Logo depois de entregar o dinheiro para ele, olhou pra mim e entregou o troco.

Não parecia se lembrar de mim, e estava espantado com a maneira como eu olhava pra ele. Durante todo o processo de ‘’abrir o caixa, colocar as notas de dinheiro que eu havia dado pra ele, e tirar as moedas do troco’’, ele não tinha dito uma única palavra.

Seu semblante era frio, olhava como se quisesse que eu sumisse dali. Foi naquele momento que eu reparei que os seus olhos eram verdes, e que ele tinha uma cicatriz no canto da boca.

— Como você disse que se chamava?- eu perguntei, interrompendo meu pensamento.

Ele virou, indiferente com a pergunta, e respondeu baixo, como se não quisesse que eu ouvisse- eu não disse como me chamava.

Entrou para a cozinha, e não apareceu mais.

Fiquei intrigada, primeiro um assalto e depois agir como se fosse solitário nesse mundo? Olhei para o relógio, faltavam exatamente 5 minutos para as 7h00. Ainda tinha tempo para tentar falar com ele. Olhei para a garçonete que caminhava em minha direção:

— Oi- acenei pra ela- você pode me dar uma informação?

Ela sorriu- claro- se aproximou de mim- o que quer saber?

— Você podia dizer a que horas termina o turno do cara que acabou de me atender?

Ela me olhou de uma maneira estranha, eu sabia que ela não daria essa informação tão facilmente.

— Não sei se posso lhe dizer.

‘’No que eu estava pensando? Ela não daria essa informação a uma estranha’’.

Agradeci e me levantei, estava na minha hora de caminhar até a estação. E eu decidi que sairia bem cedo da escola, para, esperançosamente, encontra-lo novamente.

Quando caminhava até a escola, depois de sair do metro, avistei de longe Jonathan, que corria em minha direção:

— Esperei por você a noite toda ontem- ele falou abrindo o pirulito de morango, que ele chupava toda a hora, todos os dias. Aquele pirulito era pra ele, o que um cigarro é para um fumante.

— Eu não queria deixar o meu avô sozinho. Peça desculpas pra Diane por mim, por favor.

Jonathan era 2 anos mais novo que eu. Tinha acabado de completar 15 anos, estava na famosa fase de ‘’querer ser o centro das atenções’’. Sua paixão por mim começou quando éramos bem pequenos.

Lembro do meu aniversário de 13 anos. Meu avô convidou alguns amigos do bingo, os seus netos, Diane e Jonathan. Era a primeira vez que via Jonathan, já que ele tinha acabado de se mudar pra casa da mãe. Ele era alto, apesar de não estar na puberdade ainda. Mas isso não o impediu de sentir um amor de infância por mim, e ele quase foi correspondido. Quase. Lembro que depois de cortarmos o bolo, ele pediu que eu o levasse a ver a minha coleção de rolhas de vinho.

Fomos para o meu quarto, eu abri a gaveta da minha banca, e tirei de lá minha mini mala, com toda a coleção. Ele queria saber detalhadamente onde eu tinha encontrado cada uma delas. E para a vossa surpresa, eu sabia exatamente o dia e aonde eu tinha encontrado.

Enquanto eu falava e olhava para as rolhas, eu sentia os seus olhos em cima de mim. Como se estivesse sendo observada, e isso me deixou tensa. Quando finalmente virei para encara-lo, aconteceu aquilo que eu posso chamar de meu primeiro beijo. Inexperiente, tenso e rápido. Mas foi o suficiente para que eu quisesse imediatamente passar a minha vida inteira com ele. Mas bom, esse ‘’querer passar a vida com ele’’ durou menos de 24 horas, porque no dia seguinte, indo pra escola, vi ele comprando sorvete para uma outra garota. E como uma criança que eu era, aquilo doeu até ao ponto de eu dizer que nunca mais ia beijar ninguém na minha vida. E assim foi, eu estava com 17 anos e o único beijo que eu tinha alguma vez dado, tinha sido aquele.

E apesar da raiva ter me consumido por uns dias, ele voltou a ser meu amigo. Alias, o único amigo que eu tinha.

— Estava querendo sua ajuda, Mary Lynn- tirou o pirulito da boca- minhas notas em Literatura estão um fracasso. E eu sei que você é ótima em Literatura.

Ele passou seu braço em volta do meu pescoço, o que não machucou já que ele era alto e magro o suficiente para que aquilo não fosse desconfortável.

— Minha mãe me mata se ficar sabendo, mas antes de me matar, ela com certeza irá me mandar de volta para morar com o meu pai. E Deus me livre de isso acontecer.

Eu olhei pra ele, e ele soube que eu ia negar- por favor Mary Lynn. Prometo me esforçar e não encher seu saco. Eu acho que três aulas serão o suficiente.

O sino para a entrada toca- Ok, te encontro na biblioteca as 6h da noite- eu disse, e comecei a andar em direção a porta.

Quando caminhava em direção a sala de aulas, olhando para a estrutura marrom-alaranjada e velha da escola, pensei no quão fácil seria para mim abandonar o Liceu.

Dizem que a adolescência é a melhor fase de uma pessoa, mas pra mim foi a pior. Não participei de nenhuma Atividade Pós-escolar, não me candidatei para ser presidente de nada, não fui para aquelas festas bizarras em que todo mundo fica bêbado no final.

Eu li uma vez, minha escritora preferida dizendo numa frase, ‘’Quando você acha mais de metade do mundo babaca, você passa muito tempo sozinho’’. E não havia frase com que eu pudesse me identificar melhor.

Pra mim era difícil ver como estávamos morando num mundo tão materialista, ao ponto de se tornar superficial. Onde o que você calçava e vestia, valia muito mais do que o tamanho de conhecimento que você tinha sobre determinado assunto.

Eu escutava as meninas da minha classe no meio da aula, discutindo qual delas tinha a bolsa mais cara, ou a mais recente no mercado. E eu me achava estranha por não me importar com isso, e nem querer saber. Afinal, é o que quase todas as meninas gostam, não é? Sonhar com um casamento perfeito, o principe encantado e dois filhos.

Meu sonho era chegar em casa, e mais uma vez me afundar em música e frases soltas.

Talvez esse devesse ser um dos motivos por eu gostar tanto de Jonathan. Apesar de eu não demonstrar, ele sabia que ele era importante pra mim. Dava créditos a ele por sequer falar comigo. Quem queria ter uma amiga estranha como eu? Bem, ele queria. E tinha. E ele não fazia ideia do quão grata eu estava a ele por isso.

Minha aula mais importante do dia foi Literatura. Eu gostava pois meu professor, Senhor Idris, era uma das pessoas mais sábias que eu conhecia.

Todas as aulas a gente estudava um texto diferente, e o daquele dia, era de William Shakespeare, ‘’Você aprende’’.

E existe um verso do texto, que diz: ‘’Você aprende que as vezes, não é suficiente você ser perdoado por alguém. Às vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.’’

Eu vivia em uma luta interna comigo mesma, por não ter percebido que minha mãe precisava de ajuda. Eu me culpava pelo que tinha acontecido com ela. Achava que ela estava presa por minha culpa.

Eu achava que se eu tivesse sido corajosa o suficiente para enfrenta-la, pedir que parasse de consumir drogas ou de dormir com o primeiro que aparecesse na frente dela, teríamos uma vida melhor. Ela iria parar, iria se tratar, começar a trabalhar, e teríamos ficado juntas como sempre foi.

Ela me amava. Sim, ela me amava. Ela me expôs ao perigo, mas ela queria o meu bem. Ela fugiu de casa comigo assim que percebeu que meu pai era alcoólatra e perigoso. Ela arranjou uma casa pra nós, me deu todo o conforto que eu podia imaginar, mesmo que isso custasse a sua sanidade. Ela fez o seu papel de mãe. Só não fez o de cidadã, e de mulher. E eu podia tê-la impedido.

No final da tarde eu estava emocionalmente desgastada demais para ter aulas privadas com Jonathan, mas eu havia prometido. Fui para casa, tomei um duche e saí antes das 5h15 da tarde.

Meu avô não se importava que eu saísse. Alias, era um alivio pra ele. Ele queria que eu fizesse amigos, me divertisse. E apesar de ele saber que, sempre que eu saísse era pra estar com Jonathan ou procurar por rolhas de garrafas de Vinho, ele não hesitava em dizer:’’Boa sorte, querida. Divirta-se.’’

Ia caminhando para a biblioteca, quando senti levemente um pingo de água no meu braço. Olhei para o céu, e percebi que estava começando a chover. Do meu lado direito, uma oficina de carros bastante careira para as condições em que se encontrava, e do lado direito, uma loja de acessórios para caça. E antes mesmo de pensar em qual das duas deveria me abrigar, meu celular vibrou:

‘’Parece que vem aí uma tempestade, melhor marcarmos para outro dia. Desculpa pelos transtornos. — John.’’

Coloquei o celular no bolso, e o que era um pingo se transformou em chuva numa fração de segundos. Entrei para a loja de acessórios de caça, porque não seria divertido passar duas horas ou mais vendo gente concertando carros.

Quando entrei para a loja, reparei que estava vazia. Era grande, e as prateleiras eram altas. O cara do caixa estava bebendo café, e lendo jornal. O ajudante de caixa, conversando com a moça que fazia a faxina da loja, o que me fez concluir que eles tinham algo.

Decidi caminhar pela loja. Ver as armas, os coletes, os arcos de caça. Havia uma prateleira com CD’s de filmes de guerra. ‘’Será que eles ficaram sem stock para os acessórios de caça?’’ pensei. Senti leves passos do corredor a seguir, e percebi que me tira enganado com relação a loja estar vazia.

Andei até ao final do meu corredor, no meio daquelas prateleiras, e fui para a prateleira a seguir. Tinha um cara, com uma jaqueta preta, ténis preto e um gorro vermelho que deixava aparecer as madeixas do seu cabelo. Percebi que ele não havia dado conta da minha aproximação. Estava empenhado demais escolhendo o melhor arco. Ele tirou do seu bolso uma carteira que me pareceu familiar. Castanha, listras vermelhas. ‘’Eu conheço aquela carteira’’, pensei. Foi aí que o cara percebeu finalmente, que havia alguém do seu lado, e olhou pra mim. Reconheci os seus olhos verdes. Era ele, era o cara do Café e do Metro.

E aquela carteira, ele tinha roubado.

— Eu sei o que você fez- eu disse a ele.

Ele olhou pra mim indignado, retomando a carteira para o bolso- nos conhecemos?

— Eu estive no Café onde você trabalha, hoje.

— Nossa- ele passou a mão no cabelo- eu trabalho lá todos os dias, às vezes todas as noites também, atendo centenas de pessoas, e ia me lembrar justamente de você?

Encostei, e sussurrei o suficiente para que ele ouvisse- eu vi você roubando essa carteira da senhora lá do metro.

Ele se afastou e tirou o gorro- do que você está falando?

— Nós dois sabemos que isso não é seu, e sabemos em que circunstancias você conseguiu ela.

— Você não tem provas- afirmou, dando de ombros.

— Mas as câmeras de vigilância do metro têm. É só eu pedir que eles verifiquem e pronto, sua vida já era. A menos que você queira me dizer o porquê.

Ele virou e agarrou no meu braço com força- o que você quer de mim?

— A verdade. Quero saber porquê fez aquilo.

Ele largou meu braço e colocou de volta o gorro. Olhou como se tivesse ódio de mim e quisesse me matar. Eu não me importaria de ser morta naquele momento. E era bem provável, já que eu tinha acabado de ameaçar um cara que eu achei comprando armas de caça, e que eu tinha visto outrora assaltando alguém. De onde vinha aquela coragem?

Saímos da loja, e a chuva estava forte. Ele colocou um capacete:

— Você vai subir ou não?- perguntou, subindo numa mota.

Olhei pra ele, e depois para o céu. Apesar de não acreditar em Deus, ainda assim pedi que me guiasse.

Estava escurecendo, e eu estava com medo. Eu estava pronta para saber da verdade.

Estava pronta pra saber os segredos que aquele cara sem nome, tinha para contar.

Notas finais
Desculpem a demora, mas aqui vai um capitulo recheado p vocês.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.