O Novo Amigo de Jon Snow
4 As Coisas Que Faço Por Amor
Notas iniciais
– Como conseguiu entrar?
Foi a primeira coisa que Jon perguntou-lhe no instante em que Tate sentou ao seu lado na arquibancada do campo de futebol da Westfield High. Jon tinha um copo gigante de Pepsi em uma mão e um pacote de batatas na outra e estivera gritando incentivos ao time da escola antes dele chegar. Tate enfiou a mão no pacote e encheu a boca antes de respondê-lo.
– Fiz um oral no segurança.
A animação de Jon murchou ao ouvir aquilo, mas ele tentou parecer indiferente.
– Estou brincando. — explicou, rindo. — Eu só coloquei óculos escuros e vesti o capuz do casaco.
– É bom vestí-lo novamente se não quiser que te expulsem.
– Você quer ficar comigo?
Jon virou para ele, ainda sério. Tate notava que o garoto sentia-se nervoso em expressar o que sentia, ou o que tinha medo de sentir. Não podia culpá-lo: ele mesmo estava bastante confuso com tudo aquilo. Nunca se sentira tão bem quanto se sentia perto de Jon.
– Eu quero ficar com você. Mas fala baixo.
– Ninguém sabe que você é gay?
– Fala baixo! — Jon olhou para frente, para trás e para os lados, mas ninguém estava prestando a menor atenção a eles. — Ninguém. Pelo menos eu sei o que sou. E você descobriu o que é, afinal?
Tate respondeu a Jon usando a mesma resposta com que respondera a si mesmo.
– Eu sou alguém que se sente feliz quando está com você. Sentiu ciúmes de mim com o segurança?
– Por quê tantas perguntas?
Jon estava com o rosto virado para o estádio, mas Tate não estava interessado no jogo no momento e pousou a mão no ombro do amigo:
– Tudo bem. O que é que temos dito um pro outro? Relaxe e aproveite o momento.
– Sim.
– Como está Robb?
– Está indo bem. Robb sempre foi um jogador fantástico.
– Você não se interessou por jogar?
– Eu gosto de lutar. E só. E nem é aqui no colégio. Odeio tudo de colégio.
– Eu também odiava.
– Eu sei.
Jon sorriu ironicamente, mas Tate estava feliz por ele já estar sorrindo sobre aquilo. Parecia estar disposto a perdoá-lo por tudo e ficara aliviado e até chegara a achar cômico quando Tate dissera que não havia matado o estuprador na primeira noite em que os dois se beijaram, apenas cortara seu pênis e depois o tirara a virgindade com ele.
– Eu detesto cheerleaders.
Disse isso após passar um minuto analisando as meninas que dançavam e gritavam para os jogadores. Sempre soubera que sua namorada, quando tivesse uma, não seria assim. Elas eram sorridentes, estupidamente magras, e vestiam-se como vadias. Tate não via nada de errado em uma mulher se vestir assim, mas achava que não deviam fazer isso apenas para torcer para homens que não estavam nem aí para elas. Além disso, cheerleaders e jogadores de futebol nada acrescentavam ao mundo, e Tate se pegou imaginando como seria incendiar aquele estádio. Não demoraria muito: bastava começar em algum ponto em que ninguém o visse, e então o fogo se espalharia sozinho, e logo cheerleaders, jogadores e todas as pessoas estúpidas que ligavam para aquilo seriam consumidos pelas chamas. Adoraria ouvir os gritos de uma cheerleader, sentir seu desespero ao constatar o fim de uma vida em que não fizera absolutamente nada. Teve o impulso de dar um tapa na própria cabeça, mas controlou-se para não chamar atenção de Jon. E era por ele que ele daria aquele tapa para expulsar aqueles pensamentos. Jon estava no meio da multidão que gritava, e Tate nunca deixaria nada acontecer a Jon.
– Minha meia-irmã Sansa é uma delas. É aquela que ficou no topo da pirâmide humana que montaram.
– Ah, desculpe.
As palavras saíram da sua boca antes que tivesse sequer pensado em dizê-las. Tate nunca se desculpava por nada.
– Eu detesto ela também. Coma mais umas batatas.
Jon desviou o rosto do jogo por um instante para sorrir para ele e lhe estender o pacote. Tate sorriu de volta e se serviu mais uma vez.
Aparentemente, Robb Stark se adaptara com facilidade à nova escola e ao novo time. Fora um dos que mais marcaram no jogo e foi ovacionado pela multidão, além de receber abraços de alunos comuns e das cheerleaders quando a partida terminara. No meio de tanta euforia ainda encontrara um momento para acenar para Jon, o que fez Tate simpatizar pelo meio-irmão do amigo.
Os dois saíram juntos do estádio. Jon estava muito feliz pela vitória do irmão e parecia até levemente interessado no esporte. Tinham que andar depressa para não serem atropelados pelas pessoas que saíam. Podiam falar livremente ali devido ao barulho. Mas não fora para isso que Tate havia ido até lá.
– Eu tenho uma consulta com seu pai hoje à tarde.
– Algum progresso no diagnóstico?
– Merda nenhuma. Acho que estou fazendo-o ficar com pena de mim. Mas uma pena de verdade. Não uma pena de me fazer de coitado, porque isso é coisa de psicopatas.
– E você não é um?
Jon Snow era a única pessoa que o fazia se sentir levemente culpado, mas não iria deixar o garoto mudar a sua convicção de que fizera um bem à humanidade matando aqueles adolescentes imbecis.
– Eu não quero discutir isso. Você gosta de mim como sou ou não gosta de mim. Sem meio termo. — Jon relaxou o rosto, que tinha os músculos contraídos até então — E eu não vim aqui para assistir a um jogo de futebol. E ficar com você eu posso ficar toda terça feira depois da consulta ou nas vezes que me chama pra sair. Mas você se sente inseguro em casa e não parece se sentir a vontade em nenhum dos parques que a gente foi...
Estava saindo com Jon já há três semanas. Os dois já sabiam praticamente tudo da vida um do outro naquele momento. Já foram no shopping uma vez, mas perceberam que sentiam-se melhor em lugares com menos pessoas. E o beijo que trocaram durante o filme no cinema não fora muito bem recebido pelas pessoas que estavam por perto. Jon tirou Tate do local antes que ele pudesse fazer o que queria, e acabaram indo para um parque no subúrbio da cidade que tinha todos os seus brinquedos praticamente quebrados e pichados por vândalos. Até as árvores pareciam tristes naquele ambiente melancólico, mas ele funcionara perfeitamente para os dois. Beijavam-se nos banquinhos, beijavam-se nos brinquedos e beijavam-se dentro do banheiro químico do lugar. Aos poucos exploravam o corpo um do outro com mais intensidade. Jon gostava de sentir o peito de Tate pressionado contra o seu, gostava de morder o pescoço do garoto e de sentir a mão dele friccionando seu pênis por cima da calça, gostava de empurrar Tate para a parede do banheiro, deixando suas costas de frente para si, e de então enchê-lo de calorosos beijos na nuca enquanto fazia movimentos de vai e vem no amigo. Vestidos.
– São lugares públicos, Tate! Qualquer um poderia nos ver.
– E o que me diz do almoxarifado da Westfield High num dia de jogo em que ninguém está fazendo nada?
– Tem certeza? — Jon perguntou inseguro.
– Eu tenho certeza de que posso ir para a cadeira a qualquer momento, ou ser internado num hospício, e não gostaria de que nenhuma dessas coisas acontecessem antes de transar com você.
– Tudo bem! Você venceu.
Tate sentiu a ira surgir dentro de si, pela primeira vez o sentimento era dirigido a Jon Snow.
– Eu não quero vencer, Jon Snow. Eu quero você queira isso assim como eu. E quero que se apresse a querer.
– Eu quero. Agora vamos fazer isso ou não? Sabe onde é o almoxarifado? — Tate concordou com a cabeça — Espere-me lá enquanto compro camisinhas.
– Eu não tenho doença nenhuma! — protestou.
– Talvez tenha e não saiba. Espere-me. Vou comprar um lubrificante também.
– Ainda bem. — suspirou, aliviado.
Tate foi sozinho até o almoxarifado. Vestira o capuz por precaução, mas não encontrou ninguém por todo o caminho até dentro do prédio e através de seus corredores. Estava excitado como jamais estivera, a ideia de finalmente ver o corpo que somente imaginara era fantástica, e não tinha palavras para descrever como seria transar com ele.
Ainda tentou organizar os produtos de limpeza e os baldes e as vassouras que eram deixados naquele lugar, para que os dois tivessem espaço. Perguntava-se quais posições poderiam testar num lugar tão apertado. A menos espaçosa parecia ser a que Tate ficaria de cabeça para baixo, sentado, enquanto Jon lhe penetrava em pé, mas aquela cena era pertubadora em sua cabeça e concluiu que podiam tentar outra coisa.
Estava começando a pensar em tirar o membro da calça dada a tensão que sentia quando finalmente Jon abriu a porta do pequeno cômodo. Parecia um pouco nervoso e tremia ligeiramente. Tinha uma sacola da farmácia em mãos.
– Eu comprei. O cara olhou estranho para o lubrificante mas eu o mandei se fuder.
– Deixe-me ver.
Tate estendeu a mão para a sacola e de lá tirou o lubrificante e as camisinhas.
– KY Gel. Que nome engraçado. Então eu vou passá-lo, certo? Ou você passa em mim? Eu não entendo de sexo gay, Jon Snow. A revista não dizia nada sobre isso.
– A revista não era educativa. Era pra você bater uma vendo.
– Eu bati cem e ainda não tenho ideia do que estamos fazendo.
Jon riu.
– Não ria!
Tate acabou rindo também. Jon se aproximou dele e o beijou enquanto os dois ainda riam. A barba de Jon estava mais espessa que em qualquer outra ocasião em que se encontraram e Tate sentiu sua ereção lutar para sair pela calça. Pegou na nuca do garoto enquanto ele o empurrava contra a parede do almoxarifado, mas não se demorou naquilo que já haviam feito antes. Começou a levantar a camisa de Jon, demorando-se um pouco para sentir a pele que começava a aparecer. Quando a tiraram por completo e a atiraram pro lado, Tate abaixou a cabeça para dar beijos que iam do pescoço ao peito musculoso de Jon, deliciando-se com os pelos do local, principalmente do mamilo, que mordera e beijara enquanto sentia o amigo ofegar.
– Você é gostoso, Jon Snow. Muito gostoso.
– Eu quero ver você.
Jon sorria, excitado.
– Seu corpo é melhor que o meu. O seu é demais. Eu não devo ter mudado muita coisa na puberdade...
– Foda-se. Tira a camisa. E a calça. Eu quero ver sua bunda lisa e penetrar sua virgindade. Eu quero ouvir você gritar meu nome.
Tate sentiu-se levemente intimidado pelo o que ele dissera, mas muito excitado. Ia tirando a camisa, quando ouviram vozes exaltadas no corredor.
Jon congelou. Tate não sentiu medo, mas preocupou-se com Jon. Os membros dos dois murcharam e já não sentiram-se tão viris. Quando começaram a prestar atenção na conversa, os pelos dos mamilos de Jon Snow já não pareciam tão sexys ou Tate estava tenso demais para sentir qualquer coisa por eles.
– Quem é? — perguntou, num sussurro.
– Como espera que eu saiba? — falou Jon no mesmo tom.
O garoto apressou-se em procurar sua camisa, dificultado pela escuridão do ambiente, e depois tirou as camisinhas da sacola e o KY Gel de onde Tate o deixara e colocou-os no bolso.
– Robb Stark é uma séria ameaça. E eu não admitiria normalmente sentir-me ameaçado, portanto espero que sinta a gravidade da situação.
Era uma voz grossa, rude e autoritária que falava.
– O que espera que eu faça? — disse uma segunda voz, totalmente submissa a primeira.
– Faça-o sofrer. Nem que tenha que tomar medidas extremas. O garoto é novo no colégio e já se adaptou bem. O Westfield High nunca esteve tão coeso.
– O que quer dizer com medidas extremas? — a segunda voz ficava mais medrosa a cada palavra.
– Qualquer coisa que traga aos Ravenfield High sua antiga honra. Você é inútil em campo. Faça-se um utensílio fora dele ou papai não lhe pagará a faculdade. Eu garantirei que isso não aconteça.
– Dean... o que quer que eu faça?
– Um acidente. Planeje tudo. Qualquer coisa que deixe Robb Stark incapaz de jogar pelo restante da temporada. Deixe-o aleijado.
– PAREM! DEIXEM MEU IRMÃO EM PAZ.
Não fora Jon Snow quem gritara.
A ira mesclada com terror que Jon ouviu na voz de Bran, a mais amável de todas as pessoas da casa, o fez pular contra a porta velozmente. Saiu do almoxarifado com o coração acelerado, para ver Bran na janela, a alguns metros dele, de pé e furioso, com dois garotos da escola adversária o observando. Um deles estava chocado. O outro, alto e musculoso, frio.
– Você gosta de escalar, ein? Subiu nos muros da escola para ouvir nossa conversa?
– JON! ELES QUEREM MACHUCAR ROBB! E não subi para ouvir vocês, eu escalaria de qualquer maneira. Eu sempre escalo. E quando vocês começaram a falar, eu comecei a gravar no meu iPhone! — gritou, rispidamente.
O dono da voz grossa e rude acabou sendo o que observava Bran friamente. Virou-se para Jon e, olhando para ele, deu alguns passos para mais perto da janela, para onde Bran estava, com a mão tocando o peito do garotinho.
– Nem mais um passo, Jon. Com tantas escaladas, eventualmente o garoto acabaria caindo. Eu suponho que seja o meio-irmão. Quem acreditaria nas palavras de um bastardo?
Virou-se novamente para Bran.
– Apague a gravação onde eu puder vê-la, garoto.
– Deixe meu irmão em paz. — bradou Jon. Nada poderia acontecer a Bran. — Eu faço qualquer coisa. Afaste-se dele. Ele está na iminência de cair. Robb não jogará mais. Tenho minha palavra. Agora, deixe-o.
– Eu não vou apagar nada, Jon! Eles queriam fazer mal a Robb.
– Então seu iPhone fica comigo, garoto. — e tirou o celular da mão de Bran que, surpreendentemente, tinha apenas fúria estampada na cara e nenhum sinal de medo. — Observe, Sammy, e aprenda.
Virou-se para o amigo, que estava boquiaberto e com os olhos enchendo-se de lágrimas.
– As coisas que faço pelo...
Não chegou a completar a frase, uma faca cortou-lhe a garganta e sangue escorreu da região e manchou todo o uniforme do time de Ravensfield. O corpo dele desabou no chão em sua poça de sangue quando a mão que o segurava soltou-o, e Jon pôde ver o de Tate por trás dele. Jon nunca chegou a notar que Tate saíra do almoxarifado.
– As coisas que faço por amor. — Tate falou, friamente.
Jon sentiu medo. Assustado com o corpo, assustado com Tate.
– Ele iria fazer mal a Bran. — disse Tate, já sentindo o choque de Jon.
O garoto chamado Sammy começou a chorar de verdade, e ergueu as mãos como se se rendesse.
– Não faça mal ao outro. — pediu.
Tate abaixou a faca.
– Você sempre anda com uma dessas no bolso?
Tate não respondeu. O garoto começou a correr mas nem Jon nem Tate nem Bran prestou atenção a ele. Seguiram-se alguns segundos de silêncio.
– O que faremos? — perguntou Tate, finalmente.
– Eu cuidarei de Bran.
Deu alguns passos a frente, contornou a poça de sangue e tirou o irmão da janela.
– Venha, Bran, vou te levar para casa.
– Ele está morto. — o irmãozinho disse, um pouco assustado. — Você o matou! — falou para Tate. — Obrigado.
– Não o agradeça. Apenas venha. — Jon comandou com firmeza.
– JON!
O grito de Tate apenas o fez apertar a mão de Bran ainda mais forte. Percorreu o corredor a passos largos.
– EU FIZ POR AMOR!
Jon nada falou. Tudo o que importava era Bran agora.
– EU O SALVEI! POR AMOR! EU NUNCA ME DESCULPAREI POR ISSO!
Sentiu uma lágrima cair de seu rosto. Não sabia se algum dia veria Tate novamente.
– NUNCA ME DESCULPAREI POR O QUE FAÇO POR AMOR!
Terminou o corredor e virou a direita, rumo a escada. Andou com mais calma apenas quando teve certeza de que Tate não os seguia. Percebeu que Bran estava lutando contra as lágrimas, mas ninguém via Brandon Stark chorar. O caminho para casa fora silencioso. Em casa, após ouvir toda a história, Catelyn Stark estava agradecendo a Deus com um terço na mão pela vida do filho, acompanhada por Sansa. Robb demoraria a voltar da festa de comemoração da vitória e a família quis deixá-lo curtir o momento, até que todos tivessem sabendo da morte que acontecera nos corredores da escola. Eddard, por outro lado, fora até o seu escritório, acrescentar informações no histórico de um de seus pacientes. Jon temeu que tivesse chegado a um diagnóstico, e algo o dizia que aquele diagnóstico já viria tarde.
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