O Negrume
3 Edgar do Moinho
Notas iniciais
Annika e nosso pai passaram toda a manhã limpando e arrumando a casa. Ela já tinha a maior parte da mobília, mas que também não estava exatamente bem conservada. Nossa prima Catarina ligara cedo dizendo que passaria alguns dias na nossa casa, e que chegaria naquela noite.
Catarina tinha dezesseis anos. Dois anos a mais que eu e dois anos a menos que Annika. Ela nunca foi muito próxima de nós, mas sempre foi simpática nas ocasiões em que nos encontrávamos. Catarina recebera como castigo a sentença de passar o resto das férias em nossa casa em Vila do Sul. Ela não quis dizer o motivo do castigo.
Por causa do Asma, fui proibida de ajudar na limpeza. Não que eu realmente quisesse limpar, mas me senti de certa forma culpada. Tentei passar o tempo com meu celular, mas além de não encontrar sinal, a bateria acabou e eu não encontrei o carregador.
Por fim resolvi dar uma volta pelo bairro. Não que houvesse algo para ver.
Ao redor da casa só havia capim alto. Fazia um pouco de frio do lado de fora. Na frente da casa havia a estrada de terra que estava em péssimas condições. Consegui enxergar um colina mais em frente, que tinha uma espécie de celeiro no topo. Estava caindo aos pedaços, mas pensei que talvez eu conseguisse um pouco de sinal por ali.
Comecei a caminhar pela estrada. Não demorou muito e eu percebi que na verdade o celeiro não estava tão perto quanto parecera antes, mas eu já havia caminhado demais para voltar. Certamente o papai e a Kaelyn demorariam mais para terminar de arrumar toda a casa.
Cheguei no celeiro exausta. Estava vazio exceto por alguns velhos fardos de feno. Ao entrar pensei ouvir algo, mas atribuí o barulho aos ratos. Eles pareciam estar por toda parte em Vila do Sul.
Andei mais para o fundo do celeiro, e desta vez vi algo se movendo com o canto dos olhos, e não parecia ser um rato. Com certeza era do tamanho de uma pessoa.
–Tem alguém aí? –perguntei hesitante
Continuei a andar, a procura daquele movimento. Eu tinha certeza de que havia alguém por ali.
O ar estava tão frio que ao abrir minha boca saiam nuvens de vapor. Minhas unhas estavam em um tom arroxeado, e minhas mãos pálidas. Estava começando a ficar nervosa com a sensação de não estar sozinha ali. Sentia meu coração acelerado batendo forte no peito.
–Meu nome é Wendy. Eu sou nova por aqui. – disse
–Que bom, pensei que fosse uma das filhas do Seu Ernesto. –disse uma voz jovem masculina –Elas me dão um pouco de medo.
Um menino alto e magro apareceu de trás de uma pilha de caixotes. Ele usava calças remendadas nos joelhos e um casaco velho e puído. Tinha um rosto longo e estreito, dando destaque a seus grandes olhos azuis gelo. Seu cabelo era bem fino, liso e negro como carvão. Sua pele era lisa e muito clara.
–Quem é você? – eu perguntei um pouco incomodada com sua presença
–Meu nome é Edgar Carvalho, do Moinho.
–Moinho? –perguntei
–É, mas você não deve conhecer. Fica para trás desse celeiro, ás margens do pequeno rio que corta a estrada. É da minha família há gerações. Acho que é a fonte de alimentos mais próxima. Pelo menos a mais frequentada em Vila do Sul – disse Edgar orgulhoso
–Certo. E Ernesto...?
–Seu Ernesto é um criador de ovelhas dono desse moinho e da propriedade ao redor dele. Mas eu gosto daqui. É tranquilo e silencioso. Mas ás vezes as filhas dele me expulsam daqui. São muito ingratas. Sou eu que espanto os ratos.
–Ah.
–Mas quem é você? Nunca te vi por aqui. É bem incomum gente nova por aqui. – ele disse franzindo as sobrancelhas
–Me mudei com meu pai e minha irmã para a primeira casa se seguir a estrada. A que tem a estátua do anjo. – expliquei
—Legal! Eu sempre quis entrar lá, mas minha mãe nunca deixou. Ela diz que tem pressentimentos sobre o lugar.
—Sei. –eu disse
—Posso te visitar? Eu sempre tive muita curiosidade sobre essa casa... Já ouvi alguns boatos.
—Bem, pode vir amanhã á tarde. Ainda estamos arrumando a casa e receberemos visita hoje á noite.
—Certo, eu vou. – olhou no relógio – Bem, melhor ir indo. Já está na hora do almoço. Te vejo amanhã, então. Até mais, Wendy!
Edgar saiu pela porta dos fundos do celeiro, e desceu o morro correndo, desaparecendo pela mata das araucárias. Eu permaneci ali alguns minutos dele ir embora e então decidi descer o morro pelo outro lado e voltar para casa também.
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Á noite eu finalmente consegui carregar meu celular, mas o sinal continuava fraco. Resolvi, então, adiantar a leitura dos livros da escola. Sentei-me perto da lareira da ampla sala de estar com o meu exemplar de capa dura de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte. Uma história um tanto melancólica, mas que me fascinava mesmo assim. E eu estava no meio da crise de loucura de Catherine quando uma buzina soou na frente da casa.
–Wendy, abra a porta para a Catarina! –gritou meu pai do andar de cima.
Ele e Annika estavam finalizando a limpeza no andar de cima. Eu passara a tarde limpando as vidraças, e fora dispensada do resto do trabalho. Harry dormia tranquilamente no berço ao meu lado.
–Eu já vou! –exclamei fechando meu livro.
Destranquei a porta pesada e a abri.
Catarina arrastava com dificuldade suas malas. Corri para ajudá-la.
–Oi, Prima! –ela diz com um sorriso entrando em casa – Sabe, você devia dispensar seu jardineiro. Já está muito tarde para ele trabalhar.
–Mas nós não temos jardineiro, Catarina. – eu disse confusa.
–Então quem é aquele homem parado na frente da sua casa?
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