O Negrume
10 De Manhã Cedo
Notas iniciais
Eu acordo bem cedo naquele dia. Meu celular pode não estar servindo para sua função principal, mas ainda é um excelente despertador. Eu queria sair mais cedo para evitar perguntas, mas também não quero que fiquem preocupados comigo. Por isso, deixo um breve bilhete sobre minha cama arrumada:
Fui ao moinho. Volto para o almoço.
Calço minhas botas impermeáveis, um casaco de nylon e encho minha mochila com frutas e sanduíches. Também prendo meu cabelo escuro em um rabo de cavalo. Assim, tento abrir a porta pesada o mais silenciosamente possível e saio de casa.
Há uma névoa densa e gelada do lado de fora. Assim que saio, dou de cara com as costas do anjo. Admiro-o, o circulando. Pela primeira vez reparo em seus detalhes. Seu rosto é muito bonito, mas por algum motivo, suas feições me parecem tristes. Não consigo imaginar o motivo de o artista ter finalizado sua obra, tão bonita, com aquela expressão. Também não entendo por quê alguém gostaria de ter um desses na frente de sua casa. É um tanto mórbido.
Me afasto dele, então, e sigo meu caminho até o moinho. É uma caminhada enorme, mas tenho a ideia de ir de bicicleta para ir mais rápido.
A neblina torna difícil enxergar algo a mais de cinco metros de distância. Posso enxergar o caminho ao meu redor, mas seria quase impossível dizer se havia alguém à minha frente ou ao meu encalço.
Por alguns instantes sinto que alguém se aproxima, mas não posso ver nada.
Em menos de dez minutos chego à casa do moinho. Todos parecem ainda estar dormindo. Encosto minha bicicleta na cerca da varanda. Dou a volta na casa, e o pastor alemão me recebe. Ele me deixa acariciá-lo, e em troca recebo lambidinhas nas mãos. Entretanto, os cachorros parecem fazer questão de acordar a casa inteira para anunciar minha chegada, e começam a latir desenfreadamente.

Ouço a voz de um menino reclamando. Em alguns instantes vejo um farfalhar na cortina, e em seguida ouço o som das várias trancas sendo abertas.
Quem abre a porta é Daniela. Ela está vestindo camisola e pantufas, e está com tanto sono que não me cumprimenta, apenas chama por Edgar, me convida para entrar e tranca a porta novamente. Então volta para seu quarto, provavelmente para dormir mais.
Sento-me no sofá, me sentindo um pouco desconfortável e apreensiva por estar ali sozinha e com receio de ter chateado Edgar por acordá-lo tão cedo.
Mas em alguns minutos ele surge, e antes que eu possa dizer qualquer coisa ele leva um dedo aos lábios, pedindo silêncio, e então indica a porta.
Nós saimos e damos alguns passos para longe da casa, e só quando estamos a vários metros dela é que Edgar fala.
–O que aconteceu para você vir nos acordar tão cedo?
Fico um pouco aliviada, já que seu tom não é de impaciência, e sim de preocupação.
–Eu estou com algumas coisas na cabeça... Acho que só você pode me ajudar agora. – admito, me sentando em uma tora de madeira que fora deixada sobre a grama alta.
–É sobre aquilo que a minha mãe falou, não é? Eu sabia que ela não devia ter dito nada. Ela nem sabia sobre o que estava falando. Meu avô lia demais, não conseguia dividir realidade e ficção.
–Mas você sabe que existe algo. Nós ouvimos.– eu insisto
–Não sei, Wendy.
–Eu quero conhecer o dono da fazenda do celeiro. Acho que ele pode me ajudar em algumas coisas... em relação á casa.
–Por que você acha isso? – ele parece espantado com a ideia – Não acho que ele saiba...
–Ele morou lá. E se mudou por algum motivo. Eu preciso saber porquê. – eu digo com determinação, e por sua expressão sei que Edgar entendeu que eu não vou mudar de ideia.
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