Notas iniciais
Esse capítulo gigante vai descrever (na medida do possível) como é uma prova de Hipismo Completo, antigo Concurso Completo de Equitação (CCE). A prova de triathlon equestre, composta por três: Adestramento, Cross Country e Salto. Assim como, os primeiros sentimentos do nosso grego favorito pelo nosso francês favorito ♥ Nas notas finais coloquei recomendações de alguns vídeos de provas ou sobre as provas, para quem não conhece ter uma ideia melhor de como são. Espero que gostem!

Assim que chegaram os cavalos receberam números, esse número era a ordem de entrada para o vet check e suas identificações na prova, eles aguardavam em fila para se apresentarem para a equipe de juízes e veterinários da prova que já tinha em mãos todas as documentações, o cavaleiro precisava conduzir o animal ao trote pela esquerda sem puxar, apenas indicando o caminho e, após, induzir que o cavalo ficasse imóvel por alguns minutos para finalizar a checagem.

Fígaro e Ego foram os primeiros dentre os cavalos da equipe de Lamotte-Beuvron, Misty desfilou com seu cavalo parecendo flutuar, Belle Époque foi avaliado alguns cavalos após, todos foram aprovados, como era de se esperar. Agora, precisavam se preparar para a primeira prova: o adestramento.

A prova de adestramento é a chamada reprise, onde o cavaleiro e cavalo precisam realizar uma série de movimentos previamente estabelecidos na ordem e posição correta no picadeiro. Cada movimento precisa ser entendido pelo cavalo com o mínimo de participação possível do cavaleiro, como se ele soubesse todos os movimentos de cor e o cavaleiro fosse apenas um ser inanimado.

Durante as provas, cada conjunto parece flutuar em pista, uma dança ritmada que envolve mudanças de mão, transições entre trote, galope e passo, recuos e círculos. No concurso completo, todos os cavaleiros fazem a mesma reprise, o que torna o adestramento a prova menos interessante de assistir.

A entrada no picadeiro é por ordem de sorteio, Misty e Fígaro foram os primeiros a se apresentar, foram muito bem aos olhos do grego, talvez uma leve dificuldade na troca de mão, mas a pontuação final de 68 foi satisfatória. Com o fim da reprise deles, começava o trabalho de Milo. Banho, alongamento, compressa gelada nos 4 membros, reposição de eletrólitos, massagem e laserterapia, tudo pensando em agilizar a recuperação dele para a prova mais pesada, o cross country, no dia seguinte.

Enquanto Milo fazia o gelo no castanho, ouviu o anúncio de que a distensão estava liberada para Camus e Belle Époque. Mesmo de dentro da baia, Milo pode vislumbrar a imagem do cavaleiro francês se preparando para montar. Camus vestia o fraque da equipe francesa, cor azul escuro com as golas em vermelho vivo, com cauda que terminava na altura das cochas, cobria uma camisa e gravata brancas. O culote branco criava um fino contraste com o azul do fraque e o preto lustroso das botas.

Camus havia feito duas tranças no cabelo, uma em cada lado, que se juntavam em um coque na região da nuca, o coque estava preso por uma rede, mas o tom vermelho sangue ainda sobressaia. A visão do francês, totalmente trajado, colocando as luvas brancas, o capacete tradicional com a bandeira de seu país na frente e montando no garanhão de pelo escuro era deslumbrante, parecia saída de um conto de fadas.

Milo se perdeu naquela imagem por alguns segundos, até Fígaro bufar o o fazer voltar para a realidade, ele balançou a cabeça e se repreendeu em grego. O cavalo quase dormia enquanto recebia sua massagem e logo depois, com a capa com magnetoterapia, o veterinário cronometrava o tempo enquanto a imagem do francês vinha e voltava para sua mente, o grego resmungava em voz baixa sobre como não deveria pensar nisso, acabou se assustando com a chegada repentina de seu supervisor.

— Milo, venha, é importante. — Saga o chamou na baia. Estava sério, então Milo preferiu não questionar o motivo. Pediu que o tratador observasse Fígaro e seguiu o outro loiro.

Saga havia o chamado para assistir a prova, por um momento, Milo não entendeu o motivo de ter sido tirado do seu trabalho para assistir a reprise, até ver quem seria o próximo a se apresentar.

Camus entrou no picadeiro a galope reunido, fazendo um alto no meio e realizando o a saudação: segurou as rédeas com a mão esquerda, esticando o braço direito ao lado do corpo, apontando os dedos para o chão e abaixou o queixo rapidamente. Imediatamente ao som do sino, o cavaleiro saiu em trote reunido. Começou o percurso no lado esquerdo da pista, realizando o movimento de espádua a dentro pela esquerda e em seguida um meio círculo com apoio em membro esquerdo.

Deu continuidade na direção direita da pista, e após 5 passadas ao trote, fez um alto e recuou 5 passos, saindo imediatamente no trote reunido na direita. Milo estava encantado, parecia que Belle Époque sabia exatamente os movimentos e momentos de realizá-los, as ajudas de Camus eram quase imperceptíveis. Mesmo os movimentos mais difíceis pareciam simples e leves.

Após mais 5 passadas de espádua a dentro para a direita, Camus fez um novo meio círculo com apoio no membro direito, saindo para trote reunido com transição para passo médio, passo alongado e passo médio novamente. Fez mais uma transição para o galope reunido à direita e começou a cruzar o picadeiro para realização da troca de pé no ar, com engajamento dos posteriores, realizando a troca com precisão e retidão, saindo à esquerda com apoio à esquerda.

Após a troca, ele se manteve no galope alongado e fez a transição para o galope reunido, em seguida, voltou a cruzar o picadeiro, porém da esquerda para a direita, realizando uma nova troca de pé no ar, saindo à direita seguindo o movimento de apoio. Se preparando para o final da reprise, Camus realizou transições de trote reunido, para alongado e novamente reunido, dirigindo-se novamente para a linha central, fazendo um alto e repetindo a saudação. (1)

Terminada a prova, o cavaleiro soltou as rédeas deixando o cavalo alongar o pescoço. Camus comemorou dando vários tapinhas e abraços no pescoço de Belle Époque e se virou procurando com os olhos sua equipe técnica, ele sorriu. O sorriso do francês foi tão lindo, sincero e realizado, poderia ser coisa da cabeça de Milo, mas ele pareceu sorrir ainda mais quando seus olhares se cruzaram.

Ao sair da pista, ele foi recebido por Shion que comemorou muito, assim como Saga. Quando a nota do ruivo foi anunciada, houveram ainda mais comemorações: 79,7. O que garantia a liderança isolada na primeira prova do concurso completo e, com isso, uma grande vantagem para o time francês.

O time para essa prova era composto por 4 cavaleiros: Camus, Misty, Elga e Cardon, cujo cavalo era acompanhado por Sorento. Todos competiam na equipe e no individual, assim como os demais cavaleiros que foram com a equipe. Em provas internacionais, fora da França, outro cavaleiro mais experiente costumava ocupar o lugar de Misty, mas ele estava se empenhando para conseguir seu lugar fixo, e Milo esperava o ajudar com isso.

Como Elga foi a última a entrar no picadeiro, Milo já havia terminado com Fígaro e podia se dedicar apenas a Ego. Após o banho, repetiu os mesmos procedimentos, dando uma atenção especial aos membros posteriores, pois ele tinha histórico de lesão ligamentar no membro posterior direito.

Já era meio da tarde quando a prova acabou, então Milo só pôde considerar seu trabalho terminado após as 17h, quando seus dois cavalos estavam descansando relaxados nas baias. (2)

— Quer ir jantar com a gente, Milo? — Saga perguntou enquanto se preparava para voltar ao hotel. Ele, Shion, Mime e Sorento iriam jantar em um restaurante próximo — Você não comeu direito o dia todo, é bom se alimentar, amanhã vai ser corrido.

— Eu aceito, estou morto de fome. — O grego ajeitou a roupa, uma calça jeans e a camisa polo da federação equestre francesa, seu cabelo estava solto, as ondas douradas estavam levemente rebeldes.

— Camus não vai jantar com a gente hoje? — Mime perguntou, procurando pelo ruivo pelos corredores. Os demais cavaleiros costumavam ir com a família para as provas, então não ficavam tanto com a equipe técnica, mas, como Camus geralmente ia com eles, ficavam boa parte do tempo juntos, o que para alguns não fazia diferença, mas para outros era estranho, uma vez que o cavaleiro não era muito sociável.

— Camus saiu com os amigos depois do reconhecimento (3). — Shion sorriu ao notar a cara de indignação de Mime. Saga riu e o ruivo acobreado ficou sem graça — Sim, ele tem amigos.

Não que Milo duvidasse que o ruivo tivesse amigos, até porque tinha os visto, eles eram até calorosos demais, na visão do grego. Apenas, talvez, não fosse adequado ele sair antes de uma prova importante, mesmo tendo começado bem, a competição ainda não estava ganha.

Optou por não dizer nada, não era da sua conta, afinal.

Após o jantar, Saga trouxe o grego de volta às cocheiras, já próximo às nove horas. Insistiu novamente que ele fosse para o hotel, mas Milo negou. Preferia ficar próximo aos cavalos. Ele passou por todas as baias para confirmar se todos estavam bem, Ego estava comendo feno, Fígaro estava dormindo em pé e Belle Époque estava deitado relaxado, por garantia, Milo abriu a baia e se aproximou do cavalo que ergueu a cabeça e pediu carinho, não tinha sinais de dor, então só estava com preguiça. (4)

— Está tudo bem, pode ficar deitado. Você foi muito bem hoje, tenho certeza que vai ser espetacular nas próximas provas — Milo riu enquanto acariciava o chanfro do cavalo, sussurrou: "Principalmente se seu cavaleiro colaborar."

Estando todos bem, foi para a sala de selas que chamava de quarto, ajeitou seu colchão, tomou um banho rápido no banheiro dos tratadores, trocou de roupa e se posicionou para dormir. Mas não dormiu, por mais que quisesse e precisasse, estava ansioso pensando em Camus e que o francês deveria estar repousando e não por aí.

Ficou com seus pensamentos, rolando de um lado para outro por algum tempo, até ouvir o som de um carro parando na frente das cocheiras. Várias vozes altas foram ouvidas com muitos risos. Estranhou, nesse horário não era para mais ninguém tivesse acesso a aquela área.

— Acho que você deveria deixar o Camus dirigir seu carro, pelo menos ele não está bêbado. — Uma voz feminina falou alto em inglês, chamando a atenção do grego.

— Nem fodendo, eu bêbado sou mais confiável dirigindo que o Camus sóbrio. — Outra voz, desta vez masculina, riu. Um alívio surgiu em Milo, pelo menos Camus estava bem e, aparentemente, não estava embriagado.

— Va à la merde, Aioria. — Era a voz do francês, Milo conseguia reconhecer bem. — Vou ver meu cavalo, já volto.

— Sério, Camus?! Ele está bem! — A mesma voz, Aioria então, reclamou. — Você mesmo falou que seu veterinário está dormindo do lado da baia dele… Ah foda-se.

Eles continuaram conversando do lado de fora, Milo ainda identificou outra voz feminina, nenhum assunto que realmente interessasse ao grego que voltaria a tentar dormir, até que ouviu passos no corredor, se levantou e foi até a porta, abrindo levemente, pode ver o francês na porta da baia de Belle Époque, ele falava algo, mas baixo de mais para ser ouvido. Milo pensou antes de ir até ele, mas sentiu seu corpo se mover sozinho.

— Ele está bem. — Disse ao ruivo, como quem não quer nada, mas causou um leve susto nele.

— Pardon, acordei você? — Camus encarou o grego com vergonha, provavelmente sua pele estava mais vermelha, mas a luz fraca não permitia esse nível de detalhamento. Mas aqueles olhos azuis gélidos pareciam um pouco mais quentes agora.

— Seus amigos, talvez… — Milo desviou o olhar para o cavalo que continuava deitado. Agora ele estava envergonhado. Sorriu de leve quando o animal bocejou. — Só está com preguiça… Você não deveria estar no hotel?

— Estamos indo para lá. — Camus falou seco, não pareceu gostar do outro se intrometendo na sua vida. — Bonne nuit, Milô. À demain.

— Bonne nuit, Camus. — Um arrepio correu a espinha do grego ao ouvir seu nome com o sotaque carregado do ruivo, era a primeira vez que o francês se dirigiu a ele pelo seu nome. Apenas se despediu e saiu. (5)

O francês logo voltou ao estacionamento, recebeu algumas reclamações por parte de Aioria, mas logo partiram. Milo ficou um tempo pensando, Camus poderia ser irresponsável de sair durante o período de prova, mas ele provavelmente só encontrava seus amigos nessas ocasiões, então não era de todo errado em querer aproveitar. Acabou por dormir em meio aos seus pensamentos.

O despertador tocou cedo, as provas de cross country eram sempre no período da manhã, por ser mais fresco. Milo precisava preparar os cavalos e conferir todos os equipamentos de segurança para que eles pudessem começar a aquecer, quando ele levantou, todos já estavam terminando a ração, cada um com os suplementos via orais necessários e receitados pelos veterinários.

Quando Saga, Mime e Sorento chegaram, Milo já estava com seus dois cavalos presos pelo cabresto dentro das baias. Sorento levou café para o grego, que ficou muito grato.

— Pode falar, você dorme aqui só para deixar os cavalos prontos na noite anterior né? — Mime questionou o grego, estava sorrindo, mas com cara de sono, ele odiava acordar cedo. — Não é possível ser tão eficiente assim.

— Cuidado para ele não ficar com o seu trabalho… — Saga ameaçou rindo. Milo também riu, realmente queria mostrar eficiência, mas meu maior medo era deixar algo atrapalhar os atletas.

A partida da prova de cross country também era por sorteio, que foi feito no dia anterior. Ego correria primeiro hoje, cinco cavalos depois seria Fígaro e Belle Époque seria o último da equipe, 4 cavalos antes do fim.

Todos os cavaleiros tinham um tempo para conhecer o percurso e montar suas estratégias, esse reconhecimento é feito a pé e o treinador acompanha a equipe, dando suas orientações. Esse procedimento também havia sido feito no dia anterior, pouco depois do fim da prova de adestramento.

A prova de cross country é a prova mais emocionante do concurso completo, consistem em um percurso de distância a depender do nível, na ocasião: 6 km, que deveriam ser percorrido na velocidade média de 570 m/min. Esse percurso possui diversos obstáculos, naturais, aclives, declives, negativas, saltos na água e longos trechos sem saltos que devem ser percorridos a galope. O tempo estimado da prova é calculado e anunciado aos cavaleiros anteriormente, qualquer tempo passado do tempo ideal é considerado faltoso e adiciona penalidades ao conjunto. Nesta prova, o tempo ideal era de 10 a 11 minutos.

Para evitar passar do tempo, os atletas possuem algumas possibilidades de percurso a escolher, alguns obstáculos possuem duas opções, uma mais longa, com menor chance de erro e outra que custa menos tempo, porém se abordada de forma errada, pode levar a um refugo e, consequentemente, consumir mais tempo ou até causar uma queda.

Por conta da velocidade e dos obstáculos diferenciados, todos os cavaleiros são obrigados a usar coletes com airbag, que inflam imediatamente caso sejam desconectados da sela, além do capacete. As vestimentas são livres, mas geralmente os cavaleiros utilizam segundas peles e culote branco.

Os percursos costumam ser em parques e geralmente são abertas ao público, o que adiciona um nível de dificuldade a depender do costume do cavalo (6). A prova atual contava com uma parte do percurso que passava pela praia, e era a mais esperada pelos cavaleiros, por não ser algo comum. Havia apenas um obstáculo na praia e não passava pela água do mar, mas tinha um visual encantador.

Por ser um percurso longo, a equipe veterinária só conseguia assistir por meio de telões, pois ficava alocada na linha de chegada para dar suporte aos atletas quando este terminasse o check up veterinário oficial após o percurso e fosse liberado para as cocheiras.

Após serem permitidos ir para as cocheiras, os cavaleiros ainda caminhavam por alguns minutos enquanto os cavalos eram resfriados com água pelos tratadores, até que a frequência cardíaca normalizasse e eles pudessem ir para a ducha. (7)

No aquecimento, os atletas podiam saltar tanto obstáculos tradicionais quanto um modelo de obstáculo natural para adaptar o cavalo ao desafio. A distensão era liberada 1 hora antes do início da prova e os cavaleiros costumavam ir para lá à medida que sua largada se aproximava.

Uma vez montada, Elga foi para a distensão aquecer Ego acompanhada de Shion. Os veterinários ficaram aguardando o início da transmissão pelos telões. Misty estava com eles, aguardando ser liberado para a distensão e parecia um pouco ansioso, essa prova era seu calcanhar de Aquiles, pouquíssimas vezes tinha terminado no tempo ideal ou sem uma falta por refugo. Era o grande motivo pelo qual ele ainda não estava na equipe principal.

— Você vai se sair bem, treinou muito para isso. — Saga colocou a mão no ombro do cavaleiro. — Mas precisa respirar fundo, ou vai deixar seu cavalo ansioso também.

— Eu sei. — Ele olhava fixamente para o telão, onde o primeiro cavalo se preparava para a partida. — Eu sei que se não for bem minha nota será descartada, mas eu queria muito não ser o descarte dessa vez.

As notas de cada um dos 4 cavaleiros do time era computada, e todas valiam para o individual, porém na prova por equipes a pior nota era descartada. No adestramento, a nota descartada havia sido o 67,6 de Cardon, mas ele era mais experiente no cross country, o que provavelmente levaria a nota de Misty a ser descartada, o que era um peso mental aparentemente muito grande para o loiro mais novo.

— Porque assim… Eu sei que a Ariel ali não vai errar. — Misty disse apontando para Camus, que lia um livro sentado em uma cadeira de camping tranquilamente na frente da baia de Belle Époque. O ruivo apenas ergueu os olhos para o colega de equipe e preferiu ignorar seu novo apelido, voltando à leitura. — E os outros dois são melhores que eu também. Fora que se eu não errar, tenho alguma chance no individual.

A prova individual era extremamente concorrida, ali estava a elite européia do hipismo completo, Camus estava sendo cotado como favorito, mas Aioria e Saori haviam ido muito bem em suas últimas provas, assim como os alemães e o sueco. Seria difícil Misty concorrer por uma medalha individual, mas no esporte, sempre existe uma chance.

Milo preferiu só observar o modo como Saga lidava com os atletas, como ele os ajudava a se acalmarem antes das provas. Não era comum que o grego acompanhasse os atletas tão de perto assim, então estava sendo uma grande experiência.

A partida de Elga e Ego foi perfeita, percorreram todo o percurso com cautela, evitando as possibilidades mais complicadas e finalizaram com 5 segundos acima do tempo, um total de 2 pontos por penalidade, um ótimo resultado.

A distensão foi liberada para Misty e Cardon. O loiro pareceu relaxar um pouco ao montar seu cavalo, Shion os esperava na pista.

Ego foi para a ducha após sua corrida, o que permitiu que Milo acompanhasse o percurso de Misty antes de precisar se dedicar totalmente ao cavalo.

Ele, os demais veterinários, Elga e até Camus, que olhava de longe, estavam fixos no telão, assistindo a passagem do loiro, que também foi cauteloso, porém no último obstáculo com escolha de caminho, optou pelo mais rápido, passando sem problemas. Terminou com 1,5 pontos de penalidade.

Todos comemoraram muito, afinal, mesmo competindo no individual, eram uma equipe e melhores notas garantem uma posição melhor para todos. Além de que, tanto Camus, quando Elga, já estiveram no lugar de Misty, também tiveram suas notas descartadas e se sentiram incapazes em algum momento, então sabiam o quanto aquela pontuação era importante para ele.

Milo recebeu os parabéns dos colegas, seus dois cavalos vinham com ótimos resultados, ele estava se provando como um excelente veterinário, mesmo não tendo tanto costume com cavalos do hipismo completo.

Misty chegou eufórico depois de deixar seu cavalo para o banho. Foi recebido por Saga, recebeu elogios de Mime e Sorento, abraçou Milo e agradeceu muito. Elga o abraçou e disse várias palavras de apoio, ela sabia que, a depender da nota de Cardon, a nota dela seria descartada, mas isso não importava, o importante era a equipe.

Camus parabenizou o colega de longe, sem contato físico, mas Misty ficou feliz, não era todo dia que ele recebia parabéns do capitão do time e primeiro do ranking.

Agora Milo precisava trabalhar, seus dois cavalos já tinham competido e precisava prepará-los para a última prova, o salto do dia seguinte. Começou com Ego, que já havia retornado do banho e estava secando na área reservada para isso. Iria basicamente repetir os elementos de fisioterapia feitos no dia anterior, alongamento, gelo, magneto e massagem, associado à fluidoterapia com reposição de eletrólitos intravenosa. (7)

Enquanto isso, foi a vez de Cardon fazer sua passagem. Ele foi bem, conseguindo terminar com 1,2 pontos de penalização, mais uma boa nota para a equipe. Quando ele retornou, Camus montou e foi para sua distensão.

Novamente Saga chamou Milo antes da largada do ruivo.

Camus largou e, como conhecia muito bem seu cavalo, sabia exatamente onde podia pedir um galope mais alongado ou deveria diminuir a velocidade. Também sabia que podia ir para as opções que dependiam de mais esforço, ganhando tempo com relação aos outros atletas. Quando passou pela parte do percurso na praia, foi muito ovacionado pelos espectadores e foram tiradas muitas fotos. Aioria era o primeiro colocado até o momento e havia terminado com 10 min e 58 segundos, ficando dentro do tempo ideal sem penalidades, Camus precisava terminar abaixo disso.

Todos prendiam a respiração a cada obstáculo, nas opções, mesmo com as curvas fechadas, Belle Époque passava com tranquilidade, era um cavalo excepcional mesmo. Terminaram com o tempo de 10 minutos e 38 segundos, garantindo a primeira colocação no individual. O time inglês acabou passando o francês na contabilização final, três dos ingleses terminaram dentro do tempo o que fez com que eles não tivessem decréscimo na nota. Agora, zerar todas as passagens no salto e desbancar o time inglês era uma questão de honra para os franceses.

Milo estava terminando a fisioterapia de Fígaro quando Saga chegou com Belle Époque, que parecia que tinha acabado de fazer um passeio no parque e não uma corrida de 6 km.

— A resistência dele é impressionante. — O grego comentou enquanto observava o mais velho começar a alongar o alazão.

— Esse cavalo é uma máquina. — Saga riu enquanto alongava o membro anterior direito do cavalo, que esticou o pescoço como sinal de relaxamento. — Vai vê-lo amanhã, nem parece que competiu por 3 dias.

Após terminarem as fisioterapias, todos os cavalos foram colocados em suas baias para receberem a fluidoterapia. Para esse procedimento, todos eram canulados pela veia jugular no pescoço e recebiam 4 ou 5 bolsas de um litro de soro com suplementação de eletrólitos e vitaminas (7). Geralmente os cavalos dormem durante o procedimento, mas é ofertado feno para que não fiquem entediados também. Todo o tratamento demora cerca de uma hora e deve ser realizado e acompanhado pelo veterinário responsável.

Saga ficou responsável por toda a papelada burocracia que visa diminuir o uso de medicações que podem levar a alguma vantagem. Era chato porém necessário.

Terminaram tudo o que precisavam fazer já no fim da tarde. Milo estava exausto e faminto, na Grécia ele acompanhava a equipe de salto, eram provas curtas, que exigiam muito menos dos cavalos e veterinários, embora às vezes tivessem duas ou três passagens em um único dia, não chega aos pés do esforço físico requerido pelo cross country.

Estavam os veterinários e Shion sentados na área reservada para o time francês.

— Saga, tem mais um aqui que vai precisar de fluido e vitaminas, mas esse não está muito bem não! — Sorento brincou jogando uma garrafa de água para o grego que estava largado em uma cadeira de camping. — Vish, acho que não vai ter jeito não.

— Cansado, Milo? — Saga riu, dando tapinhas no ombro do mais novo. — Mas a gente ainda nem está nas maiores provas, imagina como é na olimpíada.

— Não me deixe sonhar, a Grécia nunca vai ter uma equipe de concurso completo para competir em uma olimpíada. — Milo bebeu a água, voltando a se esticar na cadeira. — Eu estou bem, só preciso de cinco minutos.

Um silêncio repentino pairou entre os presentes.

— Mas, você vai pra Paris com a gente, não vai? — Shion perguntou depois de um tempo. Todos os 4 franceses olharam para Milo, esperando a resposta.

— Ah, Paris vai ser em Julho… Eu volto para a Grécia em… Maio. — Milo também estava decepcionado com a resposta, queria muito acompanhar a equipe no maior evento do mundo, mas mais ainda, queria acompanhar Camus.

Mais silêncio. Milo era muito querido por todos ali, dos veterinários aos tratadores e treinadores, ele era cordial e comunicativo, além de competente, sempre se oferecia para ajudar, independente de quem fosse. Iria fazer falta para a equipe.

— Que deprê, né… — Saga interrompeu o silêncio. — Vamos deixar para pensar nisso quando estiver mais próximo! Vamos comer!

Todos concordaram com um uníssono "Sim", arrumaram as cadeiras e saíram para jantar. Enquanto saiam das cocheiras, encontraram Camus e Saori, era a primeira vez que Milo o via desde o momento que foi para a distensão, estava com roupas normais, o cabelo levemente úmido, deixava claro que havia tomado banho a pouco tempo.

— Olha só quem apareceu! Parabéns pela corrida, ruivo! — Saga parabenizou o cavaleiro que agradeceu. — Olá senhorita Saori, é um prazer encontrá-la aqui!

— O prazer é meu, Saga! — A moça ofereceu a mão ao veterinário que depositou um leve beijo sobre o dorso. Ela cumprimentou os outros dois veterinários e o treinador e se voltou para Milo. — Mime, Sorento, Shion e… Você eu não conheço ainda.

— Milo, sou veterinário da federação grega, estou fazendo intercâmbio na federação francesa. — Ele soou mais seco do que gostaria, não entendeu ao certo o motivo, mas não se sentia confortável com ela. Se forçou a sorrir. — Muito prazer, senhorita.

— Que interessante! — Saori sorriu. — Espero que esteja aproveitando.

— Vou sair com o Belle Époque para ele pastar um pouco, já o trago de volta. — Camus notou o desconforto do grego, o que era estranho, mas não questionou. Os dois se despediram e seguiram em direção as baias.

Os homens seguiram até os carros em silêncio. Assim que chegaram, Mime não se conteve.

— Shion, eles sempre estão juntos nas provas, tem a tal da "Festa" todo ano, em Tóquio ele ficou mais tempo na casa dela do que na vila olímpica, ela já passou um tempo aqui treinando com ele… — Ele fez uma pausa antes de completar. — Eles estão juntos, não estão?

— Eu não costumo me envolver na vida dos meu cavaleiros, não é do meu interesse a vida pessoal deles, desde que não atrapalhe o desempenho esportivo… — Shion foi político, mas terminou com a informação que o acobreado queria. — Mas, até onde eu sei, eles chegaram a namorar quando ela veio, mas não acho que estejam juntos ainda.

— Camus é muito reservado, acho que mesmo que estejam juntos, não vão deixar isso aparecer. — Saga completou. Ele olhou para Milo, reparando na cara emburrada do grego, apenas riu.

— Se alguém tem essa informação, ou alguma informação sobre a vida alheia, essa pessoa é o Misty, pode perguntar para ele se quiser. — Sorento riu e Mime negou agradecendo, fazendo todos rirem. Misty era legal, mas quando cismava com algo, ele se tornava muito chato, preferiam não criar oportunidade para isso.

Milo havia estudado sobre o passado esportivo de Camus, nas Olimpíadas de Tóquio ele era a grande promessa da França, mas não teve o rendimento esperado, ficando em sexto no individual e terminando com o time francês em terceiro (8). Agora, em Paris, ele era novamente o destaque, as vitórias em provas como esta ajudavam mas também aumentavam a pressão pela medalha de ouro.

Milo foi devolvido novamente próximo às nove horas, fez o mesmo ritual do dia anterior: passou por todas as baias para ver como os cavalos estavam. Ego estava dormindo em pé, de costas para a porta da baia, Fígaro estava deitado mas se levantou logo que viu o grego indo até ele ver se tinha alguma comida, infelizmente não foi dessa vez. E Belle Époque estava em pé, com a cabeça para fora, esperando que o grego chegasse para lhe fazer carinho.

Nessa noite Milo dormiu rápido, até chegou a começar a pensar na relação de Camus com a japonesa, mas se obrigou a mudar o foco e acabou dormindo. Acordou com o ruivo dentro de seu quarto, novamente.

— Você poderia bater, pelo menos. — O grego cobriu o próprio rosto com a coberta.

— Você poderia ficar em um hotel. — Ele respondeu rápido, levemente ríspido. Pegou seu material e saiu, sem se importar com o grego.

Milo se arrumou e saiu da sala, precisava organizar seus cavalos para o vet check antes da última prova.

O esquema era o mesmo do primeiro vet check, os cavalos eram avaliados parados e em movimento, visando identificar algum distúrbio que possa ter ocorrido na prova do dia anterior. Assim como garantir que nenhum procedimento veterinário proibido tenha sido realizado.

Novamente todos os cavalos foram aprovados e já começaram a se preparar para a prova de saltos.

A ordem de entrada para a primeira passagem de saltos era exatamente o contrário da classificação do Cross Country, ou seja, o primeiro lugar no dia anterior, salta por último. A pista já estava aberta para reconhecimento do percurso (9), Shion acompanhava seus cavaleiros dando as devidas orientações e pensando as melhores formas de apresentar cada obstáculo, assim como as distâncias ideais.

Nas cocheiras, todos estavam animados preparando os cavalos. Misty chegou radiante, seus cabelos estavam presos em uma trança embutida, ele desfilava com a casaca da equipe francesa, também azul escuro com as golas vermelhas.

Elga e Cardon conversavam sobre o percurso logo atrás, estudando as melhores possibilidades, não era um percurso fácil, tinha alguns obstáculos muito chamativos que poderiam assustar os cavalos e algumas curvas fechadas com distâncias pequenas.

Elga seria a primeira a aquecer, então Milo já tinha Ego pronto para que ela montasse. Ele a acompanhou até a pista e desejou boa sorte à mulher, mas precisou voltar para preparar Fígaro, que também seria montado em breve.

A prova continha 11 obstáculos, sendo dois duplos, um triplo, um liverpool, 2 paralelas, 2 cercas, um tríplice e 2 oxers, com alturas entre 1,35 m e 1,40 m e larguras chegando a 1,65 m (10). Sendo a velocidade média para percorrer o percurso de 375 m/min.

A primeira passagem era classificatória para o individual, todos que não cometessem faltas, por excesso de tempo ou por derrubar algum obstáculo, iriam para a final, onde saltariam um percurso menor e quem o fizesse em menos tempo e sem faltas, ganhava.

Por equipes era feita apenas a primeira passagem, o somatório das penalidades dos três melhores cavaleiros da equipe nos três dias era o resultado final, a equipe com menos pontos por penalidade, ficava em primeiro.

Com a entrada de Elga na pista, Milo se juntou a Saga e Shion para assisti-la. Mesmo sendo uma pista muito técnica, a amazona realizou todo o percurso de maneira tranquila, porém fez uma falta na saída do triplo, que era o último obstáculo. Terminada a pista com 4 pontos por falta. A prova de Elga foi muito comemorada, mesmo com a penalidade, era uma pontuação muito boa para a equipe.

Pouco depois, Misty também entrou, terminando dentro do tempo e sem faltas. Muitas comemorações também, como a maior parte do público presente era francês, o conjunto foi ovacionado ao sair.

Dois conjuntos antes de Cardon eram ingleses, um terminou a pista sem faltas e outro fez 8 pontos de falta. Ambas as equipes estavam fazendo cálculos de quantas faltas poderiam ser feitas para ficarem em primeiro.

Cardon começou a pista muito bem, o cavalos saltava com folga, mas no triplo final, ele acabou se desequilibrando no B e fazendo falta, tanto no B quanto no C. Terminou com 8 pontos de falta, mas dentro do tempo ideal.

O terceiro conjunto inglês também finalizou a pista sem faltas. Dependiam de Aioria errar e Camus zerar para que o time francês terminasse em primeiro. Seria difícil, porém ainda era possível.

Milo deixou seus dois cavalos aguardando secar enquanto faziam gelo e voltou para a pista assistir o percurso de Aioria junto do resto da equipe. Camus estava na distensão com Shion.

O cavalo que Aioria montava era um cavalo jovem, Lightning Plasma, haviam participado de poucas provas internacionais juntos, tinha muita explosão e potência, mas ainda era muito inexperiente, a experiência do cavalo poderia ser decisiva em um quadro onde ambos os cavaleiros eram muito competentes.

Ao entrar, Aioria mostrou ao cavalo alguns obstáculos, para que ele não se assustasse (11). Começou bem, seguindo um bom ritmo e mantendo as distâncias, quando ele se aproximou do oxer, que possuía os paraflancos (11) com a figura da Torre Eiffel em comemoração à Olimpíada de Paris, o cavalo observou muito, chegando a aumentar um lance da distância adequada, Aioria o incentivou com as pernas e, mesmo parecendo que ia refugar, ele saltou, fazendo uma falta na última vara. Após a falta, Aioria conseguiu reequilibrar seu companheiro e seguiram sem mais faltas até o último obstáculo do triplo, onde ele também diminuiu um lance e acabou não conseguindo fazer a parábola correta. Terminando a pista com 8 pontos de penalidade.

Camus precisava zerar.

O cavaleiro francês entrou em pista com muita comemoração enquanto o cavaleiro inglês saia.

— Brilha, francês. — O loiro estendeu a mão para o concorrente, que a apertou e agradeceu.

Camus fez sua saudação e saiu a galope, passou pela maior parte dos obstáculos sem dificuldades, Fez um pouco mais de esforço no oxer, mas passou limpo, o próximo grande problema era o triplo final. O triplo é um obstáculo que tem 3 fases, os dois primeiros tem 2 lances de distância entre eles, enquanto o último está a 5 lances e é levemente mais alto, era justamente nesse obstáculo que os conjuntos estavam tendo mais dificuldade.

A abordagem do primeiro obstáculo foi perfeita, centralizada e com a distância correta, Belle Époque parecia voar. Os dois primeiros obstáculos passaram limpos, o último precisava de uma força maior, Camus acabou se adiantando na hora de acompanhar o movimento, mas o cavalo entendeu o movimento que precisava ser feito e saltou no momento certo, passando limpo.

Camus terminou sem faltas e dentro do tempo. A equipe francesa ganhava o ouro. Ele comemorou muito, soltou as rédeas e deixou que Belle Époque descontraísse o pescoço enquanto galopavam pela pista. O estádio explodiu em comemorações, assim como a equipe.

Após a segunda passagem, Camus realizou o percurso com a mesma qualidade da classificatória, ficando novamente em primeiro, seguido por Afrodite e Misty.

A Etapa FEI de Hipismo Completo de Marselha terminou com a equipe Francesa com o ouro, a equipe Britânica com a Prata e a equipe Belga com o Bronze, e no individual, com Camus Trudeau com Belle Époque com o ouro, Afrodite Olsson com Queen Blood Rose levou a prata e Pandora Ritter com Caos Box, ficou com a medalha de bronze .

Milo estava muito feliz por poder acompanhar uma prova de nível tão alto, comemorou muito no galope da vitória da equipe, querendo ou não, dois cavalos ali eram de sua responsabilidade, tinha uma parcela nessa vitória, mesmo que pequena.

No galope da vitória do individual, Camus galopava tranquilamente e sempre apontava para o cavalo, deixando claro que seu companheiro merecia todas as glórias. Novamente Milo se impressionou com o sorriso do ruivo, ele precisava sorrir assim mais vezes.

Após a premiação, os cavaleiros, treinadores e veterinários das equipes eram convidados para uma festa de gala. Os cavaleiros, Shion e Saga foram, os demais ficaram nas cocheiras para comemorar com os tratadores, que era parte mais que fundamental da equipe.

Milo, Mime e Sorento compraram cervejas e comidas, junto com os 4 treinadores da equipe, ficaram até quase até às 3 horas da manhã.

— Um brinde ao Milo — Mime iniciou um brinde com sua garrafa de cerveja. — O novato que com menos de um mês colocou 2 cavalos no pódio!

Todos acompanharam o brinde.

— A maior parte do trabalho foi feito por vocês antes de mim, eu só ganhei os créditos! — Milo riu.

— É, é verdade. Um brinde a nós então, Sorento! — E brindou novamente.

Todos apenas riram e acompanharam o brinde, estavam embriagados, o motivo do brinde já não importava, o importante era beber.

Após os outros veterinários voltarem para o hotel e os tratadores para seus aposentos, Milo se deitou para dormir, relaxou o corpo e fechou os olhos. Em seus sonhos ouvia passos de cavalos e vozes ao fundo.

Acordou assustado notando que os passos não estavam apenas em seus sonhos, havia alguns cavalos soltos e alguém estava ciente disso.

Ele abriu a porta de sua sala lentamente, para não chamar a atenção, ouvia vozes em sussurros do lado de fora das cocheiras. Foi caminhando lentamente até ver Belle Époque sendo retirado de sua baia e puxado para fora, o cavalo estava muito tranquilo, então conhecia a pessoa que o estava conduzindo, os cabelos vermelhos presos em um rabo de cavalo alto não permitiam enganos.

— O que está fazendo? — Milo disse alto e rouco, para chamar a atenção do cavaleiro e também por estar um tanto embriagado e ter acabado de acordar.

— Milô… — O francês congelou e anunciou o nome do veterinário, olhando para fora, para as pessoas que o aguardavam. — Nós vamos dar uma volta.

— Às 3 e meia da manhã?

O cavaleiro saiu com o garanhão, sendo seguido pelo grego. Ao sair, ele deu de cara com o cavaleiro inglês com uma mulher de cabelos ruivos na garupa, a amazona japonesa e o cavaleiro sueco, todos montados em seus cavalos, com apenas uma manta e cabeçadas sem bridão. Eles sorriram sem graça.

— Independente de onde forem, é extremamente irresponsável e perigoso sair com os cavalos a essa hora. — O veterinário cruzou os braços perante os cavaleiros, esse movimento deixou seus músculos ainda mais visíveis desenhados pela camiseta.

— Querido, está convidado a ir conosco — Afrodite se apoiou no pescoço de sua égua, admirando o grego. Sorriu safado.- Não vamos nos incomodar, nem um pouquinho.

Aioria riu e acabou levando um leve tapa da moça que o acompanhava.

— Entendo sua preocupação, Milo, — Saori tentou melhorar a primeira impressão ruim causada pelo sueco. — Mas entenda, somos todos cavaleiros bem preparados, isso diminui os riscos, além de que só iremos dar uma volta, nada de mais .

O fato da japonesa tentar remediar só deixou Milo mais irritado, quem ela acha que era para dizer uma coisa dessas? Algo que poderia tranquilamente arrancar o emprego de Milo.

— Infelizmente, se insistirem, terei que avisar o Saga. — O grego pegou seu celular, ainda não discou nada pois iria esperar a posição do francês.

— Milô… — Ele chamou com o sotaque arrastado, aquilo acabava com qualquer defesa do loiro. — Você acha que eu colocaria o Belle Époque em risco?

Camus questionou, mas já estava decidido de seu próximo ato.

— Não esperava isso vindo de você, Camus…

— Bem, você tem duas opções, ou finge que nada aconteceu e volta a dormir, ou vai ficar aí nos vendo sair enquanto tenta tirar o Saga bêbado da cama que ele provavelmente acabou de deitar. — O ruivo estava irredutível, não deixaria aquele novato atrapalhar seus planos.

Milo ficou incrédulo com a audácia do cavaleiro, que sequer esperou sua resposta, apoiando-se em uma mureta e montando no seu cavalo. Ele não ia conseguir impedi-los, mas se contasse para seu superior tinha medo de ter repercussões negativas para ele, o mandarem de volta para a Grécia, até perder seu emprego lá! Ficou imóvel por algum tempo, até que optou por seguir os cavaleiros.

Camus conduzia a tropa, sendo seguido por Saori e Afrodite e Aioria e sua companhia. Eles seguiam se comunicando por sussurros até chegar próximo à saída do centro que dava na praia.

— Ei, Camus, seu veterinário resolveu nos seguir. — Aioria riu ao apontar para o grego que vinha a pé atrás dos cavalos emburrado.

— Ele não é meu veterinário. — O francês sorriu levemente, ganhar uma batalha contra o grego o colocaria em seu lugar.

— Gatinho esse seu veterinário, Camus. — Afrodite sussurrou, recebendo um olhar gélido em resposta por ter ignorado o que o francês acabara de dizer, ato que infelizmente não funcionava em seu amigo de longa data. O loiro riu com a reação do ruivo. — Se não quiser mais ele na equipe, manda pra mim.

— Fico feliz que tenha optado por nos acompanhar, Milo. — Saori foi cordial com o recém chegado, que não estava nem um pouco contente, muito menos com ela.

Camus nada disse, apenas posicionou seu cavalo e, antes que o grego pudesse pensar em dizer algo, galopou em direção à cerca de madeira do centro hípico, que deveria ter no máximo um metro de altura. Belle Époque saltou tranquilamente, se recebendo na areia fofa da praia, após alguns lances, ele abaixou a cabeça para cheirar o solo.

Saori e Afrodite foram em seguida, ambos os cavalos passaram sem nenhum problema pelo obstáculo, o sueco seguiu o galope em direção ao mar, deixando que o cavalo decidisse até onde gostaria de se molhar, ele parou quando as ondas chegaram aos joelhos.

A companhia de Aioria desmontou para que o cavaleiro saltasse, e aproveitou para se apresentar ao veterinário emburrado.

— Prazer, me chamo Marin, sou namorada do Aioria. — A jovem tinha um sorriso bonito, olhos azuis e cabelos cor de cobre ondulados que iam até o meio de suas costas. — Eu já estive no seu lugar, já fiquei brava por eles serem imprudentes, mas depois de um tempo a gente acostuma.

— A diferença é que a imprudência deles pode tirar meu emprego. — O grego disse nada amistoso ao passar por baixo da cerca.

— Camus nunca deixaria isso acontecer. — Ela nada mais disse, apenas foi em direção ao inglês que lhe ofereceu a mão para ajudá-la a montar novamente. Se apoiou em um pequeno morro de areia e com um impulso logo estava de volta na garupa do cavalo.

Milo não tinha certeza sobre isso, o francês não parecia se importar com o que poderia ou não acontecer com os outros, até por que, agora, ele via quatro cavaleiros de nível olímpico, com seus cavalos também olímpicos, brincando na praia, às 3 e quarenta da manhã, como crianças sem juízo, nenhum deles parecia realmente se importar.

Saori e Afrodite apostavam corrida na região onde as ondas quebravam. Aioria e Marin caminhavam com Lightning tranquilamente pela areia fofa. Belle Époque estava parado, com a cabeça baixa, aproveitando a brisa do mar, assim como seu cavaleiro, que tinha os olhos fechados e apoiava as mãos na garupa do animal, mantendo seu tronco para trás e a cabeça erguida em direção ao céu, os cabelos vermelhos caiam tampando as costas dele e formando uma capa sobre a região sacral do cavalo.

Por um minuto, Milo esqueceu sua raiva ao observar o francês totalmente relaxado sobre o cavalo, também muito à vontade, com o vento batendo em seus cabelos, a lua cheia deixava a noite clara, Milo ainda não tinha notado, mas o ruivo usava um colete a camisa social, provavelmente tinha acabado de sair da festa de confraternização, só havia trocado a calça social pelo culote, colocado as meias e um tênis esportivo.

Em algum momento a égua de Saori resolveu se deitar para rolar na areia, a amazona apenas desmontou e retirou a manta, permitindo que Goddess of War se espojasse tranquilamente. "Claro que ela ia querer fazer isso!" a japonesa riu. Milo acabou sorrindo, não havia nada mais gostoso do que ver um cavalo sendo cavalo.

O veterinário se sentou em uma moita e ficou observando os cavaleiros e seus animais brincando. Agora, Milo não via cavaleiros olímpicos com cavalos de alto desempenho, ele via adolescentes e seus cavalos brincando no final das férias. Os cavalos estavam descontraídos, realmente se divertindo ao bater as patas na água, ou correr pela areia.

Camus se aproximou do veterinário, mais por vontade do cavalo do que realmente dele, Belle Époque pediu carinho ao loiro sentado no chão que respondeu ao pedido do animal. Camus observava os outros, enquanto o grego fazia carinho no chanfro de seu cavalo.

— Nada vai acontecer com você, tem a minha palavra. — O francês disse firme, Milo realmente se importava com os cavalos e não podia negar que o que estavam fazendo era imprudente, e sabia que poderia trazer mais problemas para o estrangeiro do que para ele.

— Eu espero mesmo… — Ele respondeu em um tom fraco.

Se passaram mais de uma hora de brincadeiras na água e corridas pela areia, quando os cavaleiros optaram por voltar. A qualquer momento os tratadores iriam começar a oferta da ração da manhã, e os cavalos precisavam estar nas baias quando isso acontecesse. Todos os cavalos estavam sujos de areia e sal marinho, seria difícil explicar isso na manhã seguinte. Embora desarrumados, todos pareciam muito felizes e relaxados.

Milo acabou por dormir, apoiando a cabeça nos joelhos e acordou com o cavalo do francês mordiscando seu cabelo.

Eles repetiram os saltos, Marin desmontou, como da outra vez, mas seguiu no chão, junto com o veterinário. As cocheiras onde Lightning e Goddess of War estavam eram antes da do francês e do sueco, então eles desmontaram primeiro. Os outros dois continuaram reto, seguidos pelo grego.

— Você não combina com essa cara feia. — Afrodite tentou fazer o grego interagir e diminuir o clima tenso entre os três, mas recebeu apenas um olhar mais feio ainda em resposta.

— Afrodite… — Foi apenas o que Camus disse, sem olhar para o amigo, o tom seco fez o sueco entender que não era o momento de tentar algo, independente do que, com o grego.

O nórdico desmontou antes e disse que encontraria o francês na frente das cocheiras dele. Camus apenas confirmou e prosseguiu.

O silêncio predominou por todo o percurso até a baia do garanhão. Camus desmontou e levou seu cavalo para dentro sob o olhar duro do loiro. Retirou a cabeçada e a manta, limpou o excesso de areia dos cascos, se despediu e saiu.

Ele seguiu com o material, entrando na sala/quarto de Milo e os guardando em sua caixa. Até nisso ele tinha pensado, havia deixado o material separado para não precisar entrar e acordar o grego. Milo preferiu não comentar sobre.

Ao sair, o francês se aproximou do loiro, até um pouco de mais. O grego podia sentir a respiração e o hálito adocicado do ruivo. Sem saber o que fazer, Milo ficou imóvel, tentava manter a face séria, mas seu rosto estava vermelho.

— Obrigado por não falar nada ao Saga. — O ruivo disse com seu sotaque forte, levemente rouco, olhando o grego nos olhos e se afastando em seguida, com um sorriso de canto vitorioso.

Ele saiu fechando a porta e deixando Milo de pernas bambas. Se sentou em seu colchão e ficou alguns minutos para sua respiração e batimentos voltarem ao normal, sentiu seu baixo ventre formigar, precisando apertar seu membro sobre a calça para tentar impedir que uma ereção se formasse. O que esse francês estava fazendo com ele?

Notas finais
Segura que essas notas de rodapé vão ser grandes: (1) Reprise Hipismo Completo 4 estrelas B: Tentei descrever a prova toda, mas ficam aqui os movimentos mais específicos: — Tudo que for "reunido" é algo que o cavalo precisa colocar mais o peso nos membros de trás (naturalmente a maior parte do peso dos cavalos fica nas patas da frente), engajando os posteriores e mantendo a cabeça no ramener (posição vertical do ou próxima da vertical do chanfro do cavalo, acompanhada de elevação máxima do pescoço). — Espádua à dentro: exercício em três pistas no qual o cavalo se encurva uniformemente da cabeça ao rabo, deslocando-se paralelamente a si mesmo. Os ombros e os anteriores saem da pista, mantendo-se nela os posteriores. O ângulo em relação à direção do movimento não deve exceder os 30º. — Recuo: Nada mais do que passos para trás, em linha reta. — Apoio: exercício movimento lateral em duas pistas que vai para frente e para o lado. É executado pelas linhas das diagonais ou pela linha do meio em direção à parede. É um exercício mais difícil tanto para o cavalo quanto para o cavaleiro. O cavaleiro tem que prestar muita atenção no centro do movimento para não atrapalhar o cavalo. — Troca de pé: O cavalo que antes estava galopando com um dos pés iniciando o movimento, faz a troca por indução do cavaleiro, durante uma passada. (Fonte: Adestramento Brasil) Recomendo assistirem o vídeo: "Michael Jung and Fischer Chipmunk left us speechless! FEI Eventing World Championships 2022" no canal do Youtube da FEI, é uma reprise muito parecida com a que eu descrevi para o Camus, para terem uma ideia dos movimentos (2) Pós prova: Não é fácil ser veterinário, após cada treino, e principalmente provas longas como o CCE, é necessário uma série de fisioterapias e tratamentos coadjuvantes para ajudar os cavalos a se recuperaram para os outros dias. Eu sou veterinária de cães e gatos (infelizmente), então não levem esses protocolos como regra, pesquisei os documentos da FEI para saber quais tratamentos são permitidos ou não, mas nada impede de algum estar errado. (3) Reconhecimento da pista de Cross Country: É liberado aos cavaleiros caminharem à pé pela pista da prova de cross, pelo menos 24h antes de seu início. a função é que eles definam os melhores trajetos e possam identificar obstáculos nos quais seus cavalos possam ter problemas. (4) Cavalos deitados: Por mais que o conhecimento popular diga que se o cavalo deitou ele está doente, é normal que eles deitem para descansar, principalmente os cavalos que estão adaptados a baias, eles se sentem seguros para dormir deitados ♥ MAS, se um cavalo está rolando, deitando e levantando várias vezes, com a respiração descompassada e sudorese. é bom chamar um veterinário! (5) Dos termos em Francês: — Vá à la merde: Nem precisa de tradução né, um sonoro vai à merda. Super imagino o Camus com seu super sotaque falando isso. — Pardon: Perdão. Também não precisava de tradução, né? Acho que estou subestimando vocês, queridos leitores, desculpem. — Bonne nuit, À demain: Boa noite, até amanhã. (6) O Cross Country ♥: Minha prova favorita, embora eu mesma não a faça. Recomendo assistir o vídeo: "Equestrian - Eventing Cross Country - London 2012 Olympic Games" no canal Oficial das Olimpíadas, é a prova de Londres 2012, é uma 4 estrelas também, assim como a da história. Os obstáculos são lindos e o vídeo da uma ideia legal do tamanho do percurso. Já testei o colete de airbag, é muito legal, fora a parte de cair... (7) Pós prova do Cross: Imaginem correr 6 km, pulando, subindo e descendo uns trem. Cansa, então antes de dar um banho completo nos cavalos, deixamos ele esfriar um pouco, mas sempre em movimento. Essa prova consome muita energia e requer muito condicionamento físico, então os cavalos recebem ainda mais atenção veterinária do que depois do adestramento. Já viram os atletas do atletismo ou ginástica entrando em banheiras de gelo? É quase a mesma coisa, só não tem banheiras do tamanho deles. Pelas minhas pesquisas, e do pouco que eu já acompanhei das provas de CCE (infelizmente), soro e vitaminas são permitidas. Novamente, não trabalho com cavalos ( ='/ ) , essas quantidades de soro podem estar erradas. (8) Bronze da Equipe francesa em Tóquio: É real, e o sexto colocado no individual também, mas infelizmente não foi o Camus haha. (9) Reconhecimento do Salto: Basicamente a mesma coisa do cross, os cavaleiros andam a pé pelos obstáculos, podem calcular as passadas e os melhores modos de chegar em cada um. Além de descobrirem a ordem que deve ser feita. (10) Bora falar dos obstáculos do salto: Recomendo o vídeo "Aula Gallope 4 - Tipos de Obstáculos" no canal Centro Equestre Gallope, à partir do min 1:37. Eles mostram todos os tipos de obstáculos que eu coloquei no percurso descrito, mas com imagens, muito mais didático do que eu descrever cada um aqui. O único que eles não comentam é o liverpool, que é uma "bacia" de água entre as varas de um oxer, é uma versão compacta do rio. Os cavalos gostam de assustar com eles. Os obstáculos compostos, como os druplos ou triplos, são nomeados por letras, o primeiro é o "a", o segundo o "b" e assim vai. A FEI tem muitos vídeos de provas, tanto de hipismo completo quanto de salto e outras modalidades hípicas, recomendo todos haha. (11) Apresentar os obstáculos: É comum, para que o cavalo não veja aquela coisa estranha que ele precisa pular, pela primeira vez na vida, na hora do salto. Eles costumam olhar bastante e as vezes cheiram o obstáculo, quanto mais colorido e enfeitado, mais o cavalo olha. Saber conduzir o cavalo e evitar desvios é parte da prova. Aproveitando o número: Paraflanco são os suportes das varas, onde ficam as decorações. É comum cavalos muito francos e potentes saltarem mais alto do que eles, mas isso não caracteriza penalidades ou pontuação a mais. É isso, fim das explicações! A partir daqui os dois começam a se relacionar mais. O próximo capítulo vai ser mais leve, mais sobre o pós prova e tal. Espero que tenham pego as referências dos nomes dos cavalos. Algumas coisas desse capítulo vão fazer sentido mais pra frente, então continuem lendo! Novamente, qualquer duvida fiquem a vontade para perguntar. Qualquer crítica, ideia ou elogio, fiquem a vontade para comentar ♥ Até mais!