O Monstro dentro de mim
14 Reencontro
Leah voltou após quase duas semanas, era um final de tarde.
Chovia fino quando o carro entrou pelos portões de ferro. A estrada de brita úmida brilhava entre as árvores, e o som constante da chuva contra o para-brisa criava um ritmo quase hipnótico — insuficiente para acalmar o que crescia dentro dela.
O coração batia rápido demais.
Irritante demais.
Durante toda a viagem, tentou ensaiar o reencontro.
"Voltei."
Simples demais.
"Sentiu minha falta?"
Arriscado demais.
"Precisamos conversar."
Desastre anunciado.
No fim, estacionou sem plano algum. Porque qualquer plano parecia pequeno demais para o que sentia.
A porta principal se abriu antes que ela chegasse à escadaria.
Margaret Vale.
Impecável como sempre.
— Finalmente.
Leah largou a mala no chão e a abraçou rápido.
— Você sentiu saudade.
— Não estrague o momento.
Mas a mão de Margaret permaneceu um segundo a mais no ombro dela.
— Sua mãe?
— Melhor. Já mandando em todo mundo de novo.
— Como deve ser.
Leah olhou para dentro do hall.
Silencioso.
— Ele está?
— Está no escritório desde cedo — Margaret respondeu — fingindo trabalhar.
Leah soltou o ar.
— Eu vou deixar minhas coisas...
— Não vai.
— Não?
— Vai direto até ele. — Margaret cruzou os braços. — Vocês dois já perderam tempo suficiente.
Leah hesitou.
— Você me assusta.
— Ótimo.
*****
O corredor até a biblioteca principal parecia mais longo do que lembrava. Cada passo mais consciente. Cada respiração mais pesada.
Ela conhecia cada detalhe: o tapete escuro, o quadro antigo torto dois milímetros à esquerda, o cheiro de madeira encerada e fogo baixo.
Mesmo assim, tudo parecia novo porque ela voltava diferente.
Parou diante da porta dupla.
Respirou fundo.
Bateu.
Silêncio.
Depois a voz grave, do outro lado:
— Entre.
Leah abriu.
A biblioteca estava na penumbra habitual, chuva batendo nas janelas altas. O fogo ardia baixo na lareira. O cheiro dele, atingiu-a antes de qualquer visão.
Ele estava perto da janela, de costas.
Alto demais. Largo demais. Vestido de preto.
E ainda nas sombras.
Leah fechou a porta atrás de si.
— Você continua dramático com a iluminação.
— Você continua atrasada.
— Minha mãe ficou doente. — Ela soltou o ar pelo nariz.
— Eu sei.
— Poderia ter dito "como ela está?" antes de reclamar do horário.
— Como ela está?
— Melhor.
Silêncio.
Frágil.
Tenso.
Errado.
Ele continuou olhando a chuva.
Leah deu dois passos à frente.
— Eu voltei.
— Percebi.
— Adrian...
— Leah...
— Isso é ridículo. — Ela quase riu de nervoso.
— Concordo.
— Então vira e fala comigo como uma pessoa normal.
A mão dele fechou com força no batente da janela.
Os dedos pressionaram a madeira escura, tensão visível no antebraço, como se precisasse de algo sólido para não recuar.
— Não. — A resposta veio rápida demais.
Defensiva demais.
Leah sentiu a irritação subir, junto com outra coisa mais dolorida.
— Você manda mensagem. Liga. Flerta à distância. Entra no meu quarto quando eu tenho pesadelos... Mas, me ver de dia é demais?
Ele ficou imóvel.
Quando falou, a voz saiu mais baixa.
— Você não entende.
— Então explica.
Nada.
Leah caminhou até o centro da sala.
— Não vou continuar conversando com você de costas.
A chuva engrossou lá fora. O som preenchendo o espaço.
E então... ele virou.
Devagar.
Sem fugir.
Sem suavizar.
A luz da lareira tocou primeiro o corpo enorme, depois subiu pelo rosto marcado. As cicatrizes cortavam a pele em linhas duras e antigas. Uma parte da mandíbula repuxada. O lado esquerdo do pescoço marcado pelo fogo. Belo e devastado ao mesmo tempo.
Leah sustentou o olhar.
Sem pena.
Sem susto.
Sem desviar o olhar.
Ele percebeu isso imediatamente e pareceu odiar o alívio que sentiu.
— Satisfeita? — perguntou.
— Não. — A resposta o fez franzir a testa. — Ainda falta a parte em que você parar de agir como se eu fosse fugir.
O maxilar dele travou.
— O que aconteceu? — Leah aproximou-se mais um passo.
— Não.
— Você sabe da minha vida.
— Sei fragmentos que você deixa cair pelos corredores.
— Então me dá fragmentos seus.
Ele desviou o olhar para o fogo.
Longo silêncio.
Quando começou a falar, parecia arrancar cada palavra da própria garganta.
— Chovia. — A palavra saiu seca. — Um caminhão perdeu o controle na rodovia.
Leah não se moveu.
— Ele invadiu a faixa.
O olhar dele ficou distante.
— Eu não tive tempo.
Silêncio.
Mas, agora carregado de imagens. O mundo pareceu estreitar.
— O impacto foi lateral. — a voz dele endureceu — Do lado dela... minha filha.
Leah prendeu a respiração.
— O carro rodou. Capotou duas vezes.
Ele engoliu seco.
— Eu lembro do som do vidro quebrando. Do metal torcendo. Do cheiro de gasolina.
As mãos dele tremiam levemente agora.
— E depois... fogo.
Leah não se moveu. Nem respirava direito.
— Eu tentei soltar o cinto dela.
A voz falhou.
— Ela estava consciente.
Aquilo foi pior. Muito pior.
— Chorando.
Ele fechou os olhos.
— Me chamando.
O silêncio se tornou insuportável.
— O fogo chegou rápido.
A voz saiu mais baixa.
— Eu não consegui tirar ela de lá.
Leah sentiu o mundo apertar.
— Eu não consegui. — Agora não havia controle. — Eu estava preso.
— Adrian...
— Eu ouvi ela parar de me chamar.
Silêncio.
Absoluto.
— Quantos anos ela tinha? — perguntou ela, suave.
— Seis.
A voz dele falhou na última sílaba.
Leah sentiu algo apertar violentamente no peito.
— Eu fiquei em coma...
Leah franziu a testa, o corpo inteiro tenso.
— Você acordou sozinho?
Ele negou de leve.
— Acordei... tarde demais. Quase um mês depois.
Uma pausa.
— Ela já tinha sido enterrada.
A dor mudou.De aguda para permanente.
A chuva batia mais forte nas janelas.
Ele continuou sem olhar para Leah.
— Eu sobrevivi. Sete cirurgias. Meses de recuperação. Dor suficiente para me tornar alguém pior.
Ela queria tocar nele. Não fez.
— Morfina não apaga memória.
Um riso sem humor.
Leah fechou os olhos por um segundo.
— E depois?
— Depois... — ele respirou fundo — eu sobrevivi.
Mas, a forma como disse não era vitória. Era condenação.
— As pessoas vieram. Flores. Mensagens. Piedade. Depois começaram a ir embora. Mais lento. Mais educado. E então... sumiram.
— E a sua esposa?
Ele quase sorriu.
— Ficou até saber que eu viveria assim.
Ele indicou o próprio rosto com gesto mínimo.
— Depois disse que eu merecia alguém mais forte.
— Covarde.
— Realista.
— Covarde.
Adrian deixou escapar ar pelo nariz.
— Ninguém consegue esconder o olhar de repulsa para sempre.
Leah sabia exatamente o que ele queria dizer. Aquele meio segundo. O choque inicial. A curiosidade involuntária. O recuo mascarado de educação.
— Os conhecidos são os piores — ele continuou. — Alguns tem pena. Outros nojo. Muitos encaravam como se eu fosse um acidente ambulante.
Os olhos dele enfim encontraram os dela. Duros. Cansados. Nus.
— Então sim, Leah. Eu prefiro sombras.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois falou devagar.
— Existem tipos diferentes de monstros.
Ele não reagiu.
— Tem homem que abandona alguém ferido. Tem amigo que some quando a beleza acaba. Tem gente que olha para dor alheia e sente repulsa em vez de compaixão. Tem quem transforme o sofrimento dos outros em espetáculo.
Leah se aproximou até estar perto o bastante para ver a respiração dele mudar.
— Estes são monstros.
Ergueu a mão. Tocou de leve a cicatriz no maxilar dele. Adrian fechou os olhos no mesmo instante.
— Você não é um.
O mundo parou. De verdade. O silêncio que se seguiu foi quase violento. Ele abriu os olhos lentamente. Quando os abriu ... algo tinha mudado.
— Você não sabe do que sou capaz — disse baixo.
Leah manteve a mão em seu rosto.
— Nem você sabe do que eu sou capaz.
O ar entre eles ficou denso.
Adrian ergueu a própria mão, enorme, e segurou o pulso dela como fizera naquela noite.
Mas, agora não para afastar. Para manter. O polegar dele deslizou pela pele interna do braço dela.
— Leah. — O nome saiu rouco.
Ela sentiu o corpo inteiro responder.
— O quê?
Ele demorou um século para responder.
— Se continuar me olhando assim, vou esquecer todas as razões para manter distância.
— Então esquece — Leah chegou ainda mais perto.
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