O Novo Amigo de Jon Snow
2 Tate
Notas iniciais
Jon apertou a mão do estranho, nervoso. Ele tinha um aperto forte e não parava de sorrir.
– Por quê você vive nesse quarto, Jon? Tem outros quartos vazios no andar de cima. Você tá no dos funcionários.
– Por quê você está nele? Acho que é uma pergunta mais importante.
Tate deu uma risada. Quando ele ria, seus olhos o acompanhavam, assim como todos os músculos da sua face. Ele ria com seu espírito.
– Está certo. É claro. Eu não devia estar aqui. Desculpa.
Ficou sério de repente, e Jon temeu tê-lo magoado. Não queria ninguém invandindo seu quarto, mas Tate tinha sido realmente simpático com ele.
– Tudo bem. Mas por quê está aqui? Talvez não devesse estar nem na minha casa.
A frase não soou bem na cabeça de Jon. A casa era dos Stark. Nem queria imaginar qual seria a reação da senhora Stark se ele a chamasse de "minha".
– Seu pai. — ele explicou. — Eu tive uma consulta. Ele é demais.
Jon não imaginou que teria que se acostumar com pacientes de Eddard perambulando pela casa após as consultas.
– Se quiser, eu vou embora. — ele falou, quando Jon nada disse.
– Não. Você pode ficar. O único problema é que eu estou todo sujo do colégio e vou ter que tomar banho.
De fato, a blusa que usava estava colada no seu corpo devido ao suor, e o mesmo ocorria na calça, além do rosto que também estava todo suado. Colocar o corpo num chuveiro não seria nada mal naquele momento, principalmente porque não queria que alguém que acabou de conhecer o visse assim.
– Ah, tudo bem. — Tate falou, jogando-se na cama de barriga para cima, ficando com a cabeça apoiada nas mãos como se o que acabara de fazer fosse a coisa mais natural do mundo. — Eu espero. Seu banheiro não é muito legal. Sem ofensa. Mas o da sua irmã é quase maior que seu quarto.
Jon despiu a blusa, começando a ficar incomodado com a intromissão do garoto. Pelo visto o seu quarto não fora o único que Tate visitara. De qualquer forma, o seu pai já havia tido clientes com comportamentos piores que esse.
– Eu sou um bastardo. É aqui que bastardos ficam. — falou, por fim.
Abriu a porta do guarda roupa para procurar uma toalha enquanto aguardava a resposta de Tate. Como ele nada falou, virou a cabeça para trás, apenas para vê-lo parado ainda na mesma posição, boquiaberto, mas parecendo levemente risonho.
– Acha que isso é uma piada?
– Não. Acho fantástico.
Tate sentou-se na cama abruptamente.
– Ser bastardo tem tudo para ser o máximo. Você não precisa obedecer a sua mãe, não precisa lhe dar nenhuma explicação. Acho que os filhos bastardos são os que chegam mais tarde em casa ou algo assim.
Jon estava começando a ficar furioso por dentro. Como o garoto podia caçoar daquela maneira do maior problema que tivera em toda a sua vida?
– Você não sabe nada sobre ser bastardo. Não sabe nada sobre não ter uma mãe.
Virou o rosto novamente para o guarda roupa, com medo de que pudesse deixar escapar uma lágrima. Ao longo dos anos tornara-se um homem mais resistente a esse assunto, mas não queria ser surpreendido. Achou que seu modo de falar havia deixado transparecer certa mágoa. E não se sentia bem com isso. Queria ser forte e corajoso como o tio Benjen, e jamais o vira chorar.
– Bem... realmente. Desculpe. Mas eu sei sobre não ter um pai. — falou. — Não sei se conta. — terminou, baixinho, mais para si mesmo que para Jon.
– Seu pai abandonou sua mãe? — perguntou, tentando parecer casual, mesmo se tratando de um assunto desse.
Achou finalmente a toalha que procurava. Estava debaixo de todas as suas roupas, mas agradeceu todo o tempo que levara para encontrá-la, pois se não não teriam chegado àquele momento da conversa e ele não teria descoberto o que descobriria a seguir:
– Não. Ela o pegou na cama com a empregada e por isso o matou. Cinco tiros. Na cabeça.
Tate apontou os dedos para a própria cabeça simulando um revólver, e ainda fingiu um disparo. Jon sentiu seu coração acelerar com aquela informação.
– Desculpe. — Tate falou. — As pessoas sempre reagem isso. Mas achei que você me entenderia, sendo um bastardo. Se é tão ruim como imagino, achei que entenderia. Achei que poderíamos ser amigos.
Ao longo das frases, a voz dele ia tornando-se mais baixa e contida. Jon sentiu pena dele. Tate levantou-se da cama, acenou para Jon com a cabeça e ia se retirando do quarto. Sentiu-se mal por aquilo, e estava determinado a reparar o erro. Tate poderia ser seu primeiro verdadeiro amigo, que entenderia tudo dele e não iria deixá-lo de lado após conhecer o seu irmão Robb.
– Eu que peço desculpas. Você não tem culpa do que sua mãe fez. Assim como eu não tenho culpa do meu pai ter se deitado com minha mãe. Desculpa mesmo, Tate.
Tate abriu um largo sorriso. O garoto era uma pessoa difícil de se ter raiva com tantos sorrisos tão fáceis.
– A gente vai pro mesmo colégio?
Tate parou de sorrir após a pergunta, e o que mais assustou Jon foi a calma com que ele lhe respondeu:
– Ah, não, Jon. Eu não vou ao colégio. Fui expulso ano passado quando matei cinco alunos. Um tiro certeiro em cada. Agora estou sendo julgado, e devo ser morto, mas eles querem a opinião de um psiquiatra. Um psiquiatra pode me livrar da cadeira. Aí eu vou para um hospício. Alguns dizem que é melhor a cadeira, rápida e limpa. Por isso que estou vendo seu pai. Eu tenho alguns meses.
Jon sentiu seu rosto ficar pálido e seu lábio secar após aquela informação. Estava realmente assustado agora.
– Sabe, Tate, acho melhor você ir embora. — falou, quase gaguejando.
Tate abaixou a cabeça. Por uns segundos, Jon só podia ver seus cabelos loiros, e imaginou se o garoto chorava. Mas isso não importava. Era um psicopata. Matou cinco pessoas.
– Tudo bem, Jon. Idiotice minha esperar que a gente pudesse ser amigo se você soubesse de tudo. Mas também não queria esconder nada de você.
Tate acenou mais uma vez e saiu do quarto. Jon estava assustado demais para sentir qualquer remorso.
Durante o banho, no entanto, conforme a água gelada caia sobre seu rosto, refrescando-o e dando-lhe uma agradável calma, Jon perguntou-se se não deveria sentir pena de Tate. Passara a vida toda ouvindo o pai falar dos mais variados tipos de transtorno de personalidade, e sabia muito bem que Tate nem nenhum doente era culpado de ter tais doenças.
Ensaboou o corpo, parando um pouco para constatar como estava crescendo. O peitoral estava ficando mais destacado e sua barriga estava ficando bem definida. A academia era um dos poucos lugares em que ele e Robb se destacavam igualmente, lá eram apenas conhecidos por seus primeiros nomes e ninguém se importava com quem era filho de quem. O que importava era o quanto seu corpo mudava. Seu membro estava mole, e Jon começou a acariciá-lo lentamente, e não conseguiu não pensar em Tate. Talvez o fato dele ser o garoto mais lindo que já vira ajudava a sentir certa vontade de ser amigo dele.
Uma vozinha em sua cabeça não parava de lembrá-lo de Tate confessando seus crimes tão naturalmente na frente dele, mas a visão do rapaz e a lembrança de como ele fora tão legal com Jon, mais do que qualquer pessoa jamais fora, não permitiu que Jon sentisse raiva do rapaz.
Afinal, não seríamos todos seres humanos? Ficar sempre excluído do restante da família não deveria ter sido uma lição? Assim como bastardos eram excluídos da família, os doentes mentais não eram exilados da sociedade? Quantas pessoas já deviam ter tratado diferente Tate, assim como trataram Jon?
Concluiu que queria conhecer Tate. Saber porque ele matou aquelas pessoas. E, acima de tudo, queria ter um amigo.
Surpreendeu-se ao ver que os seus pensamentos haviam deixado seu membro endurecido. Desligou o chuveiro e sentou ali mesmo, no box, e passou a friccionar o órgão, primeiro lentamente, depois mais depressa. Queria pensar em Tate, mas sentiu-se mal em relação a isso. O garoto tinha tudo para ser macabro, e, mesmo se desconsiderasse isso, havia sido legal demais com Jon, e não queria ter segundas intenções com ele.
Decidiu sair do box, secar-se um pouco, depois envolver o corpo com a toalha e voltar para o quarto. Sabia o que procurar e onde procurar.
Depois de passar quase dez minutos procurando, quando a ereção já havia há muito passado, Jon percebeu que sua revista não estava ali nem em nenhum outro lugar do quarto. Ficou apreensivo, pensando em Robb caçoando, ou em Catelyn contando a Eddard, ou o próprio Eddard descobrindo...
Então lembrou de Tate. Parecia ser a resposta mais óbvia. O garoto ficara no quarto de Jon por tempo indeterminado, podia ter feito qualquer coisa. E se Tate se interessara por aquela revista, poderia ser um sinal. Acabou sorrindo. Foi tomado por uma ideia louca.
Terminou de se vestir e foi até a sala da casa. Subiu as escadas o mais rápido que podia sem chamar atenção de Bran que assistia TV na sala e foi até o escritório do pai. Em algum lugar naquele escritório estava tudo que Jon precisava.
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