mundo, graças, claro, ao Camus. Uma nova grande responsabilidade, agora pra valer e tensão sexual inesperada.

Durante as 3 semanas que Belle Époque permaneceu em repouso, muitas coisas passaram pela cabeça do jovem cavaleiro francês. Camus não ficou completamente parado, nos dias em que o cavalo ficou internado permaneceu com ele por todo o tempo, porém nos demais acabou trabalhando cavalos de outros cavaleiros por orientação de Shion, até Ego havia sido montado.

Trabalhar cavalos diferentes fornece uma gama de possibilidades. Cada animal é de um jeito, reage às ajudas de um modo e interage com o ambiente de forma diferente. Quando se monta o mesmo cavalo por muito tempo, o cavaleiro acaba ficando mal acostumado, e Camus não era uma exceção.

Mesmo tendo toda a técnica e teoria e já tendo montado muitos cavalos em sua vida, Camus acabava demorando para se adaptar ao movimento de cada novo animal, Shion aproveitou que o cavaleiro estava sem montaria e o fez montar o máximo possível de animais, chegando a 10 cavalos por dia.

Essa rotina pesada fez o cavaleiro pensar que, se tivesse outro cavalo próprio, poderia seguir montando apenas ele até que Belle Époque se recuperasse. Por mais que gostasse de montar, não via sentido em trabalhar cavalos para que outras pessoas tivessem os resultados, esses pensamentos e o apoio da equipe de veterinários, convenceram o ruivo a começar a procurar um novo parceiro.

Quando finalmente pôde montar Belle Époque, Milo acompanhou o treino. Primeiro rodou o cavalo na guia para dissipar a energia acumulada, após 15 minutos, o cavaleiro montou e realizou um trabalho leve, muito semelhante com a fisioterapia que ele estava fazendo em solo: muito trote, algumas voltas de galope e vários cavaletes ao trote, tudo pensando em readaptar o cavalo à própria rotina. Durante vários momentos do trabalho, o garanhão apresentou comportamentos que geralmente não tinha, como coices e saltos no ar. Nenhum desses movimentos era capaz de tirar um cavaleiro experiente como Camus de sua sela, mas careciam de correções e deram a ele um pouco de trabalho a mais do que o normal.

— Uma semana só de trabalho leve será mais que o suficiente para ele. — O grego acariciou o pescoço do garanhão após o final do treino. — Com toda essa energia, no final da semana ele vai estar implorando para saltar.

— Estava com saudades de montar o meu cavalo, mesmo ele querendo me derrubar. — O francês abraçou o pescoço do cavalo. Camus sempre foi carinhoso com ele, mas muitas vezes não demonstrava tanto na frente dos outros, mas com Milo, ele estava se permitindo mostrar o quanto amava aquele animal. — Mal posso esperar para voltarmos às pistas.

— Acredito que para a próxima etapa da FEI vocês estarão prontos. — Shion entrou na conversa para parabenizar o veterinário. — Meus parabéns, Milo. Você fez um ótimo trabalho com nosso campeão.

Milo estava muito orgulhoso de si. Não que nunca tivesse salvado cavalos com cólica, pelo contrário, mas nenhum era tão importante quando o garanhão alazão de Camus.

Por falar em Camus, ele havia se tornado mais comunicativo. Por várias vezes pedia a opinião de Milo, mesmo que para coisas facultativas, como a combinação das cores de manta.

Milo ficava muito feliz de estar junto ao francês, mas quando parava para pensar, acabava tentando se policiar, sabia o que estava acontecendo e não podia se permitir apaixonar por ele, mesmo que algumas vezes achasse já ser tarde demais. Era muito emocionado mesmo, se conheciam há dois meses, sendo que durante o primeiro pouco se falavam, e agora, como o ruivo resolveu ser grato, Milo havia se debulhado aos encantos dele.

Além do tempo que convivia com Camus, Milo acabava falando sobre ele para os outros. Sísifo já não aguentava mais ouvir como o francês montava bem, como ele tinha uma relação linda com o cavalo, como ele não abaixava a cabeça para o que não concordava.

— Você sabe que está apaixonado né? — O grego mais velho riu durante uma ligação entre os dois à noite. Sísifo conhecia Milo muito bem, desde a época de estagiário, e já havia acompanhado alguns relacionamentos do loiro, sabia que ele se apegava muito rápido. — Meu celular está até grudento de tanto mel que escorre quando você fala dele.

— Não é verdade. — Milo retrucou, apenas não queria aceitar o inevitável. — Eu só o admiro, nada de mais. Fora que, ainda não engoli o que aconteceu em Marselha.

O grego só havia contado do ocorrido na prova para Sísifo, era o único que confiava e que sabia que teria uma opinião sincera e justa. Como ele já esperava, o mais velho o aconselhou a deixar passar, mas fazer o possível para evitar novos eventos do tipo.

— Você admira o Saga. — Ele foi categórico. — Nem por isso fica falando dele o dia todo.

— Eu não falo dele o dia todo, além do mais há boatos que ele namora a amazona japonesa Saori Kido. — Milo deu uma leve bufada após o comentário.

— Ah! Significa que você já foi atrás de saber! — Ele riu pelo telefone e recebeu um "vá à merda" em resposta. Milo podia até querer se enganar, mas não iria enganar o amigo.

Com o final da semana, Belle Époque voltou a saltar, dando como encerrado o período de tratamento sob responsabilidade do grego. Saga estava de volta ao seu posto e Milo deveria voltar a se concentrar em seus cavalos, os quais acabou deixando de lado durante os momentos mais críticos da internação do garanhão.

E com a volta da rotina, a convivência de Milo com o cavaleiro também diminuiu, assim como a comunicação entre os dois. Milo passou a se sentir um idiota por ter acreditado que Camus realmente gostasse da companhia dele e que não convivia com ele só por conta do cavalo.

Muitas vezes Camus apenas respondia o bom dia que o grego no começo do dia e sequer se viam durante o restante do tempo e parecia não fazer questão, o que deixava o loiro especialmente irritado.

— Seu humor está péssimo esses dias, Milo. — Sorento comentou entregando uma caneca de café ao loiro emburrado. — O que aconteceu?

— Eu sei, me desculpem. — Milo não queria demonstrar, mas não conseguia evitar. Ele que sempre era alegre e sorridente, andava quieto e com a cara fechada desde que havia se distanciado de Camus. Ele mesmo estava se incomodando com isso — Problemas pessoais…

— Bem, se pudermos ajudar em algo… — Milo agradeceu, gostava deles, não se sentia confortável ainda para comentar sobre seus sentimentos, mas sentia que caminhavam para isso.

O telefone da sala tocou, algo raro. Milo ainda não havia ouvido o toque do aparelho e se assustou. Mime atendeu rindo da cara do grego, mas logo ficou sério.

— Milo… — Ele continuou ouvindo as instruções dadas do outro lado da linha. — Reunião na sede da federação, agora...

Um silêncio perdurou assim que o acobreado desligou o aparelho. Milo estava estático, o que o alto escalão da federação francesa queria com ele? Encarou os outros dois e achou melhor se levantar.

— Ok... não sei o que querem comigo… — Ele deu um sorriso amarelo e coçou a cabeça. — Espero que não seja nada ruim…

Os outros dois concordaram e o grego saiu da sala. Ele caminhou nervoso até o prédio central do terreno do centro equestre, era de uma arquitetura clássica, provavelmente havia sido um palacete há algumas centenas de anos atrás. Assim que entrou, um secretário o recebeu e o encaminhou até uma sala de reuniões com uma grande mesa oval.

Ao entrar, Milo se surpreendeu ao ver Camus, Saga e Shion de um dos lados da mesa. Imediatamente sua mente passou a formular todos os possíveis motivos para ele ser chamado ali, mas o que mais pesava era o tratamento do cavalo de Camus. Milo estava visivelmente nervoso, os diretores da federação francesa, sentados do lado oposto, o olharam com desdém, ele engoliu seco, se sentou em uma das cadeiras e aguardou, o silêncio pairava e parecia gélido.

Camus estava em pé, de frente para os três homens velhos, em momento algum se virou para a porta. Saga e Shion estavam sentados, um de cada lado do ruivo, após um minuto que, para o grego, pareceram horas, o ruivo voltou a falar.

— Bem, encerrado o assunto sobre os treinadores, podemos continuar com a próxima pauta, certo? — Em momento algum ele desviou o olhar do diretor. — Eu acredito que a escolha de veterinários não caiba a vocês, e sim a mim e minha equipe técnica, que não se opuseram em momento algum.

— O que você acha disso, Saga? — O velho do meio perguntou ao veterinário que ergueu as mãos.

— A escolha é dele. — O loiro olhou para o mais jovem, que sustentou o olhar com confiança. — Pensando em qualificação, não há motivo nenhum para me opor.

— Desde que chegou… — Shion tomou a palavra. — Não houve uma decisão errada ou minimamente duvidosa. E não é como se Saga não continuasse aqui, ele daria todo o suporte necessário.

Milo tinha certeza que o assunto era o ocorrido com Belle Époque, mas não sabia dizer exatamente, achava que a diretoria havia se irritado por ele ter tomado a frente do tratamento, enquanto o veterinário responsável era Saga. O grego estava visivelmente incomodado, estava tenso e apresentava um tremor nas pernas que com certeza era sentido pelos outros presentes,

— Acredito que Milo tenha o direito de saber o motivo pelo qual foi convocado para essa reunião. — Camus disse sério, ainda sem olhar para o grego. Seu olhar fixo no presidente era como uma disputa, a qual o ruivo não iria perder.

O diretor se virou para Milo, parecia um pouco irritado, talvez com a petulância de Camus, ele sempre queria as coisas do jeito dele, isso com certeza gerava atritos. Ao mesmo tempo que não queria sucumbir às birras do cavaleiro, a federação sabia que não podia permitir que ele deixasse a equipe.

— Senhor Laskaris. — O homem à direita do mais velho se dirigiu a Milo com olhar de poucos amigos. — O senhor conduziu o tratamento de um quadro agudo de cólica apresentado pelo cavalo do cavaleiro Camus Trudeau, certo?

Milo apenas concordou com a cabeça. O homem deu continuidade.

— O senhor está ciente de que está aqui para acompanhar o serviço veterinário e que não deve assumir responsabilidade no tratamento de patologias, tendo foco apenas em tratamentos que visem melhorar o rendimento dos cavalos?

Ele engoliu seco, mas concordou novamente.

— Está ciente que, qualquer erro cometido pelo senhor poderia ter retirado um cavalo de altíssimo desempenho de provas de extrema importância, incluindo uma olimpíada?

Antes que Milo pudesse concordar, Saga se interpôs.

— Isso não iria acontecer, eu estava supervisionando. — O mais velho estava perdendo a paciência com toda aquela ladainha. — Se algo acontecesse de errado, eu seria tão culpado quanto ele.

O homem pareceu ignorar a fala de Saga, o que o deixou mais irritado ainda.

— Está ciente que o senhor tem apenas mais 4 meses aqui, não é?

Milo concordou novamente, estava suando frio.

— Tendo em vista o modo como o caso foi conduzido, o cavaleiro Camus Trudeau solicitou… — Ele fez uma pausa, como se esperasse que alguém fosse se opor à sua última fala. — Que o senhor passe a ser o veterinário responsável, exclusivamente, ao atendimento do cavalo Belle Époque e possíveis novos animais que este cavaleiro vier a adquirir, durante o período que permanecer conosco.

Milo abriu a boca surpreso. Camus queria que ele assumisse o posto de Saga? Ele sequer vinha falando com ele, as atitudes do francês não faziam o menor sentido. Milo não se sentia tão bom quando o loiro mais velho, não tinha a mesma experiência. O que ele havia feito por Belle Époque era o protocolo padrão, qualquer veterinário poderia realizá-lo, ele não era especial por isso.

Ele olhou para o francês, que sequer moveu o olhar, em seguida olhou para Saga, buscando algum suporte. O outro loiro sorriu, não parecia preocupado ou incomodado com a solicitação do cavaleiro.

— Está tudo bem, Milo. — Saga disse, tranquilamente. — Eu vou continuar dando suporte, e acredite, não estou triste de não ter mais o Camus me enchendo o saco.

O mais velho riu e o ruivo revirou os olhos, nada havia acontecido entre eles para que Camus tomasse essa decisão. Ele apenas gostou do modo como Milo trabalhou, e o queria só para ele.

— Mas ele é seu… — O grego sabia que ser responsável por um cavalo de nível olímpico é uma grande estrela para o currículo de um veterinário, embora todos trabalhassem em equipe, ser o chefe é algo muito importante.

— Não. — Camus disse, pela primeira vez, se virando para o veterinário estrangeiro. Ele deu um sorriso leve, queria que o grego aceitasse, queria que ele se sentisse seguro para isso — Agora ele é seu.

Ele seguia atônito. Em momento nenhum esperaria que isso lhe fosse solicitado. Seu coração estava disparado, não conseguia formular o que responder. Sentia raiva por Camus não ter falado com ele antes e ao mesmo tempo que estava feliz pois iria se aproximar dele novamente, medo da responsabilidade e de não dar conta e, principalmente, ansiedade pela oportunidade única.

— Esteja ciente que você não é obrigado a aceitar, Milo. — O homem velho, do meio, disse em um ar de desgosto. — Pense que tratar nossos cavalos não é sua obrigação e, principalmente, que você voltará para a Grécia em breve.

— Quando ele voltar, eu assumo novamente como responsável. — Saga voltou a cortar a fala do outro. — Isso não será problema nenhum.

Um silêncio desconfortável perdurou. Todos estavam apenas aguardando a resposta do veterinário grego. Em um suspiro, Milo ergueu a cabeça, olhando diretamente para o diretor.

— Eu aceito. — Ele disse por fim, sério, para que não restassem dúvidas, tanto da parte dele quanto dos presentes.

Saga, Camus e Shion se olharam vitoriosos, estavam felizes, era um grande passo para a carreira de Milo. O ruivo e o loiro mais velho trocaram olhares cúmplices, havia uma certa satisfação em irritar a diretoria da federação.

Geralmente, não é recomendado criar adversidades com quem paga seu salário. Mas qualquer federação equestre não é nada sem seus cavaleiros. Mesmo assim, muitas decisões são tomadas sem a opinião deles, e sem pensar nas consequências para os cavalos, como já havia acontecido, por exemplo, de marcarem provas nacionais importantes menos de um mês após provas internacionais, o que desgastou os cavalos mais do que o necessário e gerou revolta entre as equipes técnicas.

Camus sabia que não negariam uma solicitação dele, não podiam só tirá-lo do ranking ou o desvincular, a perda seria maior para eles do que para o cavaleiro. Os três homens velhos se entreolharam, não tinham opção. Ao fim, se levantaram ajeitando os papéis da mesa.

— Decidido então. — O diretor falou olhando sério para o grego. — Vamos enviar os documentos para você assinar, lembrando que não receberá nenhum valor por parte da federação francesa.

Milo apenas movimentou a cabeça em concordância, não esperava receber a mais de qualquer modo. Antes de saírem da sala, os diretores ainda se dirigiram a Camus.

— A federação não se responsabiliza por eventuais problemas que essa escolha possa trazer para o desempenho do seu conjunto. Esperamos, no mínimo, que o padrão de qualidade seja mantido.

Camus não respondeu, apenas saiu da sala acompanhado pelos veterinários e seu treinador. Ele sabia da competência do grego e iria prová-la para os chefões.

— Fico feliz que tenha aceitado, Milo. — Saga abraçou os ombros do mais novo. — Agora Camus é um problema do Shion e seu, não mais meu.

— Mas quem vai ter que avisar para o loiro oxigenado que o veterinário dele voltou a ser o Sorento é você. — Camus disse simplesmente, lembrando Saga que teria que lidar com a birra de Misty, que já tinha caído de amores por Milo. O mais velho rolou os olhos — Bem Milo, Saga vai te passar todos os protocolos de Belle Époque, amanhã o ferrador vai trocar as ferraduras dele, gostaria que acompanhasse. Agora, se me dão licença, tenho um compromisso em Paris.

Os três o encararam com descrença. Camus ia sair do centro pela manhã para passar o dia na capital? Desde quando ele tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar com seu cavalo? E pior, ele havia jogado a bomba no colo de Milo e iria embora?

— Você vai dirigir sozinho para Paris? — Shion perguntou preocupado, aparentemente todos tinham dúvidas sobre a capacidade do ruivo em dirigir.

— Não. — Ele olhou seco para o treinador. — Saori veio me buscar, eu volto na quinta.

O cavaleiro saiu em direção ao estacionamento onde havia um carro luxuoso aguardando, os vidros eram escuros e não era possível identificar quem estava dentro. Logo que ele entrou, o carro partiu e deixou os três em silêncio observando.

— Hnm… — Saga nada disse, apenas se voltou para o grego que estava com cara de poucos amigos. Riu. — Vamos, tenho muitos protocolos para te passar!

— Vocês já sabiam. — Foi uma afirmação, mas os dois mais velhos concordaram com Milo. Ele não estava chateado com o colega ou o treinador, mas não entendia o motivo do mistério. — Por que não me falaram nada?

— Era algo que cabia à diretoria. — Shion que respondeu. — Nós não negaríamos a troca, em momento algum, todos sabemos da sua capacidade. Mas não queríamos gerar uma expectativa que não poderia não ser cumprida.

— Camus poderia ter perguntado a você, se tinha interesse ou não. — Saga deu de ombros. — Mas ele gosta de surpresas impostas.

Por mais que parecesse não ligar, Saga já havia notado como a relação entre os dois havia mudado e mudado novamente, já há algum tempo, percebia olhares diferentes da parte de Milo e o mal humor repentino dos últimos tempos. Não queria que o grego se frustrasse caso Camus não correspondesse aos seus sentimentos, coisa que já havia acontecido várias vezes.

Os veterinários se despediram do treinador e foram para a sala. Sorento não ficou muito feliz de voltar a ser responsável pelo cavalo de Misty, mas ficou feliz pelo grego. Saga passou algumas horas explicando tudo que era feito no cavalo de Camus, desde a rotina de treinos, ferrageamentos e fisioterapia até as frequências de ultrassom terapêutico utilizadas, tudo estava perfeitamente documentado por exigência do ruivo.

— É muita coisa, eu sei. — Saga riu da cara de desespero de Milo. — Mas você vai pegar rápido.

— Acho que quando eu conseguir lembrar da maior parte, já vai ser hora de voltar pra Grécia. — O grego suspirou, onde estava com a cabeça, era lógico que seria muito mais difícil cuidar só do Belle Époque do que de Ego e Fígaro juntos. — Camus é muito exigente né?

Milo parou olhando para o nada por um tempo, tinha muita informação para absorver. Por um segundo, se lembrou da fala de Camus assim que estou na sala de reuniões.

— O que ficou decidido sobre os tratadores? — Milo perguntou ao mais velho que estava colocando café em uma xícara. Sorento e Mime pararam de fazer suas atividades para prestar atenção também.

— O tratador que cometeu o erro foi transferido. — Saga voltou a se sentar em sua cadeira, tomando seu café tranquilamente. — O tratador de Camus voltou e está responsável por treinar um novo funcionário que irá dividir a responsabilidade com ele.

— Achei que seria mais dramático. — Mime comentou. — Ainda mais por ter envolvido o Belle Époque, achei que Camus ia querer a cabeça de Nachi.

— Ele até queria. — O mais velho concluiu. — Mas Shion conseguiu apaziguar os ânimos e ele só precisa ficar bem longe do Camus e do cavalo dele.

Milo seguiu estudando todos os protocolos até o final do dia e como Camus não montou, Belle Époque passou o dia no piquete, apenas retornando ao escurecer. Assim que o tratador avisou que ele já havia retornado, o grego se levantou para visitá-lo. Como os outros veterinários já haviam ido embora, Milo fechou a sala e voltaria ao alojamento em seguida.

— Olá, Grandão. — Desde o início, sentia um apego enorme ao cavalo, o que só aumentou com os últimos acontecimentos. O garanhão buscou por ele esticando o pescoço para fora da baia. — Eu que vou cuidar de você agora, embora você já deva saber disso antes de mim…

Ele riu com o comentário, com certeza Camus já havia informado o cavalo sobre a troca, assim como Saga e Shion já sabiam antes. Apenas o maior interessado não estava sabendo.

— Seu dono é muito complicado. — Ele entrou na baia para vistoriar os membros do cavalo, garantir que ele não tivesse nenhum ferimento feito no piquete. Belle Époque por sua vez, insistia em receber carinho, buscando pela mão do grego, até que identificou algo de interessante no casaco dele. — Não roube! Eu te dou a maçã, agora eu posso fazer isso sem correr riscos.

Ele mastigou toda a fruta com facilidade. Milo se apoiou nas costas do cavalo, aproveitando do calor que ele emanava, mesmo tendo ficado o dia todo ao ar livre, não estava empoeirado e tinha um leve cheiro do shampoo do banho anterior.

— Sabe, por mais que eu esteja com raiva dele… — Começou a se abrir, como se o cavalo fosse lhe dar algum conselho valioso e que só ele pudesse oferecer. — Estou feliz que ele tenha me escolhido, não acho que foi apenas pelo seu tratamento, Saga poderia ter feito o mesmo. Mas acho que, de alguma forma, ele gosta de mim…

O cavalo estava parado, permitindo o contato do homem. Apenas esticou o pescoço para bocejar e mastigou depois, eram sinais de conforto e relaxamento, ele ficava confortável na presença do loiro.

— Ou ele só perceba que você gosta mais de mim do que do Saga… — Ele soltou um riso leve. — Eu sei que sou mais legal mesmo.

Ele se moveu e empurrou o grego, se ajeitando para deitar na maravalha fofa. A cama dele era trocada todos os dias, independente de estar muito suja ou não, além de ter pelo menos 25 cm de altura, eram exigências de Camus. Ao se deitar, ele voltou a esticar o pescoço, buscando por carinho.

— Você é um mimado. — Ele se sentou ao lado do cavalo, que apoiou a cabeça no colo de Milo. — Você com certeza sabe o que ele pensa. Ele fala de mim para você? Por que, com você ele fala.

Havia ressentimento na voz de Milo. Ele havia se permitido gostar de Camus, e ele o desprezou, mas seu sentimento não deixou de existir, mas agora ainda mais confuso. Ficou um tempo em silêncio, perdido em seus pensamentos.

— Está decidido! — Ele falou um pouco mais alto, fazendo o cavalo levantar a cabeça e olhá-lo assustado. — Eu sou seu veterinário, funcionário dele. Vou tratar você como deve ser tratado, mas não vou mais criar expectativas e esperar sentimentos da parte dele. Dono e veterinário, é só o que somos e continuaremos sendo.

Milo se levantou, com cuidado para não fazer o cavalo se levantar também. Retirou a maravalha que ficou presa em sua calça e foi em direção à porta da baia.

— Bonne nuit, Grand Garçon, à demain.

Ele deixou o cavalo e foi para o alojamento. Ligou para Sísifo após tomar banho para contar a novidade, o amigo ficou feliz, levemente preocupado com a responsabilidade que Milo teria e, como sempre, se ofereceu para ajudar com o que fosse possível, embora ele não precisasse. Milo também contou sobre sua decisão de se afastar emocionalmente do cavaleiro e, nesse ponto, Sísifo foi cético, seria difícil e Milo iria sofrer, mas se era o que ele queria e achava melhor, que assim fosse.

O loiro ainda demorou para dormir, pensando em todas as decisões que havia tomado naquele dia. Pensou também que Camus deveria estar por Paris, com a japonesa, sentiu raiva dela, dele e de si próprio por estar fazendo justamente o que disse que não faria. Definitivamente não seria fácil.

Acordou mais cedo do que gostaria, fez café e saiu antes dos demais. Estava começando a esfriar, o que não ajudava no humor do grego que não era o maior fã de frio. Foi direto para as cocheiras. Belle Époque já havia recebido a alimentação da manhã e agora comia feno de uma bola que o tratador havia pendurado em sua baia.

O cavalo lutava para retirar os fios de feno do objeto que ia de um lado para o outro, mas parecia se divertir. Milo riu e ficou com pena de retirá-lo de seu divertimento, mas precisava levá-lo para à área de ferrageamento. Entregou-lhe uma maçã para compensar.

O ferrador era um veterinário brasileiro chamado Aldebaran, ele havia ganhado fama na Europa pela qualidade de seu trabalho. Chegou pouco tempo depois de Milo ter posicionado o garanhão.

Belle Époque sempre era o primeiro a ser casqueado, seguido pelos outros cavalos do time principal e cavalos reserva. Assim como em tudo, ele não dava trabalho algum durante o procedimento, o que o tornava rápido. Milo se lembrou do dia que acompanhou Fígaro e como o cavalo deu trabalho a ele e ao colega.

— Olá Aldebaran, bom dia! — Ele se esforçou para ser simpático e foi ajudar o recém chegado a descarregar o material do carro. Gostava de Aldebaran, só estava com o pior temperamento de todos os dias até então.

— Olá Milo! — O homem tinha quase dois metros de altura e era muito forte, ele abraçou o grego, quase o tirando do chão, Saga chegou nesse momento e riu da cara do grego sendo amassado. — Não esperava vê-lo tão cedo!

— Milo é o novo escravo do Camus. — O loiro mais velho explicou com um sorriso satisfeito no rosto, ele apertou a mão do brasileiro. — A partir de agora, sempre que tiver algum problema com o Belle Époque, procure ele.

O grego sorriu sem graça, ele tinha uma leve sensação de que Saga ficava feliz por saber o sofrimento que o aguardava. Quase caiu quando o brasileiro deu um tapa em suas costas.

— Isso é incrível, Milo!. Não é qualquer um que cuida desse cavalo, parabéns! — Ele parecia genuinamente feliz — Mas não deixe o Camus abusar de você, ele é uma boa pessoa, mas metódico de mais em algumas situações.

— Obrigado… — Milo não tinha muita certeza se agradecer era algo bom. — Eu acho…

Com todo o cuidado que Camus cobrava sobre o cavalo, a ferradura estava sempre impecável, não havia muito o que corrigir, apenas retirar os excessos do casco e recolocar. Em pouco tempo, Milo já havia levado o cavalo de volta à baia.

Ao sair das cocheiras, ele encontrou Misty, que vinha da área de ferrageamento.

— Olha só, o ingrato! — Ele disse com um sorriso sarcástico. — Feliz sendo o novo brinquedinho do ruivo?

— Não fale assim, não foi uma escolha fácil. — Suspirou, tá aí uma pessoa que ele não queria encontrar. Milo tinha gostado de trabalhar com o cavalo de Misty e, embora tenham tido um pouco de dificuldade no começo, havia se acostumado a trabalhar com ele. Tinham chegado a um pódio com pouco tempo de trabalho, poderiam crescer juntos, mas era uma oportunidade que não podia deixar passar. — Foi bom trabalhar com você, eu só… Não podia negar essa oportunidade.

— Sei. — Ele cruzou os braços, fazendo biquinho e aproximando o rosto do grego, que ficou estático e respirou fundo algumas vezes — Sabe, eu posso ser muito melhor que o Camus em muitas coisas: Como chefe, como amigo… Na cama…

Ele disse as últimas palavras em um sussurro no ouvido de Milo, seguido por um levíssimo toque da ponta da linha no lóbulo da orelha do grego, que engoliu seco, perdendo a compostura.

Em um impulso, Milo segurou o braço esquerdo de Misty com força, o puxando para fora do campo de visão de quem estivesse passando pelas cocheiras e prensou o menor contra uma parede usando o próprio corpo. Os rostos ficaram perigosamente próximos.

— Não brinque com o que não vai conseguir controlar, Misty… — Milo sussurrou, sua respiração quente no pescoço alvo do menor o fazia arrepiar. O francês não esperava essa reação de Milo e ficou totalmente entregue, a pressão entre os corpos o fez amolecer, o corpo do grego era firme, torneado e quente.

Milo colou os lábios em um beijo urgente e que não tinha a menor intenção de ser bom. Ele invadiu a boca do menor com a língua, sem resistência, e não deu espaço para que ele tivesse alguma participação. Ele apenas precisava descontar sua frustração em alguém e Misty cruzou uma linha perigosa.

Quando o grego separou os lábios e os corpos, saiu, deixando Misty sozinho. Ele escorregou pela parede até se sentar, estava completamente corado, com os lábios vermelhos e com a respiração descompassada.

— Misty? Está tudo bem? — Sorento encontrou o loiro totalmente desequilibrado no chão, ficou preocupado, ele poderia ter tido uma queda de pressão ou um mal súbito. Ele se abaixou para ajudar o outro, que negou o auxílio.

— Eu estou ótimo, Sorento. — Ele respirou fundo e respondeu ao se levantar. Felizmente o moletom que ele usava ia até um pouco acima da metade das coxas, pois o culote apertado não ajudava em nada a esconder a ereção que ele apresentava. — Mais do que ótimo!

Ele se recompôs e, com um sorriso pervertido, saiu na direção oposta ao grego, sem dizer mais nada, deixando o veterinário de cabelos cinzas sem entender.

Notas finais
Resistências são comportamentos que os cavalos apresentam quando não querem realizar algo que lhes foi solicitado pelo cavaleiro. Podem ser simples, como não fazer uma curva ao comando, ou mais complexas, como um coice ou refugo. Em caso de não correção, podem desenvolver vícios o que afeta a vida atlética do animal. Bem, é isso. Não pretendo explorar muito mais esse micro relacionamento entre o Milo e o Misty, fiquem tranquilos, foi só um surto de tesão acumulado. No próximo capítulo o Camus volta de Paris e aí a vida do Milo vira um inferno, haha. Espero que tenham gostado, como sempre, estou a disposição para duvidas, sugestões e críticas! Até mais!