Uma semana havia se passado desde o aniversário de Hugo. Como de costume, nos encontramos a caminho da faculdade.

— E aí? Como você está? — perguntei.

— Ah, mais ou menos — respondeu ele, sem muita convicção.

— É por causa da Nanda, né?

— Sim. Já faz uma semana da festa e ainda não consegui falar com ela sobre terminar. O pior é que tenho tentado evitá-la, mas sei que não é certo. Ela não merece isso.

— Com certeza não. Mas você tentou, ao menos, iniciar a conversa?

— É aí que está. Eu tentei, sim. Só que parece que ela percebe o que eu quero dizer e logo muda de assunto.

— Sério?

— Não sei ao certo, mas parece. Ela deve ter notado que estou diferente. Ela não te perguntou nada sobre isso?

— Não, nada.

— Eu sei que vocês são amigos há mais tempo, que já namoraram e tudo mais. Mas, por favor, se ela perguntar algo sobre eu estar estranho ou querer terminar, não fala nada, tá? Sei que é horrível pedir isso, mas quero que ela saiba por mim. Só ainda não sei como dizer.

— Pode ficar tranquilo, não vou falar nada. Não cabe a mim, e sim a você. Sei que pode machucá-la, mas, se você não está mais a fim, o melhor é ser honesto. Não é justo com ela, nem com você.

— É que... não aconteceu nada de concreto. Nosso relacionamento sempre foi tranquilo. Só que não sinto mais o que sentia no começo. Não é só sobre tesão, sabe? Relacionamento é mais que isso…

— Com certeza — concordei.

— Gosto de estar com ela, mas não sei se quero continuar num relacionamento. Comecei a vê-la mais como amiga, entende?

— Entendo perfeitamente. Acho que foi o que aconteceu entre mim e ela também. Só que, no meu caso, foi o contrário: ela passou a me ver como amigo.

— Entendi.

— Mas por isso mesmo acho que ela pode entender. Não quero que pense que estou torcendo para vocês terminarem. Vocês dois são meus amigos. Mas, se não está mais dando, não tem muito o que fazer. Senão, você pode acabar infeliz e, aí sim, vocês podem brigar.

Eu não sabia bem como aconselhá-lo. Tinha uma queda por ele, isso já estava claro para mim. O fato de ele namorar minha ex era só mais um obstáculo. Mesmo que ela não fosse minha ex, ainda era minha amiga. Não ficaria com ele, mesmo que terminassem. Não era como se eu quisesse que eles se separassem. Ou será que, inconscientemente, queria? Já não sabia mais. Só tentava ajudar, sem interferir demais na decisão dele. Mas não tinha certeza se estava fazendo do jeito certo.

No dia seguinte, enquanto íamos todos para a primeira aula, Fernanda me puxou de lado.

— Preciso falar com você depois da aula.

— Ok. Aconteceu alguma coisa?

— Ainda não. Mas quero falar sobre o Hugo. Se puder me encontrar na lanchonete, sem que ele veja, seria melhor.

— Tá bom.

Fiquei desconfiado. Deduzi que ela desconfiava que ele quisesse terminar. E agora? O que eu diria se fosse isso?

Quando a aula acabou, saí o mais rápido possível para evitar cruzar com o Hugo. Fernanda fez o mesmo. Sentamos numa mesa mais afastada, na lanchonete.

— Então, o que você queria me falar?

— O Hugo está estranho ultimamente.

— Como assim? — perguntei, já sabendo a resposta.

— Não sei, está agindo diferente. Me afasta às vezes, não quer tanto tempo junto. Ele não faz nada de errado, me trata super bem, mas sinto que mudou. Talvez queira terminar, não sei. Engoli em seco. Era exatamente o que eu temia.

— Você já conversou com ele?

— Acho que ele tentou, mas eu mudei de assunto porque achei que era isso que ele queria.

— Mas, se for o caso, só está adiando.

— Eu sei. Ele não te falou nada?

— Sobre o quê? — fiz de conta que não sabia.

— Sobre querer terminar comigo?

Senti o nervosismo subir. Não sou bom em mentir, ainda mais para ela, minha melhor amiga. Mas não podia confirmar o que ele havia dito. Por fim, menti.

— Ele não disse nada. Mas acho que vocês deveriam conversar sobre isso.

— Você tem razão.

— Como você se sentiria, se ele realmente quisesse terminar?

— Só de pensar, já fico mal. Gosto muito dele. A gente nem está junto há tanto tempo…

— Entendo.

— É estranho falar disso com meu ex — ela riu, tentando aliviar o clima.

— Relaxa. Já faz tempo. E somos amigos, acima de tudo, né?

— Sim, com certeza! Obrigada por me ouvir.

— Sempre que precisar.

Pedimos algo para comer e mudamos de assunto. Me senti mal por ter mentido, mas não sabia o que fazer. Não podia trair a confiança do Hugo, nem a dela. Aquilo estava me deixando louco.

No fim, fomos embora. No caminho, encontramos Hugo e o resto do pessoal. Chegando em casa, mandei uma mensagem para ele:

“Ela veio me perguntar se você tinha dito alguma coisa sobre terminar com ela.”

“E o que você respondeu?” — ele respondeu na hora.

“Disse que não. Mas me senti mal por mentir.”

“Desculpa por te colocar nisso. Não queria.”

“Tudo bem. Falei pra ela que vocês deveriam conversar.”

“Fez bem. Vou falar com ela amanhã e resolver isso. Obrigado pela ajuda, e desculpa por te envolver.”

“Não tem problema. Amigo é pra isso. Espero que fique tudo bem entre vocês.”

“Eu também.”

Li a resposta dele e larguei o celular. Fiquei pensando se queria que eles terminassem. Na verdade, não queria. Com eles juntos, eu sabia que nunca haveria chance. Separados, não tinha tanta certeza. Sabia que não podia acontecer nada, mas também sabia que seria mais difícil me controlar. Que raiva! Estava me sentindo um adolescente. Maldita hora em que ele me acertou com aquela bola de vôlei e a gente se conheceu. Mesmo assim, a gente se encontraria de algum jeito. Só foi um jeito inusitado. Que droga! É muito errado querer ficar com o futuro ex da minha ex? Não precisa responder, eu sei que é.