O Monstro dentro de mim
13 Troca de Mensagens
Depois da ligação, nenhum dos dois comentou o que realmente importava.
Adrian não disse que a ausência dela tinha alterado o ritmo da casa inteira, que o silêncio agora parecia longo demais, que cada cômodo parecia grande demais sem alguém para ocupar os espaços com respostas afiadas e presença constante.
Leah não disse que a voz dele tinha mudado o humor da noite inteira, que algo dentro dela tinha se acomodado de novo no lugar, como se aquela ligação tivesse ajustado um eixo invisível que ela nem sabia que estava desalinhado.
Desligaram com frases neutras, como se fossem duas pessoas razoáveis tratando de logística.
Como se não houvesse nada além disso.
Cinco minutos depois, o telefone de Leah vibrou sobre a mesa da cozinha.
O som foi pequeno.
Mas, imediato demais.
Número desconhecido.
Ela já sabia.
Mesmo assim, olhou a tela por um segundo antes de abrir.
Adrian: Chegue antes que Margaret reorganize tudo do jeito dela.
Leah leu.
Ficou olhando por mais um instante.
E então um sorriso escapou: involuntário, leve, o tipo de sorriso que não passava pelo filtro do pensamento.
Respondeu antes de decidir se devia:
Leah: Medo de perder território?
A resposta veio quase imediata.
Adrian: Medo de perder minhas xícaras favoritas.
Leah apoiou o quadril na bancada, cruzando os braços sem perceber, como se precisasse de algo para conter a leveza que vinha junto com aquilo.
Leah: Você nem usa aquelas xícaras.
Adrian: Uso quando preciso implicar com alguém.
Ela mordeu o lábio para não rir alto.
O som ainda escapou baixo.
Sue Clearwater, sentada no sofá com um cobertor sobre os joelhos, ergueu os olhos do programa de televisão com um olhar que já sabia mais do que deveria.
— Quem é?
Leah nem levantou a cabeça.
— Ninguém.
— Você está sorrindo para o celular.
— Não estou.
— Está desde a primeira mensagem.
Leah pegou uma almofada e jogou na direção da mãe.
Sue desviou rindo. E tossiu logo depois.
Leah olhou de imediato.
Mas, Sue apenas acenou, como quem afasta aquilo.
E Leah voltou para o telefone. Sem perceber.
*****
Nos dias seguintes, as mensagens deixaram de ser exceção.
Viraram rotina.
Não combinada.
Não nomeada.
Mas, constante.
Começavam sempre com alguma desculpa prática, algo da casa, algum detalhe irrelevante, e terminavam em provocações que já não pareciam apenas brincadeira.
Leah: Sua planta da biblioteca está morrendo.
Adrian: Dramática. Está descansando.
Leah: Folhas marrons não descansam.
Adrian: Volte e a salve, então.
Leah ficou alguns segundos olhando a última mensagem.
Como se não fosse sobre planta nenhuma.
Como se fosse sobre ela.
*****
Adrian: O padeiro entregou croissants inferiores.
Leah: Você virou especialista em massa folhada?
Adrian: Sempre fui. Você é que sabe pouco sobre mim.
Leah: Finalmente algo em que concordamos.
Ela sorriu de novo.
E dessa vez não tentou esconder.
*****
Leah: Minha mãe mandou dizer que você parece mandão.
Adrian: Sua mãe está correta.
Leah: Ela também disse que a foto de uma montanha no seu perfil é bonita.
Adrian: Sua mãe tem discernimento.
Leah riu alto dessa vez.
Livre.
Sem segurar.
Sue, da cozinha, respondeu sem precisar olhar:
— Ele parece um bom homem
— Quem?
— O seu patrão.
Leah não respondeu. Mas, não negou.
*****
Já era o sétimo dia que Leah estava em La Push quando Adrian mandou mensagem às sete da manhã.
Adrian: Você já acordou ou continua preguiçosa em La Push?
Leah abriu os olhos antes mesmo de responder.
Pegou o telefone ainda deitada.
Sem pensar muito, virou a câmera para a janela.
O mar cinzento, o céu aberto, as árvores úmidas respirando aquela manhã fria.
Leah: Acordei antes de você.
Ela ficou olhando a tela depois de enviar.
Como se esperasse.
Três minutos.
Exatos.
Adrian: Vista aceitável.
Leah franziu o cenho.
Leah: Aceitável?
Adrian: Para quem gosta de frio e solidão.
Leah: Você mora num castelo escuro no meio do nada.
Adrian: Escolha estética.
Leah balançou a cabeça.
Mas, o sorriso voltou.
Sempre voltava.
*****
Sue percebeu antes mesmo dela.
— Você está mais leve.
Leah abriu a geladeira, evitando olhar diretamente.
— Estou dormindo melhor.
— Está mentindo pior.
Leah pegou um recepiente sem necessidade.
— Quer sopa?
— Quero saber se ele é bonito.
— Mãe. — Leah quase derrubou a vasilha.
— O que? Você nunca falou de homem nenhum com essa cara.
— Que cara?
Sue sorriu devagar.
— A de quem foi pega pensando nele.
Leah saiu da cozinha antes que precisasse responder.
*****
Naquela tarde, Sue insistiu em caminhar até a praia.
Ainda estava fraca, mas teimosa o suficiente para ignorar qualquer recomendação médica.
Leah foi junto.
Levando casaco extra.
Água.
E vigilância constante disfarçada de impaciência.
O vento estava frio.
A maré baixa.
A areia irregular, marcada por troncos, pegadas e gaivotas distraídas.
— Isso cura qualquer coisa.
Leah observou por um instante.
E tirou a foto.
Sue rindo.
Viva.
Cabelo ao vento.
Cobertor nos ombros.
Algo ali apertou dentro dela.
Mas de um jeito bom.
Sue puxou o braço dela.
— Agora nós duas.
— Nem pensar.
— Leah.
Cinco minutos depois, havia uma selfie torta, imperfeita, mas real demais: Sue sorrindo abertamente, Leah tentando parecer contrariada e falhando.
Leah olhou para a imagem.
Por um segundo. E, sem pensar demais... abriu a conversa.
Enviou.
O tempo demorou mais do que deveria. Ou talvez ela estivesse contando.
Dois minutos.
Três.
Arrependimento começando a se formar.
Então...
Adrian: Sua mãe parece perigosa. Entendo de onde vem sua autoridade natural.
Leah soltou o ar.
Leah: Ela gostou de você sem conhecer. Não estraga isso.
Adrian: Difícil prometer.
Logo em seguida, por impulso, ela mandou outra foto.

Dessa vez só dela.
Em pé perto da água, cabelo solto pelo vento, jeans dobrado até a canela, o mar escuro atrás e o fim de tarde pintando tudo de prata.
Mandou e imediatamente quis arrancar o celular da própria mão.
— Idiota — murmurou.
Sue ouviu.
— Mandou a foto errada?
— Mandei a certa para a pessoa errada.
A resposta demorou menos de um minuto.
Adrian: Problema sério nessa imagem.
Leah franziu o cenho.
Leah: Qual?
Adrian: É difícil decidir o que olhar primeiro: você ou a paisagem.
Ela parou de andar.
Leu de novo.
Sentiu o calor subir pelo rosto apesar do vento frio.
Leah: Isso parece assédio pra mim.
Veio outra mensagem.
Adrian: Então formalize a denúncia.
Leah: Para quem?
O riso veio alto.
Sem controle.
Adrian: Para o homem que a escreveu.
Sue se virou imediatamente.
— Ahhh.
— Cala a boca.
— Ele flertou?
— Ele foi inconveniente.
— Então você gosta dele.
— Mãe!
Sue retomou a caminhada com satisfação absoluta.
O telefone vibrou de novo.
Adrian: Leah.
Ela respondeu quase no mesmo instante.
Leah: O quê?
A resposta demorou menos. Mas, pareceu mais longa.
Adrian: A foto ficou salva.
Ela apertou os olhos para o horizonte.
Leah: Apaga.
Adrian: Não.
Leah: Thorne.
Adrian: Volte logo.
Dessa vez, não houve resposta imediata. Leah ficou parada por alguns segundos.
O vento passando. O mar à frente.
A mãe caminhando alguns passos adiante. E o telefone ainda na mão.
Segurando mais do que uma conversa. Segurando um caminho. E ela não sentia vontade de fugir dele.
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