Pegamos os ingressos para a sessão das 19h. Um pouco antes do horário, já fomos para a fila de entrada. Quando entramos na sala de cinema, sentamos nos nossos lugares. Pegamos um lugar um pouco mais pra cima, onde dava pra ver bem a tela. Na nossa frente tinha um casal que mesmo nos trailers já estavam se beijando sem parar.

Começamos a ficar um pouco desconfortáveis, afinal parecia que a gente também tinha ido ao cinema como se fossemos um casal, porque estávamos só nós dois. O filme começou depois dos trailers e o casal ainda continuava a se beijar.

— Esse casal tá chamando mais atenção que o filme. — comentei sussurrando.

— Pois é. Não entendo esse pessoal que paga pra ver o filme e fica se beijando. Vai pra um motel. — ele falou sussurrando também.

— Realmente. — concordei.

Até pensamos em tentar mudar de lugar, mas a sessão estava lotada, não tinha nenhum lugar sobrando. O jeito era tentar ignorar o casal e focar no filme. Na verdade, o que me incomodava não era nem o casal se beijando, mas era o fato de eu estar ao lado dele enquanto eles se beijavam. Só nós dois, tão perto um do outro. Era como se o casal estivesse esfregando na minha cara que eu não poderia fazer o mesmo que eles. Mas e agora que ele queria terminar com a Fernanda? Será que eu tinha alguma chance. Não, nem pensar. Jamais ficaria com alguém que namorou com a minha ex. Fora de cogitação. Ainda mais sendo do mesmo círculo de amigos, seria bem estranho. Tentei parar de pensar nisso e me concentrar no filme.

***

O filme terminou. No fim, até que conseguiu parar de prestar atenção no casal se beijando e prestar atenção no filme.

— Conseguiu prestar atenção no filme? — perguntei enquanto saímos da sala.

— Até que sim! Apesar de estar rolando quase um outro filme ao vivo na nossa frente. — ele disse rindo.

— Pois é.

— E você? Conseguiu prestar atenção?

— Consegui sim!

Nisso, recebi uma mensagem no celular. Era Fernanda. Ela perguntava se o filme já tinha acabado e se já estávamos indo para casa.

— É a Fernanda querendo saber se já estamos indo. — comentei com Hugo.

— Ok.

— Por favor, Hugo, finja surpresa. Ela não pode desconfiar que você sabe da festa.

— Pode deixar! Serei um grande ator. — ele disse rindo.

— Tô falando sério!

— Eu sei, eu também tô! Fica tranquilo, vai dar tudo certo.

***

Chegamos em casa. Todas as luzes estavam apagadas e todos estavam escondidos. Quando eu acendi a luz, todos pularam e gritaram:

— SURPRESA!!!

Hugo realmente conseguiu fazer uma cara de surpresa e fingiu que não sabia da festa, isso me deixou um pouco aliviado.

— Gostou, amor? — perguntou Fernanda dando um beijo nele.

Ele retribuiu o beijo, meio a contragosto e respondeu:

— Claro! Muito obrigado a todos que organizaram essa festa! E vamos beber!

Ele olhou pra mim, com um olhar que pedia ajuda. Eu fui até ele e o levei até um canto da sala para conversarmos.

— Tá tudo bem? — perguntei sussurrando.

— Não muito. Quer dizer, eu gostei da festa e tudo que fizeram pra mim, mas agora eu não sei mais como vou terminar com a Fernanda.

— Por que você não deixa pra pensar nisso depois? Curte sua festa, depois você pensa em como vai fazer. Não tem problema se você esperar mais uns dias.

— Mas aí é que tá o problema, se eu esperar muito acho que não vou conseguir terminar e vou só ficar empurrando o relacionamento com a barriga, entende?

— Entendo. Mas ao mesmo tempo não dá pra você terminar agora, seria péssimo.

— Eu sei. Nem pretendo terminar hoje, mas também não poderia terminar amanhã. Nem depois de amanhã. De qualquer forma, eu ainda ia parecer muito ingrato de terminar depois de ela ter organizado toda essa festa pra mim.

— Entendo, realmente faz sentido sua preocupação.

— Quanto tempo eu teria que esperar, sabe? Mais uma semana? Mais um mês?

— Olha, eu não sei direito como te aconselhar. Mas acho que você pode tentar esperar mais uma semana, não sei. Ou pelo menos usar essa semana para realmente pensar se você quer mesmo terminar ou não.

— Eu já pensei muito. Eu não acho justo continuar com ela sendo que não tenho sentido mais o que eu sentia por ela antes. Quer dizer, é claro que eu gosto dela, mas não mais como namorado, entende?

— Claro que eu entendo. A gente passou por isso também, é normal.

— Mas no meu caso, eu acho que ela ainda sente isso por mim.

Fomos interrompidos por Fernanda que chegava trazendo duas cervejas, uma para mim e outra para Hugo.

— E aí gatinhos? Do que estavam falando? — ela perguntou sorridente entregando as cervejas.

— Tava comentando sobre como essa festa tá incrível! — mentiu Hugo.

Ela se inclinou e deu um longo beijo nele, que retribuiu. Mesmo que ela não tenha conseguido perceber, eu sei que ele não estava muito a fim de beijá-la, mas retribuiu sem ter opção. Fiquei com pena dela, não queria que ela ficasse mal porque apesar de termos namorado antes, éramos amigos ainda. Melhores amigos. Mas ao mesmo tempo, não sabia direito o que fazer nessa situação.

A festa continuou por mais um tempo, até que todos foram embora e ficamos apenas eu, Hugo e Fernanda para limpar a sujeira da festa.

— A pior parte de dar festa em casa é ter que limpar tudo depois. — comentou Fernanda.

— Realmente! — eu concordei.

— Deixem que eu limpo, eu que tive a ideia! — sugeriu Fernanda.

— Imagina! Eu ajudo, não tem problema nenhum. — falei.

— Eu também! É o mínimo que posso fazer depois de toda essa festa pra mim. — falou Hugo.

Então terminamos de limpar tudo, praticamente em silêncio.

— Bom, vamos indo então! Obrigado pelo cinema e pela festa! — falou Hugo me dando um abraço.

Fernanda me abraçou também e os dois foram embora.