O Mundo de Pocema

23 Capítulo 23: Coração partido


Já estava me despedindo da Anna, quando recebi uma mensagem do Miguel.

Vou pedir permissão dos seus pais para a gente namorar!

Cuspi minha água e fui direto para o teclado:

Não! Deus ainda não respondeu a nossa oração! Espere mais um pouco!

Já esperei demais! —Ficou ofiline.

Não sei se conto para os meus pais ou não. Talvez ele desista. Foi só um desabafo comigo. Então eu fiquei olhando para a porta da sala por duas horas e ele não apareceu.

Fiquei aliviada, mas meio triste também. Admito estar apressada tanto quanto ele, mas decidi ajudar a minha mãe na cozinha para esquecer de hoje.

— Só falta colocar esta torta de queijo no forno. — Disse.

— Eu ponho, minha filha.

Logo a campainha tocou e o Daniel veio falar com a gente:

— Mãe, o Miguel quer falar com você e com o pai.

Juro que meu coração deu um estalo que até doeu! Ele estava mesmo determinado! Não tive coragem de entrar na sala, eu espiei pelo corredor.

Miguel estava com o semblante muito feliz (Eu também. Para falar a verdade.), com rosas nas mãos. Minha mãe estava super contente e meu pai....não.

Miguel falava como um poeta que todo dia será flores e que irá me respeitar, mas meu pai cortou suas doces palavras no meio.

O Miguel ficou pálido com tanta coisa que meu pai falou. Disse que éramos jovens, que ele tinha segundas intenções e que ele estava fazendo uma "útopia" de uma vida de relacionamento. Meu pai pegou as rosas, furioso (assustou até a mamãe.)jogou no chão, e abriu a porta para que o Miguel fosse embora.

Aquele não era o meu pai! Papai sempre foi tão gentil, mas parecia que estava possuído! Eu só entrei na sala, com lágrimas e ódio, e disse algo muito feio:

— Eu te odeio! — Gritei.

Ele olhou para mim, respirando bem fundo:

— Está de castigo.

A coisa estava tão feia que a minha mãe me mandou ir para o quarto porque ela precisava falar com o papai.

Eu me joguei de baixo do cobertor e gritei, chorando, contra o travesseiro. Eu fiquei perguntando: "Por que, Deus???" toda hora. Até que eu adormeci.

No dia seguinte, eu comi, me troquei e fiz tudo no meu quarto. Na hora de ir, meu pai me levou de carro. Esse era o castigo. Só casa e colégio. Mas isso não me impedia de falar com o Miguel no recreio.

— Por que você fez isso?! — Perguntei, indignada.

— Eu não consegui esperar. Fraquejei.

— Por sua culpa, eu tô de castigo!

— Minha?! Eu peço permissão para os seus pais e eu sou o culpado?!

— É sim, seu idiota!

O silêncio reinou entre nós e o Miguel cortou isso da pior maneira.

— Não quero mais orar por nós. — E ele foi embora.

Meu pai me buscou no colégio, e decidi pedir desculpas:

— Pai, me desculpe. Eu não odeio você.

— Eu me magoei muito com isso.

— Eu sei, mas não foi a minha intenção, desculpa.

— Tudo bem. Eu também fiz um escândalo. Eu não sei o que deu em mim, só estava nervoso.

Quando o sinal ficou vermelho demos um abraço.

O almoço estava muito bonito e havia a torta de queijo também, mas estava sem fome. Meu coração estava moído como a carne moída da mamãe. — Depois eu fui para o meu quarto, fiquei de joelhos e comecei a conversar com o Jeová, pedi desculpas também e logo fui dormir.

— Filhota, acorda. — Era a minha mãe.

— Mãe? — Me sentei. — O que houve?

— Trouxe a sua torta.

Aquelas palavras fizeram a minha barriguinha um pouco mais feliz. A mãe da gente conhece nosso corpo melhor que nós mesmos.

— O papai está bem?

— Está bem. Não está mais magoado, não. — E você, como está esse coraçãozinho?

— Mal. — Vou ter que pedir desculpas para o Miguel.

— Brigou com ele?

— É.

Minha mãe deu mais um carinho e me deixou sozinha no meu quarto. Me peguei pensando no livro de gênesis e comecei a lê-lo.

A serpente era má, e conseguiu manipular a Eva. E sentimentos são fáceis de se manipular! Tenho certeza que foi isso que manipulou meu pai. Ele parecia um homem da caverna!

Hoje que vou pedir desculpas para o Miguel! Acordei até contente!

A aula de geografia estava interessante porque a cada minuto mais próximo do recreio mais eu temia.

Mas a hora chegou e não tinha por onde correr. Perguntei para o Rafael onde o Miguel estava e ele disse que estava perto das escadas, e foi o que eu fiz.

Chegando lá eu o vi. Fiquei até contente de vê-lo sorrindo com os colegas, mas, chegando mais perto, eram as colegas! Tudo em volta dele! — Eu só saí e fiquei bebendo meu suco em um canto.

Fiquei me perguntando se ele havia me esquecido, se aquelas garotas eram pretendentes dele. Mas um cristão não é mulherengo! Bom, não deveria ser.

— Falou com o Miguel? — Perguntou Rafael, sentando ao meu lado.

— Não. Eu o vi conversando com umas meninas.

Os olhos amarelos dele arregalaram, surpreso.

— Não sei o que dizer, sinceramente.

Eu queria perguntar sobre ele e a Bruna, mas preferi deixar quieto.

— Talvez seja melhor você desistir.

— Por quê? — Eu quase engasguei.

— Sei lá. Vocês eram amigos em processo de "aceitação" divina ou algo assim, mas agora que desistiram dessa coisa, vai continuar igual. Sei lá, nada mais nada é igual a nada. Sem sequelas, como o Miguel disse uma vez.

Nisso ele tem razão. Não aconteceu nada e só parou o processo de acontecer alguma coisa. Talvez os meus sentimentos pelo Miguel sumam um dia, também.

— Valeu, Rafael. — Dei um abraço nele, e ele me deu tapinhas camaradas. Foi até engraçado.

Depois conversamos sobre qualquer outra coisa. Falamos até de futebol, e eu nem sei como consegui, mas é melhor do que o meu estado triste.

Depois nos despedimos e fui conversar com as minhas amigas, até o recreio acabar.

— Eu pensei em fazer uma festa do pijama na minha casa, que tal? — Nina sugeriu.

— Vamos maquiar umas as outras! — Carol batia palminhas.

— Mas eu tô de castigo, garotas. — Suspirei fundo.

— Precisa ser breve? — Bruna perguntou. — Que tal mês que vem? A Pocema já deve ter saído do castigo até lá.

Concordamos.

— Certo! Mês que vem!

Fizemos um "toca aqui" supremo e fomos para a nossa sala.

A aula de matemática estava tão difícil que pedi para o professor explicar para três mim vezes e ainda não entendi.

— A Pocema é muito burra! — Disse um garoto qualquer.

A Bruna se levantou e (com os punhos amostra) começou a xingá-lo. A coragem da Bruna é o que me impressiona.

— Não ligue, Bruna. — Eu a cutuquei. — E obrigada. — Dei um sorrisinho e recebi outro em troca.

Na saída, nós quatro estávamos falando sobre séries, até que eu vi o Miguel. Mesmo que não ocorra mais nada entre nós, eu ainda tenho que pedir desculpas por xingá-lo.

— Depois a gente conversa. Eu tenho que resolver uma coisa. — Saí correndo.

Fiquei com receio dele fugir se eu o chamasse, então resolvi pegar o seu braço.

— Precisamos conversar. — Estava tremendo.

Ele virou-se, sério, para mim, prestando a atenção.

— Me desculpe se chamei você de idiota. E-Eu estava zangada com a negação do meu pai, a situação, tudo! Esperar é muito difícil, mas eu gostei da sua coragem, mesmo na hora errada! — Eu ria e chorava. — Miguel, você é muito corajoso. Não teria toda essa coragem, no seu lugar. Me perdoe, de verdade. Você não é um idiota, é um príncipe!

— Homem também chora, está bem? — Ele cobriu seus olhos com o seu braço.

Não resisti e dei um abraço nele e ouvi as palavras mais doces saírem da boca dele:

— Podemos continuar com a nossa oração?

— Po-podemos! — Eu soluçava.

Vi o carro do meu pai chegando e me despedi do Miguel.

— Por que você estava abraçando o Miguel? — Meu pai perguntou.

— Eu me desculpei com ele, papai.

— Ah sim, sua mãe me contou.

— Pai, por que você não gosta do Miguel?

— Nada contra. Só que ele gosta de você e você também gosta dele.

— Quando éramos pequenos também?

— Não. Eu gostava mais dele naquela época. — É que você está crescendo rápido demais.

— Papai ciumento. Eu sempre vou ser sua filha.

— Fico tranquilo em ouvir isso.

Eu cheguei em casa muito feliz! Almocei, estudei e brinquei com os meus irmãos

— Daniel, eu quero!

— Não, este é meu!

— Dá logo, Daniel! Ela vai chorar, assim!

Daniel fez um barco de papel lindo e a Carlota queria muito! E eu fiz um avião de papel que nem voava.

— Daniel, dá logo para ela! Faz outro para ti!

— Mas eu não sei se minha arte vai ficar tão legal quanto esta!

— Então faz outro para ela, ué. — Tenho que ensinar tudo!

O dia passou e, antes de eu dormir, contei tudo para Deus.

Obrigada por me ouvir, Senhor!

Hoje eu sentei no fundão e conversei muito. O professor mandava a gente calar a boca e eu fechava o bico, mas logo, por algum motivo misterioso, conversava de novo.

Observação: Não sente no fundo com as suas amigas. — Sozinha, talvez.

Na hora do recreio, eu decidi almoçar direito. Um arroz e feijão HUUUUMMMM que delícia!

— Pocema!

Com uma garfada olhei:

— Oi, Rafael!

Ele pegou no meu braço e começou a me puxar.

— Ei, ei, ei! Eu tô almoçando! O que houve?!

— Só venha!

— Não!

Ele parou de me puxar e segurou nos meus ombros, olhando fixamente para mim.

— Seus olhos são tão lindos...

— Sai de mim! — Dei um empurrão nele.

Eu ia sair correndo, mas fui segurada novamente. Os alunos estavam atordoados mais do que eu, tentando achar uma autoridade com os olhos.

Graças a Deus, o Miguel e o Daniel pegaram o Rafael o começaram a socá-lo. Mas o Rafael também tinha amigos, e ficaram dois contra dois.

— Parem! Eu estou bem, não estão vendo?! — Mas minha voz era inútil.

Mas graças a Deus, de novo, os soldados chegaram seguraram os quatro e foram anotados. Eles estavam na enfermaria e eu fui para perto da saída pedir para a mamãe nos buscar.

— Você ainda está aqui? — Perguntou Bruna.

— Minha mãe ainda não chegou. E você? O recreio já acabou.

— Disse para a professora que ia ao banheiro.

— Sinto muito pelo Rafael. — Disse amargamente, direto ao ponto.

— Não. Eu que vim me desculpar.

Eu só olhei para ela esperando:

— Eu vi tudo. Mesmo assim, eu estou com mais raiva de você. Por você ter roubado o Rafael de mim!

— Ahn?! Mas eu não roubei!

— Eu sei! — Ela estava tremendo. — Mesmo assim, esse é o sentimento que estou tendo! Eu lhe xinguei nos meus pensamentos, pensando: " Que garota sem sal!" e outros. Eu só queria desabafar e quero ficar longe de você, até que este sentimento vá embora.

— Não seja tão radical, assim! Não precisamos ficar longe! Eu posso te ajudar!

Ela negou com a cabeça, se afastando de mim:

— Você tem tudo! O Miguel, Rafael, sua vasta família...

— E vocês! — Disse.

— Exatamente! Você tem tudo! Eu só tenho a Nina, a Carol, você e meu pai. Nem mãe tenho mais!

— Meus pêsames. — Estava me sentindo culpada.

— Não se culpe, maninha. — Daniel estava vindo, segurando seu braço quebrado.

— Daniel, volte para a enfermaria!

— Não pode culpar a Pocema pela sua carência!

— Daniel, cala a boca!

— Não! Ela precisa ouvir a verdade!

— É verdade. Talvez eu seja carente, quem sabe. — Ela estava indo embora.

— Bruna, eu vou orar por você!

Eu prometo!

Ela agradeceu e foi embora, mas logo a minha mãe chegou para levar a gente para o hospital.

Bruna, eu oro para que seu coração se cure e que conheça o amor infinito. O amor que salvou a minha vida, o amor que derramou seu sangue inocente na cruz. Sinta este amor que eu sinto e será feliz! Claro que haverá dias sem sorriso, mas que nunca mais se sinta sozinha. Quando ninguém estiver online, você ainda possa conversar com Deus, sem medo.

Amém.

Notas finais
Admito que fiquei com vergonha desse namoro santo demais, achei meio cringe. Tem cristão que faz, eu não faria. Eu substituiria o "esperar a resposta de Deus" pelo "Fazer côrte". Porque kkkkkk porque aí ele pode dar uma resposta enquanto eu faço côrte kkkkk Sei lá, pelo menos posso dizer que já namorei kkkkk aí posso flar de ex (eu acho até chique kkk). Acredito que muitas garotas cristãs fazem isso por medo de virar ex porque muitas têm o desejo de se casar com o primeiro namorado. Eu não tenho. Ainda bem porque aí fico com neura e posso analisar meu bofe, sem pressão até o altar kkkkk