O Negrume

6 Uma Visita ao Moinho


Notas iniciais
Oii!!! Gabi, eu postei!! Espero que você leia isso, senão eu vou me sentir meio idiota... Enfim, boa leitura! =)

Eu acordo com um raio de sol ofuscante sobre meu rosto. Eu, Edgar e Catarina dormimos sobre o chão frio do banheiro, e meus pés estão gelados. Todo o meu corpo está dolorido, e eu começo a me lembrar do dia anterior, do barulho horrível dos móveis se arrastando e aquela voz...

Edgar e Catarina acordam lentamente com os meus movimentos, já que eu dormira sobre o ombro dela, e o braço de Edgar estava em cima de mim. Eles abrem os olhos com dificuldade por causa da luz forte que entra pelo vidro da janela do banheiro.

–Estou com medo de ver como está a casa. – comenta Catarina, mas estranhamente tudo parece bem menos assustador à luz do dia, e eu não hesito em girar a chave e empurrar a maçaneta.

A casa está exatamente do jeito como sempre esteve. As cartas ainda estão jogadas sobre a mesa redonda, e os sofás estão na distribuição correta. A porta do banheiro pelo lado de fora também está intacta. Tudo isso me faz pensar se tudo aquilo não fora um pesadelo ou uma ilusão, mas parecia impossível que o pesadelo fosse coletivo. Edgar e Catarina se lembravam do dia anterior exatamente como eu, e aquela situação só se tornava mais bizarra a cada minuto.

Logo vem à minha mente o primeiro bilhete que achamos no criado mudo do quarto com a arma. Aquela vez em que Catarina viu uma silhueta em nosso jardim, olhando para a casa. O bilhete no livro vermelho, e o próprio livro. Eu me recusava a pensar assim, mas tudo parecia levar ao mesmo lugar. Havia algo de estranho naquela casa, e os moradores anteriores sabiam disso. Mas o que havia de tão ruim ali?

–Seu pai e a Annika ainda não voltaram. – diz Catarina olhando pela janela a procura do carro da família.

–O hospital é em outra cidade, eu já esperava por isso. – eu respondo dando de ombros, mas secretamente desejando que eles estivessem aqui.

–Se pudéssemos fazer uma ligação... Mas não acho sinal em nenhum lugar. – Catarina reclama, suspirando e se sentando no sofá.

–Podemos tentar no celeiro, é bem alto. – Edgar sugere – E enquanto isso eu posso avisar minha família que eu estou vivo. Eles devem estar preocupados, eu não disse que iria dormir aqui.

Assim nós três começamos a caminhar pela estrada de terra. Na verdade, havia chovido na noite anterior, então só havia lama. Eu e Catarina usávamos botas de borracha, mas Edgar sujara seus sapatos.

A caminhada pareceu bem longa, já que percorremos todo o caminho em silêncio. Logo o celeiro se ergueu sobre nós, com a pintura vermelha descascada e escurecida pelo tempo.

–Edgar, quem você disse mesmo que era o dono daqui? – eu pergunto conforme nos aproximamos da entrada do lugar.

–Ernesto Summers. É um velho chato que mora perto daqui. Na verdade, o celeiro faz parte da propriedade dele, mas ele nunca sai de sua cama. Parece que está doente já faz uns tempos. Mas suas filhas aparecem por aqui com frequência. – Edgar responde com amargura

–O que sabe sobre elas? – Indaguei

–Sei que são ricas e casadas com caras importantes. Mas deve ser apenas pelo dinheiro, já que eu não saberia dizer qual das três é a mais feia. – ele completou

–Você só diz isso porque elas te expulsaram do celeiro. – contestei – E o que você faz tanto aqui, afinal?

Edgar empurrou uma das portas de madeira, que cedeu, liberando a passagem. O celeiro estava mal iluminado e abafado, mas seco e mais quente do que do lado de fora.

–Ás vezes me canso dos meus irmãos – ele admite, se deitando sobre uma pilha de feno.

Catarina e eu o imitamos, subindo no feno. Catarina pegou seu celular em busca de sinal.

–Eu não sabia que você tinha irmãos. – comentei

–Eu tenho. Quatro. E é horrível ter uma família tão grande. Johnny, o mais velho, tem dois filhos. – Edgar explica, com mau humor.

–Eu gostaria de ver sua casa. – digo, distraída.

–Consegui um pouco de sinal! – anuncia Catarina, do outro lado do celeiro – Parece que lá fora está mais forte!

Catarina sai do celeiro segurando o celular no rosto. Parecia estar funcionando.

O que você acha que foi aquilo ontem? – pergunto cautelosa. Não é o assunto mais agradável, mas com certeza era intrigante.

– Não é óbvio? Com certeza não foi algo desse mundo, Wendy. Acho que seria definido como “malignidade”. – ele sorri com o termo

–É sério, Edgar. Não brinque com isso. ­

–E quem disse que estou brincando, hein?

Sua expressão se tornou séria, e seus olhos distantes. Pareceu se lembrar de algo, mas sacudiu a cabeça como se quisesse se livrar da ideia. Isso atiçou minha curiosidade sobre ele, mas resolvi deixar as perguntas para mais tarde.

– Acho melhor ir para casa. Minha família pode estar preocupada.

–Tem razão. – eu concordo –É uma boa oportunidade para que eu conheça o famoso moinho. – eu digo com um sorriso, lhe estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar.

Catarina já havia terminado a ligação quando saímos do celeiro. Ela queria voltar para casa, mas ficou com medo de ir sozinha e resolveu nos acompanhar.
O celeiro ficava mais próximo do moinho do que de nossa casa. O moinho em si era anexado a um armazem, a poucos metros da casa da família. O moinho era muito alto, e girava lentamente.

Atrás da casa de Edgar passava um riacho. Suspeitei que fosse o mesmo riacho que passava no quintal da estranha lanchonete de Tia Lia.

A casa parecia vazia. Toalhas de mesa sacudiam-se com o vento no varal. Um pastor veio nos receber, correndo, pulando e nos lambendo. Catarina solta um gritinho abafado ao ve-lo.

Ela se cala ao receber nossos olhares de repreensão.

–Parece que meus irmãos não estão em casa. – Edgar diz o que eu já havia percebido. Meneio a cabeça.

Edgar bate o punho na porta de madeira escura da casa, que é simples. Podemos ouvir a voz de uma mulher ao longe nos pedindo para esperar um pouco. Pouco mais de um minuto depois, uma mulher com o cabelo preso em um coque destranca a porta e se afasta para nos permitir passagem.

–Não me avisou que passaria a noite fora, Edgar. – A mulher diz com a testa franzida e os braços cruzados.

Edgar abaixa a cabeça e murmura desculpas.

–Esta deve ser Wendy! – ela diz, sorrindo para mim

–E essa é Catarina, minha prima que veio passar um tempo conosco. – digo.

–Entrem, entrem logo. Não gosto de deixar a porta aberta. Coisas perigosas andam rondando por aí.

Notas finais
E aí?