O Negrume

8 Na Calada da Noite


Annika e papai chegam no final da tarde, e Harry não está mais chorando. Eu pergunto o que o médico disse, e tudo o que Annika diz é que um calmante foi prescrito. Assim que chega ela se troca e se deita. Sem muito para fazer, e com muitos pensamentos na cabeça para ler, vou tentar conversar com meu pai.

Entro em seu quarto com duas batidas na porta, e ele está lendo em sua cama. É um velho hábito que eu adquiri dele. Ele ergue seus olhos das páginas amareladas de um exemplar surrado de Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, e com um gesto me convida a me sentar em sua cama.

Desde que Annika ficou grávida, nosso contato foi o mínimo necessário para duas pessoas que moram na mesma casa. Sinto falta de me divertir ao lado dele, das piadas internas e das discussões sobre livros e literatura.

Olá, Wendy. Como está sua irmã? – ele pergunta fechando seu livro e o depositando no criado mudo á seu lado.

Está dormindo. Parece bem. – penso um pouco, e resolvo dizer o que está em minha cabeça antes que eu perca a coragem. – Acho que tem algo de errado com essa casa.

Por que, querida? – ele franze a testa, preocupado – Me parece uma casa ótima.

–Eu e Annika descobrimos algumas coisas. Achamos bilhetes dizendo para tomar cuidado com a s janelas, e que há algo maligno...

–Wendy! Deve ter sido brincadeira de alguma criança deixar esses bilhetes por aí. Pensei que você fosse mais inteligente do que isso.

–Mas quando eu estava aqui com a Catarina e Edgar nós ouvimos vozes e barulhos de móveis sendo arrastados! Havia uma arma de verdade, e um livro...

–Uma arma? – seu rosto se transforma ao ouvir a palavra. Fica sério e se levanta da cama imediatamente. – Wendy, me mostre agora onde isso está.

Eu então o leva até o quarto, onde Annika dorme serenamente. Indico a gaveta onde a arma está. Meu pai entra no quarto cauteloso, e em silêncio abre a gaveta e enfia a arma em suas roupas. Sai do quarto me mandando ir dormir, com um semblante sério, e entra em seu quarto. Eu me pergunto se fiz a coisa certa.

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Durmo profundamente. Estou sonhando com a vida que levávamos em São Paulo. Minhas amigas da escola, as festas de aniversário, os passeios com minha mãe para comprar roupas novas. Parece ser uma vida tão distante. Nem sei como será quando as férias acabarem. Será que há uma escola em Vila do Sul?

Estou sonhando com o parque de diversões que a mamãe nos levara no meu último aniversário. Eu ficara com medo de ir na montanha russa e depois me arrependera quando Annika contara como havia sido divertido. Comemos muitos doces e almoçamos hambúrgueres.

Acordo sem saber direito o porquê. Ainda está de noite, e o quarto está completamente escuro. Demoro para que meus olhos se acostumem com a escuridão, e então consigo ver o contorno de algumas coisas. Olho para Annika, dormindo. Mas algo não parece certo. Há algo pairando sobre ela. Não sei dizer o que... Algo negro... Meu cérebro não consegue me responder o que é que estou vendo, e quando me dou conta, Annika grita.

Ela grita muito alto, Tenho certeza que todos na casa já acordaram. Ela se senta na cama, ainda gritando e olhando para a sua frente. Está tudo escuro demais e eu não consigo entender. Ela não para de gritar, uma das mãos sobre sua garganta, sempre olhando em frente.

Alguém entra no quarto e acende a luz. É o papai. Ele está empunhando a arma que eu o entregara mais cedo. Por um instante acho que consigo ver algo negro de dissolvendo no ar, mas é algo tão impossível que descarto como imaginação alguns segundos depois.

Ele abraça Annika, que mostra a garganta, onde há marcas roxas, como se alguém houvesse pressionado seus polegares sobre sua carne macia. “Sua carne jovem...” Papai a abraça e eu penso que ele está começando a aceitar a ideia de que há algo de errado na casa. Eu estou começando a ter certeza.

Papai nos abraça e nos diz que está tudo bem, mas não solta a arma. Sei que o Negrume está por perto.