No dia seguinte, tudo parecia normal na faculdade. Só que, depois que acabou a última aula do dia, vi Hugo e Fernanda saindo juntos, sem esperar ninguém, como se tivessem um compromisso urgente. Fiquei observando de longe, me perguntando se eles iam ter aquela conversa definitiva, mas não quis me envolver. Ainda tinha treino logo depois da aula, e os jogos universitários estavam chegando. Os treinos iam ficar mais intensos, e eu precisava manter o foco. Peguei minhas coisas e fui com Eduardo comer algo na lanchonete como algo rápido antes de seguir para o treino.

— E o Hugo e a Fernanda? — Eduardo perguntou no caminho, como se já soubesse que tinha algo estranho no ar.

— Não sei, acho que foram embora antes. — tentei soar natural.

— Tá tudo bem entre eles? — ele insistiu.

— Acho que sim... — fingi desinteresse, mas não funcionou.

Eduardo riu.

— Você é péssimo mentindo, sabia?

— Sei, sim. — ri junto. — Mas prometi não falar nada. Então, por favor, não me pergunte mais nada.

— Tudo bem, tranquilo. Só que, todo mundo já tava percebendo que eles não estavam muito bem há um tempo.

— Sério? Não tinha reparado…

Ele mudou de assunto e começamos a falar sobre os treinos e as expectativas para os jogos universitários. A conversa fluiu, e por alguns minutos, esqueci a situação entre Hugo e Fernanda. Fomos para o vestiário, trocamos de roupa e fomos para a pista. Hugo apareceu uns dez minutos atrasado, ofegante, como se tivesse corrido o caminho inteiro até a pista de corrida.

— Desculpa o atraso, pessoal! — ele falou, já se aquecendo.

— Sem problemas, a gente tava só começando. Mas cadê a Fernanda? — o treinador perguntou.

— Ela não veio. Disse que tá com cólica. — Hugo respondeu, e me olhou de um jeito que só eu entendi: “depois eu te conto”.

Durante o treino, mantivemos o foco. Eu não perguntei nada, ele também não tocou no assunto. Mas, talvez por distração ou por querer esquecer tudo aquilo, me entreguei de verdade ao treino. Corri como nunca, e o resultado apareceu: fiz meu melhor tempo do ano.

— Parabéns, Renato! Assim a gente ganha todas as competições! — o treinador elogiou.

— Você é tipo o Flash! — Hugo brincou.

— Para, você corre bem também! — respondi, rindo.

— Para de mentir. — ele falou, ainda brincando.

A gente riu, mas logo ficou sério.

— Preciso te contar sobre a conversa com a Fernanda. — ele foi direto.

— Ok, depois do treino. — concordei.

No vestiário, enquanto trocávamos de roupa, Hugo contou tudo. Disse que tinha terminado o namoro com Fernanda, que ela chorou, que ele tentou consolar, mas que ela ainda gostava dele. Falou que ela pediu espaço e que não sabia como ia ser daqui pra frente, já que tinham amigos, aulas e o time em comum.

— Quando eu e ela terminamos foi estranho no começo, mas depois melhorou e agora nem parece que aquilo realmente aconteceu. Acho que é questão de tempo e tudo se ajeita. — tentei animá-lo.

— Eu sei, mas até lá vai ser difícil. E eu nem sei como contar pro pessoal.

— Deixa a fofoca rolar. — sugeri.

— Tá certo, a notícia vai se espalhar mesmo. Valeu, cara. Você é um bom amigo. — ele me abraçou, e por um segundo, senti vontade de não soltar.

Mas ele soltou, e meu celular vibrou. Era Fernanda.

— É a Fernanda. — mostrei a mensagem para ele.

— Responde. Vocês são amigos há mais tempo. Não quero que você fique no meio disso.

— Bom, eu já tô no meio, né? Mas não quero escolher um lado.

— Então combinado: o que ela te falar, você não precisa me contar. E o que eu te falar, não precisa contar pra ela. Mas se quiser, pode.

— Tá bom. Vamos ver se funciona. — sorri, e ele sorriu de volta.

A mensagem da Fernanda era direta: “A gente pode se encontrar mais tarde? Você já deve saber que eu e o Hugo terminamos, né? Queria conversar.”

Respirei fundo e contei para o Hugo.

— Ela quer me encontrar pra falar sobre o término. Você se importa?

— Claro que não. E nem precisa falar que eu tô sabendo. Mas se preferir falar, tudo bem.

— Prefiro falar. Não quero que pareça que tô escondendo algo dela.

***

Combinei de encontrar Fernanda num café perto da faculdade. Quando cheguei, ela estava sentada numa mesa do canto, com cara de quem tinha chorado. O ambiente estava calmo, só o barulho baixo de conversas e o cheiro de café e chocolate no ar.

— Como você está? — perguntei, sentando ao lado dela.

— Péssima. Ainda gosto dele. Eu sabia que podia acontecer, mas mesmo assim dói.

— É normal. Mas vai passar…

— Obrigada por vir. E sobre você e o Hugo... — ela começou.

— Eu sei que é complicado, mas como eu disse pra ele e falo o mesmo para você: eu não quero escolher um lado. Quero tentar apoiar vocês dois nesse momento.

— Eu sei. Também não quero que você fique no meio disso. A gente não terminou brigado, só preciso mesmo de um tempo.

— Entendo. Eu acho que vai dar tudo certo. — falei, segurando a mão dela.

Conversamos bastante. Na verdade, não tinha muito mais o que falar sobre o término dos dois. Hugo quis terminar, ela ainda gosta dele, e fim. Sem grandes reviravoltas, apenas um pequeno drama por ela ainda sentir algo por ele. Mudamos de assunto, falamos de coisas aleatórias, sobre as aulas, sobre os treinos, sobre os jogos universitários que estavam chegando. Tentei animá-la, para fazer com que ela esquecesse um pouco o que tinha acontecido. No fim, nos despedimos com um abraço apertado. Voltei pra casa pensando que, apesar de tudo, a amizade ainda era o que importava e eu não queria estragar isso, nem com Fernanda e nem com Hugo. E que mesmo que tudo estivesse meio confuso, com o tempo, talvez as coisas se ajeitassem. Ou, pelo menos, eu esperava que sim.