O Monstro dentro de mim
15 Entrega
Adrian ficou imóvel por um segundo que pareceu longo demais. Leah ainda estava diante dele, perto o bastante para que ele sentisse o calor da respiração dela tocar sua boca, perto o bastante para que qualquer movimento se tornasse escolha.
— Então esquece. — ela repetiu, mais baixo.
Havia desafio na voz. Mas, não só isso. Havia ternura. E desejo.
Ele reconheceu o segundo com facilidade brutal, porque brilhava nos olhos dela sem vergonha alguma. Leah o olhava como uma mulher olha um homem. Não como quem tolera uma ferida. Não como quem se compadece de ruínas.
Como quem quer.
Aquilo quase o destruiu.
Adrian ergueu a mão devagar, como se ainda pudesse recuar no último instante, e tocou o rosto dela. Os dedos grandes deslizaram pela linha firme do maxilar, pela curva quente da nuca, enterrando-se de leve nos cabelos escuros.
Leah fechou os olhos por um segundo ao toque.
Quando os abriu de novo, o desejo continuava ali.
E havia mais.
Ela o queria inteiro.
As cicatrizes incluídas.
Adrian respirou fundo, como se precisasse de coragem para algo simples e impossível ao mesmo tempo.
Então a beijou.
Não com pressa.
Não com violência.
Com fome antiga.
A boca dele encontrou a dela como quem atravessa uma porta trancada há anos. Leah segurou a camisa dele na altura do peito, puxando-o para mais perto imediatamente, respondendo sem hesitação, sem delicadeza excessiva, sem medo.
O som baixo que escapou dela ao entregar-se o fez estremecer.
Ela não recuava.
Não endurecia quando seus dedos tocavam as marcas do pescoço.
Não desviava quando o rosto dele se inclinava e a luz revelava ângulos imperfeitos.
Ao contrário.
Leah parecia procurá-los.
As mãos dela subiram devagar pelos ombros largos, sentindo a extensão absurda do corpo dele sob a roupa escura. Desceram pelo peito firme, pelas costas vastas, como se quisesse aprender suas dimensões.
Você é... — ela parou, passando a mão pelo peito dele — maior do que eu imaginei.
Adrian soltou uma risada rouca e desacreditada.
— Esse é seu comentário agora?
— Estou processando informações.
Ela o beijou outra vez antes que ele respondesse.
Dessa vez mais fundo, mais quente.
Adrian a puxou pela cintura, encaixando-a contra si com um cuidado que contrastava com a força brutal das mãos. Leah sentiu a solidez dele inteira, a altura, o peso contido, o tremor mínimo de quem estava perto do limite.
Ela afastou a boca apenas o suficiente para olhar para ele.
O rosto marcado.
A cicatriz cruzando a face.
A tensão nos olhos claros, agora mais escurecidos pelo desejo, esperando, talvez, o instante em que ela mudaria de ideia.
Leah levou os dedos até a pele irregular do lado esquerdo do rosto dele e acariciou devagar.
Depois beijou a cicatriz.
Adrian fechou os olhos como se aquilo doesse de outra forma.
Quando tornou a abri-los, havia vulnerabilidade crua ali. E desejo à altura do dela.
— Leah...
— Não faz isso.
— O quê?
— Falar meu nome como se fosse aviso. — Ela sorriu de leve. — Quero que seja convite.
O controle dele se rompeu de vez.
Tomou a boca dela novamente, agora com urgência menos contida, conduzindo-a alguns passos até a lateral da mesa pesada. Leah esbarrou nela e riu entre um beijo e outro, as mãos já puxando a camisa dele para fora da calça.
Adrian hesitou por um segundo.
Ela percebeu.
— Tira.
— Leah...
— Tira.
A voz dela não tinha piedade. Tinha vontade.
Ele obedeceu.
A camisa caiu no chão.
O corpo revelado era ainda mais impressionante do que na noite do pesadelo: largo, musculoso, poderoso, marcado por cicatrizes antigas que atravessavam peito, ombro e costelas como mapas de sobrevivência.
Leah olhou demoradamente.
Os olhos dele endureceram em expectativa defensiva.
Então ela mordeu o lábio e passou a mão pelo peito dele devagar.
— Meu Deus.
Adrian quase recuou.
— Isso foi ruim ou...
Ela o interrompeu puxando-o pela cintura e beijando-o de novo.
— Isso foi admiração.
Ele soltou o ar num som baixo e incrédulo.
As mãos dela exploravam sem cautela: pele lisa, relevo áspero, calor, força. Tratava cada marca como parte dele, não exceção.
E isso o desarmava mais do que qualquer nudez.
Leah também estava tremendo. Não de medo. De intensidade.
Porque ele a olhava agora como se fosse algo precioso e perigoso ao mesmo tempo. Como se ainda não acreditasse que podia tocá-la.
Ela pegou a mão enorme dele e a guiou até sua cintura.
— Eu também estou aqui, Thorne.
Ele engoliu em seco.
Os dedos se fecharam nela com reverência surpreendente.
Depois subiram lentamente, sentindo o contorno do corpo dela através do tecido, como quem aprende uma linguagem nova.
Leah arqueou-se contra o toque e viu a última resistência desaparecer no rosto dele.
O beijo seguinte foi lento, profundo, quase terno demais para toda a tensão que carregavam.
Lá fora, a chuva seguia batendo nas janelas.
Dentro da biblioteca, dois corpos finalmente deixavam de lutar contra o que já existia havia muito tempo.
Quando Adrian apoiou a testa na dela, ambos respirando forte, ele murmurou com honestidade brutal:
— Pensei que você teria nojo de mim.
— Eu estou olhando para você com cara de nojo? — Leah segurou o rosto dele entre as mãos.
Os olhos dele desceram para a boca dela, depois voltaram.
— Não.
— Então para de imaginar monstros onde só existe homem.
Ela o beijou mais uma vez.
E dessa vez, quando Adrian a tomou nos braços e a levou em direção ao corredor escuro que conduzia aos aposentos dele, não havia mais distância alguma entre eles.
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