O Ninja De Branco.

10 Capítulo 10 — Recuperado.


MINHA MÃE HAVIA PEDIDO O MELHOR TRATAMENTO DA CIDADE PARA CUIDAR DE MIM. EU não precisava de tanto luxo. Apenas alguns — dois apenas — enfermeiros para monitorarem se eu ficar com dor e nada mais. Mas ela havia feito questão de chamar os melhores enfermeiros da cidade. Não havia necessidade.

Eu não sabia como minha mãe fez para que o quarto extremamente grande que ela havia me dado fosse equipado com alguns aparelhos para chamarem os enfermeiros. Eu conseguia andar perfeitamente, mas ela fizera questão de me comprar muletas e fazer com que uma enfermeira ficasse me seguindo todo o santo dia. Ela não era nem um pouco bonita, ela era gorducha, tinha cabelos pretos longos até a cintura, mas viviam amarrados no alto de sua cabeça, pele clara e olhos castanhos.

É claro que Oliver e Thea riam daquilo todas as vezes que me via passar da sala de estar para o banheiro sem que ela me seguisse até a porta do banheiro. Eu havia pedido para eles pararem de rir, mas me disseram que não iriam e que isso era o presente de boas-vindas dos Queen. O que eu não gostei muito do presente.

Oliver havia recebido a visita de uns policiais em nossa casa — Thea havia me dito, quando estávamos nos escondendo nas escadas, que o detetive era o pai da ex-namorada de Oliver, Laurel. Eles vieram e tiraram aquele treco que eu não sabia que estava na perna de Oliver. Eles descobriram que Oliver não era o vigilante da cidade, que eles haviam pegado o cara errado — com total e absoluta certeza eles haviam pegado o cara errado. Oliver, o vigilante? Jamais.

Depois de uma semana do meu pequeno incidente com Oliver ter acabado na ida de um hospital, minha mãe havia dito que eu estava matriculado na mesma escola que Thea, ou seja, eu era um ou dois anos mais novo que ela e teria que sofrer com a adaptação de uma escola particular — coisa que eu nunca havia frequentado na vida — e com a adaptação com “os meus colegas de escola”. O que eu sabia sobre essa gente que estudava em escolas particulares eram duas coisa: uma: riquinhos metidos a besta; dois: todos eles eram uns retardados, idiotas e festeiros. Nada de diferente do que se via na televisão. E não era nada de diferente em casa. Oliver ficara com a segunda parte: retardado, idiota e festeiro — ao menos foi o que ele demonstrou durante há primeira semana que eu já estava instalado completamente naquela... na minha casa.

Eu havia confiscado o meu celular quando finalmente havia conseguido ficar um pouco só em meu quarto, quando despistei a enfermeira, mas não havia ligação de Jeremy. Nenhuma. Não havia mensagens de texto, não havia ligações... nada. Parecia que ele havia sumido da minha vida. Parecia que não queria mais estar presente em minha vida. Mas eu merecia isso, fui eu quem disse que era para ele seguir em frente e me esquecer, só não achei que seria tão rápido quanto havia sido. Mas eu mandei uma mensagem de texto que dizia: “Saudades... você sumiu.”. Mas ele não havia me retornado na mesma semana, o que me deixou bastante triste, mas escondi isso quando eu estava perto deles, pois eu não queria que ficassem perguntando o porquê da minha tristeza e se havia acontecido alguma coisa, e eu não iria dizer que estava com saudades do meu ex-namorado. Seria um choque. Eu não contaria isso agora. Pelo menos não agora.

Nas duas semanas que se propagaram, eu tive a notícia de que eu não poderia ser muito visto em público. Se eu fosse, teria que dizer que era sobrinho de minha mãe e primo de meus irmãos — eu até entendia, pois seria difícil para uma família rica e poderosa na cidade inteira assumir que havia abandonado um filho e o recolhera novamente. Seria difícil e eu pensei em até infernizar a vida de minha mãe com essa notícia, fazendo com que todos me vissem, mas eu prometi a meu pai que eu não faria isso e não faria. E também não faria porque eu não conseguia sair de casa direito. Mal ia ao memorial de meu pai no quintal, porque minha mãe disse que eu ainda estava de repouso. Dá para acreditar?

Minha mãe havia me prendido em casa o tempo suficiente para eu pensar em como começar o que meu pai havia me pedido. Eu realmente não sabia se aquilo era um sonho ou era realidade, mas meu pai era bastante real e suas palavras eram tão nítidas que eu não conseguia distinguir qual era realmente a verdade. Sonho ou realidade? Eu não sabia.

Eu começaria com as espadas. Eu teria de procurar pelas espadas em primeiro lugar e depois procuraria pelo caderninho de que ele tanto falou. Eram as coisas que eu precisava para começar o pedido de meu pai. Eu não iria falhar, eu havia dado a minha palavra. Eu a cumpriria.

Eu teria que voltar a praticar lutas... talvez com Oliver. Ele parecia alguém que sabia lutar, apesar de ser um tremendo riquinho metido a besta, mas ele soube como se defender de meus golpes, então isso contava. Eu teria que perguntar a ele, senão... eu teria que treinar sozinho. E treinar esgrima não era nada legal ou agradável de treinar sozinho. Não mesmo.

Eu tinha que pensar em um nome para o que eu seria? Na verdade eu não sabia o que e como começaria a fazer o que meu pai pediu. Eu nem sabia o que estava escrito naquele caderninho, o que me fez pensar de imediato: eu tinha que procurar os óculos apropriados e luzes ultravioletas. Eu não sabia onde encontrar isso, mas eu poderia fazer uma pesquisa e acho que um pouco de dinheiro gasto não iria fazer diferença alguma para eles, não é mesmo? Eles tinham bilhões e mais bilhões em seus bolsos. Um pouquinho só retirado não iria fazer diferença, eu tinha certeza que não.

Completando a quarta semana, e assim um mês, em que eu estava com os Queen, eu finalmente consegui ver meu padrasto desagradável novamente depois de semanas sem vê-lo. Ele estava longe por conta de alguma viagem por conta dos negócios da empresa em que meu pai era dono, que agora era a minha mãe, mas Walter era quem administrava a empresa toda. Ou coisa do tipo.

Mas ele não faria diferença para mim. Ouvi uma conversa dele com minha mãe, um dia. Ele dizia que ainda achava que o teste era falso e que por coincidência eu me parecia com os Queen, e que minha mãe estava cometendo o maior engano de sua vida me abrigando junto deles. Sinto muito por ele. Eu sabia quem eu era e sabia de quem era filho. Eu era, por um feliz ou infeliz incidente, filho dela com, feliz e maravilhosamente, o meu pai.

Eu conseguia sentir alguma dor na região de minha costela esquerda, mas era suportável, eu não ainda estava totalmente recuperado. Eu conseguia correr o corredor em que meu quarto ficava — mesmo que nenhum deles saiba disso.

Eu, também, corria pelo meu quarto. Ele era enorme. Tinha uma cama de casal encaixada entre a segunda e a terceira coluna a esquerda de quem entrava no quarto; a quarta e a quinta coluna era o meu guarda-roupa, que era enorme e incrivelmente espaçoso. Dava para se esconder ali dentro; havia um mesa que parecia mais três do que uma só, perto da janela que era de frente para a cama, abrigando um computador — um de verdade. Eu só via uns assim na escola e em mau uso; havia uma tevê de 42 polegadas a direita de quem entrava no quarto e um pequeno sofá de dois lugares de frente para a tevê, e com direito a uma pequena mesinha entre a tevê e o sofá; tinha uma janela do outro lado da entrada do quarto com um pequeno banco embutido nele e com cortinas muito bonitas, verdes e atraentes; ao lado esquerdo dessa janela, havia o meu banheiro, com direito a uma pia, uma enorme banheira e um enorme espaço com chuveiro com portas de vidro escuro, um vaso de cerâmica perfeitamente limpo e polido. Era muita coisa para alguém que só dormia no chão e dividia um minúsculo banheiro com um garoto que tinha quase o dobro de seu tamanho.

Era o paraíso, para quem pensa... mas era meio frustrante conseguir dormir em uma cama, sendo que eu passei quase a vida toda dormindo no chão. Eu não conseguia me acostumar com o conforto da cama, então eu puxava os lençóis macios e caros que minha mãe comprara para mim e os forravam no chão. Eu não usava o travesseiro, nem sei como conseguiam confortar suas cabeças naquilo... é macio. Macio demais, até. Eu não gostava, mas eu estava aprendendo com isso. Eu não queria parecer o esquisito da família que dormia no chão com apenas cobertores e mais nada. Eu mudaria isso, um dia.

Nesse meio tempo, Oliver havia sido inocentado da acusação de ser o vigilante da cidade e se livrado daquele aparelho em sua perna. Foi engraçado vê-lo rir (e era óbvio que eu estava escondido quando vi essa cena) da cara do policial que acreditava que ele era o vigilante — mas é claro que ele não era, não tinha como Oliver ser uma pessoa responsável e ao mesmo tempo um cara que arriscasse sua vida pela dos outros. Isso eu não acreditava.

Quando comecei a segunda semana do segundo mês (dezembro), minha mãe começou a ficar nervosa. Meu pai dizia que sempre dava uma festa de comemoração em sua casa para celebrar o Natal. Ele me dizia que minha mãe e meus irmãos sempre decoravam a casa de uma maneira incrível e que me mostraria aquilo algum dia. Mas, estando aqui, no início do mês e não ter escutado pelo menos uma conversa sobre o Natal nos corredores ou na sala de estar, estava me preocupando também. Eu queria ver a decoração que meu pai havia me dito, mas eu percebi que não haveria nada daquilo naquele ano.

Eu estava vendo o noticiário em meu quarto quando senti algo vibrar em meu bolso esquerdo. Eu sabia o que era e o pegara imediatamente. Meu celular estava em minha mão trêmula de tanta emoção. Finalmente eu havia recebido alguma notícia de Jeremy. Eu mataria a saudade, ao menos um pouco. Esse pensamento me deixara um pouco feliz.

Visualizei a tela do celular e havia uma mensagem de texto dele.

Apertei no ícone de mensagens que havia logo assim que desbloqueava o celular e era realmente dele, a mensagem. Eu não conseguira conter o sorriso imenso que se formou em meu rosto quando vi aquilo.

Assim que a imagem do menu do celular mudou para a central de mensagens de texto, revelou a mensagem de texto dele, dizendo:

Também sinto a sua falta. Perdoe-me pelo sumiço... não irá se repetir. Quase não conseguira conter minhas mãos trêmulas de felicidade.

Não demorei muito e respondi:

Não tem problema... mas por que sumiu? Eu pensei... bom, que tinha me esquecido., mandara para ele rapidamente.

Eu não conseguia tirar os olhos do celular, esquecera completamente que estava passando uma luta de UFC naquela hora — e eu gostava de UFC, não conseguia viver sem ver uma. Eu sempre espiava na escada na casa dos Parkers, pois Jason também gostava de assistir. Nada mais importava além da mensagem de Jeremy.

Não demorara muito para meu celular tremer em minha mão novamente e a luzinha do celular acender dizendo que uma mensagem de texto havia chegado.

Meu pai me obrigou a ir trabalhar com ele e, como você sabe, se ele não tem tempo para celulares, que dirá, eu. Hahaha. O quê? Esquecer você? Não... NUNCA! Jamais! Eu ainda te amo, seu bobo! Jamais vou te esquecer. Tenha isso em mente!, dizia a mensagem dele e aquilo fizera eu me sentir culpado.

Como eu poderia ter abandonado Jeremy daquela forma? Eu não podia fazer aquilo com ele... eu não podia ter feito aquilo com ele. Ele não merecia, eu merecia. Fui eu quem o abandonou daquela forma, eu quem merecia não tê-lo. Era eu quem realmente deveria ficar sem respostas, sem notícias dele.

Fofo... eu terei, a partir de agora..., mandara para ele.

Nós dois conversamos por um bom tempo por mensagens de texto. Jeremy começara a falar de seu novo emprego e que seu pai estava cobrando muito dele naquela sua nova função. Aproveitei e o contara sobre toda a minha família. Contara sobre o meu incidente com Oliver e que eu ficara desacordado durante dois dias no hospital no mês passado — no primeiro dia em que eu cheguei à casa dos Queen, minha casa.

Era estranho ter a ideia de que eu ficara um mês inteiro sem falar com ele. Nós nos falávamos todos os dias, na escola, fora da escola... sempre estávamos ligados um ao outro. Agora parecia que a distância fazia com que nós dois não estávamos mais ligados. Era como se uma tesoura tivesse cortado o laço de nossa ligação, fazendo com que aquele único laço ficasse com duas pontas completamente desfiadas.

Era dia quando eu estava passando em um dos corredores daquela mansão, segui indo em direção ao corredor central, que era ligado às duas escadas laterais e a porta. Desci as escadas, indo em direção à cozinha, quando ouvi a voz de Oliver vindo da sala de estar.

Parei de andar no mesmo instante. Tentei aguçar a minha audição, mas não funcionou.

Na ponta dos pés, fui andando, sem fazer barulho, até perto da entrada da sala de estar e vi Oliver em pé de frente para minha mãe, Thea e Walter que estavam sentados no sofá. Eles três pareciam atentos no que Oliver dizia. Escutei.

— Sei que não tenho sido o filho, ou enteado, ou irmão que vocês merecem ultimamente. Mas esse parece ser o momento certo para começarmos a compensar o tempo perdido. — ele fez uma pequena pausa. — O que dizem? — ele ficou olhando para nossa mãe com um meio sorriso.

Ela não respondeu de início.

— Digo que sim. — disse ela balançando a cabeça.

— Isso! — falou Oliver triunfante. — O.K.. Cuidarei de tudo. Não precisam fazer nada. Apenas apareçam fantásticos, e tragam alegria de Natal, tudo bem? — disse ele sorridente, quando começou a sair da sala de estar.

— Tudo bem. — disse nossa mãe balançando a cabeça.

Houve outra pausa silenciosa.

Oliver encarou Thea e a mesma levantou, um pouco, a sua cabeça para olhá-lo.

Ela balançou a cabeça e disse suspirando:

— Tudo bem.

Ele sorriu consigo mesmo e começou a sair...

— Você é um bom homem, Oliver. — disse Walter. Eu não conseguia gostar desse homem.

Oliver afirmou com a cabeça começou a sair pela entrada de onde eu estava.

Virei-me rapidamente de costas para ir à cozinha...

— Hey, você... — disse ele a minhas costas.

Parei de andar assim que tinha posto o pé direito na entrada da cozinha. Virei-me e o olhei.

— Sim? — dei um passo em sua direção.

Ele veio até a mim e me olhou franzindo a testa. Ele engoliu seco. Por que tanta demora em me perguntar algo? Por que ele não perguntada de uma vez?

— Você também irá à festa de Natal. — disse ele por fim.

Franzi a testa da mesma forma que ele.

— Hmmm... — fiz uma cara pensativa. — Está fora de cogitação. — virei-me e adentrei na cozinha...

— Por quê? — perguntou ele me puxando pelo braço, fazendo-me olhá-lo. Ele estava com as sobrancelhas franzidas.

— Não posso ser visto, lembra? — o lembrei.

— Mas a gente dá um jeito...

— Não. — o interrompi firme. — Não irei.

— Mamãe concordaria...

— Eu já disse que não. — o interrompi firme novamente e levantei as sobrancelhas.

— Você tem que ir, é Natal. O primeiro Natal em que temos você aqui. — ele me olhou com cara revoltada. Eu nunca o tinha visto daquela maneira, era a primeira vez. Ele realmente parecia irritado. De verdade. — Você tem que ir. — disse ele com certa raiva na voz juntando as sobrancelhas, ficando com uma expressão de raiva novamente.

O analisei calmamente. Se ele estava tentando me impor medo, falhou. Eu não tinha medo dele.

— O.K., tudo bem, eu irei pensar nisso. — falei por fim, adentrando na cozinha — finalmente.

Vi os empregados preparando alguma coisa para o almoço — era dia. O cheiro estava ótimo, mas eu não conseguia distinguir o que era. Eu nunca conseguia. A cozinheira de minha mãe era uma excelente cozinheira.

Fui até a bancada que tinha perto da porta de saída da cozinha e vi a Sra. Hampton preparando os legumes.

— Bom dia, Sra. Hampton. — falei educadamente para ela.

— Oh, bom dia, Sr. Queen. — disse ela sorrindo ainda olhando e cortando os legumes. — E, por favor... já pedi para o senhor me chamar de Lily. — disse ela sorridente.

— Tudo bem. — falei balançando a cabeça. — Vamos começar de novo? Bom dia, Lily. — falei rindo.

Ela deu uma pequena risada e agora começara a lavar algumas folhas de alface e molhar as cenouras picadas dentro de uma bacia verde com furinhos com arroz.

— Bom dia, Sr. Queen...

— Lily... — a interrompi olhando-a com as sobrancelhas levantadas. Eu também havia pedido para ela me chamar de Theo.

— Sr. Theo — corrigiu-se, ela. — Desculpe, é meio difícil chamar o patrão pelo nome. — ela deu uma risada, finalmente olhando para mim e deu uma piscadela.

— Tudo bem... eu também não consigo te chamar pelo nome. — disse por fim, rindo.

— Então porque tentamos isso?

— Não sei.

Nós dois rimos ainda mais.