O Namorado da Minha Ex
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Os dias continuaram passando, um atrás do outro, quase iguais. Faculdade, treino, casa. Casa, treino, faculdade. A rotina seguia como sempre, mas eu tinha a impressão de que alguma coisa dentro de mim tinha ficado presa nos jogos universitários e nunca mais voltado.
Depois da conversa com o Eduardo, eu me senti um pouco mais leve. Não porque os problemas tinham desaparecido, mas porque, pela primeira vez em semanas, eu não me senti completamente sozinho. Saber que ainda existia alguém disposto a olhar pra mim sem julgamento fazia uma diferença enorme.
Mesmo assim, eu sentia falta de todo o resto.
Sentia falta das brincadeiras antes dos treinos, das conversas sem importância, das piadas idiotas enquanto a gente fazia aquecimento. Sentia falta de pertencer a algum lugar. Agora parecia que Hugo era o meu único mundo. E isso me assustava.
Não porque eu não o amasse. Pelo contrário. Cada dia ao lado dele só fazia esse sentimento crescer. Mas eu sabia que nenhuma pessoa podia ser responsável por preencher todos os espaços da vida de outra. Amigos, família, faculdade... tudo tinha diminuído até sobrar só nós dois.
Numa sexta-feira, depois do treino, ficamos sentados na arquibancada enquanto o restante do time ia embora. O sol já começava a baixar, pintando a pista de atletismo de um laranja bonito. Era um daqueles fins de tarde silenciosos que normalmente me davam paz.
Naquele dia, não.
— Você tá muito quieto — Hugo comentou.
Olhei para a pista antes de responder.
— Tô cansado.
Ele deu um sorriso de lado.
— Tô notando que você sempre fala isso quando tá escondendo alguma coisa.
Balancei a cabeça.
— É só que... sei lá. Parece que nossa vida encolheu.
Ele ficou em silêncio.
— Antes a gente tinha um monte de gente por perto. Agora é só nós dois.
Hugo abaixou os olhos.
— Você tá dizendo que isso é ruim?
— Não.
Respondi rápido demais.
— Não é isso. Eu adoro estar com você. Você sabe disso.
Ele assentiu, mas continuou esperando.
— Só sinto falta de ter amigos também.
Demorei alguns segundos antes de completar:
— Sinto falta da Fernanda.
Ele respirou fundo.
— Eu também.
— Eu nunca quis machucar ela.
— Eu sei. Eu também não. Mas aconteceu.
— Sim, aconteceu e eu não sei o que fazer com isso.
Ficamos alguns minutos em silêncio, ouvindo apenas o vento passando pelas arquibancadas. Então Hugo segurou minha mão.
— Você se arrepende?
Olhei para ele imediatamente.
Apertei seus dedos.
— Nunca.
Ele fechou os olhos por um instante, como se precisasse ouvir exatamente aquela resposta.
— Eu também não.
Sorri.
— Eu só me arrependo da forma como tudo aconteceu.
— Eu também.
Era estranho perceber que a felicidade e a culpa conseguiam existir ao mesmo tempo. Eu nunca tinha amado alguém daquele jeito. E nunca tinha me sentido tão culpado por ser feliz. Por um instante, tentei não pensar em nada e apenas aproveitar aquele momento com Hugo. Mas esse instante foi interrompido no minuto que peguei o celular para ver uma mensagem que haviam me enviado. Acabei me distraindo e vi que algumas pessoas do atletismo estavam postando nas redes sociais. Parecia que estavam em uma festa. Quase todos eles. Depois vi que Fernanda estava também. Não tínhamos sido convidados.
— O que foi? — perguntou Hugo notando meu desapontamento.
— Olha! — mostrei pra ele alguns stories.
— Bom, parece que não fomos convidados. — ele logo entendeu.
Eu queria não me importar com aquilo, mas eu me importava. Não consegui controlar as lágrimas. Hugo me abraçou.
— Calma! — ele falou, tentando me consolar.
— Como calma? Eu não consigo mais. Tudo bem não concordarem com o que aconteceu ou quererem ficar do lado da Fernanda, mas agora isso? Ficar excluindo a gente, tomando as dores dela? Porque não cuida cada um da sua vida?
— Eu sei. Essa história está tomando grandes proporções.
De repente, a minha tristeza se transformou em revolta e eu decidi que não ia mais aturar aquilo. Foi então que me ocorreu algo que eu nem tinha cogitado e fui ver nas redes sociais se eu achava o perfil de Fernanda e não achei. Foi aí que descobri que ela tinha me bloqueado, aquilo foi mais um baque.
— Ela me bloqueou e provavelmente você também. Bom, pra mim era só isso que faltava.
— Faltava para o quê? — Hugo não entendia o que eu queria dizer.
— Pra eu sair do time de atletismo. Eu não quero mais ficar passando por isso, todos os olhares, todos os cochichos, ser excluído. Se é pra ficar sem amigos então que seja. Vou só comunicar o treinador e pronto.
— Tem certeza disso? — perguntou Hugo incrédulo.
— Tenho.
— Ok. Se você quer assim, eu também vou sair.
— Não precisa sair só porque eu tô saindo.
— E eu vou fazer o que sem você no time? Aí que eu vou me sentir mais excluído ainda.
— Tem razão.
Por fim, nós dois acabamos tomando a decisão de deixar o time de atletismo. Eu comuniquei o treinador por mensagem e saí do grupo que tínhamos. Hugo fez o mesmo. Agora era isso, só tinha restado nós dois mesmo.
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