O Negrume
13 Uma Estranha Recusa
Notas iniciais
Ligo para Annika e ela me busca normalmente, sem se importar muito com o fato de eu estar saindo da escola três horas antes do horário normal. Harry estava no banco de trás, em sua cadeirinha de bebê. Ele fazia aquele barulhinho que bebês fazem quando querem falar.
–Não vai perguntar o que aconteceu na escola? – eu digo quando estamos quase em casa.
–Se eu não souber não vou precisar mentir quando o papai perguntar. – ela diz sem se importar –Eu já tive sua idade, sabia?
–Mas eu não fiz nada de errado. É só que...
–Eu disse que não quero saber, Wendy! – ela me interrompe, pegando Harry no colo.
Papai nem percebe que cheguei antes da hora em casa. Ele tem prestado atenção em poucas coisas ultimamente.
Faz tempo que não vemos nada de... sobrenatural por aqui. Talvez tenha sido apenas algum tipo de... alucinação em grupo? Andando por essa casa e tocando nas paredes sólidas e frias, é difícil de acreditar que exista algo... Sob a luz do dia tudo parece tão normal e mundano...
Nós iríamos fazer compras no moinho, e convidaríamos a família Carvalho para jantar conosco. O papai não parecia estar com muita vontade de ir, mas ainda estava com aquela coisa de boas relações com os vizinhos na cabeça. Não reclamei. Depois do almoço todos nós entramos no carro.
O caminho de nossa casa até o moinho era obviamente muito mais rápido de carro. Nem tive tempo de apreciar a paisagem que passava depressa fora da janela. Catarina ouvia música em seus fones de ouvido. Ela parecia estar bem dispersa.
Passamos a casa da família Carvalho e estacionamos em frente ao moinho e seu armazém. Logo reconheci Johnny, e outros garotos, os outros irmãos de Edgar. Eles trabalhavam, carregando caixas e sacos pesados.
Daniela nos recebe com um enorme sorriso no rosto. Como ela consegue ser sempre tão legal e simpática vivendo em uma cidade como essa?
–Chegaram na hora certa! – ela diz passando as mãos pelo avental, tentando livrá-lo da poeira ou o que quer que fosse. –Roberto e os meninos acabaram de chegar com nova mercadoria. Os mantimentos estão fresquinhos.
Edgar surge de dentro do armazém com metade do cabelo coberto com farinha, que sua mãe tenta limpar rapidamente, antes que alguém pudesse ver.
–Que bom que vieram! – ele nos recebe com entusiasmo idêntico ao da mãe. Talvez estivesse no sangue. Explicaria muita coisa.
Annika me entrega a lista de compras e me manda para dentro da loja com Catarina. Edgar nos segue, carregando uma cesta para nos ajudar.
Conforme vamos pegando as compras, conversamos.
–Vocês provavelmente vão jantar lá em casa – eu digo –Papai e Annika estão fazendo o convite.
–Demais! E o que vai ser servido? – ele pergunta ansioso
–Não sei, Edgar! – exclamo –Não é importante! O jantar é para que nossas famílias se conheçam melhor. O foco não é unicamente a comida.
Edgar dá de ombros e segue em frente enquanto Catarina cita os itens da lista.
–Pensei que a parte principal de um jantar fosse a comida... – edgar resmunga baixinho –Mas se você diz...
Terminamos tudo e voltamos para o carro exatamente no momento em que o pedido está sendo feito. Eu espero a resposta ansiosa.
–... por isso pensamos em convidá-los para jantar em nossa casa essa noite. – papai finalizou
O rosto de Daniela se tornou pálido. Ela começou a gaguejar, sem saber o que dizer ao certo. Até que encontrou a desculpa perfeita quando a filhinha de Johnny começou a tossir.
–Minha netinha está com os sintomas de uma gripe forte. Receio que terei de recusar o convite para ajudar a mãe a cuidar dela.
–Acho que sua nora cuidará bem da memina. Insisto no convite. – Papai diz com a testa levemente franzida
–Não. – ela diz sem escrúpulos –Não será possível. – com isso Daniela se vira de costas e entra novamente em sua casa. Os meninos e o pai continuam trabalhando, exatamente como quando chegamos.
Um pouco antes de entrar em casa ela ainda diz:
–Mas podem jantar aqui algum dia... Tenho certeza de que Edgar adoraria... – ela entra em casa e não ouvimos o resto da frase.
–O que aconteceu? – pergunto a Edgar, confusa.
–Ah, você sabe. Ela tem essa coisa com a sua casa, por causa do que o vovô falava. Se a conheço bem, ela foi acender algumas velas.
Edgar revira os olhos e sorri, como se tudo fosse só uma grande piada e eu não devesse me preocupar.
–Até mais, então. – eu me despeço entrando no carro.
–Vamos voltar, pai. – Annika diz para nosso pai, que parece petrificado –Eles não querem.
Nós entramos no carro e em alguns segundos nosso pai nos segue. Ele parece chateado e chocado. A resposta de daniela havia sido realmente direta demais. Ela ficara visivelmente abalada com a possibilidade de nos visitar.
Voltamos para casa, onde prepararemos mais uma vez um jantar para apenas quatro pessoas e um bebê.
De noite a casa parecia outra. As lâmpadas nunca iluminavam todos os cantos dos cômodos. O chão de madeira rangia sob nossos pés, o vento uivava do lado de fora, sacudindo as janelas velhas. Mas o que me incomodava mais, acima de tudo, era a sensação constante que que alguém me observava. Constantemente.
Fale com o autor