Notas iniciais
Vocês tem ideia que essa fic já tem 200 páginas de bruto? Eu nunca imaginei que chegaria perto disso! Só tenho a agradecer por todos que estão acompanhando, vocês são muito importantes para mim <3 Finalmente a fatídica prova teste em Versalhes! Foi muito tempo de preparação para essa prova, vamos ver como a equipe vai se sair. Vamos ver também um pouquinho de como SundeLion está se saindo. Espero que todos gostem, se tiverem qualquer dúvida, só mandar um comentário!! <3

O tempo passou rápido até de mais para o veterinário grego que agora tinha o triplo de trabalho, o novo cavalo era muito mais difícil de lidar do que Belle Époque. Já havia perdido a conta de quantas vezes havia sido mordido, empurrado, coiceado, pisado, tudo isso apenas tentando fazer coisas positivas para o animal.

O cavaleiro francês também não viu o tempo passar, estava treinando o dobro. Durante a manhã trabalhava com Belle Époque, para que Milo tivesse mais tempo de fazer as fisioterapias dele e, no período da tarde, se concentrava em formar LundeLyon para ser um cavalo de hipismo completo.

O alazão havia se mudado para a baia ao lado de Belle Époque mas, devido a embates contínuos entre os dois, precisou ir para uma baia mais longe, ficando ao lado de Ego, que apenas o ignorava.

Enquanto estava ao lado do outro cavalo de Camus, SundeLyon insistia em tentar o morder pela grade, além de ter perdido duas ferraduras tentando coicear a parede no intuito de alcançar o mais velho. Belle Époque não deixava por menos, quando o vizinho começava a dar muito trabalho, ele empinava e bufava, mostrando quem mandava ali.

Com medo dos dois se machucarem, Milo achou por bem que o mais novo fosse realocado, mas isso não impediu que os dois brigassem à distância.

— Eu sei Belle. — O veterinário fazia acupuntura no garanhão mais velho, quando o tratador passou com o mais novo, levando-o para o piquete. — Ele é chato.

O alazão fez questão de ameaçar morder seu “irmão”, enfiando a cabeça pela janela da baia. O mais velho revidou erguendo a cabeça e batendo a mão na porta, derrubando uma parte das agulhas que o grego havia colocado nele. Milo suspirou tampando os olhos com a mão.

Ele estava de quatro, no chão da baia, procurando pelas agulhas perdidas quando o francês chegou para ver como estava seu cavalo.

— Posição diferenciada para uma fisioterapia. — Camus riu, olhando para os lados, garantindo que não havia ninguém ali, antes de entrar na baia e apertar a bunda do grego que ficou sem reação.

— Seu…- O loiro corou, se sentando na maravalha após aquele abuso. — Se seus cavalos parassem de brigar, eu não precisaria ficar procurando agulhas no meio disso tudo!

— Eu não tenho culpa. Estou trabalhando o SundeLyon o quanto dá, ele é energético por natureza. — O ruivo se abaixou, pegando uma agulha que estava atrás do grego. — Quantas faltam?

— Com essa, nenhuma. — Suspirou. O cavalo fuçou os cabelos loiros mal presos pelo rabo de cavalo. — Semana que vem já é a prova teste.

— Os treinos estão indo bem. — O cavaleiro o ajudou a se levantar. — Acredito que vamos chegar em Paris mais preparados do que nunca.

— A federação está te cobrando bastante, não é? — Milo batia suas roupas para tirar as raspas de madeira de si. — Você está fazendo a sua parte.

— Sim, querem um resultado excepcional. Mas não vejo a mesma cobrança no restante do time. — O francês abraçou o pescoço de seu cavalo, procurando por um suporte.

Milo tocou-lhe o ombro, acompanhava de perto os treinos deles, sabia o quanto vinham se empenhando e dando o melhor de si. Mas infelizmente o esporte é feito de resultados, sem resultados, sem patrocínio, sem patrocínio, sem dinheiro para manter dois animais de 450 quilos que comiam 10 quilos de ração por dia.

Os dois quase não conseguiam mais tempo para ficarem juntos. No máximo escapavam por alguns minutos para o alojamento entre os treinos do francês, no almoço do grego. Treinando mais, Camus acabou perdendo peso e ganhado mais músculos, Milo não via a hora de poder analisar todos eles com calma.

— Eu estava pensando. — O ruivo soltou o pescoço do cavalo, passando a acariciar todo o corpo dele. — Ele melhorou muito desde que você começou, está mais musculoso.

— Esse é seu modo de dizer que eu fiz um bom trabalho? — O mais velho riu. Desde o primeiro momento, se esforçava para que o cavalo estivesse sempre no seu melhor.

— Você sabe que faz um bom trabalho. — O francês sorriu, a realidade é que Milo era muito bom em tudo que fazia, ele apenas não enxergava isso. — Acho que ter um veterinário exclusivo é bom para ele.

O silêncio perdurou. Ambos sabiam que faltavam menos de três meses para que o grego voltasse para seu país, mas nenhum deles queria falar sobre isso. Era triste para Milo deixar o que havia construído ali, com relação a Belle Époque, mas principalmente com relação a Camus, havia se apegado a ele como nunca antes. O cavaleiro por sua vez, sentia a partida do grego, seus dias haviam se tornado mais animados, sua casa ganhava mais vida quando ele estava lá, não queria que isso se perdesse.

— Milô. — O francês não olhou para ele ao perguntar. Tinha receio da resposta. — Eu preciso de você na olimpíada comigo… Sei que haverá uma amazona grega no salto, mas vocês não tem equipe de hipismo completo. Acha que deixariam você me acompanhar?

— Bem… — Ele se apoiou na parede da baia. — Teoricamente é o encerramento de um ciclo, não vejo por que não permitirem. Mas acredito que me farão voltar para a Grécia em maio e ficar até julho, só não sei se a federação francesa irá deixar eu voltar ainda como seu veterinário.

— Não me importo. — Os olhos frios se cruzaram com os azuis do mar grego. — Eu só preciso de você comigo.

— Farei o impossível para estar com você. — O loiro sorriu, acariciando os fios vermelhos, apoiou a nuca dele com a mão esquerda, puxando-o para si e colando os lábios em um selinho.

Camus sorriu com o rosto vermelho, desviou o olhar para o chão. Milo o fazia bem, iria mexer suas peças para fazer com que ele continuasse na França.

Ouviram o som de cascos no corredor, o cavalo vinha a galope, variando a velocidade. Os dois se entreolharam, Belle Époque murchou as orelhas, erguendo a cabeça mostrando seu descontentamento. Os cavalos que estavam em suas baias começaram a relinchar e bufar, batendo as patas nas portas. Ouviram alguém gritar “cavalo solto!!” ao longe.

O novo cavalo do francês passou como um raio por eles, o veterinário apenas abaixou a cabeça e cobriu os olhos em negação. Camus suspirou, pegou os cabrestos de seus dois animais, colocando o de Belle Époque em seguida, além de uma guia longa.

Frederich veio correndo atrás do animal, encontrando o cavaleiro no meio do caminho, já pedindo infinitas desculpas.

— Pode deixar, Frederich, eu busco ele. — Pediu auxílio ao veterinário para montar o animal ao seu lado. — Me ajuda?

— O que vai fazer? — Milo perguntou, mas não negou a ajuda, fez um impulso na perna do ruivo, apoiando a perna direita e o jogando para cima do animal.

— Se eu for à pé, ele provavelmente vai correr. — O cavaleiro indicou que o cavalo saísse da baia, sendo seguido pelo veterinário e tratador.

Saindo do galpão, viram o alazão laranja correndo pelo espaço aberto do centro, onde geralmente eram montadas as baias de campanha em provas importantes. Ele corria muito animado, dando pulos e coiceando, se divertindo em sua fuga.

O grego até sorriu, olhou para o cavaleiro quando este saiu a um galope muito bem cadenciado em direção ao fugitivo. Era impressionante como o francês controlava bem seu cavalo, mesmo sem a cabeçada e bridão, com apenas a corda do cabresto, sem sela e estribo, ele mantinha a posição adequada das pernas, sem nenhuma dificuldade.

Ao se aproximar de SundeLion, Belle Époque murchou as orelhas, mas não se alterou. O cavalo solto não gostou de ter sua aventura atrapalhada e ameaçou coicear o outro. Para evitar danos a ambos, Camus usou a guia como um laço, segurando o pescoço do mais novo.

— Ok. — Desmontou, indo lentamente ao alaranjado para colocar o cabresto. Belle Époque apenas abaixou a cabeça e começou a pastar, mesmo solto. Ao cabrestear o animal, que não resistiu, o ruivo o acariciou o pescoço, como uma recompensa por não ter fugido novamente. — Você vai ficar no piquete, ou prefere voltar para a baia?

Ele apenas precisou passar a corda do cabresto pelo pescoço de Belle Époque para que esse entendesse que deveria segui-lo, levou ambos até a porta das cocheiras. Saga havia se juntado ao grego e o tratador, tinha ido averiguar o motivo de todo o tumulto. Camus entrou com o alazão, em direção à selaria, enquanto o grego segurou a guia do mais velho.

— Vai montá-lo? — A programação do cavaleiro era trabalhar o cavalo mais novo no período da tarde, não que fosse um problema, mas ele não costumava mudar sua rotina.

— Vou dar uma volta. — Ele mesmo selou e preparou seu cavalo para ser montado. Milo apenas o acompanhou com os olhos, jamais questionaria os métodos dele. — Quero que ele relaxe.

Após o cavaleiro deixar o galpão, o grego levou Belle Époque até sua baia, havia acabado de receber feno novo, passaria um tempo comendo tranquilamente agora.

A ansiedade para a prova teste em Versalhes aumentava à medida que a data se aproximava. Faltando dois dias para viajarem, Milo já havia conferido toda a documentação do cavalo, passaporte devidamente atualizado, exames e papeladas para trânsito em dia, tudo revisado pelo veterinário chefe e devidamente organizado por ordem de importância em uma pasta com o nome de Belle Époque. Ele era extremamente cuidadoso com seus documentos.

Camus vinha dando preferência aos treinos de fôlego para o cross country, uma vez que, por conta da neve, não pode treinar essa modalidade desde o início de dezembro. Como esperado, o cavalo vinha se saindo muito bem, e sempre era muito elogiado e mimado pelo cavaleiro após cada treino.

Os procedimentos para embarque foram os mesmos das viagens anteriores, embora fosse uma viagem de pouco menos de duas horas, eles iriam três dias antes para garantir a completa adaptação dos animais no momento da prova. Iriam 4 cavalos, os três principais e o reserva. Até o momento, Misty estava como reserva, o que não o havia deixado nada feliz, teria que melhorar seus resultados para ganhar a vaga principal. Ego foi o primeiro a embarcar, seguido por Fígaro e Lioness, sendo Belle Époque o último como de costume.

Saíram do centro equestre federal antes das seis horas da manhã, com expectativa de desembarque às oito e meia. Após alojarem os cavalos, os cavaleiros e equipe técnica iria para Paris, onde ficariam hospedados até o final da prova.

Como já havia virado rotina, Camus e Milo viajavam no carro do francês. Saga e Shion foram no carro do veterinário e, Mime e Sorento em seus próprios carros, uma vez que aproveitariam o tempo na cidade luz para visitar suas famílias.

Chegaram cedo ao palácio, Milo ficou deslumbrado com a magnitude e riqueza dali. Os portões e prédios com outro, os jardins gigantes, o próprio palácio, tudo era absurdamente exuberante. As cocheiras também não ficavam atrás, todas as baias eram originais do castelo, não foi necessário a montagem de baias de campanha, eram amplas e muito bem arejadas e com portas largas. Com certeza os cavalos ficariam muito bem alojados.

Com os animais em suas devidas baias, os humanos partiram para Paris, para o hotel que a federação havia selecionado para eles. Assim como na prova anterior, Milo, Saga e Shion dividiram um quarto mas, dessa vez, os cavaleiros também iriam. A única que teria um quarto seria Olga, por ser a única mulher do grupo, Camus, Misty e Cardon iriam dividir o alojamento, para o desespero do ruivo.

— Deve ser algum tipo de controle de gastos… — Shion foi quem recebeu e repassou as chaves para todos.

— Deve ser algum tipo de tortura. — Camus bufou, definitivamente não esperava ter que conviver com Misty mais do que o necessário. O cavaleiro loiro mostrou a língua em resposta.

— Já vou avisando que não gosto de congelar durante a noite. — Misty pegou sua chave, se encaminhando ao quarto, afinal, quem chegasse primeiro escolheria a cama.

Voltaram ao palácio no meio da tarde, já na van da federação francesa, para conhecerem as instalações. O dia seguinte começaria com o Vet-check e, logo após, o treino na pista de adestramento.

Aioria também já havia chegado, a equipe inglesa ficaria no final do corredor de baias. Afrodite não iria para aquela prova, por conta da distância, assim como Saori, que não competiria pela equipe belga desta vez, e sim pela japonesa. Camus encontrou o amigo por acaso, enquanto levava seu cavalo para um dos diversos piquetes do lugar.

— Olha só, o dono da poha toda chegou. — O inglês o abraçou rindo. — Como está esse cara?

— Quem dera. — O francês acompanhou a risada do amigo, era bom tê-lo por perto. Ele acariciou o pescoço do cavalo, se permitindo admirá-lo. — Belle está ótimo, na sua melhor forma.

— Já vi que vou ter trabalho então! — Aioria também paparicou o cavalo, que parecia gostar do inglês tanto quanto seu humano.

Eles continuaram juntos até o final dos reconhecimentos, quando suas referidas equipes os convocaram para retornarem aos hotéis.

Foi uma noite agitada para o francês, primeiramente por ter trocado infinitas mensagens com o grego sobre como Misty era insuportável e, quando todos já haviam ido dormir, o ruivo recebeu uma ligação de seu irmão mais novo, com notícias nada boas.

O vet-check foi logo pela manhã e todas as equipes teriam cerca de uma hora para treinar na pista de adestramento no período da tarde. Misty teve menos tempo de treino que os demais, por ser o reserva, e “aproveitou” seu tempo livre para infernizar a vida do veterinário grego.

— Ei, Milo. — Ele estava sentado, muito confortável, na cadeira de camping de Camus, na frente da baia do cavalo do ruivo, enquanto o veterinário organizava seu material. — Sua opinião é importante para o Camus, não é?

— Onde você quer chegar com isso? — O grego não se virou para ele, seguiu empenhado em seu trabalho.

— Quanto você quer para convencê-lo a me colocar no time na olimpíada? — Ele tinha a perna direita apoiada sobre o braço da cadeira, enquanto suas costas estavam apoiadas no outro braço, praticamente de lado. Deixou sua cabeça pender para trás e conseguir observar o mais velho.

— Ha. — A risada foi automática. — Está superestimando minha importância.

— Você sabe por que ele está de mal humor hoje? — Não ficou satisfeito com a resposta anterior, mas optou por fazer uma nova pergunta.

— É o Camus, Misty. — Pela primeira vez ele olhou para o cavaleiro, com um sorriso irônico, mas durou pouco e ele se voltou à manta de magnetoterapia que precisava dobrar.- Ele sempre está de mal humor.

— Vocês estão juntos, não estão? — Foi a última cartada do francês para conseguir a atenção de Milo. — Por que assim, precisa ser muito burro para não perceber a tensão sexual que existe entre vocês.

Milo perdeu o rumo por um segundo, quase derrubando o equipamento que manipulava. Fez sua melhor cara de quem não sabia de nada ao se virar para o outro.

— Do que está falando? — Ele estava sério por fora, mas por dentro queria explodir. Estavam deixando tão na cara assim? — Nunca houve nada entre nós.

— Ah ta. — O loiro mais novo deu de ombros. — Vou fingir que acredito. E se eu usar isso como chantagem…

— Misty. — Milo recobrou o controle, chamando a atenção do francês para si. — Primeiro, não há nada além do trabalho entre nós. Segundo, você nunca vai conseguir nada dele por chantagem, se quer a vaga, mostre que você merece ela.

— Eu já fiz isso! — Ele se espalhou mais na cadeira, esticando as pernas e os braços. — Não sei mais o que fazer para impressionar ele.

— Sabe que a opinião do Shion também importa, não é? — Suspirou, no fim, ele gostava de Misty, era só uma criança com um sonho muito grande. — Se você se empenhar nos treinos, também conta.

O mais novo pareceu ponderar, embora Milo achasse isso impossível. Antes de voltar aos seus afazeres, o grego deu um último conselho.

— E… — Fez uma pausa. — Ele vai ficar uma fera se vir você sentado na cadeira dele.

Misty bufou, se levantando e indo em direção à saída das cocheiras. Milo suspirou, precisavam ser mais discretos.

Por mais que não quisesse levar as palavras do cavaleiro mais novo em consideração, Milo notou que o ruivo estava realmente mais silencioso, não continuava suas tentativas de puxar assunto, tampouco respondia suas mensagens.

— Ei. — O grego segurou o braço do cavaleiro francês que havia ameaçado entrar na baia de Belle Époque, mas desistiu ao ver o grego. — Está tudo bem? Você está estranho.

— Está sim. — Camus não o olhou, apenas esperou que o loiro o soltasse para seguir seu caminho. — Só estou concentrado.

— Já te vi concentrado antes, Camus. — Ele disse alto o suficiente para ele entender, mas baixo o suficiente para não geral alarde. Optou por dar tempo a ele, era uma prova muito importante, a pressão sobre ele estava enorme.

Ao fim do dia, logo após um jantar em equipe, com muitas falas de Misty e quase nenhuma de Camus, o grego seguia preocupado. Como não conseguia conversar com ele em particular, tentou novamente as mensagens.

“Só para te lembrar que eu estou aqui para o que precisar, certo?”

“Sempre vou estar do seu lado”

“Se precisar, só ligar que eu vou até você”

“Obrigado”

Foi só o que teve de resposta.

O primeiro dia de prova começou com os três primeiros lugares para o time francês no adestramento. Camus manteve sua média, fazendo 80,5%. Olga terminou com 79,3% e Cardon com 78,7%. Excelentes resultados e que davam uma boa folga na pontuação.

Todos comemoravam o resultado, até o reserva estava feliz, embora insistisse em dizer que teria se saído melhor do que Cardon. Camus quase não se pronunciava, mas parecia satisfeito.

Fizeram o reconhecimento da pista de cross country que percorria toda a extensão do palácio, com visuais maravilhosos dos jardins. Retornando para o hotel em seguida, para descansarem para a prova mais desafiadora.

Camus pouco conversou naquela noite também, o jantar foi quase como uma reunião, onde os cavaleiros e o treinador discutiram as melhores abordagens dos saltos, locais onde deveriam controlar ou alongar o galope, analisaram os declives e aclives. Era algo muito importante, visto que aquela seria a pista da olimpíada também, mas o ruivo parecia fora do ar.

A largada de Camus foi boa, como de costume, ele tinha muita experiência na categoria. Manteve o ritmo de galope, passando com tranquilidade pelos obstáculos. Belle Époque ignorava as pessoas que assistiam a prova nas laterais da pista mas, dessa vez, quem não as ignorou foi o cavaleiro.

Com um galope alongado, era difícil identificar pessoas, a velocidade era muito grande e pouco se conseguia ver, mas o vulto de uma mulher de longos cabelos loiros ondulados e pele clara chamou a atenção de Camus.

O corpo que geralmente permanece voltado para frente, impulsionando o cavalo, foi para trás, ele chegou a tentar olhar o lado e tirar a dúvida se sua imaginação tentava lhe pregar uma peça. Essa dúvida perdurou, até que o cavalo ficasse de frente ao próximo obstáculo, uma linha de dois troncos, com distância pequena.

Belle Époque foi diminuindo a velocidade cada vez mais, até parar na frente do primeiro obstáculo. Não foi um refugo, ele só estava muito lento para saltar. O próprio cavalo não entendeu o motivo de ter parado ali. Mas Camus parecia estático, ficou alguns segundos parado até recobrar a consciência e dar a volta, solicitando galope e passando pelos troncos sem dificuldade.

Todos que assistiam no telão estavam abismados, Camus não errava, jamais se desconcentrava no meio da prova, era frio e calculista de mais para permitir que seus sentimentos o atrapalhassem. O que havia acontecido para que ele se perdesse daquele modo?

Shion esbravejava, por serem apenas três cavaleiros na equipe, não havia mais nota de descarte. Então qualquer nota ruim, prejudicava diretamente a equipe. Mesmo se esforçando no final do percurso, não conseguiram recuperar o tempo perdido, ficando a quem do tempo ideal e com 4 pontos pelo refugo.

Milo correu para a chegada para aguardar a liberação do seu paciente e do cavaleiro, com quem estava especialmente preocupado. Camus desmontou e se sentou, imediatamente, como se suas pernas não tivessem força para segurar seu corpo, precisou da ajuda do grego para se levantar e caminhar até voltar ao normal.

— Camus…- Milo precisava que ele confiasse nele, precisava que ele o dissesse o que estava acontecendo. Aquela situação o machucava. — O que está acontecendo? Você não está bem…

— Eu só estou cansado, Milô. — Deu um sorriso fraco, muito falso, que não convenceu o loiro.

Eles levaram o cavalo para o banho, encontrando o treinador no meio do caminho. Milo quis acompanhar os franceses, para tentar controlar o treinador, mas precisava fazer seu trabalho, acabou por deixar que os dois seguissem enquanto ia para o banho do cavalo. Shion não estava nada feliz. Camus tentou passar reto por ele, mas o mais velho o seguiu.

— O que aconteceu? — O treinador segurou o braço do cavaleiro, esperava essa reação mimada de Misty, não do capitão da equipe. — Você simplesmente parou o cavalo na frente do salto!

— Eu me desconcentrei. — Camus estava a um ponto de explodir, por mais que tentasse ficar calmo, aquelas críticas, naquele momento, não eram nada positivas.

— Você não tem o direito de errar assim. — Ele apontou o indicador para o ruivo, o fazendo erguer os olhos e endireitar a coluna. — Isso aqui não é uma brincadeira, Camus. Sua equipe precisa que o capitão esteja minimamente comprometido. Daqui há cinco meses vocês vão estar em uma olimpíada!

O cavaleiro não respondeu, apenas se virou de costas e seguiu seu caminho. Queria e precisava ficar sozinho para colocar a cabeça no lugar.

— Você sabe tudo que está em jogo aqui! — Ele continuou o seguindo, as pessoas por onde passavam se assustavam com a irritabilidade do treinador. — Você acha que a federação vai bancar seus cavalos, seu veterinário, seu salário se você não tiver resultados? Pois não vai! Continue assim e vai perder tudo! Você não é intocável, Camus.

Shion estava cada vez mais irritado por ser ignorado. Não filtrava mais o que dizia, se deixando levar pela raiva de ver seu trabalho ser jogado no lixo.

— Você está me ouvindo? — Shion entrou nas cocheiras gritando com o cavaleiro que vinha à sua frente, sem se importar se haviam outras pessoas ali. — Por acaso você se lembra quando teve uma nota descartada pela última vez? Ou o sentimento de superioridade tomou conta de você?

— Lembro! É claro que eu lembro! — Camus se virou de uma vez, carregava um misto de raiva e tristeza, sua voz saiu mais alto do que ele gostaria. A reação repentina fez o treinador parar onde estava. Estava cansado daquilo, obviamente se lembrava do pior resultado de sua vida, seu maior trauma como atleta, um dos motivos pelo qual ele tomava remédios controlados. — Na olimpíada!

Ele deixou o homem reclamar sozinho e saiu por outra porta, desaparecendo entre a multidão. Até os cavaleiros e funcionários da equipe alemã haviam parado para tentar entender o que estava acontecendo, voltaram aos seus afazeres quando Shion gritou que não tinha nada para ver ali.

Mais tarde, Belle Époque já havia retornado para sua baia e o veterinário já estava fazendo a suplementação de eletrólitos intravenosa nele, junto com uma massagem relaxante com óleo essencial de lavanda, quando o cavaleiro apareceu novamente.

Camus apenas entrou, sem dizer nada e se sentou na maravalha fofa. Dobrou as pernas e abraçou os joelhos, abaixando a cabeça e apoiando a testa nos joelhos. Milo não questionou, até quis perguntar se estava tudo bem, mas aquela reação já lhe era uma resposta.

Deixou o animal por alguns segundos, indo até sua caixa de materiais e, depois até o cavaleiro sentado. Se ajoelhou na frente dele, ficando em uma altura mais próxima do rosto coberto pelos fios vermelhos. Com cuidado, fez com que ele erguesse o rosto, apoiando-lhe o queixo.

— Está tudo bem, não precisa falar nada. — Com os dedos umedecidos pelo óleo, ele massageou ambas as têmporas do ruivo e colocou uma agulha de acupuntura entre as sobrancelhas dele, era um ponto de relaxamento.

O cavaleiro até quis reclamar, pelo desconforto causado pela agulha, mas logo aceitou. Dessa vez, apoiou o queixo sobre os joelhos, para não retirar o objeto fincado a si. Não demorou para o cavaleiro estar ressoando, apoiado à parede.

Milo sorriu, pelo menos, dormindo, ele não se preocuparia tanto com o que o estava incomodando. Sabia que algo estava errado, mas se ele não se sentia confortável para dizer, sua mente o mandava esperar que estivesse. Embora seu coração tivesse certeza que Camus o odiava e que nunca mais iria querer ficar perto ou falar com ele novamente.

Após o término dos procedimentos e ser liberado do cabresto, Belle Époque foi até seu cavaleiro, encostando o focinho em seu rosto com leveza. Não era apenas Milo que estava preocupado com o ruivo.

O coração de Milo estava apertado. Algo muito sério estava acontecendo dentro da cabeça do francês, e o grego não sabia como ajudá-lo. Vários sentimentos percorriam sua mente, se sentia incapaz, por não fazer nada para ajudá-lo com aquilo, seja lá o que fosse. Tinha receio de Camus estar o afastando de si, por algum motivo que também não sabia. Ao mesmo tempo, tinha uma raiva inconsciente, por ele não o dizer o que o incomodava. E medo, por poder ser o causador daquilo tudo.

Camus acordou um tempo depois, com seu cavalo com a cabeça baixa, próxima a ele, guardando-o. Se levantou um pouco atordoado e abraçou o pescoço do animal, em um agradecimento silencioso. Encontrou Milo lendo algo sentado na cadeira de camping, na porta da baia, sorriu. Tinha os melhores guarda-costas, não podia negar.

— Milô… — Ele disse baixo, quase em um sussurro. Ele olhou para os lados, não via mais ninguém da equipe.

— Oi! — O grego sorriu, deixando o papel que lia para olhar para o francês. — Você acordou.

— Todos já foram?

— Não, estamos esperando a liberação dos cavalos para a prova de amanhã. — O veterinário levantou e tocou os cabelos vermelhos, abaixando alguns fios rebeldes. — Belle está bem, o problema foi com um cavalo espanhol, então pediram para revisar todos.

Foram liberados em seguida e todos voltaram para o hotel na van. Um silêncio sepulcral se manteve durante todo o período. Camus tinha certeza que seus colegas de equipe o odiavam por os fazer perder novamente, assim como não acharia exagero se levasse ovadas de fãs raivosos quando chegasse ao hotel. Só apoiou a cabeça na janela e ficou observando a cidade se aproximar.

Milo o olhava pelo canto dos olhos, preocupado. Queria muito entender o que estava se passando naquela cabeça perturbada. Seu celular vibrou, o tirando de seus pensamentos, era uma mensagem de Aioria.

“Camus não me responde, imagino que você esteja com ele. Só diga que estamos com ele, não importa o que aconteça.”

Ele mostrou o celular ao francês, que leu a mensagem e deu um leve sorriso, seguido por um “merci” quase sem som, voltando a se apoiar na janela. O grego aproveitou a deixa para perguntar se o inglês tinha alguma ideia do que estava acontecendo, mas ele também negou. Ao chegarem, ele foi direto para o quarto, não jantou naquela noite.

O grego podia não perceber, mas aquela situação o deixava visivelmente triste. Saga o segurou no corredor, antes de voltarem ao quarto.

— Ele te falou algo? — O mais velho também estava preocupado, já havia até conversado com o irmão, que também não havia tido sucesso em retirar alguma informação do ruivo. — Tem algo errado acontecendo.

— Nada… — O mais novo suspirou. Se nem Saga, nem os amigos dele sabiam o que estava acontecendo, deveria ser algo muito maior do que poderia imaginar.

O celular do ruivo tocou durante a madrugada, ele se levantou rápido para atender antes que atrapalhasse seus colegas de quarto.

O reconhecimento de pista iniciou exatamente no horário. As equipes percorreram todo o percurso da prova de salto, discutindo as melhores estratégias. Camus parecia um pouco mais animado, conversando com Shion e os colegas sobre os obstáculos.

Milo já tinha o cavalo pronto, apenas esperando a liberação do padoque para o francês. Ele aguardava, olhando para o nada, perdido em seus pensamentos.

— O celular dele tocou ontem à noite. — Misty disse atrás do grego, como quem não quer nada, o fazendo se assustar.

— Mas que caralhos… — O cavalo se incomodou com o movimento repentino do grego, murchando as orelhas e erguendo a cabeça, mas logo voltou a relaxar.

— Ele atendeu fora do quarto, não ouvi nada do que disse. — O mais novo se apoiou na parede, olhando para o telão que mostrava os cavaleiros no reconhecimento. — Camus não é assim… Acho que ele está te traindo.

O mais velho apenas rolou os olhos, ignorando-o.

A sineta avisando o fim do reconhecimento tocou. Camus seria o primeiro da equipe a entrar, por conta da sua posição ruim na classificação do dia anterior. Misty se afastou do grego assim que o ruivo apareceu no corredor.

O cavaleiro deixou seu celular junto ao material dos veterinários antes de montar.

— Hora de mostrar tudo o que vocês sabem. — Milo sorriu ao ajudar o cavaleiro a montar, acariciou o pescoço do cavalo e os liberou. — Boa sorte.

Camus apenas concordou com a cabeça. Não tinha nenhuma certeza se iria dar certo ou não, nunca havia ficado tão ansioso para uma pista quando estava agora, suas mãos tremiam, seu coração parecia poder explodir a qualquer momento.

O aquecimento foi perfeito, sem maiores dificuldades. Respirou fundo antes de entrar na pista, precisava se concentrar, todos esperavam muito dele. Milo se juntou a Saga, Shion e Misty no kiss and go, local onde a equipe assistia a prova mais de perto e aguardava os resultados. Toda a plateia parecia tensa, quase não havia sons. O galope e a respiração do cavalo ecoavam.

Eram 12 obstáculos na altura de 1,45 metros, em uma montagem desafiadora. Camus e Belle Époque passavam por cada um deles com destreza, à medida que a pista se aproximava do fim, a plateia e a equipe pareciam relaxar, o verdadeiro Camus estava de volta. Com exceção do grego, ele segurava a cerca que delimitava o local onde estavam com tanta força que o nó de seus dedos ficavam brancos. Prendia e soltava a respiração a cada salto, seu coração dizia que algo iria acontecer.

Os últimos obstáculos eram um triplo. A aproximação do primeiro foi perfeita, assim como a parábola do salto porém, ao dar o lance entre o primeiro e segundo obstáculo, o cavaleiro se desequilibrou, alterando também o equilíbrio do cavalo, que fez a batida muito mais afastado, não conseguindo cumprir a altura necessária. Ouviu-se um grande “Oh!” da plateia e um grito de desespero.

— Camus! — Saga precisou segurar o grego para que ele não pulasse dentro da pista, o que é uma falta grave e poderia desclassificar toda a equipe. Milo se contorceu.

Desequilibrado, Belle Époque não conseguiu altura para o salto, batendo peito e pescoço nos obstáculos e tendo sua garupa projetada para cima e caindo de lado. Camus foi arremessado pelo movimento, dando uma cambalhota e caindo de costas em um baque seco.

Por alguns segundos sua visão ficou escura e respirar foi difícil. Sua mente não conseguia raciocinar sobre o que havia acontecido. Conseguiu olhar para o lado e ver seu cavalo se levantando e chacoalhando, não parecia machucado, era um bom sinal. Ouviu um aviso para permanecer deitado até que a equipe médica chegasse. Suas pernas formigavam.

Belle Époque se levantou rápido, olhou ao seu redor, tentando entender o que havia acontecido. Viu seu humano caído, parecia machucado, não conseguia se levantar? Soprou para ele, esperando que ele o fizesse algum sinal, mas não obteve resposta. De repente viu outros humanos vindo correndo em sua direção, eles carregavam coisas grandes e estranhas. Precisava proteger seu humano ferido.

Empinou, relinchando e bufando. Batia os membros anteriores no chão com força, tentando afugentar os invasores. Sapateava e erguia os anteriores diversas vezes, batendo no chão com toda sua energia. Não ia deixar que chegassem perto do seu humano.

Camus tentava assobiar para acalmar o cavalo, mas não tinha ar. O chamava, tentando erguer os braços para que ele entendesse que estava tudo bem, mas seus braços estavam fracos e a voz saía fraca.

Os socorristas pararam, havia o risco do cavaleiro ser pisoteado se continuassem. O animal também parou, porém seguia bufando e batendo os anteriores na areia, Camus podia sentir o ar se deslocando ao lado de sua perna a cada movimento dele.

— Belle, calma garoto. — Ele tentava, de toda forma, acalmar seu companheiro. Sabia que ele estava apenas tentando o proteger, mas poderia o machucar com isso. — Está tudo bem…

Saga soltou Milo que imediatamente se lançou na pista, ignorando qualquer altura que pudesse o machucar. Ele correu até próximo ao obstáculo, parando e indo em direção ao cavalo com cuidado.

— Belle, ei, sou eu! — Milo o chamou, fazendo o cavalo virar a cabeça em direção a ele. — Eu sei, vamos cuidar dele, tudo bem? Fique calmo.

Bufou mais uma vez, mas abriu espaço com a garupa para que aquele humano chegasse até o seu. Ele iria ajudá-lo, não é?

— Você está bem? — Milo se esforçava para não demonstrar seu desespero, nem para o cavalo nem para o francês caído. Recebeu um sim como resposta, que o deixou mais tranquilo. Segurou as rédeas do cavalo, o puxando para longe, em direção à saída da pista.

Se sobressaltou quando ele lhe segurou pelas rédeas, o forçando a se afastar do local. Ele deveria ajudá-lo! Voltou a relinchar, tentava empinar e voltar para seu cavaleiro mas era contido pelo outro humano. Viu quando os invasores alcançaram seu humano, em um relincho longo e dolorido, saiu da pista levado pelo loiro.

Belle Époque ainda passou por uma avaliação dos veterinários de prova antes de ser liberado para o banho. Milo sentiu seu coração despedaçar quando o cavalo relinchou antes de sair da pista, sentiu-se um monstro ao afastá-lo, mas era o que precisava ser feito. Ele não resistiu mais, se deixando ser levado pelo veterinário até a área de banho.

Enquanto fazia os alongamentos de rotina, a cabeça de Milo estava em Camus, precisava saber como ele estava. Pouco se concentrava, fazendo alguns alongamentos repetidos e pulando outros, estava desnorteado. Voltou a si quando o tratador pediu que ele o deixasse banhar o cavalo.

Voltou para a área da equipe francesa. Olga e Cardon já haviam ido para o padoque, Saga falava ao telefone, andando de um lado para o outro. Os outros dois veterinários estavam parados, esperando.

— Alguma notícia? — Milo perguntou afoito. Mas Mime o respondeu com um aceno negativo de cabeça.

— Saga está tentando… — Sorento respondeu, enquanto ambos observavam o mais velho.

Milo ouviu um som familiar, olhou ao redor vendo o aparelho de onde vinha o barulho. O celular de Camus tocava insistentemente, mas não conseguia entender quem estava ligando, o nome não estava em francês. Saga foi até eles, avisando que Camus estava passando por atendimento e que seria liberado assim que possível, ou seja, nenhuma informação relevante. Milo o mostrou o telefone.

— É dele. — Milo poderia ter atendido, mas sua mente não estava funcionando do modo correto. — Não sei quem é.

Assim que pegou o aparelho, o mais velho o atendeu, levando-o à orelha.

— Oi Hyoga, é o Saga… Seu irmão não consegue atender agora, o que houve? — A feição dele mudou, parecendo ainda mais preocupado. — Faz quanto tempo?

Ele abaixou a cabeça e suspirou. Milo tinha o coração apertado.

— Assim que possível ele vai, só precisa pegar as coisas dele no hotel e vai direto para Toulouse… Não, Milo vai levá-lo. — O mais velho olhou para o grego como se pedisse por aquilo, obviamente ele aceitou, não sabia por que, mas levaria o ruivo para toulouse.

Saga suspirou ao desligar o aparelho, tudo fazia sentido agora.

— A mãe de Camus está internada em estado grave. — Os olhos dos outros três veterinários estavam fixos nele. — O irmão dele o avisou há dois dias que precisava que ele fosse lá para para assinar os documentos do hospital.

— E ele não foi para não desfalcar o time… — Mime suspirou.

— Mas Misty poderia substituí-lo... — Sorento completou, mas no fundo, ambos sabiam que Camus não abandonaria a equipe.

O grego estava inerte com a informação, tudo parecia formar um turbilhão em sua mente. Por que ele não o contou? Talvez tivesse medo que ele o obrigasse a ir e abandonar a prova? Talvez ele tivesse medo de ser julgado?

— Você pode levá-lo para Toulouse? — Saga também parecia abalado. — Eu me responsabilizo pelo Belle Époque.

— Claro. — Não pensou duas vezes antes de responder.

O celular voltou a tocar, dessa vez o nome era familiar para o grego.

— Pode deixar que esse eu atendo… — Ele mal conseguiu levar o celular à orelha. O sueco gritava, não precisava nem estar no viva-voz para que os demais ouvisses.

“Seu filho da puta desgraçado! Como você ousa fazer uma coisa dessas? Acha que pode ficar dando uma de amador e cair assim? Acha que tem o direito de nos assustar? Nossa, você vai apanhar tanto quando eu te encontrar, pode se preparar! Vai ficar mais roxo do que quando o Milo te comeu pela primeira vez!”

— Oi Dite, é o Milo… — Ele falou sem graça. Vermelho, torcendo que seu colegas não tivessem ouvido a última parte. — Camus está sendo atendido ainda…

“Oi querido! Saudades! Pode avisar aquele desgraçado que eu liguei, por favor?” — A voz tranquila não se assemelhava à da fala anterior, ele parecia até estar sorrindo.

— Pode deixar, passarei seus comprimentos a ele. — Ele sorriu também. Os relacionamentos do francês eram engraçados e um tanto perturbadores.

Foram duas horas até que o cavaleiro fosse liberado do atendimento médico. Ele chegou com uma tipóia no braço direito. Olga foi a primeira a vê-lo, correndo em sua direção e o abraçando com cuidado, Camus sentiu os olhos encherem de água, mas se esforçou para controlar.

— Você está bem, querido? — Ela segurou o rosto dele entre as mãos, estava cansado. — Fiquei tão preocupada!

— Obrigado, Olga. — Ele sequer sabia responder, não imaginava que ela fosse se importar tanto. — Estou melhor…

Cardon e Misty também vieram saber se o capitão estava bem. Camus não esperava se sentir querido assim. Saga se aproximou, o abraçando também. O ruivo sentiu uma pontada no ombro, o abraço dele havia sido mais forte do que o da mulher.

— Não nos assuste assim mais, ok? — Ele sussurrou.

— Vou tentar… — Respondeu sem graça. Havia deixado muitas pessoas preocupadas pelo visto.

— Seu irmão ligou… — A face do ruivo voltou para a expressão de cansaço extremo. — Ele precisa de você, Camus. Você e o Milo vão para lá, já avisei que vão voltar antes para o hotel.

— Tudo bem… Não tenho mais por que ficar aqui mesmo. — Suspirou. Olhou na direção da baia do seu cavalo e um arrepio lhe percorreu. — Como está Belle?

— Está bem, apenas alguns arranhões leves. — O veterinário mais velho o acompanhou até a baia, onde o cavalo estava deitado. — Milo fez acupuntura e moxa para ele relaxar, além de um antinflamatório.

O cavalo ergueu o pescoço quando viu movimento na frente de sua baia e levantou, com alguma dificuldade, quando viu que se tratava do seu humano. As lágrimas que ele havia contido antes, escaparam. Entrou e abraçou o pescoço do animal com seu braço livre, escondendo o rosto no pêlo escuro. O cavalo o cheirou, bufando ao chegar na tipóia, era algo errado no seu humano, mas estava feliz de vê-lo.

— Está tudo bem. — Camus sorriu, amava aquele cavalo mais do que tudo. — Meu braço ainda está aqui.

Milo correu até a baia ao ver o cavaleiro ali. O abraçou com certo desespero, fazendo-o gemer baixinho.

— Milô… Meu braço… — Ele sorriu levemente após ser solto.

— Me desculpe… — Os olhos azuis estavam úmidos, nunca estiveram tão parecidos aos mares gregos quanto agora.

— Está tudo bem… — Camus tocou o rosto dele, secando uma lágrima teimosa com o polegar, não se importava se estavam em público, estava grato pelo que ele havia feito. — Eu estou bem…

— Sim… Que bom. — O grego sorriu, sem graça. — O que eles disseram, sobre o braço?

— Ah, desloquei o ombro… — O ruivo olhou para a tipóia. — Vou ter que ficar com isso e tomar antiinflamatórios por alguns dias, mas nada grave, poderia ter sido muito pior.

Saga os observou, em momentos como aquele ficava clara a relação dos dois. Sorriu queria deixa-los aproveitar, mas precisou intervir, a van já os esperava para voltarem ao hotel e partir para a cidade natal do ruivo.


Notas finais
Eu queria muito colocar o ponto de vista do Belle, como ele tinha a necessidade de proteger o Camus, a relação deles é muito mais do que só o esporte. Mais um capítulo postado, em menos de um mês haha No próximo vamos conhecer mais o passado do Camus, onde tudo começou, e sobre a família dele. Hyoga entra na história de verdade agora. Espero que tenham gostado e, que continuem gostando e acompanhando! Qualquer duvida só perguntar!!