O Número um da França
16 Exame de Compra
Notas iniciais
O ano começou com sol, a neve começava a derreter e as cores voltaram a aparecer. O canto dos pássaros voltava a ser a base da trilha sonora do centro equestre federal, que se associava ao som de relinchos e ferraduras.
O movimento voltava, com os cavaleiros reatando os treinos para as provas fortes do início do ano e, principalmente, o grande evento esportivo mundial: A olimpíada. Após a pequena folga, os treinos começavam leves, mas com a liberação da pista de cross country, logo Shion teria que fazer uma escala para que todos conseguissem treinar.
Todos estavam animados, embora alguns ainda de ressaca do ano novo. Milo havia voltado para o centro na manhã anterior, após passar a virada do ano com Camus. Haviam passado dois dias convivendo, aproveitando o máximo um do outro, tinha certeza que poderiam viver assim para sempre.
O dia do grego havia começado auxiliando Saga com a checagem de todos os cavalos da equipe antes de voltarem aos treinos. Era rotina, após algum tempo parados, os cavalos eram rodados e avaliados pelos veterinários, para evitar qualquer possível lesão.
Também ajudou Shion a montar uma pista de exercícios de fisioterapia, que seria o primeiro treino de todos. Começando com Olga e Ego, que fizeram trinta minutos de um treino muito calmo e cadenciado. Após, Cardon e Lioness também realizaram seu trabalho, sem muita dificuldade.
Sorento ainda não havia retornado de Paris, um de seus filhos havia ficado doente e ele precisou ficar mais tempo na cidade, então Milo iria acompanhar o treino de Misty para ajudar o colega. Estava aguardando o cavaleiro chegar na frente da baia de Fígaro.
— Bonjour, Milô. — Camus chegou primeiro, cumprimentando o grego com um aceno de cabeça e um sorriso leve.
— Bonjour, Camus. — Milo sorriu aberto, queria mesmo era abraçá-lo, sentir o gosto dos lábios que já o faziam falta.
O ruivo foi até a baia de seu cavalo, que o recebeu pedindo por carinho. Continuou conversando amenidades com o grego, até ser interrompido pelo outro cavaleiro, que impôs sua presença.
— Hello, Milo!! — Misty abraçou o pescoço do grego e depositou três beijos em suas bochechas, inesperadamente, o deixando desconfortável. Não era algo que costumava fazer, mas queria provocar Camus e, havia notado há algum tempo que, se insinuar para o grego era um bom modo de incomodar.
— Er… Olá Misty… — Milo corou, procurando o olhar do aquariano, esperando não ser repreendido, mas o outro apenas virou os olhos e balançou a cabeça. — Está atrasado.
— Uma diva nunca se atrasa, Milô. — Ele forçou o sotaque, enquanto montava seu cavalo. — Você vai me acompanhar, não é? Como nos bons tempos.
Suspirando, Milo acompanhou o cavaleiro, não sem antes se desculpar com o ruivo, que apenas sorriu leve em resposta. O treino não foi tão tranquilo quando os demais, Fígaro estava com muita energia e deu trabalho ao cavaleiro, não aceitando fazer os exercícios nas andaduras solicitadas.
O cavalo insistia em tentar passar os cavaletes de trote ao galope, fazendo Shion bufar diversas vezes, assim como corcoveava e coiceava, extravasando energia. Embora tivesse tido alguma dificuldade, Misty havia melhorado sua montaria, conseguindo corrigir e realizar o que era proposto.
Como o treino do outro cavaleiro demorou, Camus entrou na pista antes do fim. Tomando a atenção do veterinário para si, o que não deixou Misty feliz.
— Heeey, vocês vão ter tempo para namorar depois do meu treino. — O cavaleiro loiro colocou seu cavalo na frente do veterinário, impedindo a conversa entre ele e o ruivo.
Milo suspirou, encarando o cavaleiro mais novo com descrença, não por ele estar expondo o relacionamento dele com Camus, até porque ninguém sabia, mas sim por ele estar questionando seu trabalho.
— A presença do veterinário tem a função de dar suporte ao cavalo nos exercícios. — Camus falou sério com o outro. — Você tem que conseguir cumprir seu treino sem colocar seu cavalo em risco. Se o veterinário não pode tirar os olhos de você, significa que você é um risco para o animal.
— Vamos Misty! — Shion entrou na conversa para evitar maiores discussões. — Você tem três exercícios ainda e já está atrasado.
Contrariado, o cavaleiro mais novo deu as costas para o capitão, voltando aos seus afazeres. Quando ele terminou, Milo seguiu na pista, para acompanhar o treino de Camus.
Como esperado, o ruivo não apresentou problemas para realizar os exercícios. Belle Époque se manteve calmo e relaxado, trabalhando a coluna exatamente como o veterinário tinha planejado quando formulou a pista de cavaletes.
— Excelente trabalho, Camus. — Shion não era de elogiar, mas sabia reconhecer quando seus cavaleiros faziam a parte deles. — Dê uma volta no exterior com ele, sim? Vocês serão os primeiros na pista de cross, é bom para ele se lembrar.
O cavaleiro apenas concordou, saindo da pista. O treinador e o veterinário ainda discutiram sobre o trabalho de ambos os cavalos antes de voltarem para as baias, chegaram à conclusão que Fígaro precisava de pelo menos mais alguns dias desse trabalho básico para voltar a atividades mais intensas, então Misty seria o único que não treinaria no exterior nesta semana. Com certeza ele não ia gostar nada de saber.
Milo voltou para a sala dos veterinários, encontrando Saga e Mime. Ambos planejavam os calendários de provas dos cavalos.
— Ego vai para Versailles, Dubai, Amsterdã e Paris no primeiro semestre, depois vai ter um tempo de folga e volta para os ranking em Oslo, Bruxelas e Viena, termina o ano com as provas estaduais em Nice e Lyon, certo? — Mime passava as páginas de um calendário de mesa, anotando as datas de cada prova.
— Provavelmente o Fígaro fará o mesmo, a depender de como ele se sair nos treinos antes de Versailles… — Saga apenas apontou para a cafeteira cheia quando o grego entrou. — Recebemos o regulamento para a olimpíada. Serão 3 cavaleiros no time, não mais quatro.
— O que houve para mudarem? — Milo se serviu do café, sentando em sua cadeira em seguida. Havia dois documentos em sua mesa, o primeiro era o regulamento olímpico e o segundo a previsão de calendário para o ano de Belle Époque.
— Não sei, mas achamos que é por conta da quantidade de baias no palácio. — Mime respondeu, ainda olhando para o calendário. — Vamos ter que repetir os exames de todos no fim do mês.
Seguiram conversando e fazendo o planejamento para as provas, essa parte burocrática era novidade para o grego, uma vez que o comitê grego já os entregava o calendário pronto e os veterinários que se adequavam a ele.
Camus entrou na sala, sem muita cerimônia, pouco depois, chamando a atenção dos três. Parecia ansioso, mas animado. Milo vinha se acostumando com as poucas expressões dele e já passava a reconhecê-las.
— Saga, Milô. — Ele parou à frente da mesa de ambos. — Vocês têm algum compromisso amanhã? Podem ir comigo avaliar alguns cavalos?
Ele não teve uma resposta imediata, os veterinários entraram em um pequeno choque com esse convite. Camus realmente estava procurando outro cavalo para si.
— Acredito que Mime e Sorento consigam cuidar das coisas por aqui, não é? — Saga perguntou para o colega de cabelos cor de cobre, que confirmou com um aceno de cabeça e um sorriso. — Para onde iremos?
— Nantes. — Milo fez uma cara de desgosto ao descobrir o destino do dia seguinte. — Recebi uma oferta de um haras de lá, são criadores de Hanoverianos, não sei se vou gostar, mas acho que é válido a visita.
Saga concordou. Era protocolar que o veterinário responsável pelos demais cavalos do cavaleiro acompanhasse processos de compra mas, por se tratar de Camus, o veterinário chefe da equipe também podia ser solicitado.
A realidade era que Camus confiava plenamente no trabalho de Milo, mas a presença de Saga o passava uma tranquilidade que o grego ainda não era capaz de transmitir. Além disso, sentia que o mais novo também precisava da presença dele.
Sairemos cedo, são quase quatro horas de viagem, quando chegarmos vão nos mostrar os cavalos que separaram para mim, a depender se eu gostar e de qual, irei montar e, estando tudo certo, preciso do exame de compra. — O ruivo completou, se voltando para o grego, como se esperasse alguma resposta dele.
— Ok. Deixarei todo o material separado. — Foi a primeira vez que Milo se pronunciou.
O cavaleiro agradeceu, deixando a sala. Houve um silêncio, para então Milo se pronunciar.
— É, estou ferrado… — Ele se apoiou no encosto da cadeira. Camus ter dois cavalos significava que ele teria o dobro de trabalho, seria um final de intercâmbio bem corrido. Os outros dois veterinários apenas riram, embora se comparecessem do colega, não seria nada fácil.
Milo quase não dormiu naquela noite. A ansiedade com a viagem do dia seguinte o fazia rolar na cama, pensando em todas as possibilidades de dar errado e, pior ainda, revivendo momentos ruins do intercâmbio que achava que já estavam superados.
Só conseguiu dormir após as três da manhã, e se amaldiçoou quando o despertador tocou uma hora e meia depois. Se levantou mal humorado, vestiu o uniforme da federação francesa, blusa do pijama cirúrgico, calça jeans e casaco, fez seu café e ovos mexidos, comendo rápido e foi em direção às cocheiras.
O material do exame de compra já estava no trailer, então iria só revisar e avaliar o garanhão do ruivo enquanto os outros não chegavam. Belle Époque estava dormindo, deitado de lado na maravalha fofa. O grego teve pena de acorda-ló, mas era melhor garantir que estava tudo bem.
Falando em voz baixa e calma, ele abriu a porta da baia, o que fez o cavalo erguer a cabeça e voltar a se deitar logo que identificou quem entrava em seu quarto.
— Você é muito folgado. — o cavalo sequer se moveu enquanto o veterinário o palpava. Se ele pudesse dizer, com toda certeza estaria xingando Milo por o ter acordado tão cedo. — Tudo bem, vou te deixar dormir.
Saiu da baia a tempo de encontrar Shion entrando pela grande porta das cocheiras, também não parecia muito animado de ter acordado.
— Bom dia, Milo. — Deu dois tapas leves no ombro do grego, seguindo seu caminho em direção à própria sala. Como iria viajar, seu auxiliar ficaria responsável pelo treino dos demais cavaleiros, queria garantir que tudo estivesse certo.
Saga não demorou a chegar, também encontrando o grego no meio do corredor. Sorriu e lhe ofereceu café, ambos foram até a sala dos veterinários garantirem que tudo estava organizado.
— Preparado para ter um segundo cavalo, Milo? — Saga observava alguns papéis, os separando em duas pilhas diferentes, enquanto o grego apenas observava o dia começar a clarear pela janela.
— Bem… você dava conta de cinco. — Sorriu sem graça, não podia reclamar. — No começo eu cuidei de dois também, acho que dou conta.
— Mas não eram dois cavalos do Camus. — Ele riu, deixando o outro mais preocupado sobre o próprio futuro. — Espero não voltar muito tarde, Kanon tem um evento e quer que eu o acompanhe.
— Evento de psiquiatras? — O mais novo riu, ao ter sua pergunta confirmada com um aceno de cabeça pelo outro. — Divertido
Recebeu apenas um “uhum” irônico como resposta. Camus chegou faltando pouco para o horário previsto para saírem. Uma vez que estavam todos lá, Saga começou as coordenadas.
— Bem, tudo pronto, eu vou com Shion no trailer e vocês vão de carro. — Ele já entrava no veículo, se virando exclusivamente para Shion antes de continuar. — Camus já me passou o endereço e já está no GPS.
— Nos vemos lá! — Milo acenou quando o veículo saiu.
O trailer, ou melhor, um dos trailers da federação francesa, tinha espaço para um único cavalo e era usado exclusivamente para levar animais para hospitais externos ou para eventos como esse, de compra. Ele era semelhante a um motorhome, com uma cabine de dois lugares na frente e o espaço para o cavalo com cocho de água e feno atrás. Totalmente equipado com câmeras, o motorista podia acompanhar a viagem do animal sem maiores problemas.
Milo, como sempre, dirigiria o carro do francês. Já havia se acostumado com aquilo. Saíram juntos, mas não demorou para que o veículo mais leve ultrapassasse o trailer. Camus observava o caminho, em silêncio.
— Desde quando está procurando por outro cavalo? — O grego finalmente se pronunciou, olhando rapidamente para o homem ao seu lado.
— Desde que Belle teve cólica. — o francês respondeu sem tirar os olhos da janela. — eu sei que é importante poder treinar enquanto ele descansa. E com dois cavalos consigo treinar duas modalidades no mesmo dia.
— Com certeza vai ser bom para você. — Milo sorriu. O ruivo estava nervoso, tinha medo das coisas darem errado como antes, mas o grego estava ali para apoiá-lo, pelo menos por enquanto. Ele colocou a mão direita sobre a coxa do outro. — Vamos cuidar deles.
— Sim. — ele sorriu, olhando para o loiro pela primeira vez. — Você ficou incomodado quando disse que iríamos para Nantes, não tem boas lembranças do intercâmbio?
O maior se ajeitou no banco, era um assunto desconfortável. Havia aprendido muito em seu intercâmbio, mas quando as questões de convívio, não teve a mesma sorte.
— Foi um período muito importante, consegui me desapegar um pouco dos meus pais, tive que me virar sozinho em um país diferente, cresci e aprendi muito.- Sorriu sem graça. — Mas não fiz muitas amizades… talvez até alguns atritos.
Camus não respondeu, apenas continuou olhando para ele, esperando que continuasse.
— Ah, bem, você sabe, eu sou uma pessoa comunicativa, não é difícil fazer amizade comigo… — Milo esperava que ele se contentasse com sua resposta anterior, mas não foi o que aconteceu. Provavelmente ele queria saber mais sobre si, assim como o contrário. — Mas eu não falava francês bem no começo e, acho que pela minha beleza exótica, alguns colegas se sentiram ameaçados.
— Um tanto narcisista? — O francês riu. Não podia negar que ele era extremamente bonito, o corpo era modelado, os músculos eram muito bem definidos, a pele bronzeada, os cabelos loiros eram sedosos e brilhantes, além dos olhos azuis como os mares gregos. E tudo isso era seu agora, ele corou ao sentir seu baixo ventre formigar. — Você tem todo o estilo de quem pegou metade da faculdade.
— Haha, até que não. — Milo também sentiu seu rosto esquentar, era estranho falar sobre seu passado de “pegador” com Camus, tinha receio de ele se incomodar com algo. — Eu sou tímido em lugares novos, demorou um pouco para me soltar.
— Não gostavam de você por ser bonito? — Milo só queria que o ruivo dormisse e parasse de fazer perguntas. Mas acabou por aceitar contar sua história.
“Eu cheguei no começo de setembro, não conhecia ninguém aqui, vim com a carta de aceite, a recomendação dos professores e um sonho. Ficaria no dormitório da própria faculdade, então cheguei um dia antes para organizar minhas coisas. Tive prazer ou desprazer, depende do ponto de vista, de ser o único intercambista do meu ano, o que fez com que todos olhassem apenas para mim quando o professor me anunciou na primeira aula.
No começo eu precisava gravar as aulas para ouvir depois e tentar traduzir o que era dito, eu aprendi francês sozinho, não tinha com quem praticar na grécia, conversação não era meu forte. Mas meus colegas não pareciam se importar muito com isso, pouco falavam comigo e quando falavam e eu pedia para que falassem mais devagar pois não havia entendido, saim rindo.
O primeiro mês foi frustrante, eu me amaldiçoava por ter escolhido passar por aquilo, mas tentava de todo modo colocar na cabeça que valeria a pena. Com esse intensivo de francês, eu comecei a me comunicar melhor e até falava com alguns colegas de classe.
Quando comecei a ser suportado, por assim dizer, comecei também a me destacar nas aulas práticas, muitas vezes conseguindo fazer coisas que os outros alunos tinham dificuldade. Fiz estágios com o Sísifo desde o primeiro mês de faculdade, eram pelo menos 4 anos manejando cavalos todos os dias, não tinha culpa que eles não sabiam.
Mas foi aí que algumas provocações passaram a ficar mais agressivas. Eu nunca fui de brigar, mas dei um soco na cara de um garoto depois que ele me mandou voltar para o meu país para não “sujar” o sangue francês com a minha cor de pele. Olha que eu sou europeu ainda, imagino o que passam os alunos de outros continentes.”
Milo sorriu sem graça, nunca havia comentado sobre suas dificuldades no intercâmbio com outra pessoa que não Sísifo, e falar sobre isso com um francês era ainda mais estranho.
— Infelizmente existe uma ideia de superioridade de sangue, que vem voltando a se tornar perigosamente forte, tanto aqui quanto em outros países… — Camus abaixou os olhos, como se sentisse vergonha pelos atos de seus conterrâneos. — Isso aconteceu muitas vezes?
— Infelizmente sim… — Milo mantinha o olhar na estrada. O ruivo sussurrou um “sinto muito” antes do grego continuar sua narrativa.
“O ápice foi quando alguns outros intercambistas, de outros cursos, me convidaram para uma festa. Uma festa universitária, as pessoas vão lá para curtir, beber e ficar de boas, por que não ir? Eu fui, ficamos em um grupinho de estrangeiros, aproveitamos a maior parte da festa como deveria ser, mas quando uma parte se dispersou, uma garota veio falar comigo. Não era da minha turma, eu não a conhecia, era muito bonita e estava se insinuando para mim, achei que não haveria mal em aproveitar.
Ficamos, bebemos e em algum momento ela me perguntou se eu não queria ir para a casa dela, eu até relutei, mas claro que não ia negar uma transa, ainda mais depois de uns meses na seca.
Percebi que tinha caído em uma emboscada quando estávamos saindo e uns caras da minha turma apareceram com outros caras. Descobri que a garota era namorada de um deles e que tudo aquilo foi uma encenação para “me dar uma lição”.
— Eu apanhei. — O grego disse rindo. — Mas eles apanharam também e mais do que eu. Felizmente, o fato de eu ser “exótico” me fez um pouco mais forte do que o francês padrão.
— Isso não é motivo para rir! — Camus até tentou repreendê-lo, mas acabou rindo também.
“Eu cheguei no dia seguinte com um olho roxo e alguns outros hematomas, o coordenador de internacionalização veio falar comigo, querendo saber o que havia acontecido, mas com medo de perder meu intercâmbio, acabei não falando a verdade.
Depois disso eu meio que não me importava mais, eles não me incomodavam tanto, talvez ficaram com medo de outra surra. Eu só apertei o botão do foda-se e aproveitei o resto do tempo que tinha: estudei muito, afinal estava lá para isso, mas também fui em muitas festas e fiquei com muita gente.
Mas não fiz tantos amigos, as únicas pessoas a quem me apeguei foram os outros intercambistas, tinha um indiano, chamado Shaka, foi meu melhor amigo aqui. Ainda temos contato, ele trabalha em um centro de reabilitação de elefantes.”
— Foi uma grande experiência vir para a França, mas a primeira impressão é a que fica e bem, os seus conterrâneos não me deixaram impressões muito boas.
— Sinto muito por isso… — Foi a vez do francês tocar a perna do grego em sinal de apoio. — Mas por que optou por voltar?
— Na verdade, não tive escolha. — Riu, nunca teria escolhido voltar para a França se lhe tivessem dado opção. — Quando soube que me mandariam para cá eu disse que preferia ir para a Inglaterra.
— Nossa, não. — Camus riu alto, se controlando pouco depois. — Inglaterra não.
— Em minha defesa nunca tinha ido para lá. — Milo também riu, concordando com a indignação do francês, definitivamente não era um lugar onde ele gostaria de ficar por seis meses, muito chuvoso e nublado.
— Mas agora… está sendo bom? — Algo dentro do ruivo o fez perguntar, mas tinha medo da resposta.
— O que você acha? — Ele respondeu irônico. — Tirando o fato de eu ter que ser motorista de um cavaleiro mimado, até que está sendo legal.
— Só legal? — O ruivo fingiu indignação, com um sorriso aberto. — A verdade é que eu só precisava mesmo de um motorista, seus trabalhos como veterinário são só um a mais, os serviços fora do centro então, são todos por sua conta.
— Ah é? Vou lembrar disso da próxima vez que você me chamar para dormir na sua casa. — Milo sorria em sinergia à alegria do outro, como era bom ver Camus assim, tranquilo, aberto, tão diferente do que era com as outras pessoas.
— Eu nunca te chamei para dormir em casa, você não tem provas disso. — Ele fingiu seriedade, segurando um riso com a indignação do grego.
— Filho da mãe… — O loiro riu, soltou uma das mãos do volante para segurar a mão do francês, levou-a aos lábios e depositou um beijo leve nas costas. — Eu agradeço por terem me obrigado a voltar para cá.
Camus corou, ainda não havia se acostumado com os atos de carinho repentinos do maior, ainda não se sentia digno de tais, mas gostava de recebê-los.
— Ah, eu tenho o nome do veterinário que vai nos receber… — Camus pegou o celular, buscando por algo. — Jean Luc Lebegue… Te lembra algo?
— Hnm. — A cara de desgosto do grego deixou claro que o conhecia. — Mas podia ser pior, esse levou só alguns socos…
Ambos riram e continuaram conversando até o francês dormir e Milo finalmente ter seu silêncio de volta. Sorriu, estavam quase chegando, não seria fácil, mas estava com Camus, isso o dava muita força.
Desviaram da estrada, entrando em uma região com diversos haras e maneges. O GPS os levou até um grande portão, com os escritos “l'Ormeau”, era um haras famoso na criação de cavalos para hipismo completo. Assim que ele parou o carro à frente do portão, ele se abriu.
— Camus, chegamos… — O grego tocou o ombro do francês, para acordá-lo. A tensão em sua voz era quase palpável.
Foram recebidos por dois homens, um de pele muito clara, tal qual a de Camus, cabelos escuros e porte físico mediano o outro, loiro, de olhos escuros e um pouco mais forte. Ambos foram em direção ao cavaleiro assim que ele fechou a porta do carro.
— É um imenso prazer tê-lo em minha criação, Camus! — O moreno foi o primeiro a se pronunciar, ele apertou a mão do ruivo com uma animação exacerbada, indo em direção ao veterinário para se apresentar. — Muito prazer, sou Henri L’Ormeau. Espero que tenham feito uma boa viagem.
— Esperávamos ansiosamente por vocês. — Foi a vez do loiro se apresentar. — Eu sou Jean Luc, veterinário responsável pelo haras.
— Meu braço direito, se posso dizer. — Henri riu, dando dois tapas nas costas de seu funcionários.
— Este é Milo, veterinário responsável pelos meus cavalos. — Milo estendeu a mão para se apresentar ao colega de profissão, que pareceu chocado ao vê-lo.
— Eu conheço você! — Jean Luc disse, até alto de mais. — Você estudou comigo, por… seis meses, era intercambista, não é? É muito bom encontrar colegas da faculdade!
— Sim… — Milo não era muito bom em esconder seu desgosto, sorriu forçado ao ser abraçado pelo outro, em um sinal de intimidade que eles nunca chegaram nem perto de ter. — Muito bom mesmo.
Camus segurou um riso. Ele poderia ter se arrependido de tudo o que fez na faculdade, mas era muito mais provável que só estava tratando o grego bem por ele estar ligado ao cavaleiro.
Para o alívio de Milo, o trailer com Saga e Shion chegou logo após, o permitindo evitar maiores conversas com o colega. Assim que desceram, foram igualmente apresentados por Camus e todos se dirigiram a um galpão, onde os cavalos seriam apresentados.
Era um galpão grande, com uma pista coberta elevada e um espaço amplo. Provavelmente era onde eram realizados os leilões, hoje havia apenas uma mesa circular, bem centralizada à pista, com quatro cadeiras confortáveis.
Enquanto todos se dirigiam à mesa, o veterinário local se aproximou do grego. Milo, que já não era o mesmo da faculdade, ergueu o queixo, mantendo o olhar alto. Não iria se subjugar a ele novamente.
— Então… Trabalhando para a federação francesa, ein. — Ele tentava ser simpático, mas sua feição carregava um tom de descrença e irritação. — Se deu bem!
— Pode se dizer que sim. — As respostas eram secas, na esperança que Jean Luc entendesse que não era querido.
— Faz tempo, não é? Desde a faculdade… — Ele coçou a nuca, demonstrando seu desconforto. — Sem ressentimentos sobre aquela época, não é? Éramos jovens!
— Fale por você. — Pela primeira vez Milo olhou diretamente para ele, seu olhar paralisou o outro em segundos, deixando claro que o que ele mais tinha, era ressentimentos. — Com licença.
O grego se sentou à mesa, ao lado de Camus e Saga, assim que o primeiro cavalo entrou na pista. Camus chegou a perguntar se estava tudo bem e ele confirmou com um sorriso. Camus estava sentado na cadeira da ponta, seguido pelos veterinários e por seu treinador.
O primeiro animal era uma égua, alazã, 1,68 cm de cernelha, de 8 anos. Segundo a descrição do proprietário, ela já participava de provas nacionais de concurso completo e era especialmente boa no adestramento. Mostraram diversos vídeos e fotos de provas a qual ela participou e ganhou, além de permitir que a égua se mostrasse por si, caminhando de um lado ao outro da pista, sendo possível analisar toda a musculatura e desenvoltura dela.
O segundo, um cavalo tordilho, castrado, 1,65 cm de cernelha, também de 8 anos. Após ele, outro cavalo, castanho, também castrado, 1,66 cm de cernelha e 9 anos e, por fim, mais uma égua, também castanha, 1,70 cm de cernelha e 7 anos.
Durante toda a apresentação, os veterinários e o treinador faziam comentários entre si, pontuando pontos positivos e negativos de cada animal. Todos eram muito bons, as movimentações eram excelentes, com certeza teriam ótimos resultados sob a cela do cavaleiro ruivo.
Mas, quem deveria estar mais interessado em tudo aquilo não pareceu se impressionar. Enquanto traziam de volta os quatro animais, para a escolha dele, Camus pode ver pela entrada do galpão, uma alazão correndo em um dos piquetes. Ele se levantou, indo em direção à porta e deixando todos sem entender.
— E aquele? — O ruivo apontou para o piquete, demorou para ter uma resposta pois o proprietário foi até ele para distinguir de qual animal ele estava falando.
Era um magnífico cavalo de pelos alaranjados, com os quatro membros brancos e frente aberta. Ele corria com a cauda e pescoço erguidos, parecia querer mostrar alguma superioridade. Batia os membros dianteiros no chão, relinchando e bufando.
— Ah, bem… — Henri fez um sinal para que Jean Luc se aproximasse. — É o Sundelyon, é um garanhão, vai completar 6 anos no meio do ano. É bem temperamental, por isso teve a doma atrasada, está começando a ser montado agora.
— Acredito que você vá preferir algum dos cavalos que mostramos. — O veterinário se interpôs. — Eles estão prontos, é só montar e ganhar provas fortes.
— Posso montá-lo? — O cavaleiro ignorou, indo em direção ao cavalo no piquete.
Saga, Milo e Shion se entreolharam, ele já havia escolhido, mesmo que tentassem mudar a opinião dele, seria em vão. Apenas se levantaram e seguiram o ruivo. Aguardaram na selaria enquanto preparavam o cavalo para ser montado, só pelo trabalho que ele deu para pegar no piquete, Shion e Saga já se arrependeram de ter incentivado o menor a procurar por outro cavalo. Milo apenas observava, aproveitando enquanto aquele problema não era seu, pois logo ele seria.
— Posso pedir que meu treinador o monte primeiro, para você analisar. — O homem ainda tentava convencer o cavaleiro a mudar de opinião. — Ele é rebelde, pode corcovear e ser até perigoso…
— Não há necessidade. — Camus cortou. Era seguro de sua capacidade, não precisava que ninguém amansasse o cavalo para si.
O cavalo tinha cerca de 1,68 de cernelha, pescoço forte e chanfro mais reto, como era comum nos hanoverianos. Do momento em que foi pego no piquete, até estar pronto para ser montado, ele manteve as orelhas para trás, erguendo a cabeça sempre que alguém iria o tocar. Só se permitiu cheirar o cavaleiro, que se apresentou antes de subir em seu tórax.
Henri e Jean conversavam em sussurros enquanto o ruivo se preparava para montar. Shion, se aproximou levemente, como quem não queria nada, para ouvir o que falavam.
— Ele derruba todos que o montam, não vai ser diferente. — O veterinário disse ao ver o cavaleiro subir às escadas para montar.
— É só um metidinho mimado, separei os melhores da criação para ele e ele prefere esse potro chucro. — Henri estava indignado.
O treinador sorriu, eles iriam se surpreender com a capacidade de Camus.
— Senhores, recomendo que prestem atenção. — Ele disse alto, assustando os dois homens que não haviam o percebido ali. — Não é sempre que ele se apresenta assim.
Todos se viraram para a pista coberta, para onde o cavaleiro se dirigia com o animal. Inicialmente, o cavalo seguia os comandos daquele sobre si, mas, ao ser indicado para entrar na pista, refugou, dando alguns passos para trás.
Milo ficou tenso, enquanto os responsáveis pelo cavalo se entreolharam e sorriram de leve. O cavaleiro corrigiu e indicou o que deveria ser feito, depois de algumas tentativas, o cavalo aceitou entrar na pista em um pulo.
Do mesmo modo que entrou na pista, saiu a um galope energético, corcoveando e coiceando, tentando de todo modo tirar o cavaleiro de sua cela. Este por sua vez, seguia calmo, se equilibrando da melhor forma possível, até que o animal entendesse que ele não sairia vitorioso.
O grego sentia o corpo todo tremer, Belle Époque já havia lhe dado esses sustos, mas não fazia por mal era mais uma brincadeira. Agora esse cavalo estava empenhado, se Camus caísse, poderia se machucar feito.
— Relaxa, ele não vai cair. — Shion colocou a mão no ombro do grego, que se segurava com toda sua força na cerca da pista. O pânico dele estava palpável.
Se sentando na sela, puxando as rédeas para si e pisando firme nos estribos, o cavaleiro conseguiu que o cavalo parasse. Ele não era agressivo, não queria de forma nenhuma machucar o animal, mas precisava que ele entendesse que não lhe faria mal e para isso, precisava que ele estivesse minimamente disposto a tal.
Quando parou, o cavalo mastigou o bridão, um sinal de relaxamento. Camus então solicitou um trote, inicialmente foi lento e a cada variação de velocidade não solicitada, o cavaleiro impunha uma pressão na rédea de fora, soltando-a assim que ele diminuía.
Chegou a conseguir fazer alguns movimentos do adestramento, como ceder a perna. Uma vez que o cavalo havia entendido o que era desejado do trote, o cavaleiro liberou levemente as rédeas e o acariciou, permitindo um passo com o pescoço baixo. Caminhou por toda a pista, ainda extremamente concentrado, ignorando completamente as diversas pessoas que se juntavam para vê-lo montar.
Henri e Jean Luc estavam boquiabertos, seus treinadores sequer conseguiam as andaduras básicas com aquele cavalo, quem dirá algo mais avançado. Milo estava menos tenso agora, Camus era realmente impressionante.
Dado um tempo para o cavalo respirar, o ruivo voltou a reter as rédeas, solicitando o contato com a boca. Fez um alto e solicitou uma saída a galope pela direita, que foi realizada com tranquilidade mas, assim como no trote, o cavalo parecia querer controlar a velocidade.
Camus controlava o galope, para um galope reunido e cadenciado nas retas curtas da pista retangular e, quando nas retas longas, solicitava uma velocidade maior, precisando às vezes se manter em um galope elevado para conseguir manter o equilíbrio. Repetiu isso três vezes para cada lado. Dando novamente um repouso e acariciando o cavalo ao final.
Pela primeira vez ele olhou para fora da pista, procurando pelo grego, que ainda estava um pouco pálido, sorriu se perguntando o que havia acontecido para ele estar assim.
— Milô. — Chamou o loiro tranquilamente. — Pode colocar um salto para mim? Acredito que 60 cm para começar, coloque também uma marcação há um metro, por favor.
O veterinário sequer pensou, pulou a cerca da pista e foi em direção a um obstáculo já pré montado bem no meio e abaixou as varas para a altura solicitada.
— Está tudo bem? — O ruivo sussurrou para ele, enquanto fazia o cavalo fazer círculos em volta do obstáculo, com as rédeas leves.
— Está sim, só, da próxima vez que você for tentar se matar me avise, para eu me preparar antes. — Ele grunhiu, não estava com raiva, só havia ficado com medo. Um medo incontrolável de o perder.
— Mas eu nem fiz nada… — A resposta foi uma cara de indignação por parte do loiro, como podia ele achar que tudo aquilo não havia sido perigoso? — Ok, prometo me empenhar.
Uma vez o obstáculo montado, Camus solicitou um trote leve, que foi respondido imediatamente, agora, com poucas ou quase nenhuma alteração de velocidade. Iria passar pela vara no chão (marcação) ao trote e solicitar um galope imediatamente antes do salto, saindo reto, faria um alto e repetiria pelo outro lado.
Ele acelerou o trote quando colocado de frente para o obstáculo, mas o cavaleiro permitiu, queria ver como iria se comportar. Logo após a marcação, pegou um galope rápido, dando um lance e passando bem acima da altura das varas. Coiceou após o salto, mas fez o alto quando solicitado.
Repetiram o mesmo trabalho pela direita, e dessa vez Camus controlou mais o trote. O cavalo respondeu passando ainda bem alto, mas sem mais gracinhas após.
— 80 cm, por favor. — Fez um círculo enquanto o grego ajustava as varas. Saindo ao trote assim que o obstáculo foi liberado.
Novamente chegou ao trote e solicitou o galope entre a marcação e o obstáculo, passando sem maiores intercorrências. Estava na hora de exigir mais.
Milo havia relaxado, era incrível ver o cavaleiro trabalhando um cavalo novo. Estava acostumado a vê-lo com Belle que sabia fazer tudo sozinho, agora não, era um animal que precisava aprender a se posicionar em pista e se alguém poderia ensiná-lo esse alguém era Camus.
— Pode subir para um metro, e afaste um pouco a marcação, por favor — Ele se virou para o proprietário que assistia abismado. — Ele já saltou essa altura?
— Até agora não. — Henri sorriu levemente, ninguém havia conseguido fazer o cavalo passar dos 80 cm.
Camus apenas concordou com a cabeça. Agora, a chegada no salto seria a galope, precisava de uma distância boa para que ele conseguisse propulsão para o movimento. Saiu ao trote, pedindo o aumento logo em seguida, manteve um galope cadenciado por uma volta antes de se posicionar. Na curva para o salto, saiu levemente da sela, dando liberdade para que ele ganhasse velocidade e, quando já de frente ao obstáculo, voltou a se sentar, trabalhando os lances.
O cavalo teve uma leve dificuldade em erguer os membros anteriores, o fazendo derrubar a barra mais alta, saiu do obstáculo com um corcove, como se não estivesse feliz em errar.
O cavaleiro voltou a acalmar o animal, enquanto Milo reposicionava a vara. Assim que liberado, repetiu o salto, agora com o cavalo elevando mais os anteriores e passado sem dificuldades.
O ruivo sorriu, era isso que queria. Deu rédeas a ele, deixando-o caminhar com o pescoço baixo, em um passo tranquilo, era um modo de dizer que ele havia feito um bom trabalho e agora podia descansar. Fez isso por duas voltas e desceu, ainda na pista, soltando a barrigueira dele em seguida.
Também estava cansado, suas pernas tremiam e se sentia sem força, havia feito um esforço descomunal para manter-se sobre o cavalo e trabalhá-lo da forma correta.
— Você foi um bom garoto, só precisa de um pouco de disciplina e paciência. — Acariciou o chanfro do animal e o guiou até sua equipe. — O que acharam?
— Ele vai dar trabalho nas cocheiras. — Saga foi o primeiro a falar, era prático, então ia direto ao que lhe seria mais inconveniente. — Mas tem potencial.
— Acredito que com você trabalhando com ele. — Shion não pretendia montá-lo, toda a responsabilidade de fazer o cavalo seria do ruivo, mas era exatamente o que ele queria. — Com certeza estará no ponto para as provas mais importantes em dois ou três anos.
— Vai me dar muito trabalho. — Milo sorriu, entregando uma garrafa de água ao cavaleiro, notou que as mãos dele tremiam ao pegar o objeto. Recebeu um sorriso carinhoso em resposta. — Mas tudo bem.
As pessoas que haviam se juntado para assistir já começavam a se dispersar. Jean e Henri conversavam baixo sobre algo. O proprietário só foi em direção ao cavaleiro quando ele já retirava o material do cavalo.
— Isso foi impressionante, Camus. — Sorriu forçado. — Nenhum dos meus treinadores chegou nem perto de fazer o que você fez hoje.
— É por isso que seus treinadores não são atletas olímpicos. — Shion riu, a ideia era dar uma alfinetada, mas sem parecer com uma.
— Pretendo ficar com ele. — Camus se voltou ao homem. Tentava parecer sério, mesmo com a face totalmente avermelhada pelo esforço. — Temos material para o exame e compra, só preciso que ele descanse um pouco.
O veterinário do haras apareceu em seguida. Carregava um sorriso que Milo reconheceu, sorriso de quem iria fazer o possível para atrapalhar a vida alheira.
— Bem, Camus. — Jean disse tranquilamente. — Esse cavalo não estava à venda, pretendemos utilizá-lo como padreador. Você pode notar que ele tem todas as características esperadas do hanoveriano…
— Acho muito improvável. Com esse temperamento, ninguém compraria um filho dele, mesmo ele tento todos os outros padrões da raça. — Camus o cortou, o cavalo poderia ser muito bom, mas o esperado do hanoveriano é um cavalo calmo e paciente, o que definitivamente não caracterizava aquele. — Não lidem comigo como se eu não soubesse o que estou fazendo.
A temperatura ao redor pareceu cair repentinamente. A resposta do cavaleiro deixou o veterinário sem reação, era verdade, ninguém nunca iria querer aquele cavalo. Henri entrou entre os dois homens, sorrindo sem graça.
— Eu acredito que, por se tratar de um cavaleiro olímpico, que irá mostrar o fruto da nossa criação por todo o mundo. — O homem apertou o ombro do veterinário. — Podemos fazer um valor abaixo do mercado.
— Ok. — O ruivo respondeu seco. — Apenas me digam quanto querem nele.
Camus continuou sua negociação enquanto Saga e Milo avaliavam o animal durante o banho. O cavalo seguia nada colaborativo, tentava morder e coicear o tratador, não permanecia parado para ser enxaguado. Não seria nem um pouco fácil lidar com ele.
— Lembra que eu disse que estava ferrado ontem? — Milo suspirou.
— Você está muito é fodido mesmo. — Saga completou, rindo alto. — Estou feliz por não estar no seu lugar.
— Por enquanto. — O grego pontuou, vinha se lembrando muitas vezes que em breve voltaria para seu país. — Tenho mais 3 meses apenas.
— Veremos. — O mais velho sorriu para o menor, como se soubesse de algo que ainda não tivesse sido passado para ele. — Posso arranjar outro veterinário até lá.
— Para o Camus? Vai nessa. — Milo riu descrente.
Esperaram por quase duas horas para poder realizar o exame no cavalo. Não era a situação ideal, visto que ele poderia ficar com alguma dor pós exercício, mas haviam o avaliado em movimento e não apresentava alterações.
Milo solicitou os exames de sangue anteriores, por sorte haviam avaliado toda a tropa no início de dezembro, sendo assim, o cavalo ainda poderia viajar. Nenhuma alteração nos exames hematológicos, podiam partir para o exame físico.
O cavaleiro precisou os auxiliar, uma vez que SundeLyon não permitia que ninguém o tocasse sem que o ruivo estivesse consigo. Mesmo assim foi um dos exames mais difíceis da vida do veterinário grego.
Terminaram por volta das quatro horas. As radiografia estavam limpas, tanto as de membro quanto as de coluna, o exame da boca também não apresentou nenhuma alteração significativa. Finalizado, podiam embarcar e voltar para casa.
Camus colocou seus protetores de membros e rabo de viagem e embarcou o cavalo. A partir daquele momento, ele definitivamente era problema do veterinário grego, mas Milo não estava pensando nisso, o francês parecia tão feliz em ter mais um cavalo, era uma alegria tão pura, que o impedia de pensar no lado negativo.
No retorno, em que ele queria o cavaleiro para conversar, foi quase instantâneo que ele dormisse, o grego sorriu e acariciou os longos cabelos vermelhos, ele deveria estar exausto. Só acordou quando já estavam no centro equestre federal.
O tratador já havia reservado a baia de quarentena, mais afastadas, para o novo cavalo, já havia feno e água fresca para ele ali. Camus o desembarcou e o levou até lá, com SundeLyon relinchando, às vezes empinando, trotando no lugar. Mas o cavaleiro sorriu ao soltá-lo na baia, iria formar mais um cavalo, transformaria aquele cavalo desobediente em um campeão.
Já era tarde, Shion e Saga já tinham ido embora e, restava o ruivo pegar seu carro e voltar para casa.
— Você está cansado, não sei se é bom pegar a estrada assim. — Milo observava enquanto o cavaleiro, sentado ao lado do cavalo, acariciava a face de Belle Époque que estava deitado em sua baia.
— Alguma ideia melhor? — O francês bocejou, estava realmente exausto, mas precisava voltar. — Não posso dormir na baia com ele, embora acho que não vá se importar, não é?
O cavalo apoiou a cabeça no colo do homem ao seu lado, talvez ele realmente não se importasse com a companhia, mas Milo tinha uma ideia melhor.
— Você pode dormir comigo… — Sorriu ao se lembrar da conversa que tiveram no início do dia. Camus o olhou com certa dúvida, os vizinhos do grego já haviam voltado, eles poderiam ouvir algo e desconfiar.
— E Mime e Sorento? — Seguia fazendo carinho em seu cavalo quando o grego se abaixou para ficar mais próximo dele.
— Não pretendo fazer nada de mais. — O grego sorriu carinhoso. — Só quero que descanse em segurança. Se falarmos baixo, eles não vão notar.
Camus tocou os lábios do grego com a ponta do polegar direito, sorriu. Como podia gostar tanto de alguém assim? Milo tinha tudo que um relacionamento precisava, era carinhoso, sério quando necessário, safado quando podia. Sentiu seu rosto esquentar.
— Ok. Vou dormir com você. — Ele apontou o indicador para o loiro. — Mas sem gracinhas.
O grego riu, concordando. Saíram da baia deixando o cavalo deitado e foram em direção aos dormitórios. Dormiram rápido, abraçados na cama pequena, o último pensamento do loiro foi de que ele poderia dormir assim todos os dias.
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