O Ninja De Branco.
22 Capítulo 22 — Uma Batalha Exaustiva.
O NINJA DE PRETO E EU BATEMOS AS NOSSAS ESPADAS UMA NA OUTRA E, BEM NO momento em que elas se tocaram, saíram faíscas das lâminas.
O Ninja De Preto estava completamente ciente de que eu sabia seus movimentos e ele sabia os meus. Mas eu ainda conseguia superá-lo de alguma maneira e eu encontraria essa maneira.
Ele e eu estávamos com as roupas rasgadas. Nossas lâminas se encontravam várias e várias vezes. Ele não cansava de lutar com a espada e eu também não. Para falar a verdade, era melhor, porque aquilo iria cansá-lo — em alguma hora — e ele não teria muita energia para a luta corpo a corpo — as espadas poderiam te dar uma distância do oponente, mas era um tanto cansativo.
Ele me cortou nos dois braços, em uma perna e três vezes em meu abdômen. Mas eu consegui acertá-lo cinco vezes no peito, duas em cada braço e três em uma das suas pernas. Ele poderia ser quase uma cópia minha — ou ser uma cópia minha — do mau, mas, com certeza, eu era melhor do que ele na espada. Sem dúvidas eu era. Caso contrário, eu não o teria acertado mais vezes do que ele havia me acertado.
Por último, ele conseguiu rasgar parte de meu traje no rosto e eu consegui a mesma coisa. Ele tinha uma pele branca como a minha e parecia ter cabelos pretos, e consegui ver um de seus olhos e ele era preto. E ele com certeza havia me visto. Ao menos parte de mim ele viu. Com certeza ele viu o cabelo louro, a pele branca e um de meus olhos que tinha a tonalidade azul-esverdeada, e com uma linha vermelha escarlate no rosto, assim como eu também vi a linha vermelha escarlate no seu. Estávamos completamente cobertos de sangue em nossos ferimentos com a espada, não era tão surpreendente assim.
Mas aquilo me fez rir. Aquilo me fez pensar no dia em que eu tinha ido pela primeira vez à casa de Moira Queen. Eu estava mais ou menos naquelas condições e de como eu havia sido tratado. Provavelmente eu não poderia ir para casa depois daqui. Isso se eu conseguisse sobreviver, pois a batalha que eu ele estávamos travando só terminaria com um morto.
Nós paramos um na frente do outro com as lâminas cruzadas. Eu estava fazendo pressão para poder empurrá-lo longe e ele a mesma coisa. Ele não iria desistir de empurrar e nem eu iria. Eu tinha que vencê-lo. E eu iria vencê-lo.
Assim que nos soltamos, tomamos uma boa distância um do outro e nos encaramos por um momento. Ele sacou duas shurikens e eu continuei com minhas espadas a mão. Eu não daria o mole de deixá-lo me acertar. Eu não podia. Ele tinha que cair de uma vez por todas. Essa palhaçada dele de copiar meus movimentos era completamente ridícula.
Ele correu a meu encontro e eu corri ao seu, ele jogou as shurikens em minha direção, mas foi fácil bloqueá-las com as espadas. Ele passou a fechar os punhos e continuar correndo em minha direção. Guardei as espadas e me preparei para o combate corpo a corpo — apesar de saber que meu ombro ainda estava em péssimas condições, mas eu sabia que ele não iria doer naquele momento. Ele iria doer mais tarde.
A batalha corpo a corpo foi bem pior do que a batalha com espadas. Foi uma série de sequências de socos dele em mim e eu nele. Ele conseguiu me chutar no queixo e quando cheguei no ar, ele tentou segurar meu pescoço, mas eu consegui, com minha velocidade que eu tinha, passar para suas costas e chutá-lo nas costas — tudo isso ainda no ar —, onde ele caiu com um forte estrondo no chão. Ele reclamou de dor e eu sabia que isso era um ponto positivo para mim.
Mas quando eu aterrissei no chão, ele me dera uma rasteira como eu sempre fazia e, antes eu tocasse no chão, ele deu um soco em meu estômago, me tirando o fôlego e eu caí ao chão com o mesmo estrondo que ele havia feito.
Levantei-me em um pulo e senti gosto de sangue na boca. Eu estava ofegando naquele momento ele também estava. Não conseguiríamos continuar, mas ele estava insistindo. Ele veio para cima de mim novamente e eu esperei.
Quando ele chegou bem próximo, ele havia preparado uma rasteira, mas eu já estava preparado para isso. Quando ele passou a rasteira, eu pulei e consegui chutar seu rosto, fazendo-o dar vários passos para trás e, quando voltou a si, partiu para cima de mim de novo.
Eu não resisti. Parti para cima dele também.
Naquele momento, tinha sido a batalha mais difícil.
Nós começamos a distribuir socos um no outro. Ele me golpeou no rosto, na barriga e no peito, e eu o golpeei na perna, no braço e consegui acertar suas costas em um movimento rápido que me colocou atrás dele. Ele cuspiu sangue no chão e eu na parede mais próxima. Ele não estava brincando e eu também não. Desde o início eu sabia que aquela luta seria uma das maiores lutas da minha vida.
Ele continuou agachado no chão cuspindo sangue e eu encostei-me à parede para respirar.
Mas quando eu encostei-me à parede para respirar, ele havia me enganado. Ele me deu um chute na costela, um soco no estômago, me empurrou para longe e, quando eu estava prestes a cair para trás, ele chegou perto de mim e me deu uma joelhada no nariz.
Consegui ouvir sua risada, mas eu não liguei para ela. Eu não conseguia me mexer direito. Meus braços pediam clemência para poderem descansar. Igualmente as minhas pernas e o resto de meu corpo. Deitado no chão, eu senti um pouco de conforto, pois eu não estava me mexendo, mas respirar já estava me dando várias dores que eu mal conseguia aguentar.
Agora, eu sentia a dor indo para todo o meu corpo e, como eu ainda respirava, doía ainda mais. A dor era agonizante. Era a dor nos cortes que ele me fez, as dores dos golpes dele, mas eu tinha que superar. Eu não podia desistir.
Com um imenso esforço, me pus de pé, mancando, pois ele havia conseguido torcer meu pé (nem eu sabia como ele havia conseguido fazer aquilo), e o encarei. Ele também não estava conseguindo suportar o peso do corpo em uma das pernas, mas, em todos os estados, ele não estava tão ofegante. Ele parecia mais disposto. E eu não sabia como ele conseguia aquilo. Se nós dois éramos praticamente iguais, por que ele conseguia estar com a aparência melhor do que a minha? Afinal, nós estávamos nos matando. Ele tinha que estar ao menos tão ofegante quanto eu.
Talvez seja blefe dele. Ele estava tentando me irrita, só podia ser. Mas ele não conseguiria me irritar. Eu ainda tinha alguma chance, eu sabia disso. Eu tinha que derrotá-lo de uma vez por todas. Ele tinha que cair e eu vencer. Eu conseguiria.
Lembrei-me do estilo de luta antigo que Tashikiro-Sensei havia me ensinado.
Eu tinha que dar o melhor de mim ali. Eu não teria mais uma oportunidade contra o Ninja De Preto para poder usar essa técnica, então eu tinha que dar o meu melhor.
Concentrei minha energia vital em minhas mãos — porém não toda, pois se eu usasse-a toda, eu poderia desmaiar de exaustão e estaria sem energia — e esperei ele chegar perto de mim e, quando ele se atreveu a me encostar, toquei em um de seus pontos vitais do braço. Ele urrou de dor e cambaleou para trás.
Funcionou!
Tentei novamente, mas, desta vez, bem mais rápido do que antes. Corri para ele como um borrão — apesar de estar com o tornozelo torcido —, e comecei a acertá-lo em seus pontos vitais com o estilo de luta antiga que meu sensei havia me ensinado. E estava funcionando. A cada toque, um urro de dor que ele dava.
Quando finalmente parei de golpeá-lo, ele se jogou no chão se contorcendo. Não senti pena, afinal, ele era meu inimigo mortal e eu não deixaria que ele me enganasse com o seu teatrinho.
Mas ele se levantou. Ele pareceu respirar fundo três vezes e se preparou para vir para cima de mim. Eu sabia que só aquela técnica não seria o suficiente para detê-lo, mesmo deixando-o completamente com dor e confuso demais para poder lutar comigo.
Mas ele me surpreendeu vindo em minha direção e me dando um soco no rosto. Como eu não estava preparado para aquilo, ele tinha me acertado, juntamente com um chute na boca do estômago e uma rasteira. Quando cheguei ao chão, ele me chutou de tal forma que eu senti o sangue em minha garganta e fui obrigado a cuspi-lo — mesmo que aquilo sujasse o meu uniforme de Ninja De Branco. Ele não estava perto de mim, mas eu conseguia ouvir sua risada ao longe.
Eu tinha que fazer alguma coisa. Apesar das circunstâncias, eu estava perdendo. Eu era tão bom quanto ele, tinha recebido quase os mesmos (senão os mesmos) treinamentos que ele... sendo assim, porque eu quem estava no chão totalmente ferrado? Não era justo. Eu não admitia isso. Eu não admito isso!, pensei completamente revoltado ao chão.
Eu tinha que arrumar alguma maneira para derrotá-lo. Pensei em meus treinamentos com Tashikiro-Sensei. Todas as suas técnicas, todas as técnicas que ele havia passado para mim. Cada golpe, cada imobilização, cada manobra, cada ataque, cada defesa...
De repente, eu lembrei o que Tashikiro-Sensei havia dito para mim.
Era como se sua voz estivesse em meu ouvido — mesmo eu estando completamente acabado no chão. “O Hakke Rokujuuyonshou é a técnica de luta antiga”, disse-me ele. “Você será rápido igual a mim se usar o símbolo de Yin e Yang que se formará a seus pés e a técnica de luta antiga. Você precisa enxergar o símbolo, Theo-Chan. Concentre sua energia vital. Use-a”, aquelas foram as palavras de meu sensei. Eu tinha que usar o símbolo de Yin e Yang. Eu precisava me concertar. Era a minha única chance.
Ele correu para a minha direção e eu fechei meus olhos concentrando-me em minha energia vital.
Por um momento, eu não consegui ouvir mais seus passos, eu não conseguia ouvir mais nada. Senti um formigamento em minhas mãos e em meus pés, seguido de pelo meu umbigo. Quando abri meus olhos, o Ninja De Preto estava parado bem próximo de mim, mas quando olhei para o chão, lá estava o símbolo de Yin e Yang como meu sensei havia previsto.
Eu enxerguei o ponto em que eu deveria colocar minhas mãos e, quando as coloquei, a posição em que parei foi totalmente nova. Minha mão esquerda estava esticada para frente e um pouco inclinada pra baixo, e com a palma para cima. A mão direita também estava esticada e com a palma para cima, porém ela estava inclinada para cima e apontando para atrás de mim.
Meus dedos se fecharam, exceto pelos indicadores e dedos do meio de cada mão. Assim que esses dedos permaneceram esticados, eu senti um formigamento especial neles e eu sabia que tinha que usá-los.
Quando eu toquei no primeiro ponto vital do Ninja De Preto — um no lado direito de seu peito — ele arquejou na hora. Mas eu não parei por aí. O Ninja De Preto parecia não estar se mexendo, o que era melhor para mim.
Apliquei mais dois golpes... quatro golpes... oito golpes... dezesseis golpes... 32 golpes... 64 golpes. Quando eu cheguei no 64º golpe, eu espalmei a mão em seu peito e ele foi arremessado o mais longe que eu podia arremessá-lo em minhas condições normais.
Assim que ele caiu no chão bem longe de mim, ele não se mexeu. A única prova que ele estava vivo, era a sua respiração, que fazia seu tronco se mover. Mais nada.
Eu não consegui conter a curiosidade. Fui até ele, mancando, e, quando cheguei perto dele, pus minha mão em sua máscara.
Eu tinha que matar o Ninja De Preto. De uma maneira ou de outra, eu tinha que matá-lo. Se fosse o contrário aqui, ele me mataria. Disso eu tinha certeza. Então eu não podia dar o luxo de deixá-lo viver. Ele tinha de morrer e eu iria matá-lo.
Puxando uma espada atrás de mim, caminhei até o ninja prostrado no chão de barriga para cima e parei a sua frente. Aquela era a minha chance. Enquanto ele estava imóvel, eu, mesmo em minhas condições, estava mais ameaçador e perigoso do que ele que estava jogado no chão. Eu tinha de matá-lo. Eu tinha de matá-lo. Eu tenho que matá-lo!, disse a mim mesmo.
Era estranho exigir isso de mim. Mesmo eu tendo matado aqueles caras há algumas horas, ou minutos atrás, ou até mesmo aqueles que eu matei ao longo daquele ano, eu não conseguia ver eu mesmo matando alguém de porte igual ao meu. Parecia loucura, mas eu não iria dar para trás. Eu tinha que prosseguir com aquilo, ou ele me matava.
Hesitei, mas quando puxei e aquilo revelou um garoto que aparentava ter a mesma idade do que eu, cabelos pretos, olhos tão negros quanto os cabelos, nariz reto e uma cicatriz em linha vertical em sua testa, eu não acreditei. Dei tropeços para trás e encostei-me à parede.
Aquele não era um menino qualquer.
Aquele era Darius, meu ex-colega, e amigo, de treinamento com o Tashikiro-Sensei.
Eu não sabia exatamente como conseguiria sair daquele local, para início de conversa.
A única coisa que eu fiz, depois de deixar Darius inteiramente inconsciente no chão, foi ficar encostado na parede.
Primeiro de tudo, eu fiquei grato de ter desligado o mecanismo que fazia com que Ernie pudesse ver as minhas batalhas — ele me disse onde ficava e como desligava, e desliguei assim que comecei a batalhar com o Ninja De Preto —, pois eu não queria que ele visse o rosto de Darius. Também tinha desligado o mecanismo que fazia com que a gente podia conversar — mesmo Ernie me ajudando ao longo desses meses, eu não queria ser atrapalhado em minhas ações. Isso poderia me desconcentrar e podia causar minha morte.
Segundamente, eu tinha que sair dali. De alguma forma, descobrir que Darius estava me perseguindo e querendo minha morte, me chocou de tal maneira que eu nem sabia se realmente queria voltar a ser o Ninja De Branco.
Acho que já estava na hora de aposentar o meu kimono.
Terceiro, eu não sabia realmente como sair dali. Eu tinha que arrumar uma maneira. Mais cedo ou mais tarde Darius estaria acordando, melhor, mais descansado, e eu não conseguiria trabalhar outra batalha com ele. Era a mesma coisa que lutar com Oliver no dia em que cheguei na casa dos Queen. Minhas costelas quebradas, hematomas e, com azar — e eu tinha certeza que estava —, hemorragia interna. Ao menos eu adquiri aquilo quando cuspi sangue.
Darius se mexeu e meu pânico tomou conta de mim — agradeci por Tashikiro-Sensei não estar presente, pois ele me mataria se eu demonstrasse pânico. Mas aquele era Darius. O mesmo menino que ele havia treinado. Como eu não estaria em pânico? Darius fora meu amigo na época de treinamento. Como eu poderia matá-lo quando eu estava perto disso? Eu não podia. Eu o via como irmão. Matar Darius estava fora de cogitação.
Ainda me escorando na parede, fui até uma janela próxima — que, para me ajudar, era no fim do corredor. Voltei a olhar para Darius e ele ainda estava inconsciente. Não se mexia mais exceto o peito por conta da respiração. Fiquei aliviado. Eu não queria travar outra batalha com Darius e eu tinha que sair dali o mais rápido que podia.
Quando finalmente cheguei à janela, depois de quase dez minutos mancando — eu não tinha torcido o tornozelo, eu tinha o tornozelo fraturado —, olhei para baixo. Eu estava baixo. Não tão baixo assim, deveria ter uns dez ou quinze metros de altura de onde eu estava para o chão. Seria uma grande queda, mas eu tinha que arriscar. Ou eu pulava ou era risco de eu morrer nas mãos de Darius.
Suspirei duas vezes ao ver a queda que me aguardava, mas eu tinha que conseguir chegar ao chão se me machucar mais. Se eu me machucasse mais, seria capaz de morrer. Eu era um ninja, mas não era uma máquina. Eu era humano, então eu morria.
Havia árvores com galhos grandes por ali e eles eram, pelo ângulo que eu via, grossos o suficiente para me aguentarem, mas eu não sabia se eu era capaz de aguentar o impacto até um daqueles galhos. Mas aquela era a minha única chance, então eu tinha que pular.
Quando dei impulso para fora da janela, o impacto que sofri do primeiro galho foi tão forte que, se eu não tivesse segurando o galho com a mão esquerda — pois a minha direita estava completamente fora de funcionamento após aquele meu último golpe em Darius —, eu teria caído. Eu estava pendurado e eu comecei a sentir dores em meu ombro. Meu braço não conseguiria suportar totalmente o meu peso com todo aquele equipamento.
Não aguentei de tanta dor e me soltei do galho, caindo com todo o peso, para piorar a situação, sobre o tornozelo quebrado e, assim que sentir a onda de dor, caí sobre o ombro direito. O que me causou mais dor.
Eu podia jurar que tudo ao meu redor estava começando a escurecer, mas eu não poderia desmaiar agora. Darius estava a, mais ou menos, uns dez ou quinze metros de distância acima de mim. Eu tinha que me levantar e ir embora. De uma maneira ou de outra. Mesmo eu estando totalmente acabado, eu tinha que sair dali.
Eu não conseguia enxergar completamente o local. Eu ainda estava de lentes, mas estava tudo escurecendo ao meu redor para eu realmente poder distinguir alguma coisa. Tudo estava fora de foco. Embaçado. Era como se eu estivesse sem óculos ou sem lentes. Completamente agonizante e horrível.
A única coisa que fiz foi apertar os botões que faziam com que Ernie pudesse ver onde eu estava e poderia me escutar. Já dava para ver o seu pulo de euforia por eu “estar de volta no ar” — como se eu fosse algum programa de televisão ou de rádio.
Assim que apertei os botões, a voz dele veio no mesmo instante.
— Theo! — disse ele. Eu sabia que ele estava eufórico. — Você está de volta! Você tem tanto para me contar! Theo, onde...
— Ernie — o interrompi antes que ele falasse mais alguma coisa. — Me rastreia... me... rastreia...
Assim que eu disse aquilo, tudo a minha volta ficou escuro e eu não vi mais nada.
Antes que eu pudesse mesmo processar o que tinha acontecido comigo, eu tentei sentir onde eu estava.
Não era minha casa. Aquela cama era mais dura do que o meu próprio sofá. Eu conseguia ouvir o barulho de gotas em algum lugar ao meu lado esquerdo. Alguma coisa apitava ao meu lado direito. Tinha alguma coisa em meu dedo indicador esquerdo e senti minha perna direita suspensa no ar por alguma coisa que eu não sabia distinguir — afinal, eu estava de olhos fechados. Tinha algo perfurando meu braço esquerdo e eu sentia que tinha algo nas minhas narinas. Eu estava na cama de um hospital.
— Ele ficará bem, doutor? — eu ouvi a voz de Moira Queen, minha mãe.
— Com toda a certeza, sra. Queen — disse a voz do suposto médico que deveria estar no quarto do hospital. — Mas ele tem sorte de estar aqui agora. Se ele chegasse alguns minutos depois, receio em dizer, sra. Queen, mas ele poderia estar morto.
— Eu disse a esse idiota que não era para andar de moto em alta velocidade e sem capacete — disse a voz de Ernie. — Com todo o respeito, sra. Queen.
— Tudo bem, querido — disse minha mãe com uma leve risada em sua voz. — Ele era mesmo um idiota para pilotar uma moto sem capacete e em alta velocidade.
Obrigado, mãe, pensei. Respeito para mim, que é bom, nada, não é?
Sério? Moto? Desde quando eu pilotava moto? Desde quando eu sabia dirigir? Bem, saber, eu sabia. Mas eu não tinha algum carro para dirigir ou moto para pilotar. Ernie não poderia ao menos dizer que eu tinha atravessado a rua sem olhar para os lados? Era uma desculpa fajuta, mas quem poderia provar o contrário, não é mesmo?
Ouvi a porta ao meu lado direito se bater e logo em seguida ouvi a mesma bater novamente com pares de pés batendo ao chão que eu não consegui calcular quantos pés realmente entraram ali.
Já estava na hora de eu abrir os olhos. Eu tinha que ver como eu estava fisicamente, pois eu não poderia parar de fazer minhas visitas todas às noites. E eu também tinha que ver com quem eu estava além de Ernie e minha mãe. Provavelmente eram meus irmãos, mas eu não podia ter tanta certeza. Havia pés demais entrando ali para serem somente os dois.
Assim que abri os olhos, a primeira coisa que vi foi minha perna direita presa por algum tipo de tipoia e minha mãe e Ernie atrás dela. A segunda coisa que vi foi meu braço esquerdo com três tubos injetados nele e quando passei para o lado direito, ele estava com um tubo em meu bíceps e soro fisiológico estava passando por aquele tubo — o que me fez pensar o que estaria passando por aqueles três no braço esquerdo, mas preferi não perguntar. O som que estava apitando, vinha da máquina que mostrava meus batimentos cardíacos, eles estavam normais. Isso explicava aquele mecanismo preso em meu dedo indicador da mão esquerda. O tubo em meu nariz me incomodava, mas eu tinha que ficar com aquilo seu realmente quisesse mais oxigênio.
Tentei me mexer, mas aquilo me trouxe tanta dor que eu paralisei-me no mesmo instante. Eu não me atreveria a me mexer, sendo que eu poderia sentir toda a dor da batalha que tive com o Ninja De Preto, quero dizer, Darius, de volta.
— Tente não se mexer — disse Ernie preocupado. — Você está todo quebrado.
Assenti para ele.
— Bom saber, moleque — levantei o polegar da mão esquerda para ele, mas mesmo aquilo me fez sentir uma parcela de dor.
— Onde você estava com a cabeça em fugir de casa quando eu impus uma ordem para você não sair, mocinho? — perguntou minha mãe.
— É bom ver você também, mãe — falei para ela ironicamente. — Estou me sentindo bem, obrigado por perguntar.
— Ai, como você é abusado — reclamou ela e pude jurar que tinha visto um sorriso em seu rosto.
Sorri por um instante.
— Se isso ajuda, eu tentei impedi-lo — disse a voz de Oliver.
Quando o procurei, ele estava na porta, juntamente com Thea e Walter... Walter!
Walter estava de volta, então aquilo significava que as coisas em casa voltariam ao normal. Minha mãe voltaria a ter aquele sorriso bobo de volta quando Walter estivesse por perto — mesmo eu odiando o cara, eu não consegui deixar de sorrir para ele por conta desse pensamento e, por minha surpresa, ele retribuiu.
Ao menos um pouco normal, pois o comportamento de Oliver, pelo que me lembro, para me impedir de sair de casa tinha sido completamente desnecessário e fora do controle. Ele era totalmente louco. Eu não deixaria aquilo passar por despercebido.
— Querendo brigar comigo, mas tentou, não é, irmão? — sorri ironicamente para ele.
— O quê? — perguntou Moira se voltando para Oliver com as mãos na cintura.
— Pois é — afirmei. Eu estava feliz por Oliver levar a culpa dessa vez.
— Mentira! — disse ele.
— Mentira? — perguntei totalmente incrédulo. Como ele podia mentir? — Pergunte a Thea, mãe.
— É verdade, mocinha? — perguntou Moira para Thea.
Thea olhou para Oliver, que estava suplicando para que ela mentisse por ele, mas Thea apenas balançou a cabeça em positivo para Moira.
Moira voltou-se para Oliver com certa raiva em seu rosto e sua voz parecia mais ríspida do que eu imaginei ter ouvido.
— Vamos ter uma boa conversa quando chegarmos em casa, mocinho — disse ela pondo o dedo indicador no peito de Oliver ameaçadoramente.
Ponto para mim, pensei.
— Quando posso sair daqui? — perguntei para qualquer um deles.
Eles ficaram em silêncio por um tempo.
— Não sabemos — disse Ernie.
— Você tem quase todas as costelas do lado direito quebradas — disse minha mãe. — Sem contar que tem algumas do lado esquerdo, seu tornozelo está quebrado, por sorte não fraturou o nariz. Está cheio de arranhões pelo corpo. Seu rosto, seu corpo, seus braços... todos estão com arranhões! Seu braço direito foi gravemente ferido, perdeu grande quantidade de sangue...
— O.K., mãe — falei para ela, interrompendo-a. — Pode parar.
— Não, você ouvirá — disse ela e revirei os olhos. — Teve hemorragia interna, uma das suas costelas quase perfurou o seu pulmão...
— Chega! — falei aborrecido e alterando minha voz. Ela parou no mesmo instante.
Todos me olharam, mas eu não me importei com aquilo. Saber meu diagnóstico não foi minha pergunta. Eu perguntei quanto tempo eu teria que ficar dentro daquele quarto de hospital — mesmo ele sendo completamente de luxo. Claro que minha mãe pagaria pelo melhor do hospital.
— Desculpe. Eu disse que não queria saber — falei ainda com raiva.
Ela assentiu.
— Como seu amigo disse, não sabemos — disse ela.
— Provavelmente ficará aqui por um tempo — disse Oliver.
O olhei sério, mas fiz questão de ignorá-lo e voltei-me para minha mãe. Eu não daria atenção para quem queria lutar comigo por motivos besta e que tinha me chamado de mentiroso. Ele nem tinha me pedido desculpas, pelo amor de Deus!
— Pense pelo lado bom — disse Thea. — Ao menos não terá que viver naquela casa chata e sem graça, e não precisará trabalhar.
Ri daquilo, mas aquilo me fez sentir dor e tossir um pouco.
— Bem lembrado, irmã — falei piscando para ela e aquilo me fez sentir uma pequena dor no lado direito do rosto.
— Quanto tempo eu fiquei dormindo? — perguntei para qualquer um deles novamente.
— Um dia inteiro. Um dia e uma noite, para ser mais exato — disse Ernie.
Quase reclamei. Eu tinha que ter pegado alguém durante aquele tempo. Prometi a mim mesmo que quando voltasse a fazer minhas visitas, eu faria duas em um dia. Não poderia deixar que aquilo virasse uma rotina.
Ficamos por um determinado tempo numa conversa. Ao menos todos falaram, exceto Walter. Ele parecia que estava ali por apoio moral, mas eu não me importava. Eu não gostava dele e ele também não gostava de mim, então, quanto menos nos falássemos, melhor.
De qualquer modo, todos tinham que trabalhar. Moira, meus irmãos e Walter saíram do quarto, juntamente com Ernie. Mas, antes que Ernie saísse com eles, eu o agradeci por ter salvado minha vida. Eu devia a ele. Mas ele disse que não precisava me preocupar e havia me entregado meu celular, e piscado para mim.
Eu não tinha entendido o motivo da piscadela, mas assim que todos saíram e chequei meu celular, tinha várias mensagens de texto de Tommy. Ele com certeza estava louco atrás de mim. E eu nem sabia como contaria aquilo para ele. Mas, eu tinha que seguir com a mentira. Sofri um terrível acidente de moto. Eu não sabia o quanto Tommy poderia ser estúpido para acreditar naquilo, mas eu tinha que dizer. A mentira já tinha sido feita e eu não podia inventar outra melhor.
Quando mandei uma mensagem de texto para ele dizendo que estava no hospital, ele apareceu no hospital dez minutos depois.
Assim que ele passou pela porta e viu meu estado, sua cara mudou de preocupação para espanto e voltou para preocupação — ou a mistura dos dois, eu não sei. Ele chegou perto de mim, sentou-se na cama e eu expliquei o que havia acontecido.
Ao menos menti para ele. Eu tinha dito que havia pegado uma moto e comecei a rodar a cidade loucamente, ultrapassando três vezes o limite aceito pelas ruas de Starling City e consegui bater com a moto, onde o resultado era aquele que ele estava vendo.
Quando terminei de falar, ele olhou para os lados e me beijou rapidamente. Foi incrível, pois no meio de toda aquela dor, o beijo dele fez com que eu não sentisse nada de dor em meu corpo. Em meio a toda aquela dor, seu beijo conseguiu ser delicado e cauteloso. O que o tornou mais especial.
Eu queria abraçar Tommy. Queria beijá-lo devidamente, mas eu não podia fazer isso. Ou eu fazia aquilo ou eu teria uma nova hemorragia. E eu não queria beijar meu quase-namorado com gosto de sangue subindo pela minha garganta. Mesmo para mim que não sentia nojo de quase nada por conta de tudo que já vi em minha vida, sentia nojo daquele pensamento.
Então Tommy não foi para o trabalho e cancelou todas as reuniões que tinha na empresa com o pai. Ele se levantou da cama, fechou a porta, abaixou as cortinas para impedir que os outros nos vissem dentro do quarto. Ele sentou de volta ao meu lado, sentou-se na cama, segurou minha mão boa e começou a me paparicar.
Ele fizera tudo aquilo para poder ficar comigo o tempo todo, foi onde eu consegui me sentir bem em meio de todo o furacão Darius que estava passando pela minha vida naquele momento.
Fale com o autor