Adrian ficou imóvel por um segundo que pareceu longo demais. Leah ainda estava diante dele, perto o bastante para que ele sentisse o calor da respiração dela tocar sua boca, perto o bastante para que qualquer movimento se tornasse escolha.

— Então esquece. — ela repetiu, mais baixo.

Havia desafio na voz. Mas, não só isso. Havia ternura. E desejo.

Ele reconheceu o segundo com facilidade brutal, porque brilhava nos olhos dela sem vergonha alguma. Leah o olhava como uma mulher olha um homem. Não como quem tolera uma ferida. Não como quem se compadece de ruínas.

Como quem quer.

Aquilo quase o destruiu.

Adrian ergueu a mão devagar, como se ainda pudesse recuar no último instante, e tocou o rosto dela. Os dedos grandes deslizaram pela linha firme do maxilar, pela curva quente da nuca, enterrando-se de leve nos cabelos escuros.

Leah fechou os olhos por um segundo ao toque.

Quando os abriu de novo, o desejo continuava ali.

E havia mais.

Ela o queria inteiro.

As cicatrizes incluídas.

Adrian respirou fundo, como se precisasse de coragem para algo simples e impossível ao mesmo tempo.

Então a beijou.

Não com pressa.

Não com violência.

Com fome antiga.

A boca dele encontrou a dela como quem atravessa uma porta trancada há anos. Leah segurou a camisa dele na altura do peito, puxando-o para mais perto imediatamente, respondendo sem hesitação, sem delicadeza excessiva, sem medo.

O som baixo que escapou dela ao entregar-se o fez estremecer.

Ela não recuava.

Não endurecia quando seus dedos tocavam as marcas do pescoço.

Não desviava quando o rosto dele se inclinava e a luz revelava ângulos imperfeitos.

Ao contrário.

Leah parecia procurá-los.

As mãos dela subiram devagar pelos ombros largos, sentindo a extensão absurda do corpo dele sob a roupa escura. Desceram pelo peito firme, pelas costas vastas, como se quisesse aprender suas dimensões.

Você é... — ela parou, passando a mão pelo peito dele — maior do que eu imaginei.

Adrian soltou uma risada rouca e desacreditada.

— Esse é seu comentário agora?

— Estou processando informações.

Ela o beijou outra vez antes que ele respondesse.

Dessa vez mais fundo, mais quente.

Adrian a puxou pela cintura, encaixando-a contra si com um cuidado que contrastava com a força brutal das mãos. Leah sentiu a solidez dele inteira, a altura, o peso contido, o tremor mínimo de quem estava perto do limite.

Ela afastou a boca apenas o suficiente para olhar para ele.

O rosto marcado.

A cicatriz cruzando a face.

A tensão nos olhos claros, agora mais escurecidos pelo desejo, esperando, talvez, o instante em que ela mudaria de ideia.

Leah levou os dedos até a pele irregular do lado esquerdo do rosto dele e acariciou devagar.

Depois beijou a cicatriz.

Adrian fechou os olhos como se aquilo doesse de outra forma.

Quando tornou a abri-los, havia vulnerabilidade crua ali. E desejo à altura do dela.

— Leah...

— Não faz isso.

— O quê?

— Falar meu nome como se fosse aviso. — Ela sorriu de leve. — Quero que seja convite.

O controle dele se rompeu de vez.

Tomou a boca dela novamente, agora com urgência menos contida, conduzindo-a alguns passos até a lateral da mesa pesada. Leah esbarrou nela e riu entre um beijo e outro, as mãos já puxando a camisa dele para fora da calça.

Adrian hesitou por um segundo.

Ela percebeu.

— Tira.

— Leah...

— Tira.

A voz dela não tinha piedade. Tinha vontade.

Ele obedeceu.

A camisa caiu no chão.

O corpo revelado era ainda mais impressionante do que na noite do pesadelo: largo, musculoso, poderoso, marcado por cicatrizes antigas que atravessavam peito, ombro e costelas como mapas de sobrevivência.

Leah olhou demoradamente.

Os olhos dele endureceram em expectativa defensiva.

Então ela mordeu o lábio e passou a mão pelo peito dele devagar.

— Meu Deus.

Adrian quase recuou.

— Isso foi ruim ou...

Ela o interrompeu puxando-o pela cintura e beijando-o de novo.

— Isso foi admiração.

Ele soltou o ar num som baixo e incrédulo.

As mãos dela exploravam sem cautela: pele lisa, relevo áspero, calor, força. Tratava cada marca como parte dele, não exceção.

E isso o desarmava mais do que qualquer nudez.

Leah também estava tremendo. Não de medo. De intensidade.

Porque ele a olhava agora como se fosse algo precioso e perigoso ao mesmo tempo. Como se ainda não acreditasse que podia tocá-la.

Ela pegou a mão enorme dele e a guiou até sua cintura.

— Eu também estou aqui, Thorne.

Ele engoliu em seco.

Os dedos se fecharam nela com reverência surpreendente.

Depois subiram lentamente, sentindo o contorno do corpo dela através do tecido, como quem aprende uma linguagem nova.

Leah arqueou-se contra o toque e viu a última resistência desaparecer no rosto dele.

O beijo seguinte foi lento, profundo, quase terno demais para toda a tensão que carregavam.

Lá fora, a chuva seguia batendo nas janelas.

Dentro da biblioteca, dois corpos finalmente deixavam de lutar contra o que já existia havia muito tempo.

Quando Adrian apoiou a testa na dela, ambos respirando forte, ele murmurou com honestidade brutal:

— Pensei que você teria nojo de mim.

— Eu estou olhando para você com cara de nojo? — Leah segurou o rosto dele entre as mãos.

Os olhos dele desceram para a boca dela, depois voltaram.

— Não.

— Então para de imaginar monstros onde só existe homem.

Ela o beijou mais uma vez.

E dessa vez, quando Adrian a tomou nos braços e a levou em direção ao corredor escuro que conduzia aos aposentos dele, não havia mais distância alguma entre eles.