O mês passou rápido. Entre estudos, provas e treinos, as coisas pareciam que estavam voltando ao normal. Ou a um novo normal, pelo menos o clima não estava mais tão estranho entre Hugo e Fernanda e eu não me sentia mais tão incomodado de estar no meio dessa situação. Ainda assim tentava sufocar o que sentia por Hugo. Nesse período, nos aproximamos de um jeito que não esperava, e a ideia de dividir a barraca com ele durante os jogos universitários me deixava ansioso. Eu deveria estar focado nas competições, mas não conseguia tirar da cabeça que passaríamos três noites sob o mesmo teto de lona. Só de pensar, minha respiração ficava mais curta. Ao mesmo tempo, lembrava de Fernanda. O término era recente, e eu sabia que ela ainda carregava o peso daquilo.

Chegou o dia da viagem. Seguiríamos para uma cidade do interior, quatro horas de ônibus, se tudo corresse bem. Cheguei cedo, coloquei minha mala no bagageiro, e Hugo apareceu logo depois. Fernanda e Eduardo vieram em seguida. Trocamos cumprimentos breves. Fernanda entrou no ônibus e foi se sentar lá no fundo, ao lado de Eduardo. Hugo e eu ficamos juntos, mais ao meio.

— Acho que ela ainda prefere manter distância — ele cochichou.

— Pensei que vocês estivessem melhores — respondi, baixando a voz.

— Estamos, de certo modo. No dia a dia, sim. Mas uma viagem longa assim... seria demais para ela, acho.

— Entendo.

— Além disso, vamos dormir a maior parte do tempo, né?

— Verdade.

A viagem começou. Adormeci logo na primeira hora, encostado na janela. Em algum momento, sem perceber, minha cabeça pendeu para o ombro de Hugo. Quando acordei, já havia passado um bom tempo assim. Ele também dormia, mas despertou ao sentir eu me mexer.

— Desculpa, dormi encostado em você.

— Não tem problema nenhum — ele disse, bocejando.

— Não te incomodei?

— De jeito nenhum. Se quiser, pode voltar a dormir.

— Obrigado, mas acho que já dormi demais.

Ele concordou. A viagem, que deveria durar quatro horas, se estendeu para cinco por causa da chuva. Ao chegarmos, pelo menos o tempo já havia melhorado.

Logo que saímos do ônibus, montamos as barracas, organizamos nossas coisas e recebemos algumas instruções. Jantamos tarde, tomamos banho e nos preparamos para dormir. No dia seguinte, a competição começaria cedo. Dentro da barraca, Hugo começou a encher o colchão inflável. Ajudei.

— Você se importa se eu dormir só de cueca? É que eu tô acostumado a dormir assim.

— Não… claro que não… eu também — eu respondi, mas não consegui deixar de corar.

Corei ainda mais quando ele tirou a bermuda e a camiseta regata que ele vestia e ficou só com uma cueca boxer preta. Eu tentei disfarçar que estava vendo, mas não sabia se ele tinha percebido. Tirei minha bermuda e camiseta e também fiquei apenas de cueca. Nós deitamos um ao lado do outro. Embora a barraca não estivesse iluminada, eu podia observar suas tatuagens mais de perto, ele tinha várias nos braços, algumas nas pernas também.

— Você gosta de tatuagens, né? — eu perguntei mais como uma afirmativa.

— Pois é. Eu acabei começando com uma só e depois me viciei.

— E todas têm um significado?

— Algumas sim. Outras foi só porque eu gostei do desenho. — ele disse rindo.

Começou a falar algumas que tinham significados, como algumas que ele fez pra família, sua mãe, seu pai e sua irmã mais velha.

— Acho que não te falei que tenho uma irmã, né?

— Não lembro.

— Ela é cinco anos mais velha do que eu, mas sempre fomos muito unidos! Faz um tempo que ela foi fazer intercâmbio para a Austrália, deve ficar até o final deste ano.

— Que legal!

— E você tem irmãos?

— Não, sou filho único. Mas eu sempre quis saber como é ter irmãos.

— Ah, acho que tem que dar sorte. Eu e minha irmã quando éramos crianças, a gente brigava bastante, mas depois quando fomos crescendo, começamos a nos dar bem.

— Que bom!

— O papo tá bom, mas acho que é melhor dormirmos porque amanhã acordamos cedo.

— Sim, melhor dormirmos mesmo!

— Boa noite! Dorme bem! — ele disse sorrindo, me deu um beijo na bochecha e depois virou pro outro lado para dormir.

Eu fiquei sem reação, não estava esperando aquele beijo, mesmo que tivesse sido na bochecha. O gesto foi tão espontâneo que só consegui retribuir com um “boa noite” antes de me virar também.

***

Quando acordei, percebi que tinha me mexido à noite e acordei bem perto de Hugo, ele também tinha se mexido e estava dormindo com o rosto virado para o meu lado, sua perna encostando na minha. Eu fiquei por um tempo observando-o dormir. Até que o despertador dele tocou e ele acordou, me disse um “bom dia” entre bocejos e esfregou os olhos.

— Bom dia! Melhor já levantarmos porque o dia de hoje promete! — falei.

— Pois é! — ele concordou.

Tomamos café da manhã junto com o resto do time de atletismo e o pessoal das outras modalidades. Naquele dia aconteceriam as competições de atletismo, de vôlei e handebol. O bom é que pelo menos as competições de atletismo eram só um dia e estaríamos livres. A hora tinha chegado! Nosso time se empenhou bastante e conseguimos o primeiro lugar na corrida de revezamento! Eu e Hugo ganhamos o primeiro lugar!

— Não acredito que conseguimos! — gritou Hugo.

Ele me agarrou e me abraçou, me levantando alguns centímetros do chão. O suor da corrida misturava com o perfume dele e eu senti como se eu pudesse ficar ali naquele abraço pra sempre. Nossos amigos vieram nos cumprimentar, Fernanda também tinha ganhado no revezamento feminino.

— Parabéns, meninos! — ela disse muito orgulhosa.

— Parabéns também, amiga! — eu falei, abraçando-a.

— Parabéns, Nanda! — falou Hugo.

Eles também se abraçaram. Senti como se isso fosse um sinal de que as coisas estavam um pouco melhores entre eles, mas não sabia dizer ao certo.