O Namorado da Minha Ex
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Uma noite, após uma prova especialmente difícil, eu cheguei em casa e desabei na cama. O dia tinha sido longo, frustrante. Eu tinha errado uma questão que sabia, tinha travado no meio de uma pergunta e perdi o controle do tempo. Fui tomar banho e, quando a água quente bateu nas costas, comecei a chorar. Não era só pela prova. Era por tudo. Pela saudade, pela raiva de mim mesmo por ter terminado, pela raiva de todo mundo que nos fez sentir errados, pela solidão que parecia ter se instalado nos meus ossos.
Quando saí do banho, o celular piscou com uma mensagem do grupo do time de atletismo. Apesar de eu ter saído do time, eu ainda estava no grupo. Alguém tinha mandado uma foto da última corrida do semestre. Fernanda e Eduardo estavam na foto e todos os outros também. Só não estavam Hugo e eu. Eu olhei aquela foto por um tempo que não soube medir, sentindo um nó na garganta.
Pensei se eles me aceitariam de volta no time, apesar da Fernanda continuar não falando comigo. Mas todos sabiam que eu e Hugo não estávamos mais juntos, então eu tinha uma pontinha de esperança das coisas voltarem ao normal. Eu ainda o amava, não tinha como negar isso, mas amar não era suficiente para apagar o resto do mundo. Não era suficiente para fazer as pessoas nos tratarem como antes. E, principalmente, não era suficiente para me fazer voltar a ser alguém que eu não queria mais ser: alguém que dependia dele para se sentir inteiro.
Fechei o celular e o coloquei de cabeça para baixo na mesa. Respirei fundo, sentindo o peito doer. A dor estava ali, e eu sabia que ela não ia sumir de um dia para o outro. Mas, naquele momento, eu escolhi ficar com ela. Escolhi continuar estudando, continuar indo às aulas, continuar atravessando o campus e trocando aqueles acenos mudos. Escolhi me reconstruir aos poucos, mesmo que fosse devagar, mesmo que fosse sozinho.
Porque às vezes, amar alguém também significa saber quando não voltar. E eu ainda não estava pronto. Talvez nem ele estivesse. Mas, por agora, era essa a escolha que eu podia fazer. E, pela primeira vez desde que tudo começou a desmoronar, eu senti que, apesar da dor, estava fazendo a coisa certa para mim.
Deitei na cama e fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro, mas a luz da rua entrava pela janela. Eu podia ouvir o barulho distante de carros passando, alguém rindo em algum apartamento do prédio vizinho, a geladeira na cozinha. Tudo parecia normal. O mundo lá fora seguia girando, indiferente ao que acontecia dentro de mim. Fiquei ali por um tempo, sem vontade de levantar, sem vontade de dormir. A vontade que eu tinha era de parar o tempo. Só por algumas horas. Só para respirar fundo e entender como era possível sentir tanta falta de alguém que ainda estava tão perto, fisicamente, e, ao mesmo tempo, tão longe.
No dia seguinte, acordei cedo. O sol ainda nem tinha subido direito, mas eu já estava de pé, tomando café da manhã na cozinha, com o caderno aberto e as anotações espalhadas pela mesa. Pela primeira vez em semanas, senti que conseguia respirar. Fui para a biblioteca antes da primeira aula, peguei uma mesa no canto, longe do burburinho dos corredores. Estudei sem parar, com uma concentração que eu nem sabia que ainda tinha. Foi chegando a hora da primeira aula e eu ouvi algo que me fez desviar a atenção dos livros. Eram duas vozes e pareciam estar discutindo. Eu conhecia aquelas vozes.
— Você quer que ele faça mais o quê? — dizia a primeira voz.
— Nada, eu não quero nada. — falou a segunda voz.
Eram Fernanda e Eduardo, eu nunca tinha visto os dois discutirem. Eles estavam no corredor perto da biblioteca, eu me aproximei um pouco e fiquei escondido, onde eles não podiam me ver, mas eu podia ouvi-los perfeitamente.
— Você acha mesmo que vale a pena acabar com a amizade? — Eduardo continuava.
— Foi ele quem acabou com a nossa amizade.
— Você sabe que não foi a intenção dele. Agora eles nem mais juntos estão. Você quer mesmo ver os dois sofrendo?
— Eu também estou sofrendo.
— E ver os dois sofrendo diminui o seu sofrimento?
Fernanda não respondeu. Ouvi os passos deles indo embora, olhei para o relógio na parede da biblioteca e vi que a aula já estava prestes a começar. Esperei um tempinho até eles se afastarem mais e segui para a aula.
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