O Negrume
17 Conexões
Notas iniciais
Annika procura Harry por todos os cômodos repetidas vezes, mesmo sabendo que se ele estivesse em casa, já teria chorado de fome. Ela parece estar enlouquecendo, e eu simplesmente não suporto ficar observando enquanto isso acontece. O desespero é tão eminente que poderia até mesmo ser considerado palpável. Papai ainda demoraria para voltar, e eu desejava que ele nunca houvesse partido. Suspeitava que a polícia não fosse a solução. Eu nem mesmo estava certa de que havia alguma solução.
Sinto que se continuar ali, vendo aquela cena, enlouquecerei também. Sei que eu posso ser mais útil que isso, então visto um casaco e calço minhas botas, para dar uma olhada do lado de fora.
Busco por Harry. Está muito nublado, difícil de enxergar ao meu redor. Eu grito, esperando que ele possa me ouvir, mesmo sabendo que ele não responderá. Preciso encontrá-lo.
–O que houve? – Ouço uma voz perguntar, próxima a mim. Dou um pulo pará trás, assustada, antes de reconhece-lo.
Edgar se aproxima, saltando por cima de um tronco caído.
–O Harry! Ele desapareceu! – exclamo, me sentando no mesmo tronco que ele saltara, desistindo por um momento de continuar minhas buscas.
–Como desapareceu? Do nada? – Edgar pergunta, surpreso.
–Eu não sei. Alguém o levou. Só pode ter sido aquilo. Annika diz que é uma mulher que assombra nossa casa e quer o bebê dela. Eu achei alguns diários. Da terceira filha do Ernesto. Ela dizia que a mãe a odiava porque não tinha nascido menino.
–Mas só pode ter sido alguém dentro da casa. Não acredito que uma mulher morta possa fazer uma criança desaparecer. Aliás, onde tem estado Catarina?
–Ela saiu hoje cedo... Espera. Ela saiu hoje cedo para te visitar! Onde ela está?! – eu pergunto tentando fazer esse quebra-cabeça todo fazer um pouco de sentido.
–Comigo é que não está. Você não acha que Harry ter sumido não pode ter alguma relação com o livro vermelho que achamos na arca? Ele dizia que o único jeito que mandar aquela coisa embora era ofereçendo uma criança.
–Você não acha que... Não. Catarina estava com medo, mas não seria capaz de... Ou seria?
Edgar dá de ombros, e eu fico nervosa.
–Vamos logo, precisamos contar para a Annika!
Começamos a andar em direção da casa, mas somos interrompidos pelo som de um carro se aproximando. O carro tem caixas de som embutidas, que toca rap no volume máximo. O carro de modelo antigo tem a pintura lascada, e o parachoque está amassado.
O veículo para e a música cessa. A porta do motorista se abre e um jovem usando um gorro joga um cigarro no chão e pisa no mesmo, para apagá-lo.
–Quem é esse cara e por que ele está parado na frente da sua casa? – pergunta Edgar com a voz baixa, com medo de ser ouvido.
Observamos enquanto o sujeito se aproxima da casa, contornando o anjo de pedra e chegando às portas pesadas de madeira, dando três batidinhas seguidas com o punho. Posso ver de longe que seu cabelo loiro na altura dos ombros está ensebado. E isso não ficava tão bem nele quanto ficava no Kurt Cobain.
–Esse é Jordan, o pai do Harry. – eu respondo com um suspiro.
Annika atende a porta e o abraça. Posso ver que ela chora por cima de seu ombro. Seus olhos vermelhos se fecham com força quando os braços dele a envolvem. Ela fecha seua dedos tão forte ao redor de seu moletom que posso ver os nós dos dedos esbranquecendo.
–Eu não acredito que ela o chamou! – exclamo correndo para alcançá-los.
–Wendy, me espere! – Edgar tropeça enquanto tenta me seguir – Não acha que talvez fosse melhor deixá-los ter um pouco de... privacidade? – ele diz hesitante conforme nos aproximamos dos dois.
Ao me perceber ali, Annika o solta, e o olhar que ela me lança me faz pensar se eu realmente estava certa do que eu estava fazendo.
–Eu avisei. – Edgar sussura às minhas costas.
Não tenho muita certeza sobre o que estou fazendo, mas sei que preciso dizer algo. Fazer algo.
–Annika, isso não vai resolver as coisas. Não vai melhorar nada! – digo, e minha voz sai um pouco esganiçada, e por um momento parece que sinto a tristeza da minha irmã. Não é algo bom de ser sentido.
Edgar permanece alguns passos para trás, observando de longe. Não quer se intrometer, mas parece preparado para intervir caso nós briguemos. O sol está se pondo a suas costas, e sua silhueta e escura. Ele parece quase como se estivesse tramando alguma coisa, e estivesse ali apenas para ter certeza de que tudo daria certo.
Afasto esse pensamento. Precisamos de confiança, agora. É o que nos mantém unidos nas horas difíceis. Aquela certamente era uma hora difícil.
–Jordan precisava saber! Harry é filho dele, também! – Annika suspira, e parece estar repensando tudo. Se aquilo realmente fora uma boa ideia.
–Certo, não importa. – eu digo –Temos algo mais importante para resolver agora. Eu e Edgar precisamos conversar com você em particular.
Annika faz um gesto positivo com a cabeça, e nós nos distanciamos da casa. Podemos ver Jordan encostado em seu carro, fumando um cigarro. Ele não parece muito preocupado, mas sei que cada um tem seu jeito de lidar com coisas difíceis.
–Nós temos algumas razões fortes para achar que Catarina está por trás disso, mas não por maldade. – eu começo, com medo de parecer louca – Lembra do livro de rituais? Você pediu para Catarina dar um fim naquilo, mas não sabemos o que ela fez com ele. O livro dizia que para expulsar os espíritos, precisávamos de um bebê. Você sabe como ela estava com medo. Catarina era a mais desesperada naquela casa, e o medo pode nos permitir cometer loucuras!
–Precisamos achá-la! – Catarina exclama –Wendy, você precisa descobrir mais sobre os rituais! Precisamos saber para onde ela o levou!
Pode ser apenas uma impressão minha, mas saber qual o próximo passo que nós deveríamos dar pareceu diminuir um pouco o pânico em nós. Ao menos eu sabia onde descobrir mais sobre os rituais. Isso Lílian poderia me contar.
Fale com o autor