O Negrume

2 Fique Longe das Janelas


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários de incentivo! Espero que gostem desse também.

Só tivemos tempo de limpar um dos quartos, e papai resolve que este será o quarto das meninas. Ele tirou a poeira de um pedaço do chão da sala, onde cobriu um colchão com cobertores. Ele passaria a noite no andar de baixo.

Annika consegue fazer o bebê dormir, e está estudando em sua cama. Ela precisou parar os estudos quando engravidou, mas agora está retomando o tempo perdido. Eu não tenho nada para fazer, então estou deitada em minha cama fitando o teto.

Alguns meses atrás eu realmente nunca conseguiria imaginar que um dia minha vida sofreria uma transformação tão grande. E mesmo depois de mamãe falecer, eu pensava que continuaríamos com nossa rotina. Que eu estudaria na mesma escola onde minha mãe e Annika estudaram, que eu visitaria a livraria nos fins de semana e que nas férias fugiríamos do inverno visitando nossa tia em Fortaleza, onde sempre era calor.

Mas parece que desta vez o papai procura o frio e a escuridão do inverno. Procura o silêncio e o completo isolamento. Em uma casa sem sinal de telefone, e com uma localização não muito favorável casa precisemos de ajuda. Eu tinha plena consciência de que nossos vizinhos mais próximos nunca conseguiriam ouvir um grito de uma distância daquelas.

Nosso quarto não é muito grande. Uma das camas fica encostada em uma janela grande, e a outra na parede oposta, de forma que as duas fiquem de frente para a porta. Tem um papel de parede bonitinho, com carrosséis e cavalinhos coloridos. Provavelmente era um quarto de criança. Entre as duas camas há um único criado mudo, onde descansa o abajur.

A casa é muito antiga, e papai acha que precisaremos trocar a fiação. As luzes piscam de vez em quando. Apesar de termos limpado tudo da melhor forma que conseguimos, um cheiro de mofo ainda está no ar.

Tentamos abrir a janela do quarto para que o ar circule, mas ela parece estar emperrada. Não se move nem um milímetro, não importa a força que façamos.

Estou cansada depois de todo o trabalho que tivemos, e me deito cedo depois de um banho gelado no banheiro do segundo andar. Adormeço rápido, em um sono profundo, escuro e sem sonhos.

Acordo no meio da noite. A casa está em silêncio, e não consigo entender o porquê de ter acordado. Olho ao meu redor, me perguntando se houve alguma movimentação.

Annika e o bebê dormem serenamente. A fraca luz da lua entra no quarto iluminando-o apenas parcialmente, o que deixa cantos escuros por toda parte. Onde qualquer um poderia se esconder. Quem garante que já não há ninguém ali? Apenas espreitando das sombras. E quem garante que é uma pessoa? Poderia ser qualquer coisa, deste mundo ou não.

Afastei os pensamentos sombrios e me esforcei para a dormir. Mas não funcionava. Havia algo me mantendo acordada.

Meu olhar se atraiu para a gaveta do criado mudo. A única gaveta que ainda não fora aberta. Preciso me lembrar de abri-la amanhã. Fechei os olhos novamente. “Relaxe e o sono virá...” foi o que pensei.

Um impulso invisível me atraía em direção a gaveta. Não era simples curiosidade, mas sim uma necessidade. Eu simplesmente precisava descobrir o conteúdo daquele móvel imediatamente.

Saí debaixo das cobertas e me abaixei de frente para a gaveta. Puxei devagar no início, mas parecia emperrada, e eu precisei fazer mais força. A gaveta fez um ruído terrível quando a abri, e o bebê começou a chorar.

–Wendy! – Annika me repreendeu.

–Desculpe! – eu disse depressa, voltando para a minha cama, debaixo dos cobertores quentinhos.

–Você acordou o Harry! O que estava fazendo? – ela grita, furiosa.

Então Annika nota a gaveta aberta e entende de onde veio o ruído. Se apressa em acalmar a criancinha e em alguns minutos coloca o garoto para dormir mais uma vez.

–Ao menos achou algo que valha nossa atenção nessa gaveta? – Annika pergunta se sentando na cama irritada, colocando uma mecha de seu cabelo loiro atrás da orelha.

–Não tive tempo de olhar, para ser sincera. – Admiti me sentindo culpada.

–Então vamos dar uma olhada. – Ela diz por fim.

Annika se ajoelhou no assoalho para puxar novamente a gaveta para espiar seu conteúdo. Desta vez o ruído foi bem menor, e Harry não despertou.

–Wendy! Dê uma olhada nisso...

Eu me agacho ao seu lado.

Ela desdobra um bilhete em um papel velho, que estava dentro de um envelope amarelado.

–O que será isso? –pergunto curiosa e ansiosa

Annika fica pálida ao ler, e isso me deixa ansiosa. Ela volta para sua cama e me joga o bilhete para que eu também leia, enquanto ela se envolve em cobertores.

Me sinto subitamente gelada, mas desamasso o papel para desvendar seu conteúdo.

Fique longe da janela. Fique com isso, vai precisar. Minha família conseguiu se livrar do mal, espero que consigam também.

Sinto que todos os pelos de meu corpo estão eriçados. Subitamente sinto olhos sobre mim. Mas Annika parece estar suficientemente nervosa para nós duas, então me forço a relaxar.

–Mas Annika, sobre o que estão falando? Digo, disseram que vamos precisar de algo...

–Olhe melhor a gaveta. Deve ter mais alguma coisa aí. – ela diz com a voz levemente trêmula.

Eu puxo a gaveta inteira para fora, e então consigo ver a que se referiam no bilhete. Ali no fundo havia algo eu realmente não esperava encontrar.

–Vamos, Wendy. Me diga o que é! – ela exclama abraçando seus joelhos.

Eu ergo com cuidado o objeto da gaveta. É mais pesado do que eu esperava.

–Vai, Wendy!

Então eu a mostro.

–Annika, é uma arma.