Notas iniciais
Perdão o sumiço rsrs mas aqui estou, de volta com mais um capítulo!

Os dias que se seguiram durante os jogos universitários foram uma mistura de sentimentos. Hugo e eu passamos a desviar de gente nos corredores, a sentir os olhares atravessados, os cochichos disfarçados. Mas, com o tempo, a fofoca foi esfriando e as pessoas foram voltando a se preocupar com a própria vida. Só que tinha uma coisa que não mudava: a Fernanda. Ela cortou a gente de vez. E isso, pra mim, doía mais que qualquer fofoca.

Não fomos nas festas que rolaram nos dias seguintes, nem tivemos vontade. Preferimos ficar ali, escondidos na barraca, só nós dois. Era estranho: ao mesmo tempo que era ruim se sentir excluído, também era um alívio poder ficar longe de todo mundo e só curtir a companhia um do outro.

— Pelo menos se esconder na barraca tem as suas vantagens — Hugo comentou, rindo baixinho, logo depois de a gente transar.

— Seu safado! — eu respondi, rindo também, e dei um beijo nele.

— A gente tá tentando tirar o atraso, né?

— Tá? Acho que ainda falta muito pra isso — provoquei, me posicionando por cima dele.

— Ah, é? E depois diz que eu sou o safado da história.

Eu ri.

— Não consigo evitar!

A gente não precisava de mais nada naquele momento. Hugo sorriu, me puxou pra perto e a gente se beijou de novo. E acabou rolando tudo de novo.

***

Quando finalmente os jogos acabaram, voltamos pra casa no mesmo ônibus. Só que dessa vez a gente nem ligava mais se alguém visse. Fiquei com a cabeça no ombro dele e dormimos quase o caminho inteiro. Naquele momento, parecia que tudo estava bem e que nada ruim tinha acontecido.

Porém, quando voltamos para a rotina da faculdade, a realidade bateu à porta. Pessoas continuavam a olhar e comentar sobre nós e Fernanda ainda nos ignorava. Começamos a fazer tudo juntos, mais do que antes. Somente nós dois. Ida pra faculdade, aulas, treinos, volta pra casa: sempre em dupla. Em pouco tempo, era quase como se a gente morasse junto, porque ou eu dormia na casa dele ou ele na minha.

A gente se queria o tempo todo, era um fogo, um tesão que eu não conseguia explicar, eu só queria saber de estar com ele, de beijá-lo, tocá-lo, sentir todo o corpo dele no meu. Mas apesar de tudo isso, apesar de eu estar cada vez mais apaixonado por ele e sentir que ele também estava, apesar disso eu comecei a me sentir solitário.

No atletismo, o clima ficou pesado. Dava pra sentir que estávamos sendo deixados de lado. Eu via colegas que costumavam ser amigos, aqueles com quem eu compartilhava risadas e piadas durante os treinos, agora evitando olhar para nós, ou trocando olhares rápidos, como se tivéssemos nos tornado o assunto que ninguém queria discutir em voz alta.

A sensação de estar isolado crescia a cada dia. Eu não sabia se os outros estavam apenas esperando que a poeira abaixasse, ou se, realmente, já não queriam mais saber de Hugo e de mim. O time parecia ter se dividido, e eu nem sabia mais onde me encaixava ali. Eu sabia que Fernanda estava magoada, mas a distância entre todos e nós estava se tornando ainda mais difícil de suportar.

O que tínhamos vivido parecia ter virado uma mancha difícil de limpar, e eu sabia que nada voltaria a ser como antes. Não só por causa de Fernanda, mas também por causa de todo o ambiente ao nosso redor. Cada vez que eu passava pelo time, pela galera da faculdade, a sensação de que éramos observados e julgados me incomodava profundamente.

Um dia, olhei para Hugo, que caminhava ao meu lado e também parecia sentir o peso da situação. Assim como eu, ele também estava tentando lidar com a dor de não ser mais parte daquele mundo de antes. As coisas haviam mudado. Talvez de maneira irreversível.

— Você acha que a gente vai conseguir superar isso? — Hugo perguntou, de repente, sua voz cheia de insegurança.

Eu suspirei, sem saber o que responder. Eu queria acreditar que sim. Queria achar que, de alguma forma, as coisas iriam melhorar com o tempo, mas havia uma parte de mim que já sabia que nada seria simples.

— Eu não sei, Hugo... Eu realmente não sei.

Era como se tudo estivesse prestes a desmoronar e, apesar de todos os nossos esforços, a sensação de culpa, o peso das consequências, não podiam ser apagados tão facilmente. E enquanto tentávamos seguir em frente, tentávamos nos acostumar com a ideia de que, talvez, as amizades de antes tivessem se perdido para sempre.

O único que não mudou nada foi o Eduardo. Por isso, marquei de conversar com ele, só nós dois.

— Finalmente você lembrou que sou seu amigo, né? — falou Eduardo.

— Desculpa, eu devia ter falado com você antes.

— Pois deveria mesmo. Nem me contou sobre o que tava rolando entre você e o Hugo.

— É que não tava rolando nada. Na verdade, eu tava reprimindo esse sentimento e ele também. Eu nem sabia que ele gostava de mim. Até que tudo aquilo aconteceu durante os jogos. Bom, isso você já sabe. Todo mundo sabe.

— Sim e eu soube como todo mundo. Podia ter confiado em mim, sabe? Você podia ter me contado o que sentia por ele, eu teria pelo menos ouvido ou tentado ajudar.

— Eu sei, amigo. Peço desculpas, mas eu realmente achei que era melhor não falar nada. Não queria te envolver nisso também.

— Tudo bem. Bom, pelo menos agora vocês estão juntos. E parece que está sendo bom.

— Essa parte sim, eu confesso. Mas todo o resto não está. Na verdade, tudo isso está sendo pesado demais pra mim. Todo esse clima, o pessoal do atletismo, a Fernanda principalmente, tudo isso tem me deixado mal.

— Eu imagino. Acho que vai demorar um pouco, mas as coisas podem melhorar. Até a Fernanda pode entender, com o tempo.

— Será? Ela não comenta nada com você? — perguntei.

— Não muito. Parece que é algo que ela tenta fingir que não aconteceu.

— Entendo.

— Eu só quero que você saiba que você continua sendo meu amigo. Hugo também. Não quero escolher lados, podem contar comigo.

Agradeço com a voz embargada, os olhos cheios d’água, e o abraço apertado. Era bom saber que tinha pelo menos uma pessoa do nosso lado.

Notas finais
Nos vemos no próximo capítulo!