Notas iniciais
Olá!!! Desculpem a demora para liberar esse capítulo, muita coisa aconteceu e eu fiquei um pouco apática de mais essas últimas semanas, felizmente já estou medicada e, as coisas estão voltando a dar certo. Esse capítulo vai falar um pouco sobre o maior problema de saúde de um cavalo: As temidas cólicas. A síndrome cólica é um conjunto de sinais clínicos gastrointestinais que afetam direta e indiretamente a qualidade de vida dos cavalos, em quadros mais graves que precisam de cirurgia, pode ser necessário de 3 a 6 meses de recuperação para que o cavalo volte a ser montado. Espero que gostem!!

Milo entrou na baia e apalpou a região sub-mandibular do cavalo, os batimentos estavam elevados, ele estava com muita dor.

— Camus, pegue o cabresto, por favor — O veterinário solicitou ao cavaleiro, ficando em uma posição em que conseguia ajudar o cavalo mas não corria risco de sofrer algum acidente. — Vamos tentar levantar ele e levar para o hospital.

Colocado o cabresto, Milo ergueu a cabeça do cavalo, e apoiou o pescoço, Camus dava comandos de voz para que ele se levantasse e lhe empurrava a garupa, mas o cavalo não conseguiu. Depois de duas tentativas, Milo repensou.

— Vou canular ele aqui, fazer um analgésico e aí nós levamos ele pra lá, está com muita dor, não vai conseguir andar assim. — Milo se abaixou na frente do cavalo e acariciou-lhe a face. — Calma grandão, vamos cuidar de você.

Camus ficou com o cavalo enquanto Milo ia buscar a caixa de atendimento de emergência, que ficava na sala.

— Milo, não é melhor esperar o Saga chegar? — Mime perguntou apreensivo, o mais velho era o veterinário do cavalo, e eles tinham ordens diretas para não tratá-lo de maneira nenhuma.

— Não dá tempo, eu preciso sondar ou ele pode morrer. — Milo encarou os outros dois veterinários e sorriu — Vai ficar tudo bem.

Os dois concordaram mas disseram que iriam pedir para o Saga chegar mais rápido, o grego concordou, dois veterinários tratam uma cólica melhor do que um.

Ao voltar para a baia, o coração de Milo despedaçou ao ver o estado do cavaleiro francês. Camus estava ajoelhado abraçado à cabeça do cavalo, que respirava mal, seus cabelos vermelhos se misturavam à crina do animal e seu rosto estava molhado pelas lágrimas. Camus parecia sentir a dor de Belle Époque.

— Ei. — Milo fez a sua melhor cara de confiança e tocou o ombro do ruivo. — Eu vou fazer o impossível por ele.

Ele apenas concordou, secando o rosto com as costas das mãos, parecia uma criança desesperada pois seu melhor amigo está doente. Aquele olhar fez Milo perder o ar, tinha vontade de abraçá-lo até que ele parasse de chorar, mas a prioridade era o cavalo.

Com a máquina de tosa portátil, Milo fez um retângulo no local anatômico da jugular. Passou um anti séptico, colocou a luva e explicou para o cavaleiro como deveria segurar a cabeça do cavalo para o ajudar.

Ao passar o cateter pela veia do cavalo, o sangue vermelho fluiu, garantindo que estava no local certo. Ele retirou a agulha, fechou o cateter com um adaptador e pegou a cola e o adesivo que iriam manter o objeto no local e limpo.

Voltou-se novamente para a caixa de emergência e pegou um analgésico, antes da viagem, haviam pesado todos os cavalos, ele estava com um peso bom para o porte, 550 kg. Feita a medicação, pouco tempo depois o cavalo pareceu relaxar e minutos depois, conseguiu ficar em pé, mesmo que com dificuldade.

— Vamos, preciso sondar ele logo. — Milo abriu espaço para que Camus saísse com o cavalo da baia.

Foram caminhando lentamente até o hospital, onde os outros veterinários já haviam deixado o tronco de contenção e materiais preparados para o atendimento. O tronco funciona como uma maca, impede que o cavalo se movimente e dá um pouco de apoio caso ele caia, mas nunca é bom quando o cavalo cai dentro do tronco

— Obrigado por adiantarem as coisas aqui, — O grego sorriu agradecido, uma equipe bem preparada garante um prognóstico melhor para o paciente. Ele olhou nos olhos do ruivo. — Camus, eu vou sondá-lo, você não precisa ficar aqui, não é confortável, mas precisa ser feito.

— Eu não vou sair do lado dele. — Camus estava decidido e Milo concordou. Não tinha motivo para obrigar o outro a se afastar, o cavalo se sentia mais confortável com ele. O grego separou a sonda, fez a medida no corpo do cavalo, posicionou o balde que iria receber o conteúdo que voltasse e se posicionou na frente do animal.

A sondagem nasogástrica é um procedimento extremamente importante no atendimento de cavalos apresentando síndrome cólica. Consiste na colocação de um tubo pela narina e que chega até o estômago, para retirar o excesso de conteúdo ou gás e diminuir a dor e os riscos de ruptura.

Milo lubrificou a sonda com um gel com anestesico local, assim como passou uma quantidade na narina direita, posicionou uma das pontas da sonda na narina do cavalo com a mão esquerda e passou a sonda por traz do próprio pescoço e segurou a outra ponta com sua mão direita. Enquanto Camus segurava a cabeça de Belle Époque para que ele não se movesse, o veterinário foi empurrando a sonda lentamente, e assoprando na outra ponta, para estimular que ele engolisse e abrisse o esôfago.

A partir de um certo ponto, Milo mostrou ao cavaleiro uma nova posição para segurar o cavalo, de modo que a cabeça ficasse em um ângulo maior que 90º. Essa posição fecha a traquéia e abre o esôfago. O cavalo engoliu a sonda e ela seguiu progredindo facilmente até chegar no estômago, quando sentiu uma resistência, ele fez uma leve pressão empurrando ar e tirou a outra ponta da sonda da boca, posicionando-a no balde.

O conteúdo estomacal que vinha pela sonda era de coloração verde escuro, com vários grãos de ração e odor forte. Conseguiram retirar dois baldes de conteúdo e o cavalo já parecia mais aliviado.

No acesso que pegou na baia, Milo iniciou uma fluidoterapia agressiva, precisava manter o cavalo hidratado, quadros de cólica causam uma perda muito grande de líquido para dentro do trato gástrico.

Fez mais algumas medicações para deixar o animal confortável e coletou sangue e líquido abdominal, que foi prontamente levado ao laboratório por Sorento. O grego estava preparando o ultrassom quando Saga chegou.

— O que aconteceu? — Ele sabia que o cavalo de Camus estava com cólica e que Milo estava cuidando, mas não sabia em que situação iria encontrá-los.

— Acredito que uma sobrecarga gástrica, mas parece ter refluxo então pode ter algo mais. — Milo falou sem olhar para o supervisor, enquanto passava a probe do ultrassom pelo abdômen do cavalo, mostrou a imagem para o recém chegado. — Tem bastante conteúdo no estômago ainda, também parece não estar passando nada para depois do jejuno, pode estar compactado mas ainda tem um pouco de motilidade.

Camus abraçou ainda mais a cabeça do cavalo quando ouviu as palavras do grego, estava se segurando muito para não voltar a chorar na frente de todos. Depois do ultrassom, Saga chamou Milo para conversar, o grego concordou e apenas pediu que Camus ficasse ao lado do cavalo, de onde ele não iria sair de qualquer modo, pois ele era quem Belle Époque mais precisava no momento.

Milo estava tenso, sabia que não vinha coisa boa por aí. Sabia das regras e sabia da mais importante, mas não tinha outra opção. Saga fechou a porta e se apoiou na própria mesa.

— Milo… — Ele estava sério, encarava o grego com um olhar que Milo não conseguia decifrar.

— Eu sei que não é permitido que ninguém medique o Belle Époque, que não você — Preferiu falar logo, talvez se o outro entendesse a urgência do quadro, ele teria uma chance de continuar lá. — Mas ele estava com muita dor, o estômago estava cheio, poderia romper a qualquer momento e íamos perder ele.

O mais velho não disse nada, esperando que Milo terminasse de se justificar.

— Foi ele quem me chamou… — Por fim ele abaixou a cabeça. — Ele me pediu para fazer algo. Sei que era uma regra simples, mas eu não podia deixar o cavalo naquela situação. Ele está estabilizando, mas o caso é seu, pode dar continuidade…

Milo não queria deixar de tratar do garanhão, sabia que podia resolver, e também, havia prometido a Camus que faria tudo por ele, deixar o caso não era exatamente parte disso.

— Bem, você tem o contato do Sísifo, pode relatar a ele e ele passará para a federação. — Ele estava muito chateado, sua voz saia embargada, por não poder continuar tratando o cavalo, por correr o risco de ser mandado embora por ajudar a salvar o paciente, por ter quebrado a única regra imposta a ele, embora fosse uma regra idiota, um mar de emoções passava pela mente do mais novo que não olhava mais para Saga.

— Vou relatar, sem dúvidas… — Saga relaxou, dando um sorriso leve. — Vou relatar que você foi extremamente competente, agindo na hora certa e corre o risco de ter salvado um cavalo olímpico.

Ele olhou surpreso para o outro loiro, não entendia, mas estava feliz.

— Quando Mime me ligou, a primeira coisa que ele disse é que Camus havia chamado você, em nenhum momento ele perguntou por mim. — Saga colocou as mãos nos ombros do grego. — Camus nunca fez isso, se ele confia a vida do cavalo dele a você, não vou ser eu que irei questionar, muito menos a federação. O caso é seu, eu serei seu auxiliar.

O veterinário mais velho abraçou o mais novo, em um gesto fraterno, Milo queria chorar, era muito bom ter seu trabalho reconhecido por alguém tão experiente quanto Saga.

— Bem, isso se o Camus quiser… — Saga sorriu e viu um sorriso bonito abrir no rosto do outro loiro. — Mas acho que é exatamente o que ele quer.

Os dois saíram da sala dando de cara com os outros dois veterinários, que ficaram envergonhados por serem flagrados ouvindo atrás da porta. O maior os olhou indignado, mas seguiu caminhando até o cavalo internado.

— Administrei analgésicos e antiinflamatórios. O exame físico melhorou consideravelmente. — O grego explicou o protocolo utilizado para o mais velho, enquanto caminhavam. — Vou tentar dissolver a compactação com fluido e óleo mineral, ainda pode ser necessário cirurgia, mas quero estabilizar o máximo possível antes.

— Milô… — Camus o chamou assim que chegaram. Por um segundo, acreditou que o francês pediria que Saga desse continuidade, sua frustração voltou como uma bomba. Com certeza sua cara expressou isso.

— Quero que você cuide dele e caso precise… — Camus olhou nos olhos do grego, sua voz saiu embargada, não queria pensar sobre aquilo. — De outros procedimentos… Quero que você esteja junto.

Milo concordou, por fora estava sério, mas por dentro dava saltos de alegria. Camus confiava nele, então ia fazer valer esse voto.

— Vamos lavar o estômago e te dar óleo para tentar fazer essa coisa que está parada aí se mexer, não é grandão? — Milo sorriu, acariciando o pescoço do cavalo que ainda estava muito apático. — Depois vamos andar um pouco para induzir motilidade.

Os procedimentos foram feitos com tranquilidade, Camus e Saga saíram para caminhar com o cavalo enquanto Milo ficou para colocar o protocolo no sistema e definir os horários das próximas medicações.

Os dois caminhavam lentamente com o cavalo, ele não estava com muita vontade, mas era necessário. O veterinário carregava o suporte de soro enquanto o cavaleiro conduzia o animal.

Os cavaleiros nas pistas por onde passavam paravam para comentar, alguns ficavam surpresos, outros faziam cara de tristeza. Camus odiava isso, já havia passado por isso e não queria que tivessem pena de si. Shion veio perguntar como estava Belle Époque, o ruivo não abriu a boca, ainda estava chateado pelos acontecimentos de alguns dias atrás, ainda mais agora que seu cavalo estava verdadeiramente doente.

— Sabe Saga… — Camus chamou a atenção do outro depois que o treinador foi embora. — Eu entendo que preciso ter mais de um cavalo. Entendo que posso acabar sobrecarregando ele… Mas eu tenho medo.

Saga o olhou curioso, o ruivo não era muito de se abrir, aquela estava sendo uma situação realmente estressante para ele.

Antes de receber Belle Époque, Camus havia ganhado muitas provas importantes com seu antigo parceiro, um belo puro sangue belga alazão chamado Aquarius. Ele tinha 12 anos quando o francês recebeu o potro de 4 anos e passou a dividir a atenção entre os dois. Após voltar de uma prova, Aquarius apresentou um quadro de cólica e veio a óbito três dias após a cirurgia. Camus entrou em depressão, passou por acompanhamento psiquiátrico e precisou de medicações para se reestruturar.

Saga acompanhou toda a batalha do francês contra sua própria mente e entendia o medo de que tudo aquilo acontecesse novamente.

— Ei! — Saga fez o mais novo olhar para ele — Agora você tem uma equipe, e nós não vamos deixar nada acontecer com ele. Você precisa pensar na sua carreira e, querendo ou não, ter mais cavalos vai te ajudar nisso.

— Obrigado, Saga. — Os olhos sempre frios voltaram a se encher de lágrimas. — Obrigado por sempre estar do meu lado.

O maior o abraçou e depois que ele voltou a se acalmar, voltaram com o cavalo para o hospital.

Ao chegarem, Milo tinha acabado de preparar mais algumas medicações que seriam feitas, também havia pendurado um saco de feno no tronco, caso o animal se interessasse. Os veterinários retiraram o conteúdo do estômago novamente antes de colocá-lo no tronco, ainda havia muita ração ali.

Camus aproveitou que os dois estavam com o cavalo e foi ao banheiro. Foi a deixa para Milo discutir as causas de tudo aquilo com Saga.

— Nós dois sabemos que houve um erro muito sério aqui, não é? — Milo encarou o outro. — Ontem enquanto ele caminhava, já haviam colocado o trato, provavelmente a noite colocaram de novo. E na hora que eu fui na baia ele estava sem feno.

— Eu sei, vou questionar os tratadores, esse tipo de coisa não pode acontecer com nenhum cavalo, menos ainda com ele. A diretoria não vai ficar feliz. — Saga olhou em volta, procurando pelo francês. — Não fale nada com Camus, ele já tem coisas demais para pensar.

Milo concordou, o foco agora era salvar o cavalo, o restante seria resolvido depois.

A rotina para o resto do dia foi assim: trinta minutos de caminhada, fluidoterapia e medicações, gelo profilático nos quatro membros, exame físico completo a cada trinta minutos, lavagem gástrica a cada duas horas. O cavalo chegava a apresentar melhora, mas à medida que o efeito dos remédios passava, ele voltava a sapatear, bater os pés no abdômen, todos sinais de dor. E nesses momentos, a presença de Camus era fundamental, ele conversava com o cavalo e o ajudava a se acalmar. Milo estava preocupado, mas muitas vezes parava o que estava fazendo para observar os dois.

A relação de Camus e seu cavalo era muito especial, havia uma confiança mútua e inabalável. O grego já havia conhecido cavaleiros que amavam muito seus animais, mas nada se comparava ao que presenciava ali.

Saga entrou em contato com um hospital em Paris, caso fosse necessário que Belle Époque fosse operado, iriam levá-lo para lá, avisou isso para Milo por mensagem, para não deixar o ruivo mais ansioso ainda.

Assim como Milo, Camus não saiu de perto do seu cavalo em momento nenhum. Saga acabava tendo que resolver algumas coisas então precisava se ausentar em alguns momentos, mas fazia o possível para voltar rápido, ele buscou comida para os dois e o grego obrigou o francês a comer, alegando que se ele passasse mal ia dar mais trabalho e não ia poder ficar com o animal.

Já era tarde da noite quando Saga e Camus voltaram de mais uma caminhada com Belle Époque, o ruivo estava visivelmente exausto, física e psicologicamente.

— Camus, não quer que eu te leve para casa? — Saga colocou a mão sobre o ombro do mais novo que estava com a cabeça apoiada nos braços, sobre a barra de ferro do tronco de contenção. — Você precisa descansar.

— Não precisa, posso ficar aqui, eu estou bem. — Ele falou sem ter muita certeza sobre suas palavras.

— Camus, eu vou ficar aqui, não vou sair do lado dele. — Milo olhou no fundo dos olhos do ruivo. — Tem a minha palavra.

Usar a mesma frase que ele usou na praia foi uma boa técnica. Milo confiou nele, ele podia confiar no loiro agora. Mas Camus achava injusto o grego ter que ficar a noite toda sozinho.

— Eu posso ir com meu carro… E volto mais tarde, para você não ficar sozinho… — Ele estava tão cansado que as frases saíam lentas de sua boca.

— Camus, eu estou acostumado, não se preocupe com isso. — Milo sorriu, precisava passar confiança para o ruivo. — E qualquer coisa que eu precise Mime e Sorento estão aqui do lado. Está tudo bem.

Depois de muito trabalho, e só depois que Milo prometeu várias vezes que ligaria caso algo acontecesse, Saga conseguiu colocar o francês dentro do carro.

Uma porção do caminho até Orleans ele foi falando sobre como estava preocupado, outra pequena parte ele dormiu, o que deu alguns momentos de paz para o loiro e por fim, quase chegando ele decidiu que não queria ficar sozinho durante a noite.

Levando em consideração o histórico do menor, e pensando em evitar problemas em casa, Saga acabou por levar Camus para seu próprio apartamento. Ele não morava muito longe, era um prédio igualmente bonito, todos os apartamentos eram duplex. Enquanto esperavam o elevador, Saga mandou algumas mensagens.

Ele abriu a ponta lentamente, e gritou um "chegamos" ao entrar.

— Achei que ia ficar de plantão. — Um espécime exatamente igual a Saga apareceu no batente da escada. — Quem é a visita?… Ah, olá Camus!

— Oi Kanon… — Camus disse sem jeito. Havia se esquecido que seu psiquiatra era irmão gêmeo do veterinário. — Desculpe aparecer de repente.

Kanon era a cópia perfeita de Saga, apenas com a pele um pouco mais bronzeada e cabelos mais rebeldes, estava com uma camiseta velha e um shorts samba-canção azul, que provavelmente usava como pijama. Ele atendeu Camus após a morte de Aquarius, mas faziam alguns meses que não se viam.

— Não se preocupe com isso. — Kanon sorriu, Saga havia o avisado anteriormente sobre o quadro de saúde de Belle Époque, e que provavelmente Camus precisaria de uma nova consulta, só não esperava que seria durante a madrugada. — Venha, vou te mostrar onde deixar suas coisas.

Ele levou o ruivo para seu quarto, que havia sido arrumado cinco minutos antes, mostrou-lhe onde era o banheiro e o deixou à vontade. Depois desceu as escadas para falar com o irmão.

— Ele está péssimo. — Kanon suspirou enquanto o outro terminava um copo de whisky com gelo. Ele cruzou os braços encarando o irmão, bravo, ele estava bebendo todos os dias — Isso está começando a se tornar um vício, Saga.

— Eu cogitei deixá-lo no hospital, mas Milo ia ficar louco com ele e o cavalo para cuidar. — Ignorando completamente o comentário do gêmeo. — Achei que seria melhor ele ficar com a gente, por esses dias.

— Sim. — O mais novo concordou. — Ele foi tomar banho, se não estiver cansado demais para conversar, falo com ele hoje.

No fim, quando Kanon foi ver como ele estava, Camus já estava dormindo totalmente torto na cama, provavelmente só apagou. Ele o arrumou e cobriu, indo para o quarto ao lado que iria dividir com Saga, aparentemente, por alguns dias.

— Eu gosto de dormir do lado direito. — Anunciou assim que entrou.

— A cama é minha, eu escolho que lado vou dormir. — O mais velho resmungou, jogando um travesseiro no outro. — Ele estava dormindo?

— Uhum. — Kanon se ajeitou do lado direito da cama, ficando de frente para o irmão. — Você precisa ter paciência com ele, vai ser um período difícil, talvez eu precise voltar com as medicações.

— Juro que faço o possível.

Para os dois que dividiram tudo na vida, incluindo uma placenta, dividir uma cama de casal não era novidade, era confortável ter o irmão próximo.

A noite foi tranquila para Milo, Sorento o levou café próximo às três da manhã, o veterinário retirou a sonda nasogástrica e Belle Époque aceitou comer um pouco de feno logo que os primeiros raios de sol apareceram. Era uma vitória.

Saga mandou uma mensagem avisando que Camus iria passar por uma consulta e ele viriam em seguida. O coração do grego disparou, consulta? Do que? Podia o francês ter feito algo contra si durante a noite? Mas respondeu apenas um "Sem problemas, está tudo bem aqui."

Havendo uma melhora do quadro, Milo decidiu realizar uma surpresa para o cavaleiro. Pediu que Saga o avisasse quando estivesse chegando, iria levar o cavalo para os receber. Assim, quando Saga mandou mensagem, ele retirou o cavalo do soro e, caminhou com ele até a entrada das cocheiras, ele já caminhava com sua postura normal, com a cabeça erguida prestando a atenção em tudo ao seu redor.

Quando o viu, Camus saiu em um pulo do carro, o que quase matou Saga do coração. Ele correu até o cavalo que relinchava feliz ao vê-lo.

— Você está bem. Você está bem. — Camus repetia enquanto abraçava o pescoço do cavalo. Até tentou esconder, mas Milo notou as lágrimas escorrendo. Ele tinha chorado muito nesses dias. — Que bom que você está bem.

— Ele comeu um pouco agora pela manhã, se quiser dar uma volta, pode ser que ele aceite pastar. — O loiro sorria, mantendo a compostura, mas por dentro queria muito abraçar o francês e comemorar com ele.

Eles haviam vencido uma batalha, mas a guerra ainda não estava ganha, Belle Époque precisava defecar, ou teriam que começar tudo novamente.

Saga estacionou o carro e veio de encontro ao grego.

— O que houve? Ele parece bem. — Milo não queria se intrometer na vida do cavaleiro, mas estava preocupado demais para não perguntar.

— O psiquiatra dele achou que era bom ele passar por uma nova consulta. — Saga disse tranquilamente, mas o grego ficou ainda mais confuso, não imaginava que Camus passava por problemas tão sérios ao ponto de precisar de um psiquiatra.

— Como você conseguiu uma consulta psiquiátrica às 6 horas da manhã? — Saga riu, a presença de Milo era tão agradável que parecia que ele estava lá há anos, às vezes se esquecia que ele havia acabado de chegar. — Meu irmão é o psiquiatra dele. Camus decidiu que não queria ficar sozinho durante a noite, então o levei para minha casa, ele nem precisou sair de casa para a consulta, só acordar cedo mesmo.

Milo soltou um "Ahhh" quando as linhas se juntaram. Seguiram o caminho do francês, e quando o encontraram, o cavalo estava pastando e Camus estava com um sorriso radiante no rosto. Os veterinários sorriam também, Saga deu dois tapas nas costas do grego.

— Bom trabalho. — E seguiu em direção a sala para guardar suas coisas

Milo ainda precisou sondar o cavalo novamente no fim da manhã após um pico de desconforto. O ultrassom parecia melhor, o estômago estava bem menor e a massa que estava parada em jejuno já não era visível, se a motilidade não parasse novamente, era questão de tempo para ele melhorar.

Depois de mais de 36 horas com o cavalo, Saga ordenou que Milo fosse descansar. A contragosto, o grego foi para seu alojamento e desabou na cama. Voltou já à noite, quando o outro saiu para levar o cavaleiro para casa.

Tratar um cavalo com cólica é muito cansativo, a aferição de parâmetros contínua é necessária pois o quadro pode mudar a qualquer momento. Além de ser necessário prevenir problemas que podem aparecer após a cólica mas em decorrência dela, como quadros de laminite, que são muito difíceis de controlar e podem rapidamente retirar o cavalo de sua vida esportiva.

Milo continuou avaliando o trato gástrico do cavalo durante a noite pelo ultrassom, sem sinais de novas compactações ou aumento de volume por gás. Ele realmente só precisava defecar, então o veterinário o soltou no piquete e ficou observando.

Belle Époque caminhou por alguns minutos e, quando aceitou que estava livre, passou a trotar e correr pelo espaço aberto, mesmo doente, ainda tinha muita energia para gastar. Após uns 15 minutos solto, o cavalo finalmente defecou, inicialmente seco, passando para fezes normais depois.

Logo que amanheceu, Saga chegou com Camus, o mais velho com certeza queria ter continuado dormindo, mas o ruivo o infernizou para chegarem cedo. O cavaleiro ficou muito feliz com a notícia que o cavalo havia estrumado, a tendência era de melhora total a partir de agora.

— Você não parece muito animado, Saga. — Milo riu da cara de poucos amigos do outro loiro, enquanto observavam o ruivo que acariciava seu cavalo no piquete.

— Meu irmão me mandou ter paciência com o Camus. — Ele respirou fundo, massageando as têmporas. — Considero uma vitória não ter o jogado do décimo andar, sabe? Ele tem insônia por conta dos remédios, eu não.

Durante a tarde, Milo seguiu acompanhando o cavalo no piquete. Não apresentou novos sinais de dor, tudo ia bem. Camus se aproximou dele, com dois copos de café, oferecendo um ao estrangeiro, que aceitou prontamente.

Permaneceram ali por alguns minutos, apenas em silêncio. Belle Époque se aproximou do dono, pedindo carinho e curioso para saber o que ele estava tomando, ao perder o interesse pelo líquido escuro, ele se afastou para pastar.

— Há três anos… (1)- Camus quebrou o silêncio, surpreendendo o grego. Ele estava sério, mas um tanto melancólico. Desde o primeiro dia da doença do cavalo, o ar soberbo do ruivo desapareceu, agora ele parecia ter medo de algo. — Fomos para Tóquio com uma equipe completa, tínhamos tudo para ganhar. Meu parceiro era o Aquarius, você já deve ter ouvido falar dele.

Milo não interrompeu o outro, mas confirmou com a cabeça.

— Fomos muito bem nos dois primeiros dias, mas algo aconteceu com ele antes da prova de salto. — Não olhava para o veterinário, seu olhar estava perdido, como se revivesse o momento. — Fizemos 10 pontos por falta, minha nota foi descartada e acabamos em terceiro, mas apenas por todos os outros terem ido muito bem.

Novamente o cavalo se aproximou, como se percebesse que seu amigo precisava de apoio. O francês o acariciou, sorrindo. Ele permaneceu ali, recebendo o agrado.

— Eu fiquei frustrado, saí de "garantia de medalha de ouro" para "aquele que prejudicou o resultado final do time". Quando voltamos, eu fiquei alguns dias sem vir para o haras, Belle era muito novo e ainda estava começando a ser montado, mas quando voltei só me importava com ele, agia como se o Aquarius não fosse mais meu. O veterinário dele, na época, chegou a me avisar que ele tinha apresentado um desconforto, mas que havia sido resolvido.

A dor era visível no rosto sempre inexpressivo do ruivo. Milo queria abraçá-lo e dizer que estava tudo bem, que ele não precisava reviver aquilo, mas o deixou continuar.

— Um tempo depois, o Saga me procurou e disse que ele estava com cólica e que precisaria ser operado, eu fiquei sem chão, me senti culpado por ter o deixado de lado. Fomos para Paris, ele foi operado em um dos melhores hospitais da França, mas veio à óbito três dias depois.

Milo sabia que o antigo cavalo de Camus havia morrido, mas não foi divulgada a causa da morte. Sensacionalistas chegaram a especular que ele tivesse sido eutanasiado (2) por conta do desempenho ruim na olimpíada, o que não foi positivo para a fama de Camus e, agora ele sabia, com certeza também não para a saúde mental dele.

— O esporte deixou de fazer sentido para mim, tudo deixou, na verdade. — Ele deu um leve sorriso irônico. — Eu só saia de casa para ver o Belle Époque, mas não montava, sequer assistia os treinos dele com Shion. Eu não comia, não bebia água, menos ainda falava com alguém, as coisas só mudaram depois que eu fui parar no hospital por ter sido encontrado desmaiado no carro, na estrada para Orleans. O irmão do Saga me atendeu na emergência e passei a ser acompanhado por ele, depois de 3 meses de remédios eu finalmente voltei a montar.

— Deve ter sido muito difícil para você. — Milo não sabia ao certo o que dizer ao cavaleiro, mas sentia que precisava o apoiar, afinal, ele não teria contado sua história se achasse que seria julgado.

— No retorno eu achei que estava tudo acabado, que não conseguiria voltar às grandes provas pois a federação não me via como antes, mas me apoiei no Belle Époque, e ele foi meu único amigo por muito tempo, mesmo tendo me derrubado várias vezes no começo. Eu sei que foi só para me deixar mais forte, não é Belle? — Camus sorriu para o cavalo, acariciando-lhe o chanfro. — Isso fortaleceu muito nossa relação e conjunto e eu não posso cogitar o perder.

Novamente os olhos do francês se encheram de lágrimas, mas ele as conteve bem.

— Demorei para voltar a competir, eu tinha medo que depois de viagens longas ele tivesse algum desconforto, mas ele sempre foi muito saudável e resistente. A federação viu o potencial dele e resolveu voltar a investir em nós, definiram uma equipe para mim: Shion, Saga, meu tratador Frederich, todos passaram a me acompanhar mais de perto, o que nos fez evoluir muito, Mas ao mesmo tempo me fez perder a confiança nos demais, apenas eles podem tratar, montar ou cuidar dele, pois é só neles que eu consigo confiar.

Finalmente o cavaleiro se voltou para o grego.

— Enfim… — Ele sorriu. Milo quis poder ter uma foto daquele sorriso. — Eu te contei tudo isso, para lhe agradecer por ter quebrado uma regra, que eu mesmo impus, para ajudar ele.

— Por que eu? — O veterinário perguntou, uma pergunta real, qualquer um ali poderia ter feito o mesmo, mas Camus o procurou. — Você conhece o Mime e o Sorento a muito mais tempo, eles são igualmente competentes.

— Ele gostou de você. — Camus sorriu sincero, relembrando a primeira frase que disse ao loiro, Milo abaixou o rosto sorrindo, encabulado. Voltaram a ficar em silêncio, apenas observando o cavalo que pastava tranquilamente.

A recuperação de Belle Époque foi rápida. Na primeira semana, Milo manteve fluidoterapia por um período do dia associada a medicações intravenosas, na semana seguinte passou a fazer fisioterapia de solo com o cavalo pelo menos uma vez por dia e três semanas após, ele já estava pronto para ser montado novamente.

Notas finais
Legenda: (1) Geralmente o ciclo olímpico é de 4 anos, mas por conta da pandemia de Covid-19, a olimpíada de Tóquio aconteceu realmente em 2021, o que fez com que o ciclo para Paris 2024 fosse menor. (2) Eutanásia: É simplesmente a pior coisa que existe para nós veterinários. Conhecido como "sacrificar", nada mais do que aplicar uma medicação que faz com que o coração do animal pare. Acreditem, odiamos fazer isso, nosso trabalho é salvar vidas e ficamos muito mal quando não conseguimos ou quando o animal está tão mal que não há outra opção. Há histórias de cavalos que foram eutanasiados por não terem resultados bons em corridas ou outros esportes, mas nenhum veterinário ético deveria fazer algo assim. Quando eu pensei nesse capítulo, a ideia inicial é que Belle Époque precisasse de cirurgia, seria uma cólica mais grave que demoraria dias para ser resolvida. MAS, como eu disse, a recuperação de casos cirúrgicos é lenta, e isso tiraria o Camus da olimpíada de Paris, o que é quase um crime, então passei para um quadro mais leve. Mas não se enganem, qualquer cólica, mesmo mais leve, pode evoluir para uma cólica cirúrgica e levar o cavalo à morte. Conhecemos um pouco do passado de Camus, voltarei a falar sobre ele mais para frente, mas nosso ruivinho sofreu muito com a perda do Aquarius. Como sempre, fiquem à vontade para perguntas! Comentários produtivos sempre são bem vindos! Estou de olho em vocês lendo e não me dando nem um oi, eu sou carente tá? Até mais!!