O Monstro dentro de mim
16 A manhã seguinte
Adrian despertou antes do amanhecer por hábito.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, ainda entre sono e vigília, esperando encontrar o vazio costumeiro do quarto escuro, o peso conhecido da solidão e o silêncio disciplinado que construíra ao redor de si por anos.
Em vez disso, sentiu calor.
Um corpo adormecido encostado ao seu.
Leah estava parcialmente enroscada nele como se aquilo fosse natural, uma mão aberta sobre seu peito, os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro e pelo braço dele. Respirava fundo, tranquila, com a testa encostada perto de sua clavícula.
Adrian não se moveu.
Temia quebrar qualquer coisa.
A luz ainda era pouca, filtrada pelas frestas grossas das cortinas que mantinha sempre cerradas. O quarto permanecia em meia-sombra, ambiente em que aprendera a existir sem se explicar.
Mas, havia Leah nele agora. E isso transformava tudo.
Ele baixou os olhos para a mão dela sobre as cicatrizes do peito. Dormindo, ela a deixara ali sem perceber. Como se aquele lugar não fosse estranho, repulsivo ou indigno de cuidado excessivo.
Como se fosse apenas parte dele.
Adrian engoliu em seco.
Não se lembrava da última vez em que havia acordado sem peso no peito ou que desejou que a manhã demorasse.
Leah se mexeu, soltou um som baixo e abriu os olhos devagar.
Por um instante, pareceu desorientada.
Depois focou nele.
E sorriu.
Simplesmente sorriu.
Aquilo foi mais desarmador do que qualquer beijo da noite anterior.
— Você tá me observando dormir? — murmurou, voz rouca de sono.
— Você baba.
Ela fechou a cara imediatamente.
— Mentira.
— Um pouco no travesseiro.
Leah puxou o travesseiro para examinar. Adrian riu pela primeira vez ao acordar em anos.
— Você é péssimo ser humano antes das oito da manhã. — Ela o fulminou com o olhar.
— Ainda assim você ficou.
Ela abriu a boca para responder, desistiu e se levantou da cama de repente.
O lençol escorregou junto com ela, e Adrian teve um segundo inteiro da visão dela nua antes que Leah o enrolasse no corpo com rapidez ofendida.
Bonita era uma palavra pequena demais. Leah tinha uma beleza serena, a pele morena parecia mais quente, os ombros fortes, estavam relaxados. A clavícula delicada subia e descia no ritmo calmo da respiração, enquanto pequenas marcas rosadas espalhadas pelo colo denunciavam beijos dados sem pressa. A cintura estreita conduzia ao contorno natural dos quadris, e a cada passada faziam com que ele fosse enfeitiçado.
Ela atravessou o quarto até as janelas.
— Não. — A voz dele saiu imediata.
Leah olhou por cima do ombro.
— Não o quê?
— Não abra.
— Por quê?
— Porque não.
— Excelente argumento. — Ela arqueou uma sobrancelha.
E puxou as cortinas de uma vez.
A luz fria da manhã inundou o quarto.
Adrian quase recuou por reflexo.
Mas, Leah apenas virou-se para ele, com o lençol preso ao corpo, os cabelos desalinhados, os pés descalços sobre o tapete escuro e a claridade dourando a pele.
Ele esqueceu completamente de respirar.
Ela também o olhava. Ele era o tipo de homem que parecia feito de linhas largas e peso seguro. Ombros extensos, peito firme, cintura forte, braços marcados por força que não precisava ser exibida para ser percebida. Havia solidez nele. Presença.
O torso nu revelava as cicatrizes espalhadas pela pele clara em contraste com a sombra da barba por fazer. Algumas linhas antigas no ombro, marcas mais severas atravessando parte do peito e subindo pelo lado do rosto.
Leah observou aquilo em silêncio.
Nenhuma daquelas marcas diminuía sua beleza.
Se alguma coisa, tornavam-na mais difícil de ignorar.
O cabelo claro, bagunçado, tirava dele a frieza elegante que usava acordado.
Leah cruzou os braços, fingindo para si mesma que apenas analisava.
Mentira.
Estava fascinada. Porque nunca imaginou que alguém como ele pudesse existir daquele jeito contraditório: aristocrático e bruto, bonito e marcado, arrogante e gentil quando ninguém via.
Ela desceu os olhos novamente para o peito largo subindo devagar a cada respiração.
Lembrou-se de como aquelas mãos a tocaram horas antes.
Do cuidado inesperado.
Da fome contida.
Da maneira como ele pareceu precisar dela tanto quanto ela precisava dele.
Isso a atingiu de novo, mais forte pela manhã.
Leah aproximou-se da cama devagar.
Só com aquele interesse franco e perigosamente terno.
— Viu? — disse ela. — O sol não explodiu ninguém.
Adrian permaneceu em silêncio.
Leah pareceu desconcertada por um momento, talvez pelo modo como ele a encarava.
Passou a mão no cabelo.
— Não me olha assim.
— Assim como?
— Como se eu fosse... sei lá.
— Bonita?
Ela bufou.
— Irritante.
Adrian recostou-se na cabeceira.
— Isso também.
Ela começou a andar pelo quarto sem direção, inquieta.
— Eu... não sou exatamente referência de estabilidade, Thorne.
Adrian, ainda apoiado na cama, observava cada movimento.
— Percebi.
— Tenho meus problemas também.
Ela passou a mão pelo rosto, como se tentasse organizar pensamentos que não obedeciam.
— Minha prima foi atacada por um lobo quando eu era mais nova — disse, casual demais para um assunto estranho. — Então também tenho meus traumas.
Adrian franziu a testa.
— Isso parece improvável.
— Minha família atrai acontecimentos.
Ela não parava.
Era isso.
Leah não estava falando com ele.
Estava tentando alcançar a própria cabeça antes que ela fosse longe demais.
Pegou uma camisa dele do chão.
Vestiu.
Sem pensar.
Sem perceber.
A peça enorme caiu sobre o corpo dela, escondendo mais do que mostrava, e ainda assim revelando tudo.
Adrian não desviou o olhar.
Nem por um segundo.
Ele decidiu não pressionar.
Leah continuou andando, mexendo em coisas aleatórias, abrindo gavetas que não precisava abrir, como se manter as mãos ocupadas fosse impedir a mente de correr.
— O ponto é... — ela começou, e parou no meio.
Virou-se para ele devagar
— O que quer que seja isso.
Fez um gesto vago entre os dois.
— Porque eu nem sei o que a gente tem.
Mas já tinha dito "a gente". E não percebeu quando começou.
Adrian abriu a boca.
Fechou.
Observando e aprendendo.
Leah apontou para ele rapidamente, como se estivesse impedindo qualquer resposta.
— Não pensa demais agora.
— Leah...
— É perigoso. Você pensa e estraga tudo.
E então aconteceu o que ele já começava a reconhecer nela: fuga.
Leah saiu do quarto em passos rápidos demais, como se estivesse tentando escapar... dela mesma.
Adrian levantou imediatamente.
Seguiu.
Encontrou-a já na escadaria, prendendo o cabelo com um gesto automático, descendo com propósito falso demais para ser real.
— Onde vai?
— Trabalhar.
— Você acabou de sair da minha cama.
— E continuo empregada.
A resposta veio rápida.
Defensiva.
Ela nem olhou para trás. Entrou na cozinha como um furacão.
Margaret ergueu os olhos da xícara.
E então... parou.
O olhar desceu. Subiu. E ficou.
— Bom dia — disse a governanta.
Leah já abria armários.
— Preciso de panos limpos.
— Imagino que precise de mais do que isso.
— O quê? — Leah travou, por meio segundo.
— Talvez... roupas. —Margaret inclinou levemente a cabeça.
Silêncio.
Leah olhou para baixo. Para a camisa.
A camisa dele. Grande.
Definitivamente não dela.
O constrangimento veio de uma vez.
Subiu rápido do pescoço para o rosto.
Adrian apareceu na porta logo atrás, nesse exato momento, ainda descalço, camiseta pela metade e expressão de quem perdeu o controle da própria casa.
Foi quando ele viu... Viu que ela percebeu e corou. E, por um instante, não conseguiu olhar para mais nada.
A cor subindo. Pele quente. Olhos evitando.
E, sem qualquer intenção nobre, o pensamento veio: até onde isso vai?
Leah puxou a barra da camisa para baixo, tarde demais.
— Eu... estava...
— Ocupada — Margaret completou, gentil demais.
Adrian encostou no batente da porta, os braços cruzados.
Observando.
Silencioso. E perigosamente satisfeito. Havia algo profundamente... certo naquilo.
Nela.
Vestindo algo dele. Como se já pertencesse a ele antes mesmo de decidir.
Ele não disse nada. Porque, se dissesse, estragaria.
Leah virou-se para o armário com força desnecessária.
— Eu tenho que fazer valer o salário.
— Eu pago para administrar a casa — Adrian disse, a voz mais baixa agora — não para fugir de conversas.
Ela virou só o rosto.
O suficiente. E ele viu. Ainda corada e desorganizada, completamente fora do controle.
— Então me demite depois.
Pegou os panos e saiu em direção ao corredor.
Adrian ficou parado no meio da cozinha, sem entender metade do que sentia e quase nada do que acabou de acontecer.
— Ela está usando sua camisa. — Margaret bebericou o chá.
— Sim, Margaret.
— E, está nervosa. — Uma pausa. — Isso te agrada — ela observou.
Adrian não respondeu. Mas, não negou.
Margaret sorriu levemente.
— Se serve de consolo... ela só corre quando se importa.
Adrian soltou o ar. Ainda olhando para o corredor vazio.
— Isso não consola.
— Vai se acostumando.
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