À noite, teríamos a primeira festa. Eu e Hugo estávamos nos arrumando. Com tudo pronto, saímos em direção ao centro do alojamento, onde a festa estava prestes a começar. A música já estava tocando ao fundo, e o som se misturava com as vozes dos outros atletas e estudantes que se reuniam, prontos para aproveitar a noite. Quando chegamos ao local, percebi que Hugo estava bem animado, e eu também estava. Afinal, tínhamos ganhado uma medalha, isso era motivo suficiente para comemorar. A música estava boa, o tipo de batida que faz você querer dançar sem parar. O lugar já estava cheio de pessoas dançando, bebendo, rindo, e eu não consegui segurar o impulso. Comecei a dançar também, Hugo me acompanhou e nossos amigos vieram logo depois. Dançamos sem parar, nos divertindo como se fosse a última noite do mundo. Eu adorava aquela sensação de estar livre, de me perder na música e nas risadas, e com Hugo ao meu lado, a diversão parecia ainda mais intensa. Eu sentia como se cada movimento no ritmo da música, cada gargalhada, nos aproximasse mais, como se o resto do mundo não existisse.

— Temos que comemorar! — falou Hugo se aproximando bastante de mim, pois a música estava bem alta.

Eu concordei e ele continuou:

— Vou pegar uma bebida pra gente!

Eu acenei com a cabeça e ele saiu para pegar as bebidas. Logo depois, ele estava de volta com a bebida mais forte que eu já tinha provado.

— O que é isso? — perguntei logo que dei um gole.

— Uma caipirinha de limão — ele respondeu.

— Nossa, tá forte!

Ele riu e continuou bebendo. Eu continuei também, apesar de achar forte. A noite foi avançando entre danças, bebidas e conversas descontraídas com outros membros do time. Eu estava tão imerso na diversão que, por um momento, esqueci de tudo. Esqueci da tensão interna que vinha me consumindo, da preocupação com o que estava acontecendo entre mim e Hugo. Estávamos ali, apenas aproveitando, como se tudo fosse simples, como se nada mais importasse além daquele instante. Não conseguia explicar, mas a cada momento que passava, eu me sentia mais conectado a ele, sem precisar dizer nada. Era só a energia entre nós, a maneira como nos entendíamos sem palavras. O sorriso no rosto dele era contagiante, e, pela primeira vez naquela noite, eu não me senti deslocado. Eu percebi que estava onde queria estar, com ele. Apesar de não saber muito bem o que fazer com esse sentimento. Eu só não queria que aquele momento acabasse. Queria que aquela festa durasse para sempre. Mas essa sensação não durou por muito tempo.

— Você está bem? — ele me perguntou de repente, quando paramos por um momento para pegar um pouco de ar.

— Estou ótimo! Nunca estive tão bem! — respondi com um sorriso largo.

E, de fato, eu estava.

A festa continuava a todo vapor. O som da música parecia não ter fim, a pista de dança permanecia sempre cheia e risadas vinham de todos os cantos. Eu estava completamente imerso na vibração do ambiente, mas, ao mesmo tempo, uma tensão interna me consumia, impossível de ignorar. Hugo. Ele estava ali, sempre por perto, sempre no meu campo de visão, e, a cada vez que nossos olhares se cruzavam, algo dentro de mim se agitava.

Eu sabia o que estava acontecendo. Tornava-se cada vez mais claro que o que eu sentia por ele não era algo simples, e já não sabia como lidar com isso. Estava completamente fora de controle. O problema era que, apesar de tudo o que acontecia entre nós, Hugo parecia tão tranquilo, tão à vontade consigo mesmo. Ele se divertia, dançava com os outros, sendo apenas ele mesmo. E eu... eu me torturava em silêncio.

Decidi não beber muito. Queria manter o controle sobre o que estava acontecendo. Não queria agir por impulso, nem me perder em comportamentos que só aumentariam minha confusão. Meu objetivo era simples: queria estar sintonizado com tudo ao meu redor, mas sem perder a lucidez.

Vi quando Eduardo se aproximou com um rapaz. Ele não parecia ser do nosso círculo. Era um garoto de outra faculdade, com postura mais séria, mas sorridente. Eles conversaram brevemente, e então Eduardo fez as apresentações:

— Renato, este é o Carlos. Ele está participando dos jogos pela faculdade dele. Carlos, este é o Renato, meu amigo.

Carlos era... bonito. Tinha um sorriso simpático e uma energia diferente da de Hugo, mas igualmente cativante. Naquele momento, eu não queria mais pensar em Hugo. Queria me distrair, esquecer a dor de desejar alguém que talvez eu nunca pudesse ter.

— Oi, tudo bem? — Carlos me cumprimentou com um sorriso largo e voz suave. — Vi que está curtindo a festa.

Sorri de volta, tentando aparentar mais tranquilidade do que realmente sentia.

— Sim, claro. A noite está ótima. E você? Como está sendo sua experiência por aqui?

A conversa fluiu com naturalidade. Carlos era simpático, divertido e parecia genuinamente interessado no que eu dizia. A cada frase, sentia uma parte de mim se soltar. Talvez fosse exatamente disso que eu precisava: um pouco de distância, uma distração.

Começamos a conversar mais, e logo estávamos rindo de piadas bobas. Quando ele me convidou para dançar, não hesitei. Precisava sair dali, afastar as tensões. Não podia mais olhar para Hugo, nem pensar em com quem ele estaria se divertindo ou se estava me notando. Então, quando Carlos estendeu a mão, aceitei sem pensar.

Dançamos por um tempo. A música estava mais lenta, e a proximidade de Carlos era reconfortante. Não era como dançar com Hugo, claro, mas, ao menos, me fazia sentir que não estava completamente perdido, nem sozinho.

Mesmo assim, minha mente insistia em voltar para ele. Hugo. Olhava para onde ele estava, vendo-o dançar com os outros. Ao mesmo tempo que queria estar ali com eles também, eu queria não estar perto de Hugo. Queria esquecê-lo.

Foi então que a ideia surgiu, rápida e impulsiva. Olhei para Carlos, que estava ao meu lado, dançando com entusiasmo, alheio ao que se passava em minha mente. Sem pensar, puxei Carlos para perto e o beijei.

O beijo foi rápido, mas intenso. Senti o calor do corpo dele, o perfume suave, e, por um instante, tentei esquecer tudo que me atormentava. Esquecer Hugo, esquecer o que realmente queria. Naquele momento, tentei me concentrar no beijo, na sensação de não estar sozinho com meus pensamentos. Mas enquanto beijava Carlos, Hugo vinha na minha mente e eu imaginava como seria bom se eu estivesse beijando-o.

Quando nos separamos, o sorriso de Carlos estava ainda maior, mas eu só consegui olhar para o chão, sentindo o peso do que acabara de fazer. Não estava certo de nada.

— Você está bem? — ele perguntou, com um tom suave, como se pudesse perceber o que realmente sentia.

Forcei um sorriso.

— Sim, só... acho que precisava disso.

Carlos assentiu, ainda sorrindo. Parecia querer mais, mas, naquele momento, eu não sabia se estava fazendo aquilo por mim ou apenas fugindo. Não sabia o que buscava, ou se estava apenas tentando apagar a dor de querer Hugo.

Fui me afastando, confuso, sem saber como lidar com tudo aquilo. O beijo com Carlos não foi ruim. Na verdade, foi até bom. Mas nada disso apagava o vazio que sentia sempre que olhava para Hugo. Podia tentar me distrair, beijar outras pessoas, fazer de tudo para esquecer, mas, no fundo, sabia que estava apenas fugindo de mim mesmo.

E, enquanto a festa continuava lá fora, com a música ecoando, eu me sentia mais perdido do que nunca.