O Negrume

14 Poiquilotermia


Notas iniciais
Desculpe ter demorado tanto para postar. É que a inspiração tinha tirado umas férias...

Talvez não existisse Negrume, não existisse a alma de uma mulher que morreu de alguma doença fatal, talvez não existisse nada. Mas de fato havia algo naquela casa, ou naquela cidade que não me deixava dormir em paz. Todas as noites até então tinham sido inquietas. Quando eu adormecia era por poucas horas, e eu acordava diversas vezes durante a noite.

Em nenhuma dessas ocasiões que acordei havia um motivo visível para que meu sono fosse interrompido. Meu quarto sempre estava calmo e silencioso. Talvez fosse só o estresse das últimas semanas.

O fato é que essas noites me rendiam olheiras horríveis no dia seguinte, que nem a mais poderosa maquiagem da Catarina poderia cobrir. A cada dia minha aparência ficava pior.

Eu não comentei com ninguém sobre isso, com medo de parecer louca, mas eu sinto que há algo me acompanhando por onde quer que eu vá. Não tenho certeza. Não é nada material, nada que eu veja ou ouça, é mais uma sensação.

Edgar faltou na escola naquele dia.

As aulas foram chatas como sempre. Física, geometria, história, filosofia... Todas as professoras pareciam ser freiras. Todas elas muito desinteressantes com suas vozes monótonas.

No intervalo não tive coragem de me sentar com a família Carvalho sem Edgar comigo. Então apenas passei por lá para cumprimentá-los e perguntar sobre Edgar.

–Oi Wendy! – disse Henry, o segundo mais velho, depois de Johnny.

–O Edgar acordou meio mal. Não sei se é verdade, acho que ele só quis matar aula, mas valeu por se preocupar. Sente-se! – ele convida com um sorriso gentil.

–Não. Tudo bem, Henry. Já vou indo! – eu sorrio e agradeço.

Não quero me sentar sozinha depois de recusar o convite de Henry, mas ainda preciso comer em algum lugar. Dou uma volta pelas mesas, até que vejo Valentina, sentada sozinha. Uma boa oportunidade para me desculpar pelo fiasco do dia anterior.

–Er... Oi! Meu nome é Wendy. – eu digo e observo enquanto Valentina parece se encolher no banco de madeira. –Me desculpe por ontem. Ãn... Será que eu posso me sentar?

Ela faz um sinal positivo com a cabeça e eu me acomodo no banco de madeira à sua frente.

–Você é a Valentina, né? Neta do Seu Ernesto? – a questiono, tentando puxar assunto.

–E você mora na casa onde minha avó morreu.

–Sim. – eu respondo sem entender o motivo dela estar sendo tão direta.

–Eu sei o que falam sobre aquele lugar. Nenhum inquilino fica lá por muito tempo. Nunca entrei, mas gostaria de conhecer melhor. Sabe, por dentro. Minha mãe disse que tem algumas salas escondidas.

Me lembrei do sótão.

–Se quiser eu posso te mostrar. Hoje depois da escola, talvez? – eu convido, incerta se ela vai aceitar ou não.

–Claro. Eu posso ir, mais tarde.

–Certo. Então acho que está combinado! – eu tento soar animada, mas toda a estranheza da situação me impede de realmente me sentir assim.

O sinal agudo que indica o fim do intervalo toca, assim nós voltamos para a aula.

➵➵➵

Alguns minutos após o almoço, posso ouvir três batidas tímidas sobre a porta de entrada. Deixo deixo de lado minha leitura do momento para receber Valentina.

–Olá! – eu digo a recebendo.

Valentina não se parece muito com o resto de sua família. Quer dizer, tem a mesma cor de cabelo bem clara de sua mãe, mas seu cabelo acaba logo abaixo das orelhas. Além do cabelo curto, seus olhos são castanhos escuros. Não parece se importar tanto com sua aparência. Usa um macacão jeans com uma camiseta listrada simples, e botas curtas, do tipo que se usa para andar a cavalo.

–Oi.

Valentina entra na casa conforme eu cedo a passagem. Parece um pouco hesitante, olhando ao redor, talvez um pouco receosa. Observa cada detalhe atentamente, como se fosse algo inédito, e não apenas mais uma casa antiga.

–Quer que eu te mostre o resto? – eu pergunto, sem saber exatamente o que dizer ou como puxar assunto, já que nós mal nos conhecemos.

Ele faz um sinal positivo com a cabeça.

Caminhamos pelo térreo em um silêncio um pouco constrangedor. Ela tocava as paredes com as mãos, como se procurasse uma passagem secreta ou algo do gênero. Eu achei um pouco de graça, mas tentei esconder o riso. Não queria que ela pensasse que eu estava caçoando dela.

Eu estava com um pouco medo de relar sem querer em sua pele. Eu ainda não fazia ideia do que aquilo significava, mas era certamente bem estranho.

–Ouvi dizer que existem passagens pelas paredes. A gente só precisa achar a entrada. – ela se explica ao perceber meu olhar curioso.

–Ah, tudo bem, eu acho.

Ela dá batidinhas nas paredes, mas depois de muito tempo explorando a casa, ela não encontra nada de que não tivéssemos conhecimento ainda. Por fim, vamos para a cozinha para beber água.

–Eu sei que tem algo, só está mais escondido do que eu esperava. – ela se explica, parecendo por um instante até um pouco constrangida.

Eu encho dois copos com água fresca. Estendo meu braço para que ela pegue o copo, mas então lembro... daquilo. Apoio o copo sobre a mesa para que nossas mãos não se tocassem. Penso se seria falta de educação perguntar sobre isso, sobre como a pele dela poderia ficar tão gelada mesmo em dias mornos.

–Eu sei o que você está pensando. – Valentina diz pegando seu copo da mesa e bebericando a água suavemente, pensativa. – É uma doença, se quer saber. Se chama Poiquilotermia.

Sinto meu rosto esquentar. Ela se senta na mesa e eu a imito.

–Meu corpo não consegue regular minha temperatura. É uma doença rara, que alguns médicos dizem que nem mesmo existe, mas eu estou aqui, né? Por isso ás vezes minha pele fica muito fria. Pelo menos eu não sinto muito frio. Por isso minha mãe não gosta que eu saia muito de casa.

–Sinto muito. – eu digo por falta de algo melhor para dizer.

–Não se preocupe. Não é nada de mais. Só me incomoda o que as pessoas falam. Dizem que sou contagiosa, até mesmo que sou uma bruxa. Mas eu meio que gosto de ser diferente, de vez em quando.

Seu olhar parece distante, seu semblante tranquilo.

–É bom ser diferente. – concordo, por fim.

Afinal, as coisas parecem piores quando não sabemos muito sobre elas. Isso só prova o que todos nós sabemos no fundo: Nós temos medo do desconhecido.

Notas finais
Curiosidade: H. P. Lovecraft sofria de Poiquilotermia, por isso sua pele estava sempre gelada. Espero que tenham gostado! Se sim, comentem, favoritem e recomendem!