O Negrume

18 Crepúsculo


Notas iniciais
Olá! Pensaram que eu não apareceria mais por aqui, né? Há, estavam enganados. Eu sei que não deveria ter ficado tanto tempo se postar, mas além das provas finais estarem me consumindo, esse era um capítulo importante, e eu queria poder me dedicar melhor a ele. Além disso, meu computador estava meio estranho, e eu estava meio desmotivada para escrever. Eu já tinha uma ideia do que aconteceria, mas não tinha muita certeza de como dividir tudo em capítulos, ou de como eu escreveria. Enfim, aqui estou eu. Vou tentar não decepcioná-los mais uma vez. Eu coloquei "O Negrume" no Nanowrimo #Nanorebel, então pretendo terminar a fic durante o mês de novembro. Não sei como vou fazer isso, mas espero conseguir. Me desejem sorte! Boa leitura!!

Depois de horas folheando páginas velhas e amareladas que fazem nosso nariz coçar, estamos quase desistindo. Afinal, parecia improvável ter a mesma coisa escrita em dois livros na mesma casa, mas eu sabia que Lílian tinha certo conhecimento sobre essas coisas.

Eu me perguntava onde ela estaria a essa hora.

–Seria muito mais fácil com internet. – desabafo, deixando o livro que eu lia de lado.

Edgar me encara desanimado, com seu enormes olhos azuis e cotovelos pontudos. Ele deixara claro desde o começo que não achava que os livros velhos seriam úteis. Eu sabia que seriam, mas a verdade é que não tinhamos tempo para ler tudo aquilo. Eu sempre aprendi a dar valor aos livros. Afinal, minha mãe sempre fora uma leitora voraz.

–Edgar, é claro! – eu exclamo derrepente, e percebo que Edgar dá um pulo – Na casa doo Seu Ernesto! Eles devem ter internet!

Edgar curva seus ombros um pouco mais, deixando claro que não apoia a ideia. Mechas de cabelo negro como petróleo caem em seu rosto.

Dou risada da cara dele.

–Eu conheci Valentina. Ela é legal, juro. Não precisa ter medo. – eu tento convencê-lo.

Edgar não concorda completamente, mas me acompanha mesmo assim. Eu sabia que ele me acompanharia à qualquer lugar. Apesar de não nos conhecermos a tanto tempo, eu sentia que já tínhamos uma forte amizade, do tipo que não se dissolve com o tempo.

Na realidade, Seu Ernesto nem mesmo estava em casa, e quem nos recebeu foi Valentina. Ela abriu a porta sorridente, como se já soubesse quem estaria ali. Vestia um suéter amarelo mostarda, e uma faixa lilás nos cabelos.

–Oi Wendy! – ela abre a porta e faz um gesto com o braço, nos cedendo a entrada. – Eu vi que vocês estavam chegando pela janela. O que estão fazendo aqui?

Eu sabia que as janelas viradas para a frente da casa estavam todas fechadas. Me pergunto se ela não estaria mentindo, e o motivo de fazer isso.

Com coisas mais importantes em mente, aceito o que ela diz.

–Você teria um computador? – pergunto – eu não pediria normalmente, mas é algo muito importante, que não pode esperar.

Valentina concorda sem mais perguntas. Ela sobe e desce as escadas de mármore em passos suaves e rápidos, e deposita em meu colo um computador coberto de adesivos coloridos.

Abro o notebook e fico em dúvida sobre o que digitar na barra de pesquisa do navegador. Tento com força me lembrar de trechos do que havíamos lido naquele livro, e finalmente lembro de algo.

Digito: Como expulsar malignidades.

Edgar e Valentina se debruçam sobre mim, um de cada lado. Suas respirações audíveis me atrapalham e irritam, mas eu sei que eles estão curiosos e querem me ajudar.

Depois de inúmeros links falsos sem nenhum conteúdo útil, finalmente acho algo que poderia servir para alguma coisa. É uma página estranha na internet, que parece não ter nada novo há alguns anos. Resolvo ler um artigo.

Um dos rituais mais comuns e antigos, que vem se revelando também o mais eficiente, é o descarte ou sacrifício das crianças com menos de dois anos, que estão mais propensas a atrair uma malignidade. O ritual é feito normalmente em algum rio ou riacho, pois a água corrente é esssencial para proteger aquele que está realizando o ritual.

Ainda haviam depoimentos e uma série de dicas, mas eu achei a informação sobre o rio o suficiente por enquanto, já que nós não pretendíamos realizar o ritual, apenas impedi-lo.

–Edgar, aquele riacho que corta a cidade. Passa atrás do chalé da Tia Lia e do Moinho. Acho que eles podem estar em algum ponto dele!

–Sim, mas como você diz, ele corta a cidade. É bem extenso. – Edgar diz, franzindo a testa e mordiscando seu polegar, em um gesto que costumava fazer quando precisava pensar.

–Ah, não é tão longo assim. Nós podemos ir, mas... Qual seria o motivo urgente? – Valentina pergunta. Eu quase havia me esquecido completamente que Valentina ainda não estava a par dos acontecimentos.

–Bem, melhor irmos logo, e Edgar e eu tentamos te explicar no caminho, certo?

➵➵➵

Nos embrenhamos no bosque que envolve o rio. O solo é úmido e escorregadio, e nós precisamos tomar cuidado com onde pisamos. Caminhamos por um tempo, até que Valentina para. Ela está imóvel e pálida, e eu começo a me preocupar, me lembrando de sua doença.

–Minha temperatura... desceu demais.... – ela diz, se apoiando em uma árvore.

–Não podemos parar agora! – eu exclamo, soando desesperada e um pouco egoísta.

–Eu a levo de volta para casa. Você deve continuar, Wendy. Sei que você consegue. – Edgar diz, com um gesto para que eu continue meu trajeto.

Edgar ergue Valentina com relativa facilidade. Ela é uma menina pequena e magra, e Edgar a envolve com seus braços longos. Então estou sozinha, e sei que preciso continuar.

Estou caminhando calmamente perto da água. A lama ao redor do riacho marca minhas pegadas. Isso me perturba um pouco. Não que eu estivesse fazendo algo de errado. Não faria nenhum mal se alguém descobrisse que eu andava por ali, e não era isso o que me preocupava. Mas então eu penso que posso não estar sozinha. Se alguém estivesse me seguindo, conseguiria me rastrear facilmente.

Penso em caminhar pela água para não deixar rastros, mas não quero molhar meus pés na água gelada em um dia frio como esse, então resolvo penetrar um pouco mais no mato, de forma que ainda consigo ver o riacho, mas sem pisar na lama. Me senti mais calma escondida no meio da floresta, por entre as árvores. Era um tanto perturbador estar ali sozinha, e eu não gostaria de descobrir que estou sendo seguida.

Passam-se alguns minutos de caminhada tranquila. Eu esperava que Edgar aparecesse a qualquer momento, correndo com suas pernas longas e rápidas. O vento aumenta sua intensidade, reproduzindo um som estranho, como um uivo contínuo de algum cão. O som me assusta, mas eu tento ser racional.

“É apenas o vento, não há nada a temer.” É o que repito mentalmente, como um mantra.

Depois de algum tempo, estou quase me acostumando com o som. Começo a sentir meu corpo relaxando, e minha respiração já se recuperou do susto. É então que ouço um som pior ainda. E dessa vez o perigo é real.

O céu já começava a escurecer. Já se passara o dia inteiro, e eu sentia fome e canssaço. Queria poder voltar para casa e descançar com minha família. Talvez eu pudesse convidar Edgar e Valentina para passarem a noite em casa. Mas eu sabia que se voltasse para casa agora, estaria sozinha, em uma casa possivelmente assombrada. Eu não tinha opção senão proseguir.

Foi então que ouvi aquele som agudo, intenso o suficiente para fazer doer meus ouvidos. Um grito de terror, de dor, de perda. Um som tão carregado de sentimentos que imediatamente fez com que eu me sentisse triste. Mal, como se subitamente faltasse um pedaço de mim. Ao ouvir aquele grito eu soube de quem ele vinha, apesar de sua voz estar tão esganiçada que era quase irreconhecível.

Mas eu sabia que era Annika, e de alguma forma eu também soube, no mesmo momento, que ela estava sozinha e que precisava de ajuda.

Ignorei completamente a parte racional de mim, que me ordenava seguir o curso do riacho e me encontrar com Edgar, e me embrenhei de vez na floresta, na direção de que eu pensava ter vindo o som. Corri, ignorando os galhos nos quais minha roupa se enganchava, e nos cortes que espinhos faziam em minhas mãos e rosto descobertos. Eu sabia que se eu quisesse chegar a tempo, eu precisaria deixar de lado esses detalhes praticamente superfluos, e me focar no que realmente era importante.

Depois de um tempo, quando minhas pernas já estavam quase cedendo, percebi tarde demais que eu corria na direção errada. O som dos gritos era praticamente inaudível agora, e não havia nada mais a fazer. A minha frente, a floresta se abria em um campo extenso, iluminado pela luz da lua.

Finalmente me permito descansar, caindo na grama alta e fechando meus olhos, sem ter nenhuma ideia de onde estou ou de para onde estou indo.

Notas finais
E então? Ficou bom? Não? Comente, favorite, recomende, acompanhe... Lembre-se de que sua opinião é muito importante para que eu saiba o que melhorar na história e o que continuar fazendo.