Leah voltou após quase duas semanas, era um final de tarde.

Chovia fino quando o carro entrou pelos portões de ferro. A estrada de brita úmida brilhava entre as árvores, e o som constante da chuva contra o para-brisa criava um ritmo quase hipnótico — insuficiente para acalmar o que crescia dentro dela.

O coração batia rápido demais.

Irritante demais.

Durante toda a viagem, tentou ensaiar o reencontro.

"Voltei."

Simples demais.

"Sentiu minha falta?"

Arriscado demais.

"Precisamos conversar."

Desastre anunciado.

No fim, estacionou sem plano algum. Porque qualquer plano parecia pequeno demais para o que sentia.

A porta principal se abriu antes que ela chegasse à escadaria.

Margaret Vale.

Impecável como sempre.

— Finalmente.

Leah largou a mala no chão e a abraçou rápido.

— Você sentiu saudade.

— Não estrague o momento.

Mas a mão de Margaret permaneceu um segundo a mais no ombro dela.

— Sua mãe?

— Melhor. Já mandando em todo mundo de novo.

— Como deve ser.

Leah olhou para dentro do hall.

Silencioso.

— Ele está?

— Está no escritório desde cedo — Margaret respondeu — fingindo trabalhar.

Leah soltou o ar.

— Eu vou deixar minhas coisas...

— Não vai.

— Não?

— Vai direto até ele. — Margaret cruzou os braços. — Vocês dois já perderam tempo suficiente.

Leah hesitou.

— Você me assusta.

— Ótimo.

*****

O corredor até a biblioteca principal parecia mais longo do que lembrava. Cada passo mais consciente. Cada respiração mais pesada.

Ela conhecia cada detalhe: o tapete escuro, o quadro antigo torto dois milímetros à esquerda, o cheiro de madeira encerada e fogo baixo.

Mesmo assim, tudo parecia novo porque ela voltava diferente.

Parou diante da porta dupla.

Respirou fundo.

Bateu.

Silêncio.

Depois a voz grave, do outro lado:

— Entre.

Leah abriu.

A biblioteca estava na penumbra habitual, chuva batendo nas janelas altas. O fogo ardia baixo na lareira. O cheiro dele, atingiu-a antes de qualquer visão.

Ele estava perto da janela, de costas.

Alto demais. Largo demais. Vestido de preto.

E ainda nas sombras.

Leah fechou a porta atrás de si.

— Você continua dramático com a iluminação.

— Você continua atrasada.

— Minha mãe ficou doente. — Ela soltou o ar pelo nariz.

— Eu sei.

— Poderia ter dito "como ela está?" antes de reclamar do horário.

— Como ela está?

— Melhor.

Silêncio.

Frágil.

Tenso.

Errado.

Ele continuou olhando a chuva.

Leah deu dois passos à frente.

— Eu voltei.

— Percebi.

— Adrian...

— Leah...

— Isso é ridículo. — Ela quase riu de nervoso.

— Concordo.

— Então vira e fala comigo como uma pessoa normal.

A mão dele fechou com força no batente da janela.

Os dedos pressionaram a madeira escura, tensão visível no antebraço, como se precisasse de algo sólido para não recuar.

— Não. — A resposta veio rápida demais.

Defensiva demais.

Leah sentiu a irritação subir, junto com outra coisa mais dolorida.

— Você manda mensagem. Liga. Flerta à distância. Entra no meu quarto quando eu tenho pesadelos... Mas, me ver de dia é demais?

Ele ficou imóvel.

Quando falou, a voz saiu mais baixa.

— Você não entende.

— Então explica.

Nada.

Leah caminhou até o centro da sala.

— Não vou continuar conversando com você de costas.

A chuva engrossou lá fora. O som preenchendo o espaço.

E então... ele virou.

Devagar.

Sem fugir.

Sem suavizar.

A luz da lareira tocou primeiro o corpo enorme, depois subiu pelo rosto marcado. As cicatrizes cortavam a pele em linhas duras e antigas. Uma parte da mandíbula repuxada. O lado esquerdo do pescoço marcado pelo fogo. Belo e devastado ao mesmo tempo.

Leah sustentou o olhar.

Sem pena.

Sem susto.

Sem desviar o olhar.

Ele percebeu isso imediatamente e pareceu odiar o alívio que sentiu.

— Satisfeita? — perguntou.

— Não. — A resposta o fez franzir a testa. — Ainda falta a parte em que você parar de agir como se eu fosse fugir.

O maxilar dele travou.

— O que aconteceu? — Leah aproximou-se mais um passo.

— Não.

— Você sabe da minha vida.

— Sei fragmentos que você deixa cair pelos corredores.

— Então me dá fragmentos seus.

Ele desviou o olhar para o fogo.

Longo silêncio.

Quando começou a falar, parecia arrancar cada palavra da própria garganta.

— Chovia. — A palavra saiu seca. — Um caminhão perdeu o controle na rodovia.

Leah não se moveu.

— Ele invadiu a faixa.

O olhar dele ficou distante.

— Eu não tive tempo.

Silêncio.

Mas, agora carregado de imagens. O mundo pareceu estreitar.

— O impacto foi lateral. — a voz dele endureceu — Do lado dela... minha filha.

Leah prendeu a respiração.

— O carro rodou. Capotou duas vezes.

Ele engoliu seco.

— Eu lembro do som do vidro quebrando. Do metal torcendo. Do cheiro de gasolina.

As mãos dele tremiam levemente agora.

— E depois... fogo.

Leah não se moveu. Nem respirava direito.

— Eu tentei soltar o cinto dela.

A voz falhou.

— Ela estava consciente.

Aquilo foi pior. Muito pior.

— Chorando.

Ele fechou os olhos.

— Me chamando.

O silêncio se tornou insuportável.

— O fogo chegou rápido.

A voz saiu mais baixa.

— Eu não consegui tirar ela de lá.

Leah sentiu o mundo apertar.

— Eu não consegui. — Agora não havia controle. — Eu estava preso.

— Adrian...

— Eu ouvi ela parar de me chamar.

Silêncio.

Absoluto.

— Quantos anos ela tinha? — perguntou ela, suave.

— Seis.

A voz dele falhou na última sílaba.

Leah sentiu algo apertar violentamente no peito.

— Eu fiquei em coma...

Leah franziu a testa, o corpo inteiro tenso.

— Você acordou sozinho?

Ele negou de leve.

— Acordei... tarde demais. Quase um mês depois.

Uma pausa.

— Ela já tinha sido enterrada.

A dor mudou.De aguda para permanente.

A chuva batia mais forte nas janelas.

Ele continuou sem olhar para Leah.

— Eu sobrevivi. Sete cirurgias. Meses de recuperação. Dor suficiente para me tornar alguém pior.

Ela queria tocar nele. Não fez.

— Morfina não apaga memória.

Um riso sem humor.

Leah fechou os olhos por um segundo.

— E depois?

— Depois... — ele respirou fundo — eu sobrevivi.

Mas, a forma como disse não era vitória. Era condenação.

— As pessoas vieram. Flores. Mensagens. Piedade. Depois começaram a ir embora. Mais lento. Mais educado. E então... sumiram.

— E a sua esposa?

Ele quase sorriu.

— Ficou até saber que eu viveria assim.

Ele indicou o próprio rosto com gesto mínimo.

— Depois disse que eu merecia alguém mais forte.

— Covarde.

— Realista.

— Covarde.

Adrian deixou escapar ar pelo nariz.

— Ninguém consegue esconder o olhar de repulsa para sempre.

Leah sabia exatamente o que ele queria dizer. Aquele meio segundo. O choque inicial. A curiosidade involuntária. O recuo mascarado de educação.

— Os conhecidos são os piores — ele continuou. — Alguns tem pena. Outros nojo. Muitos encaravam como se eu fosse um acidente ambulante.

Os olhos dele enfim encontraram os dela. Duros. Cansados. Nus.

— Então sim, Leah. Eu prefiro sombras.

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois falou devagar.

— Existem tipos diferentes de monstros.

Ele não reagiu.

— Tem homem que abandona alguém ferido. Tem amigo que some quando a beleza acaba. Tem gente que olha para dor alheia e sente repulsa em vez de compaixão. Tem quem transforme o sofrimento dos outros em espetáculo.

Leah se aproximou até estar perto o bastante para ver a respiração dele mudar.

— Estes são monstros.

Ergueu a mão. Tocou de leve a cicatriz no maxilar dele. Adrian fechou os olhos no mesmo instante.

— Você não é um.

O mundo parou. De verdade. O silêncio que se seguiu foi quase violento. Ele abriu os olhos lentamente. Quando os abriu ... algo tinha mudado.

— Você não sabe do que sou capaz — disse baixo.

Leah manteve a mão em seu rosto.

— Nem você sabe do que eu sou capaz.

O ar entre eles ficou denso.

Adrian ergueu a própria mão, enorme, e segurou o pulso dela como fizera naquela noite.

Mas, agora não para afastar. Para manter. O polegar dele deslizou pela pele interna do braço dela.

— Leah. — O nome saiu rouco.

Ela sentiu o corpo inteiro responder.

— O quê?

Ele demorou um século para responder.

— Se continuar me olhando assim, vou esquecer todas as razões para manter distância.

— Então esquece — Leah chegou ainda mais perto.