Notas iniciais
Terceiro capítulo pessoal! Vamos ver o Milo começando a trabalhar realmente, tanto no centro quanto na sua primeira preparação para prova. Espero que gostem!

Seria o primeiro dia que Milo iria realizar um treino dos cavalos pelos quais era responsável. Começando por Misty e Fígaro dus Boursons. Saga fez questão de organizar os treinos assistidos de Misty e Camus juntos para que pudesse dar suporte para Milo caso este precisasse, embora tivesse certeza que o grego se sairia muito bem.

Os treinos assistidos eram como sessões de fisioterapia montadas, onde o veterinário preparava percursos de saltos baixos e cavaletes no chão para realizar os alongamentos adequados para cada grupo muscular.

Milo e Misty começaram primeiro, enquanto Saga e Camus faziam trabalho de redondel. Milo havia planejado os exercícios no dia anterior e pretendia começar com cavaletes em que o cavalo precisaria fazer passadas longas ao trote para se adequar ao ritmo, aproximadamente 6 passadas em cada direção, em seguida 3 voltas em cada direção a galope por toda a pista, pensando em descontrair o músculos do pescoço, buscando contato com a mão do cavaleiro, por último fariam uma ginástica com saltos a 40 cm com distâncias de 1 passada, iniciando no trote com 3 cavaletes no chão, passando para galope no primeiro salto de 5, e trocando de direção no último salto para repetir na mão contrária, queria impulsão dos posteriores para manter o ritmo e evitar faltas. Milo explicou todos os exercícios e motivos para cada um deles ao cavaleiro que pareceu entender tudo, mas apenas pareceu.

— Seu sotaque é horrível, mas é tão sexy ver você falando. — Misty mudou totalmente de assunto quando o veterinário perguntou se ele tinha entendido o que seria feito, Milo ficou indignado por ter tido toda sua explicação ignorada mas apenas suspirou. — Cavaletes ao trote então, ok.

O cavaleiro realizou o primeiro exercício sob o olhar atento do grego, que corrigia qualquer diferença na andadura ou de rítmo. Não era um exercício difícil, mas precisava ser feito da melhor maneira possível ou não iria atingir seu objetivo.

— Você está diminuindo o ritmo nos dois últimos cavaletes, colocando muita pressão das mãos na boca dele, ele está perdendo velocidade e esbarrando os posteriores, vamos repetir mais duas vezes, uma para cada lado. — Milo ajeitou a distância de uma das barras que se moveu com a batida do casco na passagem anterior.

— Isso é chato, por que eu não posso fazer só a ginástica? — O cavaleiro fez um bico ao questionar o loiro, Milo já havia explicado os motivos, mas notou que ele só queria testá-lo, no caso, seu conhecimento e sua paciência.

— Porque só a ginástica não vai trabalhar todos os grupos musculares que eu preciso. — Respirou fundo, parecia estar dando aula para os iniciantes. — Vamos, repita.

Repetiram o exercício e, após uma volta de passo, Milo passou para o próximo: voltas ao galope.

— Não se esqueça que para ele sair no galope da maneira correta precisa que sua perna solicite o engajamento do membro de fora ao lado que iniciará o galope. — Milo fez uma pequena demonstração de como ele deveria atrasar a perna para induzir a movimentação do cavalo. — Quero um galope compassado e ritmado, não é para deixar correr e lembre que o foco é descontração do pescoço, não se preocupe em manter o ramener durante o exercício, se ele estiver descontraído, vai fazer isso sozinho. Comece pela direita, ele parece ter mais facilidade nessa mão.

— Tá bom mãe, só não esquece que eu sou profissional, tá? Eu sei solicitar um galope! — Ele fez a solicitação do galope, mas o cavalo saiu na mão esquerda.

— Galope falso (1), pare e solicite o galope de novo. — Internamente Milo quis rir, mas era profissional e não ia cair na provocação do outro.

Saga e Camus observavam do outro lado da pista.

— Ele está se saindo bem para a primeira vez. — Saga disse mais para si do que para o cavaleiro que fazia círculos ao seu redor.

— E você deixou ele com o Misty, devia ir pro inferno por tortura. — Camus cutucou. Ele e Misty não se davam nada bem, o achava arrogante e mimado, tentava conseguir as coisas com dinheiro e se esquecia que precisava treinar para ser bom. Saga achava os dois iguais e por isso eles se odiavam.

— Achei que seria mais fácil do que ter que lidar com você. Esse carma eu guardo só pra mim. — Saga respondeu com um sorriso irônico e recebeu um dedo do meio como resposta do ruivo, que manteve sua postura fina, mesmo com o gesto grosseiro.. — Vá fazer seus alongamentos, vá.

Nas últimas duas voltas para a esquerda, Milo preparou a ginástica, medindo cuidadosamente as distâncias entre os saltos.

— Uma volta ao passo, com o pescoço relaxado, para fazermos a ginástica. — Milo orientou para o cavaleiro realizar a troca de andadura.

A troca de andadura foi realizada exatamente no momento em que Fígaro passou ao lado de Belle Époque. Por mais que o garanhão ali fosse o cavalo do ruivo, Fígaro era muito mais reativo e tinha costume de coicear, não foi diferente desta vez, mas Camus reagiu rápido e afastou seu cavalo do outro.

— Ow, Camiu, não se esqueça que meu cavalo dá coices, depois se acontecer algo com o seu, não vai vir dizer que a culpa foi minha! — Misty provocou o outro cavaleiro, Camus apenas seguiu seu caminho, tirando um riso vitorioso do outro. O importante era incomodá-lo, se ele fez o primeiro do ranking mudar seu percurso, já era uma vitória.

O coração de Milo gelou ao pensar na possibilidade do cavalo de Camus ser atingido por um coice de um cavalo pelo qual ele era responsável, mas ao olhar para Saga, ficou mais tranquilo, o outro veterinário só balançou cabeça, dando a entender que era algo corriqueiro entre os dois.

— Misty, pode começar sua ginástica. — Milo comandou do outro lado da pista, ao lado do salto do meio da ginástica. — Lembre-se, trote compassado, após o primeiro solto, mantém no galope e faz a troca de mão no final.

Ao final de duas repetições para cada lado, com algumas correções principalmente na troca de direção, Misty e Fígado estavam cansados, o cavaleiro foi caminhando em direção a Saga que terminava algumas orientações a Camus.

— Saga, se quiser me dar o Sorento de volta, pode ser só para os treinos. Por que esse deus grego ai é muito chato. — Misty disse alto, para que todos ali ouvissem, gostava de chamar a atenção, principalmente quando a outra figura que demandava atenção era o ruivo. — Mas, se ele quiser cuidar de outros assuntos, eu não me importaria de mostrar como galopo bem.

Misty piscou e mandou um beijinho para o grego, que ficou levemente corado e desconfortável. Não que ele não fosse bonito, tinha uma face andrógena, cabelos loiros muito bem hidratados e longos, pele mais bronzeada, usava um brilho labial que deixava seus lábios rosados, era magro porém com músculos bem definidos, mas não fazia o tipo de Milo e bem, ele estava ali para trabalhar.

— Esses outros assuntos são só com ele mesmo, não vou me envolver. Mas quanto aos assuntos veterinários, ele vai continuar te acompanhando, preferencialmente, sendo ainda mais chato. — Saga tentou amenizar o desconforto do grego, não sendo muito efetivo.

— Por que você só não se preocupa em treinar, ao invés de incomodar os outros, Misty? — Camus fazia círculos ao trote próximo a eles. Parecia não fazer esforço nenhum para manter o movimento, era completamente fluido e leve. — Se você quer estar no time principal, precisa fazer mais do que isso.

Camus era o capitão do time de hipismo completo, tinha o poder para cobrar resultados dos demais e, em contrapartida, deveria demonstrar seus resultados, o que não era um problema. Sua opinião sempre era levada em consideração nas convocações das grandes provas.

— Está com ciúmes, Camie? — Misty riu, provocando o outro. Não se importava se o outro gostava dele ou não, sabia que Camus era certinho demais para não o recomendar por desagrado. Se ele tivesse resultados, estaria no time, o ruivo querendo ou não. — Se você me desse o Saga eu poderia deixar o grego para você sem problemas, prefiro homens mais velhos mesmo, mas você sempre quer todos, aí fica injusto…

O cavaleiro ruivo não respondeu a provocação do mais novo, mas mantinha um olhar superior, que irritava o outro.

— Vamos Misty, preciso alongar o Fígaro ainda. — Milo chamou o cavaleiro, só queria sair daquela situação desconfortável logo.

Milo o acompanhou até as cocheiras, já pensando como iria mostrar os alongamentos e quais músculos estavam sendo trabalhados, mas Misty apenas desmontou, entregou as rédeas para ele e saiu.

— Estou atrasado para o cabeleireiro, baby, te vejo mais tarde! — Mandou um beijo no ar para o veterinário e saiu. Milo não sabia ao certo como reagir, na Grécia os alongamentos pós trabalho eram responsabilidade dos cavaleiros, no máximo eram acompanhados pelos veterinários. Era um exercício que criava vínculo.

Respirou fundo e conduziu o cavalo até o local com piso emborrachado para os alongamentos, retirou todos os equipamentos e iniciou com os alongamentos de membro e depois os de pescoço e coluna (2), incentivando os movimentos do animal com biscoitos próprios para cavalos.

Fígaro não era muito colaborativo, estranhamente parecido com seu cavaleiro. Puxava os membros e tentava morder o veterinário durante os alongamentos, Milo acabou demorando mais do que gostaria ali. Quando finalmente terminou, pediu que o tratador o banhasse e voltou para a sala dos veterinários.

Os outros 3 estavam conversando amenidades quando o grego chegou.

— E então, o que achou dele? Um pouco difícil de lidar, não é? — Sorento perguntou enquanto tomava um copo de café.

— Um pouco? Ele também te assediava a cada 5 minutos? — Milo se sentou em sua cadeira, jogando o pescoço para trás.

— Estava falando do cavalo, mas quanto ao Misty, acho que a cada 30 minutos. — Sorento fingiu contar algo nos dedos. — Acho que não sou muito o tipo dele.

— O importante é que você se saiu muito bem, confesso que foi muito além do que eu esperava, tanto o trabalho, quanto o modo como lidou com Misty. — Saga elogiou o outro, dando-lhe tapinhas nos ombros. — Sísifo realmente não estava brincando quando falou que você era diferenciado.

— Não fiz nada de mais. — Por mais que gostasse de receber elogios, não tinha feito nada diferente do que fazia em Atenas, apoiou a cabeça na mesa, com os braços soltos ao lado do corpo. — Só me falem que a Senhora Cassiop é mais fácil de lidar.

Os outros riram e confirmaram, pelo menos com ela, ele não teria tanto trabalho.

A primeira semana se passou rápido, Milo auxiliou alguns pequenos procedimentos ortopédicos no centro cirúrgico, além de cuidar dos seus cavalos e auxiliar nos outros atendimentos, foi uma primeira semana sem emergências, mas com muitas novidades para o grego.

Milo tinha especialização em clínica e cirurgia do trato gastrointestinal, não havia nada que ele gostava mais de atender do que cólicas, a dificuldade e o grau de emergência eram como injeções de adrenalina que faziam ele se esforçar cada vez mais. Quanto melhor o manejo dos cavalos, com relação a alimentação e tempo em liberdade, menor as chances da ocorrência de cólicas, então ali, ele já esperava que não aconteceriam muitas.

Seu horário de trabalho era até as 14 horas aos sábados, então, antes de terminar seu turno, passou pelas baias para realizar um check geral de todos os cavalos, principalmente dos que ele era responsável. Fígaro estava deitado, descansando após o trabalho, havia voltado para a baia há pouco tempo, após um bom banho e mais tarde seria liberado no piquete para relaxar. Ego estava no piquete, iria voltar para a baia no fim da tarde.

Como já havia se tornado um costume, passou na baia de Belle Epoque para conversar, o garanhão havia retornado para lá a pouco tempo também, quando o grego se aproximou, estava dormindo em pé, mas foi até o homem pedir por carinho.

— Como foi a manhã no piquete? — Acariciou a face do cavalo e ajeitou-lhe a franja que estava bagunçada.

— Novice (3) — O sotaque forte do francês fez todos os pelos do corpo do loiro se arrepiarem. O grego fez um movimento rápido, se virando em direção à voz, o que acabou assustando o cavalo também que balançou a cabeça e bufou sem entender o que tinha acontecido. O cavaleiro o encarava sério. — O que está fazendo?

— O…oi, Camus! Estava só conversando com ele. — Deu um sorriso sem graça, não estava fazendo nada de mais e desta vez, realmente não estava nem alimentando o cavalo sem permissão. — Ele sempre me pede carinho quando passo.

— É, por algum motivo ele gosta bastante de você. — O ruivo tinha uma face indecifrável. Milo não gostou do "por algum motivo", o motivo é que ele era legal e carinhoso com o cavalo, se preocupava com ele, se o francês não enxergava isso, o problema não era ele. — Excuse moi. (4)

O ruivo o encarou, olhou no fundo de seus olhos, por um momento Milo achou que iria congelar, literalmente, uma vez que figurativamente, já estava. O quarto de materiais de Camus ficava ao lado da baia de Belle Epoque, o cavaleiro havia saído dele com uma manta e uma cabeçada side pull (5), abriu a baia do cavalo e colocou os materiais nele.

— Como vamos para Marselha na segunda, estou fazendo trabalhos mais leves com ele. — Levou o cavalo até a escada e montou. — Vou sair para fazer um exterior.

O grego não entendeu o motivo pelo o qual o ruivo te deu uma justificativa, mas balançou a cabeça em concordância. Saiu logo em seguida indo para o alojamento, durante o caminho pode ouvir o som dos passos de Belle Époque, a marcha compassada produzia uma música inebriante que só quem gosta de cavalos consegue aproveitar.

Milo iria acompanhar sua primeira prova na França, uma etapa de concurso completo nível quatro estrelas da FEI. Iriam partir na madrugada de segunda-feira, parar em Lion onde os cavalos iriam ficar hospedados por 24 horas e a chegada em Marselha estava prevista para a quarta. Na quinta seria a checagem veterinária e as provas de adestramento, na sexta o cross country e no sábado o salto. Previsão de volta para Lamotte-Beuvron na segunda no fim da tarde.

Ambos os cavalos monitorados pelo grego iriam para a prova e por ser uma viagem com vários dias, havia toda uma preparação a ser feita. Todos os documentos estavam atualizados, porém era importante fazer toda uma preparação nutricional e física para os atletas, uma vez que ficariam cerca de cinco horas em pé, no caminhão até Lyon, e depois mais quatro horas, até Marselha, o que exigia grande capacidade muscular.

Os cavalos e materiais seriam levados pelo motorista da federação, assim como os tratadores que iriam de van, mas os veterinários e treinadores teriam que ir com os próprios carros. Milo iria com Saga e, aparentemente, com Camus, que embora tivesse seu próprio carro, preferia pegar carona. Estava confortável em ficar sete horas dentro de um carro com o francês? Não, mas não teria muita escolha. Shion, Mime e Sorento iriam no carro do treinador e os demais cavaleiros iriam direto para Marselha e, provavelmente, chegariam na quinta.

Saga estava colocando todos os passaportes dos seus cavalos em uma pasta, após conferir pela terceira vez. Eram 6 e meia da manhã. Mime e Sorento estavam preparando os cavalos para embarcar, alongando e colocando os protetores de membros. Milo já havia preparado seus cavalos, eles também foram alongados e estavam prontos para embarcar. Novamente a ansiedade do grego fez ele acordar mais cedo e começar seus preparativos mais cedo também.

O próprio Camus preparou Belle Époque, fazia questão disso para que tudo estivesse do modo como ele preferia, assim como aguardava o momento do embarque com ele dentro da baia. Também já havia separado seu fardo de feno e alguns petiscos, tudo perfeitamente arrumado, pesado e nomeado, nada saia do controle do cavaleiro. Cantarolava em voz baixa para manter o cavalo calmo.

Um cavalo foi embarcado antes de Ego e Fígaro e, após os dois de Milo, era a vez de mais dois e Belle Époque, que sempre entrava por último por ser o único garanhão. Cada cavalo ficava em uma separação, com feno à vontade. Quando chegassem em Lyon, iriam ficar em piquetes e, algumas horas antes de embarcar novamente, iriam para baia para evitar fadiga muscular.

Os cavalos partiram assim que os primeiros raios de luz começaram a aparecer. A equipe partiria pouco depois, após todos os carros organizados. Saga tinha um SUV grande e confortável, seria uma viagem tranquila.

— Suas coisas estão aqui, Camus? — O francês confirmou pegando suas malas no quarto de sela do seu cavalo e foi em direção ao carro do mais velho, Milo também já tinha deixado suas malas separadas na sala dos veterinários.

O silêncio desconfortável perdurou por longos minutos dentro do carro. Camus estava estático olhando para a estrada, com sua face indecifrável, Saga bebia seu café enquanto dirigia e às vezes olhava para Milo pelo retrovisor, Milo tinha certeza que ele fazia isso para admirar seu desconforto.

— Então… Milo, ansioso pela sua primeira prova? — Saga disse, rompendo o silêncio, essa fala repentina pareceu assustar o ruivo, que se movimentou desconfortável — Não é exatamente a primeira, mas é a primeira aqui.

— Ah, bem, um pouco ansioso. — Milo disse sem graça, não sabia se era melhor um assunto aleatório ou o silêncio. — Mas vai dar certo, trabalhamos bem para isso.

O silêncio tomou conta novamente e quando os dois loiros já haviam se acostumado, notaram um ressonar leve. Instintivamente se olharam e olharam para o ruivo, que apenas tinha fechado os olhos e pedindo levemente a cabeça para o lado da janela, sorriam.

— Isso merece uma foto. — Saga diminuiu a velocidade do carro, retirando o celular do suporte, onde indicava o caminho e se posicionando para tirar uma selfie com o ruivo adormecido.

— Não me envolva nisso, não quero ser mais odiado do que já sou. — Milo sussurrou para o loiro mais velho. — E não solte o volante! Quero chegar vivo!

— Ele não te odeia. — Saga respondeu rindo. — Ele no máximo te ignora.

— Nossa, reconfortante. — O grego bufou. — E ele não me ignora, sábado falou comigo por vontade própria.

— Como assim?! — O mais velho perguntou mais alto do que deveria, o que acordou o ruivo, que questionou se estava tudo bem e recebeu uma resposta positiva e levemente suspeita de ambos, ele não se convenceu, mas não deu continuidade à sua investigação. Saga riu, conseguiu uma foto do francês dormindo e do grego com cara de desespero, iria guardar com muito carinho para quando fosse necessário.

Em algum ponto da estrada passaram pelos cavalos, encostaram o caminhão para confirmar se estava tudo bem. O caminhão possuía várias câmeras que permitiam vários ângulos de visualização dos animais, além disso, tinha sistema de ventilação e termostato, que mantinha a temperatura agradável em seu interior, o chão era todo emborrachado e tinha sistema de drenagem da urina dos cavalos. Milo havia tirado várias fotos para mostrar aos diretores da federação grega quando voltasse.

Chegaram em Lyon no início da tarde, antes dos cavalos, então Saga parou no hotel para fazer check in e deixar as malas. Logo em seguida partiram para o centro hípico onde os cavalos ficariam hospedados, Mime, Sorento e Shion chegaram junto com eles.

Desembarcar, alongar e alojar os cavalos ocupou boa parte do dia. Enquanto lidavam com os cavalos, vários alunos da escola de equitação e mesmo outros cavaleiros amadores reconheceram Camus, alguns ficavam tímidos mas vários foram conversar com o ruivo, que os atendeu de maneira muito carinhosa, tirou várias fotos e deu autógrafos, chegou a assistir a aula de algumas crianças e deu dicas. Milo algumas vezes se pegava observando as atitudes do cavaleiro, tão solícito e diferente do que geralmente era com a equipe, talvez ele realmente fosse alguém legal e só precisava se acostumar.

Terminaram quando já estava na hora de jantar, optaram por comer no restaurante do hotel para ser mais rápido e não precisarem sair pela cidade. Embora Milo, Mime e Sorento não tenham ficado muito confortáveis em dividir a mesa com o ruivo, não podiam negar o jantar que seria pago pela federação.

— Então… Você encontrou vários fãs hoje, não é? — Milo tentou puxar assunto com o ruivo, para diminuir o clima tenso e tentar socializar. — Como é ser famoso?

— Não gosto. — Camus respondeu tranquilamente, sem olhar para seu interlocutor, enquanto comia. — Mas são os ossos do ofício.

— Ah, mas você gosta de ajudar com as aulas das crianças, não gosta? — Saga entrou na conversa para não deixar ela morrer, o que aconteceria se dependesse do cavaleiro.

— Gosto da ideia de ajudar com o futuro do esporte. — Ele terminou de comer e repousou os talheres no prato. Limpou os lábios com o guardanapo e apoiou as mãos sobre as pernas. Aquela conversa não o interessava, mas era educado demais para se retirar sem dar um fim a ela. — Se eles me enxergam como um exemplo, tenho que fazer o possível para que isso valha a pena. Vou para meu quarto, com licença.

O cavaleiro se levantou e deixou a mesa, Milo o observou sair do restaurante, era irritante como ele parecia não se importar se os demais gostavam dele ou não, assim como era instigante querer saber mais. Os veterinários ficaram discutindo como seriam os próximos dias e o que deveriam fazer e esperar, quais as preparações para o vet check e os protocolos de suporte para cada cavalo, depois de cada prova, até voltarem para seus quartos e repousarem.

Saíram de Lyon próximo ao horário que chegaram, seriam mais 4 horas até o destino final. Milo notou as variações de vegetação durante o caminho, ao se aproximarem de Marselha, as árvores eram mais parecidas com as que via na Grécia, por serem regiões mediterrâneas. Ele ficou muito feliz de ver o mar novamente, a cidade era mais iluminada do que Nantes ou a comuna, se sentiu confortável ali.

Os cavalos foram alojados nas baias de campanha (6), descansariam até o dia seguinte, quando encontrariam seus cavaleiros para o primeiro vet check e, finalmente, começar as provas. Com a ajuda dos tratadores, descarregaram os materiais do caminhão e organizaram no espaço reservado para eles.

O vet check é a inspeção veterinária obrigatória anterior a qualquer prova hípica, nela o cavalo é avaliado parado e conduzido ao passo e trote pelo seu cavaleiro perante juízes e veterinários. Nessa avaliação, o animal não pode apresentar nenhum grau de claudicação ou alterações visíveis, sob o risco de ser eliminado mesmo antes de entrar em pista.

Nas provas oficiais de concurso completo, são feitas duas avaliações veterinárias, uma antes da primeira prova, o adestramento, e outra após o cross country, antes das provas de salto.

O centro hípico de Marselha ficava próximo à praia, era possível sentir a brisa marinha e ouvir o barulho do mar. Era bem arborizado, havia duas pistas oficiais de salto, três pistas de distensão, percurso de cross de 4 estrelas e picadeiro de adestramento. As baias eram bem posicionadas com áreas de apoio. Havia toda uma estrutura montada para receber os atletas internacionais.

O hotel que as equipes ficariam era bem próximo ao centro, mas Milo optou por ficar alojado na área reservada na sala de materiais dos cavalos. A ideia era economizar, já que hotéis estavam muito caros e, garantir que os cavalos estivessem assistidos 24 horas.

A primeira noite foi tranquila, o grego havia levado um colchão inflável emprestado por Saga, o posicionou sobre algumas caixas de material e dormiu como uma criança, como estava mais frio, usava uma calça de moletom preta e uma camiseta térmica de mangas longas que marcavam bem seus músculos definidos. Acordou com os primeiros raios de sol e com um certo ruivo o encarando.

— Mas, o que…?! — Se assustou ao abrir os olhos e dar de cara com Camus. — O que você está fazendo aqui?!

— Eu quem deveria perguntar isso, por que você não está no hotel como todas as outras pessoas normais? — O francês corou ao notar os trajes do outro, evitando olhar diretamente para ele.

— Alguém precisava ficar perto dos cavalos para caso algo acontecesse. — O grego se sentou e bocejou, alguns segundos depois se deu conta de estar usando uma roupa justa e colocou o casaco da federação francesa para se cobrir. — Vai rodar o Belle Époque? (7)

— Para isso temos tratadores. — Camus virou de costas para o loiro, pegando uma guia longa e a cabeçada com bridão em sua caixa. — Sim. Preciso dele calmo para a avaliação.

O ruivo estava saindo da sala quando esbarrou com Misty.

— Bom dia, Camie! Que cara é essa? Está vermelho! — O outro loiro se virou para Milo, que ainda estava sentado em seu colchão, porém mais coberto, o grego agradeceu todos os deuses por ter sido Camus a o encontrar dormindo e não Misty. — Você… O que vocês estavam fazendo?!

Milo respirou fundo. Sabia que, independente do que dissesse, Misty iria tomar suas próprias conclusões. Pensou algumas possibilidades para justificar, mas todas seriam ignoradas, então optou por ignorar a pergunta.

— Que bom que chegou, Misty. — O grego respondeu sério. — Você vai fazer a passagem do Fígaro, precisa ver onde vai ser e pegar seu número. .

Misty ainda resmungou por Milo não contar o por que ele e Camus estavam juntos e sobre como o outro ficava com todos os bonitões para ele, mas logo esqueceu.

Camus, por sua vez, não se esqueceu tão rápido da imagem que teve do grego. Ficou um tempo conversando com seu cavalo sobre como não deveria estar se importando com aquilo e sobre como precisava se concentrar nas provas a seguir. Fez algumas voltas ao trote para cada direção e voltou com o garanhão para sua baia, nesse momento, toda a equipe veterinária já estava a postos.

Antes de irem para a avaliação, Camus encontrou outros cavaleiros e, novamente, Milo se surpreendeu com o jeito amigável do ruivo.

Saori Kido foi a primeira a encontrar com o francês, ela era magra e tinha longos cabelos castanhos, embora treinasse na Bélgica, em provas internacionais competia pelo Japão, seu país natal. Ela parecia ser muito íntima de Camus, o abraçou várias vezes e ele não parecia se incomodar.

Aioria Evans, cavaleiro inglês, de cabelo loiro acastanhado e olhos azuis, se juntou à conversa pouco tempo depois, assim como Afrodite Olsson, cavaleiro sueco que tinha longos cabelos loiros, claros e ondulados e olhos azuis muito claros também, e o casal de cavaleiros alemães, Pandora e Radamanthys Ritter, a mulher tinha longos cabelos pretos e lisos e olhos igualmente escuros, enquanto o homem tinha cabelos loiros, bagunçados e olhos cor de mel. Todos riam e conversavam animadamente em inglês, pareciam muito amigos, mesmo sendo adversários.

Naquele seleto grupo estava boa parte da elite do hipismo completo mundial, cavaleiros que ficavam se revezando no topo do ranking da federação equestre internacional e no pódio das olimpíadas. Milo jamais imaginaria estar na presença deles.

Notas finais
Ginásticas são exercícios que trabalham a consciência corporal, tanto do cavaleiro quanto do cavalo. São exercícios que devem ser realizados frequentemente e podem associar cavaletes no chão e saltos, assim como trocas de andaduras. Legendas: (1) Mão do galope / galope falso: O galope é uma andadura de três tempos, o que significa que em alguma fase do movimento o animal fica com três membros apoiados no chão e, em outra, apenas um. A mão é o membro anterior que chega mais longe apoiando o movimento, quando para a direita a mão direita apoia e, quando para a esquerda, é a mão esquerda. Quando o cavalo está na mão direita mas a mão esquerda é a que chega mais longe para apoiar o movimento (ou vise-versa), é chamado galope falso ou invertido, isso pode causar desequilíbrio nas curvas levando a quedas. (2) Alongamentos em chão: São alongamentos que são feitos no chão após todo exercício, podendo ser estáticos ou dinâmicos. Para os membros, são realizados os alongamentos estáticos e para coluna e musculatura de pescoço, são feitos os dinâmicos, que precisam da cooperação do cavalo então geralmente são usados petiscos como estimulantes. Por serem exercícios simples, os proprietários costumam fazer, até para ter um tempo de qualidade com o animal. (3) "Novice": Novato, em francês. (4) "Excuse Moi": Com licença, em francês. (5) Side Pull: É um tipo de cabeçada que não utiliza bridão na boca do cavalo, é comumente utilizada no processo de doma para ensinar o cavalo jovem a responder às ajudas das rédeas, antes de iniciar o uso do bridão/freio. Costumamos usar em trabalhos leves ou descontrações. (6) Baias de Campanha: São baias desmontáveis utilizadas em provas, geralmente os locais de prova internacionais não possuem um numero de baias tão grande ao ponto de abrigar seus moradores e os cavalos visitantes, por isso são montadas essas baias. Elas possuem padrão de tamanho para que os cavalos consigam dar voltas de 360 graus e deitar confortavelmente. Em provas internacionais, geralmente são utilizados cochos de alimento e água plásticos e removíveis, para evitar contaminação cruzada. (7) Rodar os cavalos: São exercícios desmontados que ajudam no controle de ansiedade e estresse. Geralmente são realizadas alguns círculos em cada andadura (passo, trote e galope) para cada lado com auxílio de uma guia longa. Auxilia também na descontração da musculatura de pescoço. Agora vocês foram apresentados à elite do hipismo completo, tem os norte-americanos também, mas não são tão bons quanto os europeus haha Esse grupinho vai aprontar muito em capítulos futuros. O próximo capítulo vai ser basicamente todo sobre as três provas do hipismo completo: adestramento, cross e salto, pretendo explicar o melhor possível para que nas próximas provas vocês já tenham uma ideia de como funciona e possamos focar na relação dos personagens principais. Enfim, espero que tenham gostado e até o próximo!