O Nosso Pequeno Segredo
2 Dois
Notas iniciais
Por algum motivo não conseguia parar de pensar naquilo que tinha presenciado. Aquele garoto e aquele assalto, me intrigaram. Passei o dia inteiro tentando encontrar uma solução e a armar um plano para encontrar o rapaz misterioso. A atenção que eu dava outrora às aulas, tinha desaparecido. Dentro da sala de aula, a minha cabeça permanecia naquela manhã, pensando no que aconteceu.
Palm Bears era uma cidade muito pequena. Duas escolas, três postos médicos. Maioria da população de classe económica média, e é claro, todo mundo se conhecia. E quando me refiro à todo mundo, é todo mundo mesmo. Era bem comum pra mim passar pelas ruas, e ter mulheres de 30 e poucos anos olhando pra mim. Umas rindo, outras até me ameaçando.
Minha mãe me teve pouco depois de completar 17 anos. E três meses depois, foi seu casamento com meu pai.
Eu lembro de ter 6 anos, e ver meu pai machucar minha mãe com uma garrafa de vidro na cabeça. Eles tinham uma relação tóxica, onde o meu pai tirava a aliança sempre que ia trabalhar, e onde a minha mãe bebia todo o dia, e no final ia até o trabalho dele armar escândalos, segundo ela. E para que vocês possam entender, o meu pai não trabalhava.
Lembro da minha mãe ter levado um senhor, um pouco mais velho que o meu avô na época, pra minha casa, enquanto meu pai estava fora. Ela me colocou na pequena sala do nosso apartamento de dois quartos, e pediu para que eu não saísse de lá. Lembro que o homem beijou a minha bochecha e eu ter limpado a mesma. Eles dois cheiravam álcool. Eles foram para o quarto e só me lembro de ter colocado o volume da TV no máximo, pra não ter que ouvir nada. Sempre que o meu pai não estivesse na cidade, era isso.
Quando tinha 10 anos, a minha mãe teve o seu primeiro coma alcoólico. Na altura, o meu pai já tinha mudado para a casa da sua amante, e eu estava a viver apenas com a minha mãe. Eu cheguei da escola, e como era costume, achei que fosse encontrar o meu almoço na mesa. Mas assim que toquei a campainha, quem abriu foi o meu pai. Disse que eu teria de ficar com ele pelas próximas semanas, pois a minha mãe tinha ido fazer uma visita aos meus avós.
Eu acreditei, mas não entendia porquê que ela não me tinha despedido. Mal sabia eu que ela estava a lutar pela vida na cama de um hospital. E daquele dia, tudo que me lembro foi ter tido um acidente de carro à caminho da casa do meu pai, em que ele mesmo faleceu.
E lembro, finalmente, de ter 12 anos, e ver a polícia entrar em minha casa, e ter achado droga escondida no cofre que a minha mãe nunca abria. Sacos e sacos com dólares em baixo da cama, e de ter visto meus avôs me tirando daquela casa a força. E desde então eu vivo com eles. Não vejo minha mãe desde aquele dia.
Apesar da vida que ela me deu, uma vida cheia de perigo, eu sabia que ela me amava. Não me abandonou como o meu pai fez, nunca faltava à hora do banho nem da história antes de dormir. Apesar de que, tudo que ela fazia durante a minha infância, só ter feito sentido depois que eu cresci, eu decidi ver aquilo que ela fazia como ''nosso dinheiro para o pão do dia-a-dia''.
Apesar de eu ter entrado no quarto dela durante a madrugada inúmeras vezes, e ter visto homens que não eram o meu pai, na cama dela, eu perdoei.
A pena dela terminaria em um ano, eu não podia esperar para vê-la de novo.
Raramente eu voltava pra casa de metro, talvez por achar ser perigoso demais a noite. Mas naquela noite, o perigo sumiu do meu pensamento, eu queria estar lá para poder encontra-lo de novo. Na minha cabeça não era errado, na minha cabeça não era crime. Na minha cabeça era um mistério, e eu queria desvenda-lo. Quando cheguei na paragem do metro, estava vazia em comparação com o daquela manhã. Então descartei logo a possibilidade de poder encontra-lo ali, ‘’que tipo de ladrão assalta num lugar vazio como esse?’’, pensei eu.
O metro se aproximou, eu subi e sentei. Do meu lado haviam três pessoas, que embora tivesse lugar suficiente para sentarem, preferiram ficar em pé. Eu estava cansada, e intrigada. Pensar em chegar em casa, e ver uma festa completamente organizada em que os convidados eram os quadros na parede, as teias de aranha da casa velha e uma boneca que meu avó ofereceu pra mim no meu aniversário de 15 anos, era angustiante. Pensei em aceitar a proposta de Diane, mas não achei uma boa ideia deixar meu avô sozinho naquela noite. Apesar de ele sofrer de tudo isso, ele era a única pessoa que eu tinha no mundo.
Quando cheguei em casa, faltavam alguns minutos para o pôr do Sol. Abri a porta, e logo senti o cheiro da Lasanha no forno. Ele cozinhava aquilo todos os anos, era o prato favorito da minha avó.
— Mary- meu avô perguntou quase gritando- é você?
Suspirei- sim, que cheiro bom.
Entrei para a cozinha e nunca ninguém poderá descrever a tamanha felicidade dele naquele dia. Com o avental laranja no corpo, a luva desgastada na mão esquerda, e na direita, uma taça de vinho. Sorriu quando me viu:
— Você já desejou Feliz aniversário para a sua avó?- ele perguntou, pousando a taça de vinho e abrindo a geladeira- o bolo desse ano é de cenoura, acho que ela vai amar.
Ele caminhava até mim para me cumprimentar, quando o alarme do forno tocou- o jantar está pronto.
Perante tudo aquilo, minha opinião era irrelevante. Ele estava tão certo e convicto que minha avó estava ali, e iria participar da festa de aniversário, e eu era fraca demais para confronta-lo e pedir que parasse.
Desde que fui viver com eles, criei o costume de todos os dias de manhã, antes de ir para a escola, passar pelo quarto deles e desejar bom dia.
Certo dia, depois de um passeio com eles no Parque Municipal, minha avó desmaiou. Mas como todos os adultos, ela disse ''eu estou bem, irei ficar bem’’.
Foi quando três semanas e meia depois, depois de acordar, caminhei até ao quarto deles, e minha avó, que era sempre a primeira a acordar, estava dormindo. Meu avô tinha ela nos braços. Eu sorri, pensando que estivessem tendo aqueles momentos que toda criança acha nojento. Mas quando olhei para o meu avô, ao invés de um sorriso no rosto, ele tinha lágrimas.
Eu tinha 10 anos, mas posso dizer que eu fiz naquele momento uma analise que poucas crianças da minha idade fariam, ''Minha avó foi para o céu’’.
Depois do jantar e dos parabéns, subi para o meu quarto e o pensamento do cara voltou a rondar minha mente. ‘’Quem será ele?’’ ‘’porquê fez aquilo?’’, era tudo que eu conseguia me questionar.
No dia seguinte quando acordei, meu avô se ofereceu para me levar para a escola. Vocês devem imaginar minha resposta. Não podia desperdiçar tempo, tinha que encontrar aquele cara.
Tomei minha ducha, e fui para o quarto. Quando me olhei para o espelho, me veio a imagem do meu pai. Ele era alto, magro por conta do álcool, tinha o cabelo curto e negro, e olhos grandes, bem grandes. E eu era tal e qual a ele. E vocês não têm ideia do quanto eu sempre me odiei por ser parecida com ele. Faria qualquer coisa pra tirar a sua imagem da cabeça.
A caminho do metro, senti que o tempo estava mais quente, o que me deixava feliz porque eu odiava frio. O metro partia as 7h15, eram 6h50, tinha tempo, portanto entrei para tomar café em uma pastelaria. Quando entrei, fui diretamente para a vitrine, tirei uma bola de Berlim e pedi a garçonete um café. E foi quando me aproximei do caixa, abri minha carteira, tirei o dinheiro, e olhei para o cara do caixa, que meu coração bateu. Bateu da mesma forma como bateu quando prenderam minha mãe, ou quando minha avó morreu. Vocês lembram quando eu disse que era uma cidade pequena, e todo mundo conhecia todo o mundo? Então, meu coração bateu porque aquele cara, era o meu bendito misterioso. Não iria me desgrudar dele.
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