O Novo Amigo de Jon Snow
3 A Filosofia de Tate Langdon
Notas iniciais
Optara por deixar a janela aberta enquanto dirigia. Amava a sensação do vento fazendo sua espessa cabeleira negra ondular: sentia-se vivo. Seu coração estava levemente acelerado, devido à ousadia daquilo. Mas havia dentro dele um desejo inflamado de conhecer Tate Langdon. Ele morava no subúrbio da região, conforme checara nos documentos que Eddard guardava de seus pacientes. Lembrou-se de Tate dizendo que devia ser bom ser um bastardo por não dever satisfação a mãe nenhuma, e Jon naquele instante não podia discordar dele.
Pegara o seu carro no final da tarde, mas a viagem já durava mais de uma hora e ele já tinha parado para abastecer. Não era um carro tão legal quanto o de Robb, mas o levava a lugares que os pais não permitiam que o meio irmão fosse. Não sabia direito porque estava fazendo isso por aquele garoto. Constantemente lembrava-se de que ele era um psicopata, mas estava já convencido de iria se aproximar dele.
A estrada chegou ao fim, e ele chegou num bairro bem mais simples que aquele em que os Stark moravam, quando já era noite, a lua brilhante num céu sem nuvens. Estacionou o carro num estranho beco vazio. Um homem bêbado andava na rua, com uma garrafa de whisky na mão, resmugando algo sobre trinta anos de casamento e ingratidão. Algumas crianças brincavam na calçada, de frente a um estabelecimento que Jon tinha certeza que era um bordel. E o coração começou a palpitar ainda mais forte em seu peito quando um sujeito vestido todo de preto o observou, curioso, com um cigarro na boca de onde saíam algumas baforadas de fumaça.
Sentiu que o homem o observou, mas não permitira que seus olhos se cruzassem. Aprendera que muito podia ser evitado se uma troca de olhares não acontecesse. Mas foi inevitável, o homem acabou aproximando-se lentamente de Jon, até estar ao lado dele e falar quase que num sussurro:
– O que procura aqui, rapaz?
– Nada que seja da sua conta.
Sabia que ele podia muito bem estar armado, mas Jon aprendera a se defender. Sabia lutar taek won do muito bem, era até melhor que Robb. E o tio Benjen o ensinara que não deveria temer o seu adversário sempre que pudesse, e que em ocasião alguma seu medo, caso existisse, devia transparecer.
– Você tem um rosto bonito. Branquinho. Aposto que tem uma bunda branquinha também. Você me deixaria ver sua bunda branquinha, rapaz? — falou, mantendo o tom.
– Então gosta de rapazes? — Jon falou, imitando um tom de deboche, ainda caminhando com tranquilidade, mas sentia o medo espalhando-se pelo corpo. Não iria tremer. Não iria.
– Quando as putas estão caras. — ele riu.
– Eu sou amigo de Tate Langdon. — Jon falou, e virou o rosto para o homem. Reparou que ele tinha olhos cinzentos e uma barba por fazer. Usava uma boina que já estava toda suja, e não cobria totalmente seus cabelos já ficando mais claros. A menção do nome de Tate o fizera hesitar pela primeira vez.
– O moleque Tate. Seu pai o largou. Sua mãe é bêbada e paga garotos para lhe fuderem. E matou pessoas. Todo mundo sabe. Cinco. Foram cinco: um tiro em cada. Numa escola. Uma biblioteca. Eles estavam estudando! — terminou a última frase, num tom meio revoltado.
Jon sorriu, por tempo suficiente para garantir que fora visto.
– E eu estou apenas andando e você estava interessado em me estuprar, então você não é muito melhor que Tate, não?
O homem parou de andar, olhando para Jon com seriedade.
– Vá. — falou. — Vá e fique com o moleque Langdon. Deve ser igual a ele. Do mesmo nível. Imprestáveis. A cadeira é aonde esse menino vai parar, e você também se continuar andando com ele. E ele não está em casa. Nunca está em casa de noite. Nem sua mãe. Vai perder seu tempo indo lá. O garoto vive numa loja de discos. Sim, sim, passa noites inteiras lá. É sabido. Sam, o dono da loja, está furioso já. Perdendo clientes. Quer expulsá-lo, mas tem medo. Está rezando pelo dia em que o chamarão para pagar pelos seus crimes. Boa noite para você.
Afastou-se, apressado, e Jon estava contente por dentro e por fora. Todo o medo se fora. Viu o velho entrar no bordel, mas antes jogou no chão o cigarro que estivera fumando.
Não demorou a encontrar a loja de discos. Só precisara perguntar a uma garota pequena que lhe dera a informação. Embora tivesse ficado um pouco nervosa com a menção à loja, ela nada falou sobre Tate, apenas lhe explicou como chegar lá.
A fachada estava toda decorada com impressões em tamanhos gigantes de capas de disco famosos. Jon viu Michael Jackson, Madonna, Pink Floyd, U2 e até The Smiths, mas não demorou-se lá fora, e logo entrou na loja.
Era um verdadeiro paraíso para qualquer pessoa que se interessasse por música. Todos os gêneros de todas as décadas podiam ser encontradas nas altas prateleiras com CDs que chegavam até o teto, e havia inclusive algumas mesas com vinis antigos. Nunca pensou que poderia existir uma loja tão fascinante num bairro como aquele. Um som tocava In Bloom, de Nirvana, e a música alcançava todos os cantos da loja por caixas postas nos nichos das paredes, lá em cima. Tinha uma lista de discos em sua cabeça que gostaria de comprar assim que tivesse a oportunidade, mas não estava lá para isso. Com as mãos apoiadas sobre uma das mesas com CDs, as mãos balançando para frente e para a trás no ritmo da música, e os lábios se movendo sem emitir nenhum som, Tate estava ali, vestido da mesma maneira de quando estivera na casa de Jon. Devia estar concentrado demais na música para notar a chegada de alguém, mas o dono da loja, por trás do balcão, o olhou. Era um velho barbudo que tinha uma expressão nervosa no rosto. Olhava para Jon e depois apontava para Tate com os olhos, como se fosse um aviso.
– Sabe, Harold, eu acho a letra dessa fantástica. Quando ela acabar, você toca de novo, beleza?
Quando não foi respondido, levantou a cabeça, que antes parecia não estar com o olhar fixado em lugar algum, para ver se o dono da loja, Harold, estava prestando atenção. Mas Harold olhava para Jon, e por isso Tate virou o rosto e Jon adorou a reação do garoto ao vê-lo parado ali. Era um misto de surpresa e alegria, seus olhos ficaram arregalados e abriu um grande sorriso.
– Jon! O que está fazendo aqui, cara?
– Eu vim pedir desculpas. — Jon também tentou sorrir, mas não era tão bom nisso quanto Tate. — Acho que fui um pouco grosso hoje à tare.
– Ah, esquece isso. — ele deu uma risada. — Harold, este aqui é o Jon. Jon, Harold é o cara.
Harold acenou para Jon com uma mão tímida. Não devia estar contente em ter Tate como seu único cliente todas as noites: além do prejuízo financeiro, não era uma companhia muito confortável, embora o garoto parecesse estar sendo bastante simpático.
Jon deu um meio sorriso para o dono da loja e voltou rapidamente sua atenção para Tate.
– A gente pode conversar lá fora? Queria te dizer umas coisas.
– Claro. Espera só um segundo.
Fechou os olhos. Voltou a balançar a cabeça, para a frente e para trás, enquanto Kurt Cobain terminava de cantar pela última vez o refrão da música. Os lábios de Tate terminaram junto com ele, e logo seus olhos se abriram e ele se afastou da mesa e acompanhou Jon para o lado de fora, mas não sem antes acenar para Harold.
Lá fora, Jon não soube bem por onde começar uma conversa com ele.
– Nirvana é o máximo.
– Super. — falou Tate, empolgado. — Eu escuto todos os dias. A parede do meu quarto? Kurt Cobain. A maioria das minhas blusas? Nirvana. Meu iPod? Nirvana. E outras coisas, claro.
Ficou sem falar nada por alguns segundos, até que se lembrou de uma informação importante:
– Quando eu tinha oito anos, minha mãe me deu de aniversário um pote com o que ela jurava que era o sêmen de Kurt. Achei que ela tinha comprado no eBay, mas hoje acho que devia ser de um dos namorados dela. Percebi isso só depois. Se eu fosse uma garota, eu teria me engravidado fácil com aquilo. Mas acho que os espermatozóides morrem ou algo assim. Tem a ver com a temperatura, acho. Ou o oxigênio. Ou eles precisam do corpo da mãe para sobreviverem depois de fecundados.
– Ainda guarda o pote?
– Não. Eu bebi.
– Você bebeu? — Jon perguntou, surpreso.
– Sim. Mas foi quando eu ainda achava que era do Kurt. — apressou-se em explicar.
Jon não soube o que falar daquilo, por isso tratou de ir direto ao ponto.
– Você parece ser incrível, Tate. Eu gostaria de ser seu amigo.
– Ninguém nunca me disse isso. Eu gostaria muito de ser amigo, Jon.
– Ninguém nunca me disse isso também. Não depois de conhecerem Robb e saberem a diferença entre nós dois.
– Robb é o que deixou um iPad em cima da cama, não? Com um lobo na capa?
– Não. Esse é o Bran. Robb... Robb é o que tem um violão encostado na parede.
– Ah, sim. Sei. Bem, deve ser chato ser um bastardo. Não deve ser fácil. Desculpe ter dito que era maneiro ou algo assim. Parando para pensar, deve ser horrível.
Jon deu um tapinha no ombro do novo amigo.
– Relaxa, Tate. Aposto que pra você é mil vezes mais difícil.
Percebeu que tocara num ponto sensível do garoto, ele ficou cabisbaixo e não falou nada por alguns segundos.
– É. É difícil. Mas eu aprendi a não ligar para o que ninguém pensa.
– Eu gostaria de não ligar para o que ninguém pensa.
Tate subitamente apertou seus ombros com força, com intenção de animá-lo. As luzes que iluminavam a rua cintilavam dentro de seus belíssimos olhos castanhos.
– Você é melhor que eles, Jon. Se no mundo houvesse mais pessoas como você, ele seria bem melhor. Se tivéssemos uma garota, poderíamos matar o mundo inteiro e ter filhos com ela para fazer uma nova espécie. De pessoas como nós. Seria um bem para a humanidade. Eu penso bastante nisso. Pensei que teria que fazer isso sozinho mas agora eu vejo que tenho você.
Terminou o discurso com um sorriso de incentivo, e seus olhos pareceram estar marejados de lágrimas. Mas Jon ficou um pouco assustado com a forma com que o garoto tratava da morte. Estava começando a pensar se não fora estupidez ir até ali.
– Obrigado, Tate. A mulher do meu pai por muito tempo me fez sentir como um lixo...
– Você é melhor que ela. E que o Robb. Você é melhor que qualquer um dos filhos dela. Você é melhor que qualquer um que preferiu os filhos dela a você!
Jon não queria que Tate sugerisse matar os seus irmãos ou até Catelyn Stark, por isso preferiu mudar de assunto.
– Fica na loja de discos todas as noites?
– Sim. É o único lugar que presta nesse bairro. E como não posso comprar os CDs porque minha mãe cancelou minha mesada para pagar comida, luz e rapazes então eu tenho que ir até lá escutar música. Ei, como você sabia onde me encontrar?
Parecia mais curioso que incomodado com a perseguição de Jon.
– Achei seu endereço nos arquivos do meu pai. E um cara me avisou pra nem te procurar em casa porque você sempre ficava na loja.
Tate deu uma risada.
– Quem é esse cara? Acho que o devo uma.
– Ele era bem esquisito. Acho que ia tentar me estuprar.
Tate ficou estranhamente sério quando Jon disse aquilo, muito mais do que ele esperara.
– Te estuprar? Você tá falando sério?
– Sim, mas eu sei me defender. Taekwondo. Faixa preta.
– Isso é o máximo! Mas ainda assim ele não devia ter tentado te estuprar. Isso é errado. Muito errado. Como ele era?
– Velho. Meia idade. Usava uma boina. Estava todo de preto. E bem sujo. Fumava um cigarro.
– Você sabe algum nome, endereço?
– Ele entrou num bordel aqui perto. Por quê? O que você vai fazer?
Disfarçou a tensão da última pergunta com uma risada. O medo estava voltando para ele.
– Eu vou fazer um bem a humanidade.
E começou a andar, com passos largos e apressados. Jon correu para acompanhá-lo. Tate andava com firmeza e sem hesitar.
– Você é louco!
– É esse o nome que idiotas dão para visionários, Jon. Nunca pensei que você fosse um idiota.
Começou a andar cada vez mais rápido, e então a correr. E Jon teve que correr também para acompanhá-lo e impedir que fizesse alguma besteira.
Chegaram até a rua do bordel, e, quando estavam já na porta do estabelecimento, Jon tentou pará-lo mais uma vez.
– Tate, pare! Não vá fazer nenhuma besteira.
Tate finalmente parou e olhou para trás, para onde Jon estava. Calmo. Sereno. De maneira alguma Jon poderia prever o murro que viria a seguir. Mas fora atingido em cheio na cara, e a última coisa de que se lembrava era de sua cabeça atingir o chão, quando perdeu os sentidos.
Não sabia quando tempo passara quando acordou. A cabeça doía bastante, e ele estava deitado no colo de alguém. Abriu os olhos. No início, estava tudo muito embaçado, mas aos poucos o rosto de Tate Langdon fora tomando forma. Estava com uma garrafa de refrigerante na mão. Jon mexeu um pouco a cabeça e isso não passou despercebido pelo garoto, que olhou para ele.
– Aí está você, Jon.
Jon ergueu o corpo inteiro de súbito, chegando a assustar Tate, que estava sentado no asfalto, no meio do beco onde Jon havia estacionado o carro. Pressionou o corpo do garoto contra a parede, furioso.
– O que pensa que fez?
– Fiz um bem a humanidade. — falou, tranquilo.
– Você me deu um murro!
– Para que não me atrapalhasse! — sua voz começava a se exaltar pela primeira vez desde que o conhecera.
– Matou aquele cara? Que direito você acha que tem de tirar a vida de uma pessoa, por mais vil que seja?
Tate ficou igualmente furioso.
– Estava protejendo! Protejendo moças e rapazes e quem sabe até crianças. Quantas pessoas impedi que esse homem estuprasse? — gritou, quase cuspindo as palavras. — Se você quer ser meu amigo, Jon — falou, com o indicador da mão direita que tremia apontando para ele — terá que me aceitar do jeito que sou. E sim, eu mato pessoas. E enquanto eu estiver vivo, matarei. Quando eu ver alguém sendo violentado, abusado, eu matarei. Quando concluir que alguém é inútil, matarei.
Jon não sabia o que falar daquilo. Estava ofegante e com os batimentos cardíacos acelerados
– Pensa que sou idiota? Acha que não sei que pensou várias vezes antes de vir até aqui? Acha que não sei que tem medo de mim? Medo de ser meu amigo? Por quê não perguntou ainda porque matei aquelas pessoas? Já teve tempo de sobra de buscar meu nome na internet e descobrir tudo que aconteceu.
Ele não estava errado. Jon procurara se informar sobre o que acontecera. Jornais locais e até nacionais noticiaram o massacre de cinco alunos na escola Westfield High. O assassino era um psicopata de dezessete anos que respondera as acusações com frieza e indiferença.
– A garota. Vamos começar por ela. — permanecia com a voz exaltada. — Ia para a igreja todos os fins de semana. — prolongou a primeira sílaba de "todos" num tom casual de quem conta uma história — Sabia os mandamentos de cor e adorava apontar quem ia pro inferno. E o que aconteceu? Ficou grávida de um cara que nem era seu namorado. E tirou o bebê, claro. Era hipócrita, mentirosa. Uma criatura desprezível. Sim, eu a matei. E eu a mataria de novo, e de novo. O menino de pele escura. Judeu. Os pais faziam tudo por ele. Tinham direito para colocá-lo em qualquer faculdade do mundo. Investiam na educação e no futuro do filho e o que ele fazia? Ia para festa. Todos os fins de semana. — Tate gesticulava bastante enquanto falava, e Jon sentiu uma pontada de dor novamente na parte do rosto em que Tate lhe batera. — Ficava bêbado. Fodia. Não estudava. Ingrato. Preguiçoso. Outra pessoa sem a qual está muito melhor! E sou eu que eles querem matar. O jogador de futebol... ah, esse é um dos maiores idiotas. Perdeu uma aposta com os amigos e teve que tirar a virgindade de uma das garotas mais feias da escola. Sim, esse eu dei um chute nos ovos antes de atirar em sua cabeça. Se tivesse tido tempo, teria cortado seu pau e o colocado numa caixa para dar de presente para a pobre menina que acreditara em cada palavra que ele dissera...
Jon não sabia o motivo, mas quanto mais ele falava mais o temia, e, surpreendetemente, mais queria amá-lo. Mais queria cuidar dele, ou salvá-lo, o que quer que pudesse fazer. Não queria saber porque os outros dois garotos morreram. Empurrou o corpo de Tate contra a parede de pedra do beco, sem nem verificar se estavam sozinhos, e encostou os seus lábios nos dele com força, interrompendo todo o seu discurso. Estava com um pouco de medo de ser rejeitado, e uma calma e alegria se espalharam por cada célula de seu corpo quando Tate também o beijou. Fechou os olhos e abriu a boca, mas antes de poder pôr a língua para fora Tate hesitou.
– Espera. Você é gay? — perguntou, empurrando-o levemente com as mãos em seu peito para afastar os lábios.
– Desculpa. — respondeu Jon, e quis justificar depressa — Eu pensei que você fosse...
– Gay? Eu?
– Sim.
– Eu não sou. Acho massa! Mas não sou.
– Pensei que você tivesse mexido nas minhas coisas e pego na minha revista.
– Ah! — Tate ficou surpreso novamente. — Eu peguei mesmo. Desculpa. Eu te devolvo, beleza? Tinha guardado ela no meu bolso antes de você chegar para dar uma olhada em casa.
– O que você queria com uma revista gay?
– Tá de brincadeira? Gays são pessoas que sabem fazer sexo. — ele falou com um sorriso no rosto. — Cada coisa que eu vi lá. Fico realmente impressionado. Pornô gay é demais.
– Mas você não é gay. — falou, decepcionado. Toda a sua alegria se fora. Pelo menos, também se fora o medo.
– Não, cara.
E aproximou os lábios do de Jon.
– Espera. Você não é gay. — Jon disse, com uma risada que expressava como não entendia o que estava acontecendo.
– Sim.
– E vai me beijar. — falou, ainda rindo.
– Sim! Pensei que você quisesse me beijar.
– Quando pensei que você era gay.
– Não quer mais?
– Você quer?
– Eu acabei de falar que os gays manjam em sexo. Eu adoraria beijar um cara, e ser logo você que é tão legal comigo. Ou pelo menos era.
– Eu sou! Esquece aquelas pessoas. Ou aquele cara. Eu entendo seu jeito. Não sei se concordo... mas você é especial. E eu quero.
– Que bom. Então, Jon, acho que a gente pode fazer coisas incríveis juntos. Eu super ia ser passivo. Eu vi uma das fotos. Naquela revista, sabe? Uma das posições. Aquela que o cara tava deitado, com a barriga pra cima, as pernas apoiadas no ombro do ativo. Parecia incrível. Eu faria isso com você. Eu deixaria você me comer. Mas você podia ir devagar, né? Minha primeira vez. Ouvi falar que doi um pouquinho. — concluiu baixinho.
– Você é louco, Tate. Mas é uma loucura boa — apressou-se em dizer — Você é a pessoa mais incrível que já conheci.
O corpo dos dois se aproximaram e pela primeira vez Jon Snow sentiu como era beijar um garoto. E era muito melhor que beijar uma garota. Parou de sentir a dor no rosto. Não sabia se era por Tate ser tão especial, mas sentia que cada parte do seu corpo vibrava com a sensação de ter a língua do garoto em contato com a sua, e a sua ereção, que iniciara quando foi beijá-lo pela primeira vez e chegara ao máximo com a conversa sobre a tal posição sexual, foi pressionada contra a calça de Tate, e Jon pôde sentir um volume tanmbém crescer ali. Jogou o garoto contra a parede, sentiu ele passar a mão em seu cabelo enquanto Jon segurava sua cintura com uma mão e seu rosto com a outra, jamais cansando de beijar o garoto tantas vezes quanto desejasse, desejando saber quantos segundos de sua vida restavam para poder calcular quantos beijos ainda poderia dar em Tate. Porque naquele instante o seu mundo inteiro era Tate, e não havia Catelyn, ou exército, ou mesmo um julgamento por homícidio por vir, havia apenas o corpo dos dois em contato, e suas línguas que não cansavam de se encontrar. Os lábios de Tate eram doces e delicados e Jon experimentou mordê-los, ao que se seguiu uma rápida risada do loiro antes de voltar a beijá-lo. Ficaram fazendo isso por horas, e depois deitaram no capô do carro de Jon, exaustos, olhando para a lua, com a cabeça por sima das mãos, com sorrisinhos bobos estampados permanentemente em suas caras. Era como se tudo estivesse bem, e fosse ficar bem para sempre se as coisas simplesmente pudessem permanecer daquele jeito.
– Espera um instante. — Jon falou.
Foi até o carro e pegou duas garrafas de cerveja que tinha deixado no banco de trás. Estendeu o braço para passar uma delas para Tate.
– Eu não bebo.
– Não? — Jon deu uma risadinha, surpreso.
– Meu pai bebia e abandonou minha mãe e eu. Hoje, minha mãe que bebe e gasta seu dinheiro com prostitutos. Eu não sou muito fã de bebida, Jon. E, além disso, você está dirigindo, devo lembrá-lo.
Jon riu. Virou para a parede do beco, e jogou contra ela as duas garrafas, que se partiram no choque. Os dois observaram por alguns instantes todo o líquido se espalhar pelo chão.
– Muito bem. Merece um beijinho.
E Tate ergueu seu corpo, e Jon aproximou-se do carro para colar os seus lábios nos dele que ainda estava sentado no carro.
– Podemos ficar aqui a noite inteira? — Jon perguntou, com medo de que alguém chegasse ali.
– A vida inteira, no que depende de mim. Sabe, Jon, eu estou surpreso. Nunca imaginei que seria tão bom beijar um cara. Sua força... eu não sou muito musculoso. E sua barba... Eu não tenho pelos. Em lugar nenhum. É fantástico. Eu quero beijá-lo mais.
E sorriu, e aquele sorriso, mais aqueles olhos, mais aquele cabelo, mais tudo que aquele garoto lhe falara para sentir-se especial e excitado, levou Jon a beijá-lo novamente, e as línguas dos dois se encontraram mais uma vez.
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