O Negrume

12 Toque Gélido


Notas iniciais
Boa leitura!!

Eu pensava que minha estadia em Vila do Sul não poderia piorar. Que pensamento estúpido. As coisas sempre podem piorar.

Annika me levou ao colégio Madre Teresa no carro do nosso pai. Era relativamente perto de casa, e o único colégio de Vila do Sul. Era perto do moinho, onde aparentemente era o centro da cidade. O céu estava cinzento, para combinar com o meu humor.

As aulas da Catarina só começariam na próxima semana, portanto ela continuaria em nossa casa por mais alguns dias. Ela andava bem estranha. Passando dias inteiros em seu quarto, de cama, ou dias inteiros fora de casa. Às vezes dizia estar visitando Tia Lia, ou no moinho. Não estava falando muito e não contava o que andava fazendo.

O portão do lugar parecia ser bem antigo, e não havia ninguém na entrada para receber os alunos. O lugar todo exibia uma arquitetura gótica, rica em detalhes entalhados e telhados pontudos. O portão tinha pontas de lança, mas que não serviriam para nada com os portões abertos. Imagino que talvez o lugar não tivesse sido construído para ser um colégio. Talvez tenha sido alguma outra coisa antes de receber sua atual função.

Como prometido, Edgar me esperava ali. Eu não queria chegar sozinha, já que agora Annika estudava à distância. Sempre era ruim chegar em um lugar novo sozinha. Eu tinha sorte de ter feito amizade com Edgar em tão poucos dias.

Os poucos alunos que passaram por ali me olharam com desconfiança. Nem tive chance de tentar ser legal com alguém. O jeito com que me encaravam me faziam sentir que tinha feito alguma coisa de errado. Aqueles olhares pareciam me acusar de algo. Me diziam que aquele não era o meu lugar. Que eu deveria ir embora.

–Isso não é meio ruim para você? Tipo, andar comigo? – perguntei para Edgar enquanto ele me mostrava a escola. –O pessoal aqui não parece ir muito com a minha cara.

A escola era na verdade uma chácara. Era como um retângulo vazado enorme, e no meio havia um pomar e um gramado enorme. Não havia muitas salas, afinal, não haviam muitos alunos. No meio de tudo havia um pequeno refeitório, cercado por árvores que perdiam suas folhas e um chão de pedras.

– É normal. Eles não vão com a cara de ninguém. Acredite, andar com você não muda muita coisa. Na verdade muda, tem alguém que não é da minha família que fala comigo.

Dou risada de seu lamento, que me soa mais como piada. Era verdade, a família de Edgar era enorme.

–Você não deveria reclamar da sua família. – eu o repreendo

–Nem você da sua.

Eu pensava que minha estadia em Vila do Sul não poderia piorar. Que pensamento estúpido. As coisas sempre podem piorar.

Annika me levou ao colégio Madre Teresa no carro do nosso pai. Era relativamente perto de casa, e o único colégio de Vila do Sul. Era perto do moinho, onde aparentemente era o centro da cidade. O céu estava cinzento, para combinar com o meu humor.

As aulas da Catarina só começariam na próxima semana, portanto ela continuaria em nossa casa por mais alguns dias. Ela andava bem estranha. Passando dias inteiros em seu quarto, de cama, ou dias inteiros fora de casa. Às vezes dizia estar visitando Tia Lia, ou no moinho. Não estava falando muito e não contava o que andava fazendo.

O portão do lugar parecia ser bem antigo, e não havia ninguém na entrada para receber os alunos. Como prometido, Edgar me esperava ali. Eu não queria chegar sozinha, já que agora Annika estuda à distância.

Os poucos alunos que passaram por ali me olharam com desconfiança. Nem tive chance de tentar ser legal com alguém. O jeito com que me encaravam me faziam sentir que tinha feito alguma coisa de errado.

–Isso não é meio ruim para você? Tipo, andar comigo? – perguntei para Edgar enquanto ele me mostrava a escola. –O pessoal aqui não parece ir muito com a minha cara.

A escola era na verdade uma chácara. Era como um retângulo vazado enorme, e no meio havia um pomar e um gramado enorme. Não havia muitas salas, afinal, não haviam muitos alunos.

– É normal. Eles não vão com a cara de ninguém. Acredite, andar com você não muda muita coisa. Na verdade muda, tem alguém que não é da minha família que fala comigo.

Dou risada de seu lamento, que me soa mais como piada. Era verdade, a família de Edgar era enorme.

–Você não deveria reclamar da sua família. – eu o repreendo

–Nem você da sua.– ele replica

– Como você é chato! Agora eu sei por que ninguém quer andar com você. – digo fazendo uma careta. Edgar sorri, levando na brincadeira.

Entramos em nossa sala. Ainda não tem muita gente, o professor não está ali ainda. Escolhemos nossos lugares e eu observo os outros alunos que já chegaram.

–Está vendo aquela menina loira, que está lendo ali na frente? – Edgar sussurra para que a menina não ouça – É a neta do Seu Ernesto. A Valentina. Não fale com ela, ela é estranha.

–Estranha como? – pergunto –Você também é estranho.

–Mas ela é estranha de um jeito ruim. Não sei explicar, você vai descobrir sozinha. – ele suspira e desvia o olhar.

Uma freira entra na sala de aula e se senta na mesa da frente. É a professora da nossa primeira aula. Nem metade das mesas estão ocupadas.

–Eu sou a irmã Lucilda, e vou dar aula de Geografia...

A aula foi mais monótona do que as aulas têm o direito de ser. Mais tarde, ainda entrou a irmã Clarisse de História e a irmã Renilda, de Biologia. Depois disso, o sinal para o intervalo tocou e saímos para o intervalo.

Eu e Edgar compramos sanduíches de carne e nos sentamos na mesa da família Carvalho. Logo conheci Henry, que era a cópia exata de Johnny, apenas um pouco mais baixo, e Vitor e Vinicius, os gêmeos.

–Ela não parece ser estranha. – comento.

Valentina estava sentada com uma amiga de outra turma. Elas conversavam normalmente, como amigas comuns fariam. Eu não conseguia enxergar nada que a fizesse diferente das outras meninas. Ou diferente de mim.

–Ela é, Wendy. Acredite. – Edgar disse, um tanto enigmático.

O sinal toca anunciando o fim do intervalo. Não me importo de voltar para a sala de aula, já que o vento está forte e gelado do lado de fora.

No caminho para a sala de aula, vejo Valentina andando rápido, carregando uma pilha de livros em seus braços. Um menino está andando no sentido contrário no corredor. Eu assisto quando ele derruba de propósito os livros que ela carrega. Eles se espalham pelo chão.

Me aproximo rápido para ajuda-la, mas ao perceber que eu me aproximo, ela recolhe todos os livros muito rápido. Pego apenas uma caneta que ela deixa cair novamente, na pressa.

–Calma! – eu a tranquilizo – Não vou fazer nada.

Eu estendo minha mão com a caneta para que ela pegue, mas Valentina não dá sinal de que pretende pegá-la. Apenas continua me encarando, desconfiada. Por isso, seguro uma de suas mãos e coloco a caneta nela. Mas nem me lembro se consegui realmente completar minha ação.

Ao tocar sua pele, grito de susto. Um grito alto e longo o suficiente para que Valentina saísse correndo com seus livros e sua caneta, para todos que passavam por ali olhassem assustados para mim.

Eu não entendia como aquilo poderia ser possível. Como ela conseguia sobreviver em tais condições.

Edgar, com um braço em minhas costas, me leva para o lado de fora, onde podemos ter um pouco mais de privacidade agora que o sinal tocou e todos estão entrando em suas aulas.

–Você sentiu? – ele pergunta, mas a resposta é meio óbvia –A pele dela é mais gelada do que deveria ser possível, não é?

–É por isso que ela é estranha? Meu Deus, como ela está viva? –eu pergunto baixo. Não sei exatamente por quê. Com medo de Valentina ouvir, talvez. –Aquilo era mais frio que gelo. De perto eu pude ver como sua pele é clara, transparente em alguns lugares.

–É, mas você gritou muito lá dentro. Melhor voltar para casa e voltar amanhã como se fosse seu primeiro dia e torcer para ninguém se lembrar. – Edgar sugere, me entregando minha mochila, que tinha caído no corredor.

–É. Acho que vou fazer isso.

Ainda um pouco atordoada, coloco minha mochila nas costas e ligo para Annika vir me buscar. Então cruzo o portão aberto da escola, caminhando em direção à minha casa. Um passo e depois outro.

Penso que quela cidade não poderia ser mais estranha.

Notas finais
O que pensam sobre Valentina?