O Novato
1 Prólogo
Notas iniciais

Era uma manhã convidativa, e o sol sem pedir a devida licença, inundava o seu quarto através das arestas das janelas entreabertas. Despertada do seu sono mais que merecido, Violetta, ainda titubeando, caminhou até o banheiro e, após muito esforço, abriu os olhos, e só então constatou seu atraso, motivo suficiente para seu desperto, a final, ela era Violetta Castillo, a queridinha do reitor, e como o próprio sempre dissera, ela era um exemplo a ser seguido, não poderia simplesmente chegar atrasada no primeiro dia de aula. Seria uma catástrofe, e um belo motivo para comentários torpes.
Seu banho durou minutos, apenas. Violetta encarava seu novo material universitário com certa ira, pois naquele dia iria iniciar o último período da sua faculdade de arquitetura. Ainda descalça e coberta por um roupão branco, caminhou em direção à cama, onde estava seu uniforme. O traje exigido pelo corpo docente da renomada universidade: tratava-se da habitual blusa branca; um blazer preto de alfaiataria com as iniciais da Universidade e uma minúscula saia na mesma tonalidade e textura do blazer; para os pés, sapatilhas pretas e sem qualquer detalhe adicional. A Universidade de Buenos Aires (UBA) realmente é um " exemplo na educação da América Latina", e é para poucos.
"Usar uniforme em pleno século XXI, é tão desnecessário quão anúncios que antecedem os vídeos no Youtube", pensava a jovem mirando o traje que seria usado por mais um ano; na verdade, aquele seria seu último ano de estudos. Como melhor aluna de toda a Universidade, Violetta já considerava-se no mercado de trabalho. Ela estava muito acima dá média dos outros alunos de sua turma, um verdadeiro orgulho para seu pai. Contudo, a atenção que ela realmente queria nunca conquistou. E, sua mãe não se importava ou interferia com frequência em sua vida.
Na sala de estar, encontrava-se apenas Ramalho, que lhe aguardava para irem a universidade. Ele era uma espécie de assessor pessoal do seu pai, que por sua vez, não se encontra em casa. A garota nem sabia por que ainda se importava, se ele sempre preferiu o trabalho que a ela, sua única filha.
— Bom dia, Ramalho! — Saudou o empregado, que curvou-se instantaneamente com as mãos para trás. — Podemos ir de uma vez... creio que a minha adorável mãe, e o meu queridíssimo pai não me esperaram para irmos todos juntos. — O cinismo estava predominante em sua voz. Mas, ainda sim, era doloroso para ela dizer cada uma daquelas palavras.
Ramalho relutou em não olhar para o teto e seu olhar dançou freneticamente por um momento.
— Preparada para mais um ano, Srta. Castillo? — Questionou, Ramalho, com um largo sorriso direcionado a Violetta, esta apenas revirou os olhos para ele, que enlargueceu ainda mais o sorriso. — Espero que isso signifique um sim. — Ele guinchou e inclinou sua cabeça em direção a porta para irem, finalmente. E a um passo de estarem fora da casa, ouviu-se a voz dá última pessoa que Violetta poderia esperar ouvir naquela manhã.
Angeles
— Ouvi em alto e bom som, tudo o que falou de mim, Vilu. — Em sua voz aguda, o bom humor predominava, felizmente. Angeles estava apenas com um roupão preto e sandálias; uma toalha enrolava os seus cabelos, provavelmente molhados. — Fiquei para te desejar sorte. Sinto por não poder levá-la pessoalmente a Universidade. Só queria que soubesse que eu me importo com você. — Ela enfatizou, e de uma forma torta, tentava justificar sua ausência. Mesmo que Violetta relutasse em admitir para si mesma, estava feliz por ela estar ali.
— Obrigada, Angeles! — Agradeceu sem nenhuma consideração à mais e deu as costas para ir embora. Mesmo que no fundo a garota quisesse abraçá-la, não o fez. Apenas deu as costas, partindo. E sem ao menos, olhar para trás.
O trânsito estava congestionado. Entediada, ela ligou seu iPod e colocou os fones de ouvidos, para passar o tempo. O modo de vida da cidade era totalmente distinto ao da Seattle, sua antiga morada. Mesmo após anos, Violetta ainda tinha saudade da sua vida americana. As pessoas, os lugares... Era tudo muito estranho, e novo.
A única coisa boa resumia-se em: Tomás Heredia, seu namorado e melhor amigo. Eles estavam juntos há dois anos, e tirando o fato das brigas ocasionadas pelo ciúmes excessivo do rapaz, podia-se dizer que eles dois eram o que chamamos de "casal perfeito".
Com o fluxo de automóveis menor, Ramalho acelerou a SUV. A velocidade a excitava e, de uma maneira inexplicável, melhorava o seu humor duvidoso.
Preocupada, Violetta olho no GPS mais uma vez. E, se não estava enganada, estão próximos a universidade. Ramalho ouvia jazz no rádio do automóvel. Era uma música suave, contagiante. Não contendo-se começaram a cantarolar juntos uma parte da letra da música, que tratava-se de Nick Cave & The Bad Seeds/O Children:
"O children
Lift up your voice, lift up your voice
Children
Rejoice, rejoice"
"Ó filhos
Levante sua voz, levante sua voz
Crianças
Alegrai-vos, alegrai-vos"
"It's round about, it's somewhere here
Lost amongst our winnings"
É por aí, é em algum lugar aqui
Perdido entre as nossas vitórias
"We're all weeping now, weeping because
There ain't nothing we can do to protect you"
Estamos todos chorando agora, chorando porque
Não há nada que possamos fazer para protegê-lo...
Seu motorista a olhava pelo espelho retrovisor e sorria ternamente para ela. Mas, de repente, Violetta sentiu o seu corpo sendo lançado contra o banco dianteiro do carro. Com o impacto, perdeu parte da sua consciência, contudo não chegou a desmaiar. Seus reflexos estavam cada vez mais lentos e turvos.
Ainda assustada, olhou para o banco do condutor e notou que, Ramalho estava bem, ou parcialmente bem, ele possuía apenas algumas escoriações.
— Rama... — ela costumava chamá-lo assim, mas por ordens da minha mãe, abdicou ao apelido carinhoso. —, você está bem? — questionou bruscamente e ele olhou para ela, rapidamente.
— Srta. Castillo eu...
— Vocês dois... vocês estão bem? — Escutaram alguém questionar em voz alta. Em um pulo, ela já estava fora do automóvel para confrontar o possível causador do acidente, e ficou embasbacada com o que viu. O homem mais parecia um anjo. Alto; cabelos castanho-claro; olhos intensamente verdes como duas esmeraldas e um sorriso de tirar o fôlego, porém isso não diminuiu a raiva da garota, contrariamente, amentou ainda mais. — A culpa foi toda minha e...
— Sim, a culpa foi toda sua e do irresponsável que te vendeu a carteira de motorista! — Trovejou Violetta com sarcasmo, mas impondo certa distância. — Poderia ter nos matado, sabia? — ralhou soando demasiadamente ríspida com o rapaz que estava tão branco como uma folha de papel e a olhava sem pestanejar. Se não estivesse tão irritada, Violetta poderia jurar que ele estava rindo disfarçadamente dela.
— Srta. Castillo... — chamou, Ramalho, chamando a atenção dos dois para si. — Se continuar-mos nesse impasse chegaremos bastante atrasados na Universidade e...
— Mais que droga! — O desespero tomou conta de Violetta nesse momento. E a forma agressiva como ela olhou para o rapaz, que nem conseguia articular palavras, deixou claro que ela poderia até matá-lo. — Por sua culpa eu vou chegar atrasada no meu primeiro dia de aula! — murmurou com a voz embargada e tirando-o de sua frente com um empurrão.
— Eu...
— Cala a sua boca! — interrompeu Violetta, que agora realmente estava irritada com ele, o homem que a atrasara ainda mais. — Vamos, Ramalho! Darei sorte se chegar no segundo horário — disse, entrando no automóvel e ignorando o rapaz, que meneava a cabeça negativamente para ela.
O caminho até a Universidade foi silencioso, Ramalho não ousava a tocar em nenhum assunto, e Violetta, esta não via a hora de chegar na Universidade e reencontrar seus amigos; e obviamente seu namorado que não via desde as férias.
Ao chegar, foi recebida pelo porteiro de nome Mathias, um homem muito simpático. Assim que ultrapassou os dois portões que antecediam a porta de entrada da Universidade, Violetta respirou fundo. Não havia ninguém nos corredores. As aulas já haviam se iniciado para o seu desespero. E quando foi barrada por Jade, a secretaria do reitor, sentiu seu coração parar de vez.
— Bom dia, Castillo! — saudou, Jade categoricamente e com um sorriso nos lábios avermelhados. — Sabe que se não fosse a queridinha do reitor, nem teria entrado na Universidade hoje, não é? — seu sarcasmo deixou Violetta absorta por um momento, afinal, ela estaria insinuado coisas? — Pablo a aguarda em sua sala. Deseja vê-la, imediatamente.
— Tudo bem... irei vê-lo — afirmou com a voz trêmula e as suas pernas bem mais.
Violetta se encaminhou para a sala do reitor, e no caminho imaginava milhões de possibilidades para o chamado, e nenhuma boa, para ser sincera. Ao chegar no cômodo, bateu sorrateiramente na porta e logo teve permissão para sua entrada no recinto. Ao contrário do que poderia imaginar, encontrou o homem com um belo sorriso nos lábios.
— Eu juro que posso justificar o meu atraso, Sr. Vargas... a verdade é que...
— Calma, Violetta... — disse o homem tentando acalmá-la, pelo menos momentaneamente. — Sei que justificará seu atraso, mas a chamei aqui por outro motivo. — Afirmou, deixando-a intrigada por um momento. — Como mentora da turma de arquitetura, quero que conheça seu mais novo encarregado. Você será seu guia durante a sua adaptação na Universidade. — Violetta sentiu seu ânimo ser renovado, após ouvir aquelas palavras e não podia esconder seu entusiamos com a ideia de ser a encarregada de alguém. Ainda com um sorriso, Pablo pegou o tefone e começou a falar com sua secretária: — Jade, deixe que "o novato" entre a sala. — Ele ordenou simplesmente, com um belo sorriso para a garota, que retribuiu na mesma medida.
Assim que ele entrou na sala, Violetta murchou como uma planta sem água. Não podia acreditar no que os seus olhos estavam vendo. Era absurdamente improvável que sua imaginação fértil não estivesse apenas brincando com ela.
"Ele?"
— Você? — Os dois, indagaram em uníssono, havia surpresa de ambas as partes e até mesmo de, Pablo, que os observa em silêncio. Talvez fosse apenas um prenúncio do que viria pelos próximos dias em sua vida. Um desastre total.
— Não pensei que voltaríamos a nos ver! — ele disse em voz baixa, enquanto caminhava até ela. Violetta tentou não direcionar os seus olhos aos seus lábios, entretanto, não conseguiu a proeza. Não podia afirmar claramente se estava feliz por estar novamente diante a ele; ou irritada pelo que acabara de acontecer. Ele possuía um semblante distinto, indecifrável. — Ainda não tive a oportunidade de apresentar-me — sua voz transformou-se em um solene sussurro, seu tom era truncado e informal. Ela não conseguia esconder sua irritação e lançou-lhe um meio sorriso sem pretensões. — León... me chamo, Leonard Vargas. — O homem apresentou-se em meio a um desconcertante sorriso.
Fale com o autor