O Negrume

7 A Família Carvalho


Notas iniciais
Um pouco mais curtinho, mas eu gosto bastante desse. Boa leitura!

—Meu nome é Daniela– diz a mulher sorrindo, depois de trancar (literalmente) as sete trancas da porta da frente. –Sintam-se á vontade, por favor.

Daniela é bonita, apesar de ter algo por volta de cinquenta anos. Suas rugas são mínimas, e seus olhos azuis são grandes e vívidos, como os do filho. Tem traços delicados. É tão pequena quanto eu. Seu cabelo preso tem alguns fios soltos, que de vez em quando caem sobre seu rosto.

–Não sabia que traria visitas, filho. – ela diz em tom de censura – Por sorte estou fazendo biscoitos. Já já os tiro do forno.

Nos sentamos em uma longa mesa de madeira rústica que havia na cozinha. A casa é muito aconchegante. Eu já gostara muito do lugar e do estilo de vida deles. Haviam poltronas com finas cobertas dobradas sobre o encosto, e um tapete macio cobria o chão de madeira.

O pastor alemão entrara na casa quando Daniela abrira a porta para que nós entrássemos. Agora, o cachorro estava deitado em frente á lareira, que ardia em brasas, aquecendo o ambiente.

O cheiro de chocolate e menta invadem o recinto quando o forno é aberto. Duas bandejas cheias de biscoitos são depositadas sobre a mesa. Até mesmo o cão se levanta para verificá-los. São bonitos, e aparentam ser crocantes por fora e muito macios por dentro. Daniela guarda boa parte deles em um pote de vidro, e deixa o restante em um prato. Eu, Edgar e Catarina nos sentamos á mesa, com água na boca.

Uma chaleira, que eu não notara anteriormente, foi posta à mesa. O chá de cidreira foi servido em quatro xícaras, cada uma de uma cor diferente.

Noto velas aromáticas no peitoril das janelas. Estão em todas elas.

–Edgar me contou que você mora na casa que tem o anjo na frente. É uma casa bem bonita e espaçosa. – ela diz hesitante e pensativa – Estão gostando de lá? – ela me pergunta, enquanto nós devoramos os biscoitos.

Fico em dúvida sobre como responder. Resolvo ser educada.

–Estamos gostando. É um lugar bem agradável. Esta é uma cidade bem tranquila, não é? – eu digo estendendo a mão para mais um biscoito.

–Há quem discorde. – ela diz, enigmática.

–Por que diz isso? – Edgar pergunta, confuso, com o rosto cheio de farelos.

–Vila do Sul já foi uma cidade plácida. Foi antes de vocês nascerem, bem antes.

–O que houve? – Catarina indagou, interessada pelo diálogo.

–Meu pai trabalhou naquela casa há algum tempo... Ele costumava repetir doentemente o mesmo parágrafo: "Ele se arrasta por cada fresta livre, qualquer espaço é o suficiente, mas ele prefere as janelas. Nem mesmo a luz o impede, apesar de preferir as noites. Tome cuidado, garotinha. Ele sente seu cheiro de carne jovem. E ele está por perto, ele sempre está."

Ao terminar de proferir aquelas frases, estamos todos no mais impenetrável silêncio. Nós três sabemos bem que há algo de errado na casa. Mas nos assusta admitir isso.

–Meu pai costumava falar sobre uma criatura. Ele o chamava de Negrume. Que gostava de atormentá-lo, que buscava enlouquecê-lo.

Nesse momento o pastor começa a latir muito, e Catarina derruba sua xícara de chá no chão.

–Ah... Me d-desculpe! – Catarina engasgou-se, olhando para os cacos no chão, e o líquido que se espalhava pelo piso. –Eu posso limpar...

–Deixe isso comigo. – Edgar pega um pano velho e se agacha.

–Faça esse cachorro parar! – suplica Daniela ao filho

Ouço passos do lado de fora, se aproximando cada vez mais da casa. Fosse quem fosse, o cachorro anunciava sua aproximação.

A porta se abre de repente, revelando um jovem de pouco mais que vinte anos. Tinha cabelos pretos e olhos igualmente escuros, mas seus traços denunciavam que pertencia á família Carvalho.

Edgar abraça seu irmão. Fora ele quem abrira a porta. Johnny traz em seu colo uma garotinha, com mais ou menos três anos de idade. Assim que ele entra, uma mulher com um bebê de colo o segue.

–Wendy, Catarina, esses são meu irmão Johnny e sua mulher Hanna, com a pequena Rebeca e o mais recente membro da família: Felipe.

Hanna é baixa e loira, com cabelos lisos um pouco acima dos ombros. Rebeca tem os mesmos cabelos, e se parece muito com a mãe. Eles sorriem em comprimento.

–Então vocês são as nossas novas vizinhas? – Johnny diz, se servindo dos biscoitos.

–A Wendy é. Eu só estou de visita. – Catarina explica.

Johnny e Hanna são muito simpáticos, e o ambiente logo se torna cheio de conversas e risadas animadas. Mas nada consegue me distrair. As palavras de Daniela continuam ecoando em minha cabeça, em um looping infinito... “Ele se arrasta por cada fresta livre... Sente seu cheiro de carne jovem...”

Notas finais
Cuidado com o Negrume, e tranquem bem as janelas...