O Negrume
9 Tia Lia
Assim que amanhece Annika começa a mudar os móveis do nosso quarto de lugar. Sua cama ficava sob a janela, e ela se lembra do aviso. Faz com que os pés das duas camas apontem para a janela, assim ficamos o mais longe possível dela.
Consigo sentir o medo no ar, como se fosse a umidade ou qualquer outro fenômeno meteorológico. É tão nítido que eu sinto como se fosse físico, sólido. Sinto vontade de estender minha mão para sentir a atmosfera. Está em cada movimento de Annika, nas palavras do papai e nos suspiros de Catarina.
Catarina também acordara com os gritos da noite anterior, e estava mais amedrontada do que de costume. Ela está começando a me irritar. Tenta achar sinal para ligar para seu pai, mas é praticamente impossível completar uma ligação por lá. Papai promete que a levará para algum lugar onde ela poderá usar o telefone em breve.
Depois do café da manhã, eu e Annika somos obrigadas a ir até a casa da Tia Lia para levar biscoitos. Papai diz que é para termos certeza de que teremos uma boa relação com a vizinhança. Catarina diz que vai ficar. Ela anda um pouco doente, e volta para a cama depois do café da manhã.
Pegamos o carro, e Annika vai dirigindo. A estrada é péssima, e minha irmã pragueja sempre que passamos por um buraco, o que se mostra bem frequente. O caminho é longo. Sei que Annika está insegura. Ela não queria sair de casa, apesar de ser nítido que ele está na casa. Ele. O perigo. O Negrume.
Paramos em frente à casa velha de madeira. Tia Lia já estava sentada na frente da casa, como se tivesse previsto nossa visita. Aquela mulher me dava calafrios.
–Olá! – Annika cumprimenta– Nós trouxemos biscoitos de canela para a senhora!
–Ora, então entrem que eu prepararei um chá! – ela nos convida com voz rouca e um sorriso amarelo de dentes tortos.
O ar lá dentro estava um pouco abafado. Um toca discos reproduzia uma melodia suave. E um tanto sombria.
—Essa música... me é familiar. – digo, sentindo um arrepio me percorrer a espinha ao me lembrar onde eu a ouvira. – A senhora a conhece de onde?
Tia Lia serve chá em três xícaras. Seca as mãos em seu avental antes de pendurá-lo e se sentar à nossa frente com um suspiro cansado e um olhar distante. Sua mente passeava, longe dali.
–Era a música preferida de Ernesto. – ela diz, finalmente me olhando nos olhos.
–A senhora conhece Ernesto? – eu pergunto
–Quem é Ernesto? – Annika pergunta surpresa e um pouco irritada, com um olhar que exigia uma resposta.
Quem responde é Tia Lia.
–É um senhor que mora muito próximo daqui. Seguindo mais á frente a estrada que passa na frente da casa de vocês, podem ver um celeiro. É o começo da propriedade dele. – ela toma um longo gole de chá – Acho que devo contar minha história para vocês. – ela diz, finalmente.
Eu e Annika nos entreolhamos enquanto Tia Lia deixa sua xícara de lado, se levantando e acendendo algumas velas aromáticas que repousavam sobre o parapeito da janela. Seu gato malhado se aproximou, roçando seu pelo macio em minhas pernas. Acaricio suas orelhas.
– Me mudei para cá há aproximadamente vinte anos. – ela diz, voltando a se sentar – Meu marido e meu filho foram assassinados em um assalto, e eu resolvi sair de uma vez por todas da cidade grande. Eu só queria passar um tempo em um lugar tranquilo para me recuperar da perda. Achei o anúncio em um jornal. Uma casa enorme e mobiliada por um custo baixíssimo. Com um grande jardim com a fonte de...
–Um anjo. – interrompo, entendendo.
–Sim – ela responde –É a mesma casa que vocês compraram. E com um objetivo semelhante, eu imagino.
–A Mamãe faleceu. – digo, me sentindo subitamente triste.
Tia Lia assente, compreensiva.
–Logo comprei também este lote, onde construí a minha lanchonete. Ernesto sempre a visitava. Pedia um refrigerante e um salgado, e passava a tarde no balcão. Nós conversávamos por horas, e logo nos apaixonamos. Conheci suas duas filhas.
–Não eram três? – pergunto, e recebo um olhar repreendedor de Annika, por eu estar interrompendo.
–Sim, são três. Mas a mais nova é dificilmente vista por aqui. Eu mesma apenas ouvi falar. Só a vi em fotos. É diferente das irmãs. Tem olhos e cabelos escuros, e um olhar sombrio... – uma sombra parece passar por seu rosto –Mas isso não faz parte da história.
–No período em que a senhora morou na casa... Não percebeu nada de... estranho? – Annika a pergunta, parecendo um pouco aflita.
–O suficiente para me mudar para a lanchonete. Sim. A casa está assombrada.
–Mas sempre foi assim? – eu pergunto. Olho de relance para Annika, que está pálida.
–Não. Foi um pouco antes de eu me mudar para cá. Eu nunca disse isso em voz alta, mas sempre acreditei. Ernesto morou naquela casa com a esposa e as três filhas. A esposa adoeceu subitamente e morreu ali mesmo. Algo me diz que ela se apegou á casa. Não consigo imaginar o porque de seu espírito ter permanecido em terra, mas não há muito o que discutir sobre isso.
A história é convincente, e eu tenho certeza que terei mais uma vez uma longa noite, mas não consigo entender aquela música... Com certeza existia alguma relação... Eu só precisava ligar todas as histórias, tudo o que eu sabia sobre aquilo que habitava a casa. Tinha de ter um jeito de concertar tudo.
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