O Namorado da Minha Ex
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Já fazia alguns dias desde que eu e Hugo tínhamos saído do time de atletismo. O treinador tentou de tudo para nos convencer a ficar. Acho que, no fundo, ele sabia o que estava acontecendo, mas perder dois atletas nunca é fácil, então ele fez o possível para nos manter. Não adiantou. Nossa decisão estava tomada.
Dias depois, Eduardo apareceu lá em casa. Queria saber como estávamos, e eu, claro, também queria ouvir como as coisas estavam no time depois da nossa saída. Hugo estava em casa quando Eduardo chegou.
Abri a porta e o vi parado no corredor, meio sem jeito.
— Oi, Edu! Entra, senta! Quer alguma coisa pra beber?
— Não precisa, tranquilo — ele respondeu, já entrando e se acomodando na cadeira da cozinha.
Hugo já estava na mesa. Juntei-me a eles, e ficamos ali, os três em volta daquela mesa que de repente parecia maior do que o normal.
— E aí, como vocês estão? — Eduardo perguntou, olhando primeiro para mim, depois para Hugo.
— Já estive melhor — admiti, forçando um sorriso. — Mas estamos indo.
Hugo foi direto:
— E lá no time? Como ficou a situação?
Eduardo suspirou, como se já estivesse esperando essa pergunta.
— Não ficou boa, não. O treinador ficou uma fera. Deu um sermão em todo mundo depois que vocês saíram. Disse que a gente não sabe o que é ser profissional, que perdemos dois bons competidores, esse tipo de coisa.
— Sério? — não consegui esconder a surpresa.
— Sério. E com a fúria dele, ninguém ousou responder — confirmou Eduardo.
Hugo coçou a nuca, pensativo.
— Você acha que ele sabe o que realmente aconteceu?
— Não sei se sabe os detalhes — Eduardo respondeu — mas ele sabe que foi por causa de alguma treta no time. Sabe que não foi por acaso.
Ficamos em silêncio por um tempo. O barulho da geladeira era o único som na cozinha.
Quebrando a pausa, Eduardo falou com um tom mais firme:
— Pra ser sincero, achei até bom ele ter dado esse sermão. Já era hora de todo mundo perceber que a situação estava insustentável.
— Mesmo assim, não podemos voltar — eu disse.
— Poder, vocês podem — Eduardo insistiu.
— Podemos, mas não queremos — confessei. — Não tenho mais energia pra lidar com tudo isso.
Hugo concordou:
— Eu também não.
Houve uma pausa. Então perguntei, como se fosse algo casual:
— E a Fernanda? Como ela está?
O rosto de Eduardo ficou mais sério.
— Ela... vai levando. Não fala mais de vocês. Eu nem tento tocar no assunto. Desculpa, cara, mas não sei se um dia vai perdoar. No começo, achei que com o tempo ela pudesse esquecer, seguir em frente. Mas agora... parece que ela decidiu simplesmente apagar vocês da vida dela.
— Eu já esperava — murmurei.
Hugo completou:
— Bom, espero que, mesmo que ela nunca mais fale conosco, pelo menos consiga seguir em frente.
— Também espero — concordei.
Eduardo se espreguiçou na cadeira, mudando de assunto:
— Olha, vim também porque amanhã vai ter uma festa na faculdade. Queria saber se vocês não querem aparecer.
— Acho melhor não — respondi rápido demais.
— Por que não? Vocês vão ficar se escondendo pra sempre?
— Se escondendo como?
— Não finja, Renato. Vocês estão agindo como se fossem foragidos. Como se não pudessem mais pisar em lugar nenhum por medo do que vão pensar. Parem com isso.
Respirei fundo, tentando encontrar uma resposta que fizesse sentido.
— É mais fácil falar do que fazer. Ainda é tudo muito recente…
— E quando vai ser o momento ideal? — ele cortou. — Já pensou que talvez esse momento nunca chegue?
A pergunta ficou ecoando na minha cabeça. Talvez ele estivesse certo. Talvez nunca existisse um momento perfeito para voltar a aparecer como se nada tivesse acontecido. Talvez algumas pessoas nunca mais olhassem pra gente do mesmo jeito. Era um pensamento pesado, mas verdadeiro.
Eduardo olhou nos nossos olhos, com aquela franqueza que só amigos de verdade têm:
— No fim das contas, vocês precisam decidir se vão deixar que o que os outros pensam dite como vocês vão viver. Eu sei que tem a história com a Fernanda, mas vocês não fizeram nada pra magoá-la de propósito. As coisas simplesmente aconteceram. Não dá pra esperar que ela ou qualquer outra pessoa siga em frente se nem vocês mesmos estão conseguindo fazer isso.
Sem esperar resposta, ele se levantou. Acompanhei-o até a porta. Quando voltei para a cozinha, Hugo e eu ficamos ali, em silêncio, cada um processando as palavras de Eduardo e o peso do que ainda teríamos que enfrentar.
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